Celulite Periorbitária e Orbital

CID-10: H00.0 - Hordéolo e outras inflamações profundas das pálpebras

CID-10: H05.0 - Inflamação aguda da órbita

Introdução

  • A celulite periorbitária (pré-septal) é a infecção da pálpebra e dos tecidos moles anteriores ao septo orbital, sem acometimento da órbita. A celulite orbitária (pós-septal) é a infecção dos tecidos posteriores ao septo, incluindo músculos extraoculares e gordura orbital, e configura emergência cirúrgica potencial [1][2].

    • As duas condições compartilham achados iniciais e podem ser difíceis de diferenciar clinicamente, mas exigem investigação e conduta distintas [1][3].

  • A celulite orbitária tem incidência estimada entre 1,6 e 6 casos por 100.000 crianças menores de 18 anos e entre 0,6 e 2,4 por 100.000 adultos [5].

  • A celulite periorbitária é mais frequente que a orbitária e predomina em crianças de até 5 anos [3]. Mais de 80% dos casos de celulite orbitária relacionam-se a sinusite aguda, sobretudo etmoidal, cuja disseminação para a órbita ocorre através da lâmina papirácea [1][4].

  • Antes da vacinação universal contra Haemophilus influenzae tipo B (Hib), esse era o principal agente da celulite periorbitária e orbitária atraumática.

    • Atualmente predominam estreptococos (grupos anginosus, pyogenes e pneumoniae) e Staphylococcus aureus, com prevalência crescente de cepas resistentes à meticilina (MRSA) [3][4].

    • Em adolescentes e em sinusite crônica, é comum a recuperação de anaeróbios orais associados a S. aureus e estreptococos [4].

    • A celulite periorbitária traumática (pós-picada de inseto, escoriação) tem perfil distinto, dominado por Streptococcus pyogenes e S. aureus [4].

🔑 Pontos-chave:

  • Dor à movimentação ocular, oftalmoplegia, proptose, diplopia ou queda de acuidade visual definem celulite orbitária e mudam a conduta para internação e antibioticoterapia intravenosa, independentemente do grau de edema palpebral [1][2][3].

  • Criança com aspecto tóxico ou séptico é manejada como sepse antes de qualquer classificação por gravidade da celulite [1].

  • Punção lombar é contraindicada na celulite orbitária pelo risco de hipertensão intracraniana secundária a extensão intracraniana [1].

  • TC de órbitas e seios da face com contraste está indicada diante de proptose, limitação ou dor à movimentação ocular, diplopia, perda visual, edema que extrapola a margem palpebral, defeito pupilar aferente relativo, sinais de acometimento do sistema nervoso central, contagem absoluta de neutrófilos acima de 10.000 células/µL, PCR acima de 120 mg/L, ou impossibilidade de exame ocular adequado [2][4].

  • Vacinação inadequada contra Hib eleva a celulite periorbitária ao patamar de grave, com internação e investigação como celulite orbitária [1].

  • Edema bilateral e indolor em criança com bom estado geral sugere reação alérgica, não celulite [1].

  • Ausência de melhora ou piora clínica em 24 a 48 horas de antibioticoterapia reclassifica o quadro para o grau de gravidade superior [1].

  • Corticosteroide sistêmico adjuvante não tem recomendação formal de uso: a evidência disponível é de certeza muito baixa, proveniente de um único ensaio clínico com 21 participantes [5].

Conteúdo direto ao ponto, revisado e atualizado por médicos especialistas.
Exclusivo para médicos e estudantes de medicina.
Acesse o conteúdo completo

🎯 Fluxograma de manejo

Manejo da celulite periorbitária e orbitária na criança: o fluxo parte de criança com edema/eritema periorbitário e pergunta se há aspecto tóxico ou séptico; se sim, manejar como sepse. Se não, classificar conforme gravidade, com o ponteiro "Conferir em Classificação de gravidade", o que leva a quatro categorias: celulite orbitária, celulite periorbitária grave, celulite periorbitária moderada e celulite periorbitária leve, esta última com a observação de considerar também reação alérgica. A celulite orbitária e a periorbitária grave convergem para a mesma conduta, em cinco etapas. Internação, jejum e avaliação: avaliação urgente por otorrinolaringologia e oftalmologia, jejum até definição da necessidade cirúrgica e consideração de transferência se o cuidado exceder a capacidade do serviço local. Exames: hemograma, hemocultura e TC de órbitas e seios da face com contraste (± crânio), com punção lombar contraindicada. Antibioticoterapia IV: ceftriaxona ou cefotaxima, associando vancomicina se suspeita de MRSA e metronidazol se sinusite crônica ou anaeróbios orais, com o ponteiro "Conferir em Como prescrever?". Avaliação cirúrgica: indicada se extensão intracraniana, ausência de resposta ao antibiótico, piora da acuidade visual ou pupilar ou abscesso maior que 10 mm, com neurocirurgia se extensão intracraniana e, nos abscessos menores, imagem seriada, salvo comprometimento visual. Transição para via oral: amoxicilina + clavulanato conforme melhora, com duração total de 10 a 14 dias, ou 2 a 3 semanas se abscesso. A celulite periorbitária moderada recebe internação e antibioticoterapia IV: internação ou hospitalização domiciliar, quando disponível, com cefazolina ou ceftriaxona, e clindamicina se suspeita de MRSA, com o ponteiro "Conferir em Como prescrever?"; pergunta-se então se há melhora em 24 a 48 horas: se sim, transição para via oral com o esquema da celulite leve, ou sulfametoxazol + trimetoprima se suspeita de MRSA, com alta quando houver tolerância à via oral e retorno assegurado, por 7 a 10 dias; se não, segue-se o manejo da celulite orbitária e periorbitária grave. A celulite periorbitária leve recebe antibioticoterapia oral ambulatorial: cefalexina ou cefuroxima por 7 a 10 dias, com reavaliação assegurada e o ponteiro "Conferir em Como prescrever?"; pergunta-se então se há melhora em 24 a 48 horas: se sim, completar o curso de antibiótico oral; se não, segue-se o manejo da celulite periorbitária moderada. IV: intravenosa. MRSA: Staphylococcus aureus resistente à meticilina. TC: tomografia computadorizada. Fonte: adaptação de Royal Children's Hospital Melbourne. Clinical Practice Guidelines: Periorbital and orbital cellulitis (2021); Danishyar e Sergent. Orbital Cellulitis. StatPearls (2023); Gill et al. Preseptal and orbital cellulitis in otherwise healthy children and youth. Canadian Paediatric Society (2026).

Quadro clínico

  • Celulite periorbitária (pré-septal):

    • Edema e eritema palpebral unilateral [1][3]

    • Dor ou sensibilidade local à palpação [1][3]

    • Motilidade ocular, acuidade visual e posição do globo preservadas [3][4]

    • Febre pode estar presente [4]

  • Celulite orbitária (pós-septal):

    • Edema e eritema palpebral, associados a um ou mais achados "orbitários" [3][4]:

      • Dor à movimentação ocular

      • Limitação da motilidade ocular (oftalmoplegia)

      • Proptose

      • Diplopia

      • Quemose (edema conjuntival)

      • Queda de acuidade visual

    • Febre e leucocitose com predomínio de neutrófilos são comuns [2]

  • ⚠️ Sinais de alarme que sugerem celulite orbitária ou complicação [1]:

    • Dor ou restrição à movimentação ocular

    • Queda de acuidade visual

    • Defeito pupilar aferente relativo

    • Diplopia

    • Proptose

    • Cefaleia intensa ou outros sinais de acometimento intracraniano

  • A classificação de Chandler organiza a progressão da doença sinusal para o espaço orbitário em cinco graus: [4][5]

    • Celulite pré-septal (grau I)

    • Celulite orbitária (grau II)

    • Abscesso subperiosteal (grau III)

    • Abscesso orbitário (grau IV)

    • Trombose do seio cavernoso (grau V)

Avaliação diagnóstica

Exames laboratoriais:

  • Criança com celulite periorbitária não complicada e bom estado geral não necessita de exames complementares [4].

  • Hemograma completo e PCR devem ser considerados quando há incerteza diagnóstica quanto à extensão da doença (pré-septal versus orbitária) ou quando o exame físico é limitado, como em lactentes [4].

  • Hemocultura é recomendada nos quadros mais graves, para orientar a terapia definitiva [1][4]. Swab conjuntival não é recomendado, pela alta taxa de contaminação [4].

Indicações de tomografia computadorizada (órbitas e seios da face, com contraste) [2][4]:

  • Proptose

  • Limitação da motilidade ocular

  • Dor à movimentação ocular

  • Diplopia

  • Perda visual

  • Edema que se estende além da margem palpebral

  • Contagem absoluta de neutrófilos acima de 10.000 células/µL

  • PCR acima de 120 mg/L ou leucometria acima de 20.000/µL

  • Sinais ou sintomas de acometimento do sistema nervoso central

  • Impossibilidade de exame completo (por exemplo, em crianças menores de 1 ano)

  • Ausência de melhora dentro de 24 a 48 horas de antibioticoterapia

Observações:

  • Na ausência desses fatores de risco, é razoável postergar a tomografia por 24 a 36 horas para observar a resposta à antibioticoterapia, principalmente quando há suporte de otorrinolaringologia e oftalmologia disponível prontamente [4].

  • A ressonância magnética é superior à tomografia no acompanhamento da progressão de partes moles, mas tem uso reservado pela menor disponibilidade [2].

  • Punção lombar é contraindicada na celulite orbitária, pelo risco de hipertensão intracraniana secundária a possível extensão intracraniana [1].

Diagnóstico diferencial:

  • Edema bilateral e indolor em criança com bom estado geral é mais compatível com reação alérgica do que com celulite [1].

  • Considerar também: [4]

    • Irritação química

    • Trauma

    • Hordéolo/calázio

    • Dacriocistite

    • Conjuntivite

    • Dermatite de contato

    • Em quadros atípicos ou refratários:

      • Doença inflamatória orbitária idiopática

      • Massas intraoculares (retinoblastoma, linfoma, rabdomiossarcoma, histiocitose de células de Langerhans)

      • Oftalmopatia tireoidiana e doença de Kawasaki

  • Em apresentação neonatal, considerar gonorreia e infecção por Chlamydia [1].

Classificação de gravidade

Abordagem da celulite periorbitária e orbitária na criança conforme a gravidade: o fluxo parte de criança com edema/eritema periorbitário e avalia, em sequência, quatro critérios; a gravidade determina o local de tratamento, a via de antibioticoterapia e a necessidade de exames de imagem. Primeiro, pergunta-se se há aspecto tóxico ou séptico; se sim, manejar como sepse. Se não, pergunta-se se há qualquer um dos seguintes: proptose, queda de acuidade visual, dor ou restrição à movimentação ocular, cefaleia intensa ou persistente; se sim, manejar como celulite orbitária. Se não, pergunta-se se há qualquer um dos seguintes: idade menor que 3 meses, edema significativo, impossibilidade de exame ocular adequado, vacinação inadequada contra Hib; se sim, manejar como celulite periorbitária grave. Se não, pergunta-se se há qualquer um dos seguintes: edema moderado, abertura ocular reduzida, mas exame do olho possível, comprometimento sistêmico (febre, letargia); se sim, manejar como celulite periorbitária moderada. Se não, o quadro é de edema mínimo, abertura e exame oculares normais, criança em bom estado geral, e a conduta é considerar reação alérgica ou manejar como celulite periorbitária leve. Hib: Haemophilus influenzae tipo b. Fonte: Royal Children's Hospital Melbourne. Clinical Practice Guidelines: Periorbital and orbital cellulitis. Melbourne, atualizado em dezembro de 2021.

Esquema de tratamento

  • Celulite orbitária e celulite periorbitária grave: [1]

    • Internação

    • Avaliação urgente por otorrinolaringologia e oftalmologia

    • Jejum até definição cirúrgica

    • TC de órbitas e seios da face (± crânio)

    • Antibioticoterapia intravenosa

    • Ver tópico “Celulite orbitária ou periorbitária grave”

  • Celulite periorbitária moderada: [1]

    • Internação

    • Antibioticoterapia intravenosa com transição para via oral conforme melhora

    • Reclassificar como grave se não houver melhora ou houver piora em 24 a 48 horas

    • Ver tópico “Celulite periorbitária moderada”

  • Celulite periorbitária leve: [1]

    • Manejo ambulatorial

    • Antibioticoterapia oral

    • Reavaliação frequente

    • Ver tópico “Celulite periorbitária leve”

  • Cobertura para MRSA: [1][3][4]

    • É acrescentada quando há suspeita de MRSA, guiada pelo padrão de suscetibilidade local

    • Opções: Vancomicina, clindamicina ou sulfametoxazol-trimetoprima

  • Cobertura para anaeróbios: [4]

    • É acrescentada em sinusite crônica ou quando há suspeita de anaeróbios orais, sobretudo em adolescentes

    • Opções: Metronidazol

  • Tratamento da sinusite subjacente deve ser conduzido em conjunto com otorrinolaringologia [1].

Celulite periorbitária leve

Indicação: celulite periorbitária que não preenche critérios de gravidade moderada ou grave [1].

  • Cefalexina (Keflex®) comp. 500 mg

    • 20 mg/kg (máx. 750 mg) VO a cada 8 horas

    • Administração: via oral, sem orientações específicas

  • Cefuroxima (Zinnat®) comp. rev. 250 mg ou 500 mg; pó para suspensão oral 125 mg/5 mL ou 250 mg/5 mL

    • 3 meses a 2 anos: 10 mg/kg (máx. 125 mg) VO a cada 12 horas

    • 2 a 12 anos: 15 mg/kg (máx. 250 mg) VO a cada 12 horas

    • Administração: via oral, após alimentação, para aumentar a absorção

  • Duração:

    • 7 a 10 dias [1]

  • Considerações:

    • Quadro pós-trauma cutâneo (picada de inseto, ferida) favorece cobertura de S. aureus e S. pyogenes com cefalexina; quadro associado a sinusite favorece cobertura de estreptococos com cefuroxima [4].

    • Reavaliar se não houver melhora em 24 a 48 horas; reclassificar como celulite periorbitária grave se houver piora [1].

Celulite periorbitária moderada

Indicação: celulite periorbitária moderada, conforme critérios de gravidade [1].

  • Cefazolina (Kefazol®) pó para solução injetável 1 g

    • 50 mg/kg (máx. 2 g) IV a cada 8 horas

    • Administração: via IV, sem orientações específicas

  • Ceftriaxona (Rocefin®) pó para solução injetável 1 g

    • 50 mg/kg (máx. 2 g) IV 1 vez ao dia (opção para hospitalização domiciliar)

    • Administração: diluir e infundir por via IV lenta, em 2 a 4 minutos, ou em infusão de pelo menos 30 minutos; se IM, injeção profunda, no máximo 1 g por sítio de aplicação

  • Se suspeita de MRSA:

    • Clindamicina (Dalacin C®) sol. inj. 150 mg/mL (ampola 4 mL); cáps. 300 mg

      • 15 mg/kg (máx. 600 mg) IV a cada 8 horas OU via oral

      • Administração IV: diluir previamente à infusão; se IM, aplicar em grande massa muscular, sem exceder 600 mg por aplicação

      • Administração VO: tomar com um copo cheio de água, para reduzir o risco de ulceração esofágica

  • OU, na transição para via oral com suspeita de MRSA:

    • Sulfametoxazol + Trimetoprima (Bactrim®) susp. oral pediátrica 200+40 mg/5 mL; comp. 400+80 mg; comp. 800+160 mg

      • 4 mg/kg (componente trimetoprima) + 20 mg/kg (componente sulfametoxazol) VO a cada 12 horas (máx. 320 mg + 1.600 mg por dose)

      • Administração: via oral, sem orientações específicas

  • Duração:

    • 7 a 10 dias, com transição para o esquema oral da celulite periorbitária leve conforme melhora [1]

  • Considerações:

    • Transicionar para antibiótico oral, conforme esquema da celulite periorbitária leve, uma vez iniciada a melhora clínica [1].

    • Reclassificar como celulite periorbitária grave se não houver melhora ou houver piora em 24 a 48 horas [1].

Celulite orbitária ou periorbitária grave

Indicação: celulite orbitária (qualquer grau) e celulite periorbitária grave. Recebem internação e o mesmo esquema antimicrobiano de base [1][2].

  • Ceftriaxona (Rocefin®) pó para solução injetável 1 g

    • Crianças: 100 mg/kg (máx. 4 g) IV 1 vez ao dia; alternativamente, 50 mg/kg IV a cada 12 ou 24 horas (dose mais alta se houver suspeita de extensão intracraniana), máx. 4 g/dia

    • Adultos: 2 g IV 1 vez ao dia; 2 g IV a cada 12 horas se houver suspeita de extensão intracraniana

    • Administração: diluir e infundir por via IV lenta, em 2 a 4 minutos, ou em infusão de pelo menos 30 minutos; se IM, injeção profunda, no máximo 1 g por sítio de aplicação

  • OU Cefotaxima (Claforan®) pó para solução injetável 1 g

    • Crianças: 50 a 200 mg/kg/dia, dividido em 3 a 4 doses (cada 6-8h) (máx. 12 g/dia)

    • Adultos: 2 g IV a cada 4 horas

    • Administração: reconstituir com água para injetáveis; diluir em SF 0,9% ou SG 5% e infundir em 20 a 60 minutos, conforme o volume de diluição

  • Se suspeita de MRSA, associar:

    • Vancomicina (Vancocina®) pó para solução injetável 500 mg

      • Crianças: 40 a 60 mg/kg/dia IV, dividida em 3 a 4 doses (máx. 4 g/dia)

      • Adultos: 15 a 20 mg/kg IV a cada 8 a 12 horas (máx. 2 g por dose)

      • Administração: diluir a no máximo 5 mg/mL (10 mg/mL se houver restrição hídrica); infundir em no mínimo 60 minutos, a velocidade máxima de 10 mg/minuto

  • Se sinusite crônica ou suspeita de anaeróbios orais, associar:

    • Metronidazol (Flagyl®) sol. inj. 5 mg/mL (bolsa 100 mL = 500 mg); comp. rev. 250 mg e 400 mg

      • Crianças: 30 mg/kg/dia IV ou VO, dividido a cada 6 horas

      • Adultos: 500 mg IV ou VO a cada 8 horas

      • Administração: solução pronta para infusão, sem necessidade de diluição adicional; infundir em 30 a 60 minutos

  • Transição para via oral:

    • Amoxicilina + Clavulanato de potássio (Clavulin®) comp. rev. 875 mg + 125 mg; pó para suspensão oral 400 mg + 57 mg/5 mL

      • 22,5 mg/kg (máx. 875 mg, dose com base no componente amoxicilina) VO a cada 12 horas

      • Administração: via oral, no início da refeição, para reduzir desconforto gastrintestinal

  • Alergia a penicilina e/ou cefalosporina: [2]

    • Associar vancomicina a um dos seguintes:

      • Ciprofloxacino (Cipro®) comp. rev. 500 mg; sol. inj. 2 mg/mL (bolsa 100 mL ou 200 mL)

        • Adultos: 400 mg IV a cada 12 horas ou 500 a 750 mg VO a cada 12 horas

        • Crianças: 20 a 30 mg/kg/dia IV ou VO, dividido a cada 12 horas (máx. 800 mg/dia IV ou 1,5 g/dia VO)

        • Administração: sem orientações específicas

      • Levofloxacino (Levaquin®) comp. rev. 500 mg; sol. inj. 5 mg/mL (bolsa 100 mL)

        • Adultos: 500 a 750 mg IV ou VO 1 vez ao dia

        • Crianças de 6 meses a 5 anos: 10 mg/kg a cada 12 horas; a partir de 5 anos: 10 mg/kg 1 vez ao dia (máx. 500 mg/dia)

        • Administração: forma injetável apenas por infusão IV, nunca IM, intraperitoneal ou subcutânea

  • Duração:

    • Varia conforme a fonte consultada:

      • RCH: 10 a 14 dias [1]

      • CPS: celulite orbitária não complicada, 10 a 14 dias; com abscesso subperiosteal ou orbitário, sem extensão intracraniana, 2 a 3 semanas [4]

      • StatPearls: pelo menos 2 a 3 semanas; pelo menos 4 semanas em sinusite etmoidal grave com destruição óssea [2]

  • Considerações:

    • Punção lombar é contraindicada, pelo risco de hipertensão intracraniana secundária a possível extensão intracraniana [1].

    • Manter jejum até definição da necessidade cirúrgica; solicitar hemograma e hemocultura [1].

    • Avaliação urgente por otorrinolaringologia e oftalmologia; neurocirurgia se houver extensão intracraniana [1][4].

    • Cirurgia é indicada em extensão intracraniana, ausência de resposta ao antibiótico, piora da acuidade visual ou das pupilas, ou abscesso maior que 10 mm; abscessos menores podem ser acompanhados clinicamente e com imagem seriada, salvo comprometimento visual [2].

💊 Como prescrever?

Celulite periorbitária leve [1]

  • Cefalexina (Keflex®) comp. 500 mg

    • 20 mg/kg (máx. 750 mg) VO a cada 8 horas

    • Administração: via oral, sem orientações específicas

  • Cefuroxima (Zinnat®) comp. rev. 250 mg ou 500 mg; pó para suspensão oral 125 mg/5 mL ou 250 mg/5 mL

    • 3 meses a 2 anos: 10 mg/kg (máx. 125 mg) VO a cada 12 horas

    • 2 a 12 anos: 15 mg/kg (máx. 250 mg) VO a cada 12 horas

    • Administração: via oral, após alimentação, para aumentar a absorção

Celulite periorbitária moderada [1]

  • Cefazolina (Kefazol®) pó para solução injetável 1 g

    • 50 mg/kg (máx. 2 g) IV a cada 8 horas

    • Administração: via IV, sem orientações específicas

  • Ceftriaxona (Rocefin®) pó para solução injetável 1 g

    • 50 mg/kg (máx. 2 g) IV 1 vez ao dia (opção para hospitalização domiciliar)

    • Administração: diluir e infundir por via IV lenta, em 2 a 4 minutos, ou em infusão de pelo menos 30 minutos; se IM, injeção profunda, no máximo 1 g por sítio de aplicação

  • Se suspeita de MRSA: Clindamicina (Dalacin C®) sol. inj. 150 mg/mL (ampola 4 mL); cáps. 300 mg

    • 15 mg/kg (máx. 600 mg) IV a cada 8 horas OU via oral

    • Administração IV: diluir previamente à infusão; se IM, aplicar em grande massa muscular, sem exceder 600 mg por aplicação

    • Administração VO: tomar com um copo cheio de água, para reduzir o risco de ulceração esofágica

  • OU, na transição para via oral com suspeita de MRSA:

    • Sulfametoxazol + Trimetoprima (Bactrim®) susp. oral pediátrica 200+40 mg/5 mL; comp. 400+80 mg; comp. 800+160 mg

      • 4 mg/kg (componente trimetoprima) + 20 mg/kg (componente sulfametoxazol) VO a cada 12 horas (máx. 320 mg + 1.600 mg por dose)

      • Administração: via oral, sem orientações específicas

Celulite orbitária e celulite periorbitária grave [1][2]

  • Ceftriaxona (Rocefin®) pó para solução injetável 1 g

    • Crianças: 100 mg/kg (máx. 4 g) IV 1 vez ao dia; alternativamente, 50 mg/kg IV a cada 12 ou 24 horas (dose mais alta se houver suspeita de extensão intracraniana), máx. 4 g/dia

    • Adultos: 2 g IV 1 vez ao dia; 2 g IV a cada 12 horas se houver suspeita de extensão intracraniana

    • Administração: diluir e infundir por via IV lenta, em 2 a 4 minutos, ou em infusão de pelo menos 30 minutos; se IM, injeção profunda, no máximo 1 g por sítio de aplicação

  • OU Cefotaxima (Claforan®) pó para solução injetável 1 g

    • Crianças: 50 a 200 mg/kg/dia, dividido em 3 a 4 doses (cada 6-8h) (máx. 12 g/dia)

    • Adultos: 2 g IV a cada 4 horas

    • Administração: reconstituir com água para injetáveis; diluir em SF 0,9% ou SG 5% e infundir em 20 a 60 minutos, conforme o volume de diluição

  • Se suspeita de MRSA, associar:

    • Vancomicina (Vancocina®) pó para solução injetável 500 mg

      • Crianças: 40 a 60 mg/kg/dia IV, dividida em 3 a 4 doses (máx. 4 g/dia)

      • Adultos: 15 a 20 mg/kg IV a cada 8 a 12 horas (máx. 2 g por dose)

      • Administração: diluir a no máximo 5 mg/mL (10 mg/mL se houver restrição hídrica); infundir em no mínimo 60 minutos, a velocidade máxima de 10 mg/minuto

  • Se sinusite crônica ou suspeita de anaeróbios orais, associar:

    • Metronidazol (Flagyl®) sol. inj. 5 mg/mL (bolsa 100 mL = 500 mg); comp. rev. 250 mg e 400 mg

      • Crianças: 30 mg/kg/dia IV ou VO, dividido a cada 6 horas

      • Adultos: 500 mg IV ou VO a cada 8 horas

      • Administração: solução pronta para infusão, sem necessidade de diluição adicional; infundir em 30 a 60 minutos

  • Transição para via oral:

    • Amoxicilina + Clavulanato de potássio (Clavulin®) comp. rev. 875 mg + 125 mg; pó para suspensão oral 400 mg + 57 mg/5 mL

      • 22,5 mg/kg (máx. 875 mg, dose com base no componente amoxicilina) VO a cada 12 horas

      • Administração: via oral, no início da refeição, para reduzir desconforto gastrintestinal

  • Alergia a penicilina e/ou cefalosporina:

    • Associar vancomicina a um dos seguintes [2]

      • Ciprofloxacino (Cipro®) comp. rev. 500 mg; sol. inj. 2 mg/mL (bolsa 100 mL ou 200 mL)

        • Adultos: 400 mg IV a cada 12 horas ou 500 a 750 mg VO a cada 12 horas

        • Crianças: 20 a 30 mg/kg/dia IV ou VO, dividido a cada 12 horas (máx. 800 mg/dia IV ou 1,5 g/dia VO)

        • Administração: sem orientações específicas

      • Levofloxacino (Levaquin®) comp. rev. 500 mg; sol. inj. 5 mg/mL (bolsa 100 mL)

        • Adultos: 500 a 750 mg IV ou VO 1 vez ao dia

        • Crianças de 6 meses a 5 anos: 10 mg/kg a cada 12 horas; a partir de 5 anos: 10 mg/kg 1 vez ao dia (máx. 500 mg/dia)

        • Administração: forma injetável apenas por infusão IV, nunca IM, intraperitoneal ou subcutânea

Corticosteroides adjuvantes

  • Não há recomendação formal para o uso de corticosteroide sistêmico adjuvante na celulite periorbitária ou orbitária.

  • Revisão sistemática identificou apenas um ensaio clínico randomizado, com 21 participantes, comparando prednisolona oral associada a antibiótico versus antibiótico isolado em celulite orbitária;

    • A certeza da evidência foi classificada como muito baixa para todos os desfechos avaliados (tempo de internação, duração de antibioticoterapia intravenosa, necessidade de cirurgia, dor, preservação da acuidade visual e queratopatia por exposição) [5].

  • Estudo de associação em coorte de crianças hospitalizadas também não sustenta uso rotineiro [4].

  • A decisão de usar corticosteroide, quando considerada, deve ser individualizada e discutida com especialistas na área [4].

Critérios de internação, transferência e alta

  • Considerar avaliação por equipe pediátrica local quando:

    • Houver suspeita de celulite orbitária; houver celulite periorbitária moderada a grave; não houver melhora ou houver piora após 24 a 48 horas de terapia [1].

  • Considerar transferência quando:

    • Houver celulite periorbitária grave ou celulite orbitária; houver suspeita de acometimento intracraniano com alteração do nível de consciência, crise convulsiva ou sinais neurológicos focais; a criança necessitar de cuidado além da capacidade do serviço local [1].

  • Considerar alta na celulite periorbitária leve quando:

    • O curso de antibiótico oral estiver prescrito e o retorno estiver assegurado [1].

  • Considerar alta na celulite periorbitária moderada quando:

    • Houver completado 24 a 48 horas de antibiótico IV com melhora, houver tolerância à via oral e o retorno estiver assegurado [1].

Referências

[1] ROYAL CHILDREN'S HOSPITAL MELBOURNE. Clinical Practice Guidelines: Periorbital and orbital cellulitis. Melbourne, atualizado em dezembro de 2021. Disponível em: https://www.rch.org.au/clinicalguide/guideline_index/Periorbital_and_orbital_cellulitis/. Acesso em: 17 set. 2026.

[2] DANISHYAR, Amina; SERGENT, Shane R. Orbital Cellulitis. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Atualizado em 8 ago. 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK507901/. Acesso em: 17 set. 2026.

[3] ZEPPIERI, Marco; BOURGET, Daniele. Periorbital Cellulitis. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Atualizado em 6 fev. 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK470408/. Acesso em: 17 set. 2026.

[4] GILL, Peter J.; BUBA, Melanie; KRUEGER, Carsten; WOLTER, Nikolaus; REGINALD, Yohann Arunun. Preseptal and orbital cellulitis in otherwise healthy children and youth. Canadian Paediatric Society, publicado em 3 mar. 2026. Disponível em: https://cps.ca/en/documents/position/preseptal-orbital-cellulitis. Acesso em: 17 set. 2026.

[5] KORNELSEN, Emily; MAHANT, Sanjay; PARKIN, Patricia; REN, Lily Yuxi; REGINALD, Yohann A.; SHAH, Samir S.; GILL, Peter J. Corticosteroids for periorbital and orbital cellulitis. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2021, Issue 4. Art. No.: CD013535. DOI: 10.1002/14651858.CD013535.pub2.

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.