Hemorragia Subconjuntival (Adulto e Criança)
CID-10: H11.3 - Hemorragia conjuntival
Introdução
Hemorragia subconjuntival (hiposfagma) é o acúmulo de sangue sob a conjuntiva bulbar por ruptura de pequenos vasos conjuntivais, formando mancha vermelha bem delimitada sobre a esclera [1]. É benigna e autolimitada: não causa dor, fotofobia, baixa visual nem alteração pupilar, e se resolve espontaneamente [1].
Na infância e adolescência predomina o trauma; a partir dos 60 anos predomina a forma espontânea, associada a hipertensão e a antitrombóticos [1].
🔑 Pontos-chave:
Hemorragia após trauma com baixa visual, dor, hemorragia elevada e bolhosa, pupila irregular, proptose ou restrição da movimentação ocular: suspeitar de ruptura do globo ou hematoma retrobulbar e encaminhar com urgência [1]
Lactente com hemorragia subconjuntival bilateral isolada, sobretudo com petéquias faciais: suspeitar de maus-tratos [1]
Dor, fotofobia, secreção, sensação de corpo estranho ou baixa visual não fazem parte da hemorragia subconjuntival simples: procurar outra causa [1]
Hemorragia espontânea ou recorrente: medir a pressão arterial em todos [1]
Recorrência, bilateralidade ou sangramento em outros locais: investigar coagulopatia com hemograma, TP, TTPa e INR [1]
Antitrombótico em geral é mantido na hemorragia isolada [1]
Corticoide e antibiótico tópicos não são indicados na hemorragia não complicada [1]
🎯 Fluxograma de manejo
![O fluxograma organiza a avaliação da mancha vermelha bem delimitada sob a conjuntiva. Pergunta-se se houve trauma. Se houve, pergunta-se se há qualquer um: baixa visual; hemorragia elevada e bolhosa; pupila em gota ou irregular; proptose ou quemose; restrição da movimentação ocular. No traumatismo craniano com hemorragia no fundo de saco, sem trauma do globo, considerar fratura de base de crânio e encaminhar ao serviço de urgência. Se sim, encaminhar com urgência ao oftalmologista (conferir o protocolo Corpo estranho e trauma ocular). Sem trauma, pergunta-se se há qualquer um: dor; fotofobia; sensação de corpo estranho; secreção; baixa visual ou alteração pupilar. Se sim, avaliação oftalmológica para excluir outra doença ocular. Nos dois ramos, se a resposta for não, pergunta-se, na criança, se há qualquer um: lactente com hemorragia bilateral isolada, sobretudo com petéquias faciais; hemorragia bilateral ou com hemorragia retiniana, equimoses ou fraturas. Se sim, suspeita de maus-tratos: avaliação (conferir em Particularidades na criança). Se não, medir a pressão arterial e perguntar se há qualquer um: recorrência; hemorragia bilateral; sangramento em outros locais; idoso ou múltiplas comorbidades; história de coagulopatia. Se sim, solicitar hemograma, TP, TTPa e INR (conferir em Investigação) e seguir para a conduta; se não, seguir direto para a conduta: tranquilizar; lágrima artificial por via oftálmica se houver irritação; antitrombótico mantido, com verificação de adesão e dose e INR se varfarina (conferir em Conduta). Resolução esperada em 1 a 2 semanas; reavaliar se persistir por mais de 3 semanas. Abreviações: INR, razão normalizada internacional; TP, tempo de protrombina; TTPa, tempo de tromboplastina parcial ativada. Fonte: referência [1] do artigo.](https://assets.gpmed.app/treatments/1792790454734_99101513.png)
Sinais de alarme e encaminhamento
Após trauma [1]:
Suspeitar de lesão grave se qualquer um:
Baixa visual
Hemorragia elevada e bolhosa
Pupila em gota ou irregular
Proptose ou quemose
Restrição da movimentação ocular
Conduta na suspeita de lesão grave: encaminhamento de urgência ao oftalmologista; conferir o protocolo Corpo estranho e Trauma ocular [1]
Traumatismo craniano com hemorragia originada no fundo de saco, sem trauma do globo: considerar fratura de base de crânio e encaminhar ao serviço de urgência [1]
Sem trauma [1]:
Procurar outra doença ocular se qualquer um:
Dor, fotofobia ou sensação de corpo estranho
Secreção
Baixa visual ou alteração pupilar
Conduta: avaliação oftalmológica para excluir doença grave [1]
Persistência acima de 3 semanas: reavaliar e considerar lesão conjuntival; massa persistente exige avaliação oftalmológica [1]
Criança com suspeita de maus-tratos: conferir em "Particularidades na criança" [1]
Diagnóstico
Clínico; exames geralmente desnecessários no episódio único, unilateral, sem sintomas sistêmicos nem outra alteração ocular [1]
Achados típicos [1]:
Mancha vermelha bem delimitada, plana, indolor, geralmente unilateral
Acuidade visual preservada
Sem dor, fotofobia, secreção ou quemose
Mais comum na região temporal inferior
Evolução esperada [1]:
Vermelho vivo nos primeiros dias
Muda para arroxeado, acastanhado ou amarelo-esverdeado, como um hematoma de pele
Resolução em 1 a 2 semanas na maioria; pode demorar mais em hemorragia extensa, idoso ou paciente anticoagulado
Causas [1]:
Traumática, mais comum em jovens e na criança: trauma ocular direto, corpo estranho, ato de coçar os olhos com força, uso inadequado de lente de contato, cirurgia ou injeção ocular
Espontânea, mais comum em idosos:
Aumento súbito da pressão venosa (manobra de Valsalva): tosse, vômito, espirro, constipação, esforço físico, levantamento de peso
Hipertensão arterial, o fator sistêmico mais consistente
Anticoagulantes (varfarina, heparina) e antiagregantes (ácido acetilsalicílico, clopidogrel), mesmo com INR na faixa terapêutica
Trombocitopenia e outras discrasias sanguíneas
Diferenciais [1]:
Conjuntivite: hiperemia difusa, não confluente, com secreção e algum desconforto; viral costuma ser bilateral
Episclerite: hiperemia localizada, sem limites nítidos, com desconforto leve
Esclerite: coloração violácea e dor importante à palpação
Hiperemia ciliar (ao redor da córnea): sugere uveíte, glaucoma agudo ou ceratite
Hifema: sangue dentro da câmara anterior, com nível líquido
Lesão vascular ou tumoral da conjuntiva: persiste além do tempo de resolução e pode ser nodular ou elevada
Investigação
Pressão arterial: medir em todo paciente com hemorragia espontânea ou recorrente; pressão elevada na apresentação e persistente no seguimento sugere hipertensão (conferir o protocolo Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)) [1]
Antitrombótico [1]:
Verificar adesão, mudança recente de dose e sangramento em outros locais
Varfarina: dosar INR
Exames (hemograma, TP, TTPa e INR), se qualquer um [1]:
Recorrência
Hemorragia bilateral
Equimoses, gengivorragia, epistaxe ou sangramento de mucosas
Idoso ou paciente com múltiplas comorbidades com hemorragia espontânea
História pessoal ou familiar de coagulopatia
Conduta
Tranquilizar e orientar [1]:
Condição benigna, superficial, que não ameaça a visão
Mudança de cor ao longo dos dias é esperada
Resolução em 1 a 2 semanas
Medidas [1]:
Evitar coçar os olhos, esforço intenso e manobra de Valsalva
Tratar gatilhos, como tosse, vômito e constipação
Lente de contato: suspender até a resolução
Lágrima artificial, se irritação; não acelera a resolução (conferir em "Lágrima artificial")
Não indicados [1]:
Corticoide tópico
Antibiótico tópico, salvo conjuntivite associada
Hipertensão ou antitrombótico [1]:
Controlar a pressão arterial nos casos recorrentes ou extensos
Manter o antitrombótico na hemorragia isolada
Ajuste do antitrombótico só em conjunto com o médico assistente ou cardiologista, nos casos recorrentes
Orientar retorno imediato se qualquer um [1]:
Baixa visual
Dor ou edema progressivos
Alteração da movimentação ocular
Secreção
Nova hemorragia, hemorragia bilateral ou sangramento em outros locais
Atletas e pessoas com maior risco de trauma ocular: óculos de proteção [1]
Lágrima artificial
Indicação: irritação ou sensação de areia associada [1]
Esquemas [1][2][3]:
Carmelose Sódica (colírio) (Fresh Tears®) sol. oft. 0,5% (frasco 5, 10 ou 15 mL)
1 a 2 gotas no olho afetado, quantas vezes forem necessárias
Administração: via oftálmica; não encostar a ponta do frasco nos olhos, nos dedos ou em outras superfícies; manter fechado após o uso
Dextrana 70 + hipromelose (Lacrima Plus®) sol. oft. 0,1% + 0,3% (frasco 15 mL)
1 a 2 gotas no olho afetado, quantas vezes forem necessárias
Administração: via oftálmica, no saco conjuntival; não encostar a ponta do frasco nos olhos
Considerações:
Carmelose (Fresh Tears®): uso adulto; Dextrana 70 + hipromelose (Lacrima Plus®): uso adulto e pediátrico [2][3]
💊 Como prescrever?
Lágrima artificial [1][2]:
Carmelose Sódica (colírio) (Fresh Tears®) sol. oft. 0,5% (frasco 5, 10 ou 15 mL)
1 a 2 gotas no olho afetado, quantas vezes forem necessárias
Administração: via oftálmica; não encostar a ponta do frasco nos olhos, nos dedos ou em outras superfícies; manter fechado após o uso
Dextrana 70 + hipromelose (Lacrima Plus®) sol. oft. 0,1% + 0,3% (frasco 15 mL)
1 a 2 gotas no olho afetado, quantas vezes forem necessárias
Administração: via oftálmica, no saco conjuntival; não encostar a ponta do frasco nos olhos
Particularidades na criança
Trauma responde pela grande maioria dos casos; investigar o mecanismo [1]
Suspeitar de maus-tratos se qualquer um [1]:
Lactente com hemorragia bilateral isolada, sobretudo com petéquias faciais
Hemorragia bilateral ou com hemorragia retiniana, equimoses ou fraturas
Hemorragia bilateral também ocorre em asfixia traumática, inclusive estrangulamento [1]
Hemorragia recorrente com petéquias, epistaxe ou sangramento de mucosa: investigar púrpura trombocitopênica imune, leucemia e outros distúrbios hemorrágicos [1]
Recém-nascido após parto vaginal: hemorragia localizada, sem coagulopatia associada [1]
Fora dessas situações, a avaliação na criança é limitada e não exige exames [1]
Referências
[1] ZEPPIERI, Marco; NOOHANI, Tariq. Subconjunctival Hemorrhage. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025. Atualizado em 15 set. 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK551666/. Acesso em: 22 out. 2026.
[2] ALLERGAN PRODUTOS FARMACÊUTICOS. Fresh Tears® (carmelose sódica): solução oftálmica 5 mg/mL. Bula para o profissional de saúde.
[3] NOVARTIS BIOCIÊNCIAS. Lacrima® Plus (dextrana 70 + hipromelose): solução oftálmica 1,0 mg/mL + 3,0 mg/mL. Bula para o profissional de saúde. Aprovada pela Anvisa em 01/09/2021.
[4] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 10ª revisão (CID-10). Capítulo VII: Doenças do olho e anexos (H00-H59). Versão em português, DATASUS.
Autoria e Curadoria
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