Olho Vermelho: Abordagem Inicial (Adulto e Criança)

CID-10: H57.9 Transtorno não especificado do olho e anexos

Introdução

Olho vermelho é a vermelhidão da superfície branca do olho, pela dilatação dos vasos sanguíneos sobre a esclera [2]. Pode ser manifestação de lesão em várias partes do globo ocular ou de doença sistêmica [2].

Conjuntivite, hordéolo e calázio e blefarite são as condições mais prevalentes que cursam com olho vermelho, e o manejo delas cabe à atenção primária [3]. Olho seco e blefarite são as causas mais frequentes de inflamação da conjuntiva [4].

O diagnóstico diferencial inclui os quadros inflamatórios, o trauma e o glaucoma agudo; o mais importante é reconhecer as quatro grandes ameaças à visão: ceratites, iridociclites, glaucoma agudo e traumas [2]. O tratamento de cada causa está no protocolo específico, indicado em Diagnóstico diferencial.

🔑 Pontos-chave:

  • Exposição a produto químico: irrigar imediata e abundantemente com SF 0,9% ou água limpa corrente [2]

  • Medir a acuidade visual de cada olho em todo olho vermelho; baixa súbita da visão, mesmo sem dor ou outro sinal ocular, é urgência oftalmológica [2][3]

  • Injeção ciliar, pupila irregular ou sem reação à luz, hifema ou hipópio: encaminhar com urgência ao oftalmologista [2]

  • Olho vermelho com baixa visual após cirurgia intraocular, injeção intravítrea ou trauma penetrante: suspeitar de endoftalmite [6]

  • Recém-nascido com conjuntivite purulenta no primeiro mês: oftalmia neonatal; a gonocócica é tratada imediatamente, em ambiente hospitalar [2]

  • Reconhecer as quatro ameaças à visão: ceratites, iridociclites, glaucoma agudo e traumas [2]

  • Dor que melhora após colírio anestésico sugere ceratite; na iridociclite e no glaucoma agudo, a dor não melhora [2]

  • Suspeita de lesão da córnea (dor aguda com lacrimejamento e blefaroespasmo) sem fluoresceína disponível: encaminhar ao oftalmologista [2]

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🎯 Fluxograma de manejo

O fluxograma organiza a abordagem inicial do adulto ou da criança com olho vermelho. Primeira pergunta: exposição a produto químico? Se sim, irrigar imediata e abundantemente com SF 0,9% ou água limpa corrente; conferir o protocolo Queimadura Química Ocular. Se não, a pergunta é se há qualquer um destes: trauma; corpo estranho; exposição a solda elétrica ou a outra fonte de radiação ultravioleta. Se sim, conferir os protocolos Trauma Ocular, Corpo Estranho Ocular e Abrasão de Córnea ou Ceratite por Radiação Ultravioleta; conferir em Sinais de alarme e encaminhamento. Se não, examinar: acuidade visual em cada olho; origem da vermelhidão; fluoresceína com lanterna; câmara anterior; pupilas; pressão ocular por palpação, exceto na suspeita de perfuração; secreção; conferir em Exame do olho vermelho. Em seguida, a pergunta é se há qualquer um destes: redução súbita da acuidade visual; dor ocular intensa; injeção ciliar; pupila irregular ou sem reação à luz; globo endurecido; mancha branca ou perda de transparência da córnea; hifema ou hipópio; baixa visual após cirurgia intraocular, injeção intravítrea ou trauma penetrante; erupção vesicular na fronte, na pálpebra e no nariz; recém-nascido com conjuntivite purulenta. Se sim, iniciar a conduta do protocolo da causa provável, com analgesia e antiemético se náuseas ou vômitos, e encaminhar com urgência ao oftalmologista; conferir em Diagnóstico diferencial. Se não, a pergunta é se há suspeita de lesão da córnea (dor aguda com lacrimejamento e blefaroespasmo), sem fluoresceína disponível. Se sim, encaminhar ao oftalmologista. Se não, a pergunta é se o quadro é compatível com qualquer um destes: conjuntivite; blefarite; hemorragia subconjuntival; episclerite; hordéolo ou calázio; dacriocistite. Se sim, conferir o protocolo específico; conferir em Diagnóstico diferencial. Se não, encaminhar ao oftalmologista para avaliação; conferir em Sinais de alarme e encaminhamento. Abreviação: SF, soro fisiológico. Fonte: referências [2], [3], [5], [6], [9] e [11] do artigo.

Exame do olho vermelho

  • Sequência do exame [2]:

    • Acuidade visual com a tabela de Snellen, a 5 m, um olho de cada vez, com as lentes corretivas em uso

    • Origem da vermelhidão, isolada ou combinada:

      • Hiperemia conjuntival: ingurgitamento dos vasos da conjuntiva

      • Injeção ciliar: turgescência dos vasos episclerais profundos que circundam a córnea

      • Hemorragia conjuntival

    • Córnea: 1 gota de fluoresceína colírio e luz da lanterna; áreas coradas de verde indicam ruptura do epitélio

    • Câmara anterior, com a luz da lanterna incidindo lateralmente:

      • Profunda: toda a íris fica iluminada

      • Rasa: a íris do lado oposto aparece mais escura

      • Hifema (sangue) ou hipópio (pus): meia-lua no polo inferior da íris

    • Pupilas: tamanho e forma, comparando os dois olhos

    • Pressão ocular, sempre que houver hiperemia sem causa aparente:

      • Com o paciente olhando para baixo, pressionar alternadamente a pálpebra superior com os dois indicadores, sentindo a tensão do globo

      • Suspeita de perfuração do globo ou de úlcera perfurada: não medir a pressão nem pressionar o olho [2][5]

    • Secreção:

      • Purulenta: amarelada

      • Mucopurulenta: branco-cremosa

      • Serosa: aquosa, amarelada

      • Mucosa: filamentar e transparente

O que os achados sugerem

Achado

Sugere

Hiperemia conjuntival com secreção

Conjuntivite

Vermelhidão localizada, sem secreção

Episclerite

Sangue sob a conjuntiva

Hemorragia subconjuntival

Injeção ciliar

Ceratite, uveíte ou glaucoma agudo

Área corada de verde pela fluoresceína

Ruptura do epitélio da córnea

Dor que melhora após colírio anestésico

Ceratite

Hipópio

Úlcera de córnea, uveíte anterior (iridociclite) ou endoftalmite

Córnea opaca e sem brilho, pupila em média midríase fixa e globo endurecido ao toque

Glaucoma agudo

Pupila desviada, câmara anterior rasa ou saída de humor aquoso após trauma

Perfuração ocular

Secreção mucopurulenta

Conjuntivite bacteriana

Secreção serosa

Conjuntivite viral

Muco hialino e filamentos

Conjuntivite alérgica

Fonte: [2][3][6][7]

Sinais de alarme e encaminhamento

  • Exposição a produto químico: irrigar imediata e abundantemente com SF 0,9% ou água limpa corrente [2]; conferir o protocolo Queimadura Química Ocular (Adulto e Criança)

  • Encaminhar com urgência ao oftalmologista, se qualquer um:

    • Redução súbita da acuidade visual, em um ou nos dois olhos, independentemente de outros sinais oculares [3]

      • Sem dor: considerar uveíte [2]

        • Conjuntiva clara: uveíte só posterior, que tem a toxoplasmose entre as causas comuns [2][8]

        • Injeção ciliar: uveíte que acomete também o segmento anterior [2]

      • Descolamento de retina: pode ocorrer de forma espontânea, só com baixa súbita da visão, e é mais frequente na alta miopia [2]

    • Dor ocular intensa [3]:

      • De início agudo, com globo endurecido ao toque bidigital ou pupila em média midríase sem reação à luz: suspeita de glaucoma agudo [2][3]

      • Com mancha branca ou perda de transparência da córnea: suspeita de úlcera de córnea [3]

    • Ministério da Saúde:

      • Lesão superficial da córnea sem nenhuma melhora após 24 horas de oclusão: pensar em úlcera de córnea [2]

    • Injeção ciliar, pupila irregular ou sem reação à luz, hifema ou hipópio [2]

    • Olho vermelho com baixa visual após cirurgia intraocular, injeção intravítrea ou trauma penetrante: suspeita de endoftalmite [6]

    • Erupção vesicular dolorosa na fronte, na pálpebra e no nariz: herpes zóster oftálmico, emergência oftalmológica [9]

    • Recém-nascido com conjuntivite purulenta: conferir em Particularidades na criança

  • Trauma, corpo estranho e queimadura por radiação ultravioleta:

  • Antes de encaminhar com urgência no glaucoma agudo, na úlcera de córnea e no trauma [3]:

  • Encaminhar ao oftalmologista:

    • Suspeita de lesão da córnea (dor aguda com lacrimejamento e blefaroespasmo) sem fluoresceína disponível [2]

    • SESA-ES:

      • Olho vermelho agudo ou crônico, com hiperemia difusa ou localizada, com ou sem secreção, lacrimejamento, sensação de corpo estranho, dor, prurido ou fotofobia: avaliação oftalmológica [3]

      • Conjuntivite, hordéolo e calázio e blefarite: manejo na atenção primária [3]

Diagnóstico diferencial

  • Causas que ameaçam a visão:

    • Ceratite e úlcera de córnea:

      • Dor aguda, lacrimejamento e blefaroespasmo; pode haver baixa da acuidade visual [2]

      • A dor melhora após colírio anestésico, ao contrário da iridociclite e do glaucoma agudo [2]

      • Úlcera: mancha branca ou perda de transparência da córnea [3]

      • Conferir o protocolo Ceratite e Úlcera de Córnea (Adulto e Criança)

    • Uveíte anterior (iridociclite):

      • Dor, vermelhidão, fotofobia, lacrimejamento e baixa visual, instalados em horas a dias [8]

      • Injeção ciliar de tom arroxeado e pupila pequena (miose) [8]

      • Dor que piora à palpação do globo; exsudação na câmara anterior, como hipópio [2]

      • Conferir o protocolo Uveíte Anterior (Adulto e Criança)

    • Glaucoma agudo:

      • Pessoa predisposta, em geral idosa [2]

      • Dor ocular aguda e intensa, que pode vir com náuseas e vômitos; visão borrada e halos coloridos ao redor da luz [2][3]

      • Córnea opaca, sem brilho; pupila em média midríase, fixa; globo endurecido ao toque bidigital; baixa importante da acuidade visual [2][3]

      • Conferir o protocolo Glaucoma Agudo de Ângulo Fechado

    • Endoftalmite:

      • Após cirurgia intraocular, sobretudo de catarata, injeção intravítrea ou trauma penetrante [6]

      • Dor, baixa visual, vermelhidão, fotofobia e moscas volantes; ao exame, edema da córnea e hipópio [6]

      • Conferir o protocolo Endoftalmite (Adulto e Criança)

    • Esclerite:

      • Dor moderada a intensa, profunda, que piora à noite e pode irradiar para a fronte, a têmpora, a mandíbula ou o ouvido; piora ao movimentar o olho [10]

      • Vermelhidão azul-violácea, mais visível à luz do dia; pode haver fotofobia, lacrimejamento e baixa visual [10]

      • Conferir o protocolo Episclerite e Esclerite (Adulto e Criança)

    • Herpes zóster oftálmico:

      • Erupção vesicular dolorosa na fronte, na pálpebra e no nariz [9]

      • Vesículas na ponta ou na lateral do nariz (sinal de Hutchinson): maior probabilidade de complicação ocular [9]

      • Conferir o protocolo Herpes Zóster Oftálmico

    • Trauma, corpo estranho e queimaduras: conferir em Sinais de alarme e encaminhamento

  • Causas de manejo na atenção primária:

    • Conjuntivite:

      • Sensação de corpo estranho, hiperemia conjuntival, edema palpebral, fotofobia, lacrimejamento e prurido [2]

      • Embaçamento visual que melhora ao piscar, por acúmulo de secreção [2]

      • Tipo de secreção [2]:

        • Mucopurulenta: bacteriana

        • Serosa: viral

        • Muco hialino e filamentos: alérgica, em geral com prurido intenso

      • Conferir o protocolo Conjuntivite (Adulto e Criança)

    • Blefarite:

    • Hemorragia subconjuntival:

    • Episclerite:

    • Hordéolo e calázio: conferir o protocolo Hordéolo e calázio (terçol)

    • Dacriocistite:

      • Dor, edema e eritema sobre o canto medial, com secreção purulenta; na forma crônica, lacrimejamento persistente [11]

      • Conferir o protocolo Dacriocistite (Adulto e Criança)

  • Outras causas com protocolo próprio:

Particularidades na criança

  • Acuidade visual: na criança não alfabetizada, usar a tabela de Snellen para não alfabetizados [2]

  • Recém-nascido com conjuntivite purulenta no primeiro mês de vida: oftalmia neonatal [2]

    • Clamídia: sintomas de 5 a 14 dias após o nascimento, com secreção mucopurulenta, quando presente [2]

    • Gonococo: sintomas de 2 a 5 dias de vida, com secreção purulenta e abundante, quando presente [2]

    • A oftalmia gonocócica deve ser tratada imediatamente, em ambiente hospitalar, pelo risco de cegueira e por poder indicar infecção neonatal generalizada [2]

    • Conferir o protocolo Oftalmia / conjuntivite neonatal

  • Doença ocular possivelmente sexualmente transmissível na criança: considerar a possibilidade de abuso [4]; conferir o protocolo Violência / abuso sexual

Referências

[1] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 10ª revisão (CID-10). Capítulo VII: Doenças do olho e anexos (H00-H59). Versão em português, DATASUS.

[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Acolhimento à demanda espontânea: queixas mais comuns na Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica, n. 28, v. II. 1. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Cap. 2.22, Urgências oftalmológicas: "olho vermelho". Disponível em: https://sites.usp.br/guiacseb/wp-content/uploads/sites/943/2023/02/caderno28.pdf.

[3] ESPÍRITO SANTO. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de Oftalmologia: Autorregulação Formativa Territorial. Vitória, 2021. Disponível em: https://saude.es.gov.br/Media/sesa/Publicações%20em%20PDF/ARFT%20Oftalmologia%20site.pdf.

[4] AMERICAN ACADEMY OF OPHTHALMOLOGY; CHEUNG, Albert Y.; CHOI, Daniel S.; AHMAD, Sumayya; et al. Conjunctivitis Preferred Practice Pattern®. San Francisco: American Academy of Ophthalmology, 2023 (aprovado em 22 set. 2023). Disponível em: https://www.aao.org/education/preferred-practice-pattern/conjunctivitis-ppp-2023. Acesso em: 22 out. 2026.

[5] BYRD, Liza B.; GURNANI, Bharat; MARTIN, Nathan. Corneal Ulcer. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024. Atualizado em 12 fev. 2024. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK539689/. Acesso em: 23 out. 2026.

[6] GURNANI, Bharat; CZYZ, Craig N. Bacterial Endophthalmitis. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. Atualizado em 7 jun. 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK545184/. Acesso em: 23 out. 2026.

[7] GURNANI, Bharat; KAUR, Kirandeep. Bacterial Keratitis. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2023. Atualizado em 11 jun. 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK574509/. Acesso em: 23 out. 2026.

[8] GURNANI, Bharat; KIM, Jessica; TRIPATHY, Koushik; MAHABADI, Navid; EDENS, Mary Ann. Iritis. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2023. Atualizado em 25 ago. 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK430909/. Acesso em: 23 out. 2026.

[9] MINOR, Megan; GURNANI, Bharat; PAYNE, Ethan. Herpes Zoster Ophthalmicus. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025. Atualizado em 14 set. 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK557779/. Acesso em: 23 out. 2026.

[10] LAGINA, Amy; TRIPATHY, Koushik. Scleritis. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. Atualizado em 14 set. 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK499944/. Acesso em: 23 out. 2026.

[11] SHAH, Shalin S.; ASHURST, John V. Dacryocystitis. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025. Atualizado em 19 ago. 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK470565/. Acesso em: 23 out. 2026.

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