Endoftalmite (Adulto e Criança)

CID-10: H44.0 Endoftalmite purulenta

CID-10: H44.1 Outras endoftalmites

Introdução

  • Endoftalmite é a infecção confinada ao interior do globo ocular [3], com inflamação purulenta do humor aquoso, do vítreo e dos tecidos vizinhos [1]. É uma emergência oftalmológica: causa perda visual profunda e irreversível em horas a dias se não for reconhecida e tratada [1]. Mesmo com vitrectomia ou injeção intravítrea de antibiótico, o prognóstico costuma ser ruim [3].

  • Na forma exógena, o germe entra no olho por cirurgia intraocular, injeção intravítrea, trauma penetrante, bolha filtrante de cirurgia de glaucoma ou ceratite; a pós-operatória, sobretudo após catarata, é a mais comum [1]. A incidência chega a 0,2% após injeção intravítrea e a 0,7% após cirurgia de catarata [3]. A forma endógena, por via hematogênica, é a mais rara e ocorre em diabéticos, imunossuprimidos, usuários de droga intravenosa e pacientes com cateter, endocardite ou abscesso hepático [1].

🔑 Pontos-chave:

  • Olho vermelho com queda da visão após cirurgia ou injeção intraocular é emergência: encaminhar imediatamente [1][2]

  • A apresentação típica ocorre de 2 a 7 dias após a cirurgia ou a injeção, mas há formas em 24 a 48 horas e formas tardias, semanas a meses depois [1]

  • Ausência de dor intensa não exclui endoftalmite [1]

  • Hipópio (meia-lua de pus no polo inferior da íris) reforça a suspeita [1][5]

  • Não atrasar o encaminhamento por exames nem iniciar corticoide [1]

  • Febre, bacteremia, endocardite, droga intravenosa ou cateter com olho vermelho e baixa visual: pensar em endoftalmite endógena, muitas vezes bilateral [1]

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🎯 Fluxograma de manejo

O fluxograma organiza a conduta inicial no olho vermelho com baixa visual e suspeita de endoftalmite. Começa no paciente com olho vermelho e baixa visual. A pergunta é se há qualquer um destes: cirurgia intraocular ou injeção intravítrea recente; trauma penetrante; cirurgia de glaucoma prévia; infecção sistêmica, droga intravenosa, imunossupressão ou cateter. Se não, considerar outras causas de olho vermelho com baixa visual, e a redução súbita da visão exige atendimento oftalmológico de urgência; conferir os protocolos Uveíte anterior, Glaucoma agudo de ângulo fechado e Ceratite e úlcera de córnea. Se sim, há suspeita de endoftalmite: registrar a acuidade visual e o horário de início, não iniciar corticoide e não aguardar exames; conferir em Conduta. Em seguida, encaminhar imediatamente à urgência oftalmológica e avisar o serviço de destino; conferir em Sinais de alarme e encaminhamento. Fonte: referências [1], [2], [3] e [4] do artigo.

Sinais de alarme e encaminhamento

  • Suspeita de endoftalmite: encaminhar imediatamente à urgência oftalmológica [1][2][4]:

    • Orientar o paciente a ir ao serviço de oftalmologia na mesma hora [2]

    • Avisar o serviço de destino [2]

    • Redução súbita da visão é atendimento imediato, fora da regulação eletiva; no atendimento inicial, verificar acuidade visual, reflexos pupilares, campo visual de confrontação, pressão arterial e glicemia [4]

  • Sinais de doença grave, qualquer um [1]:

    • Percepção luminosa ou pior

    • Progressão em 24 horas

    • Hipópio acentuado

    • Defeito pupilar aferente relativo

    • Sinais orbitários (proptose, restrição dos movimentos oculares), sugestivos de panoftalmite

  • Suspeita de endoftalmite endógena: internação, com investigação sistêmica e hemoculturas antes do antibiótico sistêmico, quando possível [1]

Diagnóstico

  • Quando suspeitar: olho vermelho e baixa visual com qualquer um [1][3]:

    • Cirurgia de catarata recente

    • Injeção intravítrea recente

    • Trauma ocular penetrante

    • Cirurgia de glaucoma (bolha filtrante), mesmo meses ou anos antes

    • Infecção sistêmica, droga intravenosa, imunossupressão, diabetes ou cateter

  • Tempo após o procedimento [1]:

    • Forma aguda: 2 a 7 dias

    • Forma hiperaguda: 24 a 48 horas, por germe muito virulento

    • Forma crônica: semanas a meses, com inflamação recorrente

  • Sintomas [1]:

    • Queda súbita da visão, presente em quase todos os casos

    • Dor, de intensidade variável

    • Vermelhidão, fotofobia, edema palpebral, moscas volantes, secreção

  • Exame na atenção primária [1][3][5]:

    • Acuidade visual reduzida

    • Edema palpebral, edema e hiperemia da conjuntiva

    • Córnea turva

    • Hipópio: meia-lua no polo inferior da íris, à luz lateral da lanterna

    • Reflexo vermelho diminuído

  • Diagnóstico diferencial [1][2]:

    • Síndrome tóxica do segmento anterior: 12 a 48 horas após a cirurgia, pouca dor

    • Inflamação estéril pós-operatória: leve, sem piora rápida

    • Uveíte anterior

    • Glaucoma agudo: dor intensa, halos, pupila em média midríase, sem vitrite

    • Descolamento de retina e hemorragia vítrea: sem hipópio

    • Celulite orbitária: proptose, restrição dos movimentos oculares e sintomas sistêmicos; conferir o protocolo Celulite Periorbitária e Orbital

Conduta

  • Antes de encaminhar [1][2]:

    • Registrar a acuidade visual e o horário de início dos sintomas [1]

    • Encaminhar imediatamente, com aviso ao serviço de destino [2]

  • Não fazer [1]:

    • Não atrasar o encaminhamento à espera de exames

    • Não iniciar corticoide: nunca deve preceder o antibiótico

  • No serviço de oftalmologia [1][2]:

    • Coleta de vítreo e antibiótico intravítreo imediatos (vancomicina e ceftazidima)

    • Considerar vitrectomia imediata se a visão for só percepção luminosa

    • Antibiótico sistêmico na forma endógena, no acometimento orbitário, na panoftalmite e no imunossuprimido; NHS Scotland: antibiótico oral conforme o caso [2]

    • Internação

Particularidades na criança

  • Mesma urgência do adulto: encaminhar imediatamente [1]

  • Endoftalmite pós-traumática: descrita sobretudo em área rural, com chegada tardia e mais complicações [1]

  • Diagnóstico diferencial: retinoblastoma, com leucocoria e sementes no vítreo que podem simular endoftalmite [1]

Referências

[1] GURNANI, Bharat; CZYZ, Craig N. Bacterial Endophthalmitis. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. Atualizado em 7 jun. 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK545184/. Acesso em: 23 out. 2026.

[2] NHS SCOTLAND. Eyecare Guidelines. 7.4 Endophthalmitis, Post-Operative (Exogenous Endophthalmitis). Revisão em 29 abr. 2026. Disponível em: https://www.eyes.nhs.scot/eyecare-guidelines/section-7-uvea/74-endophthalmitis-post-operative-exogenous-endophthalmitis/. Acesso em: 23 out. 2026.

[3] SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Estado da Saúde. Centro de Vigilância Epidemiológica "Prof. Alexandre Vranjac". Divisão de Infecção Hospitalar. Manual de orientações e critérios diagnósticos: sistema de vigilância epidemiológica para endoftalmites relacionadas a procedimentos oftalmológicos invasivos (SIVEN). São Paulo, 2025.

[4] ESPÍRITO SANTO. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de Oftalmologia: Autorregulação Formativa Territorial. Vitória, 2021. Disponível em: https://saude.es.gov.br/Media/sesa/Publicações%20em%20PDF/ARFT%20Oftalmologia%20site.pdf.

[5] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Acolhimento à demanda espontânea: queixas mais comuns na Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica, n. 28, v. II. 1. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Cap. 2.22, Urgências oftalmológicas: "olho vermelho". Disponível em: https://sites.usp.br/guiacseb/wp-content/uploads/sites/943/2023/02/caderno28.pdf.

[6] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 10ª revisão (CID-10). Capítulo VII: Doenças do olho e anexos (H00-H59). Versão em português, DATASUS.

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