Trauma Ocular (Adulto e Criança)
CID-10: S05.1 Contusão do globo ocular e dos tecidos da órbita
CID-10: S05.5 Ferimento penetrante do globo ocular com corpo estranho
CID-10: S05.6 Ferimento penetrante do globo ocular sem corpo estranho
CID-10: S02.3 Fratura do assoalho orbital
Introdução
Trauma ocular é a lesão mecânica do olho e dos anexos. No trauma contuso, não penetrante, qualquer estrutura do olho pode ser atingida [1]. No globo aberto, a parede do olho se rompe por impacto contuso (ruptura) ou é atravessada por objeto (penetração, perfuração ou laceração); é uma urgência que exige diagnóstico e tratamento imediatos [2].
O trauma também pode causar hifema, que é sangue na câmara anterior [5], fratura da órbita, com aprisionamento de músculo e diplopia [6], e hematoma retrobulbar, que eleva a pressão intraocular e ameaça a visão em horas [1].
O trauma contuso responde por até 70% das lesões oculares não penetrantes atendidas em emergência, e 70% a 85% dos casos ocorrem no sexo masculino [1]. A distribuição tem dois picos: crianças e adolescentes de 5 a 18 anos e homens adultos jovens de 18 a 40 anos [1]. Na ruptura do globo, objetos cortantes como tesoura são a causa mais provável na criança, quase sempre em casa; no adulto, acidente de trabalho, agressão e acidente de trânsito; no idoso, queda da própria altura [2].
🔑 Pontos-chave:
Na suspeita de globo aberto, não pressionar o olho, não forçar a abertura das pálpebras e não retirar objeto cravado: proteger com protetor rígido e encaminhar com urgência [2][3]
Dor ou queda da visão após trauma: suspeitar de globo aberto [2]
Ausência de sinal externo não exclui lesão interna grave [1]
Proptose com dor intensa e queda da visão após trauma sugere hematoma retrobulbar: emergência, com descompressão imediata; o prognóstico piora após 4 horas [1]
Todo hifema precisa de avaliação oftalmológica; evitar anti-inflamatório não esteroide e ácido acetilsalicílico [1][5]
Martelada de metal contra metal ou trauma sem óculos de proteção: suspeitar de corpo estranho intraocular [3]
Criança com fratura de órbita pode ter olho branco, sem sinal externo de trauma [6]
Na criança pequena, considerar maus-tratos [1][5]
🎯 Fluxograma de manejo
![O fluxograma organiza o primeiro atendimento do trauma ocular contuso ou penetrante, no adulto e na criança. Começa no trauma ocular contuso ou penetrante e segue para a avaliação inicial: avaliar e tratar primeiro as lesões com risco de vida; acuidade visual em cada olho, sem manipular o globo; lanterna para pupila, câmara anterior e motilidade; na criança pequena, considerar maus-tratos; conferir em Diagnóstico. A primeira pergunta é se há qualquer um destes achados: queda da visão; pupila em gota ou desviada; câmara anterior rasa; contorno irregular do globo; saída de líquido pela ferida; objeto cravado; metal contra metal ou trauma sem óculos de proteção. Se sim, suspeita de globo aberto: não pressionar o olho, não forçar as pálpebras e não retirar objeto cravado; protetor rígido (NHS, StatPearls) ou curativo não compressivo (Ministério da Saúde); jejum, cabeceira a 30 graus, evitar tosse e esforço; analgésico, antiemético se náuseas ou vômitos e verificar a vacina antitetânica; conferir em Conduta; em seguida, encaminhar com urgência à oftalmologia, avisando o serviço de destino. Se não, pergunta-se se há proptose com dor intensa ou queda da visão. Se sim, suspeita de hematoma retrobulbar: emergência; analgésico e antiemético; descompressão por cantotomia pelo médico da emergência ou pelo oftalmologista; o prognóstico piora após 4 horas; conferir em Conduta; em seguida, encaminhamento com urgência à oftalmologia. Se não, pergunta-se se há sangue na câmara anterior (hifema). Se sim: protetor rígido, cabeceira elevada e repouso relativo; analgesia com paracetamol por via oral, sem anti-inflamatório não esteroide nem ácido acetilsalicílico; não suspender anticoagulante sem o médico que o prescreveu; conferir em Conduta; em seguida, encaminhamento com urgência à oftalmologia. Se não, pergunta-se se há qualquer um destes achados: diplopia ou limitação ao olhar para cima; dor ou degrau na borda infraorbitária; hipoestesia abaixo da órbita; enfisema subcutâneo. Se sim, suspeita de fratura de órbita: tomografia, não assoar o nariz e encaminhar precocemente ao oftalmologista ou ao especialista em órbita; na criança, a fratura em alçapão pode ter olho branco; conferir em Conduta. Se não, pergunta-se se há baixa da acuidade visual ou outra lesão ocular significativa. Se sim, encaminhar com urgência à oftalmologia e avisar o serviço de destino. Se não, trauma contuso sem sinal de gravidade: pelo NHS Scotland, manejo conservador, analgésico simples, compressa fria no edema palpebral e anti-inflamatório não esteroide só após excluir hifema; pela SESA-ES, laceração palpebral ou erosão corneana são encaminhadas à urgência; conferir em Conduta. Ao final, orientar retorno se surgirem moscas volantes ou flashes novos, visão borrada súbita ou dor intensa, e manter o seguimento mesmo com o olho de aparência normal. Abreviações: AAS, ácido acetilsalicílico; AINE, anti-inflamatório não esteroide; VO, via oral. Fonte: referências [1], [2], [3], [4], [5], [6], [7] e [8] do artigo.](https://assets.gpmed.app/treatments/1793147231030_fdda1861.png)
Sinais de alarme e encaminhamento
Emergência oftalmológica, se qualquer um [1][2][4][5]:
Suspeita de globo aberto (ruptura ou perfuração)
Suspeita de hematoma retrobulbar
Hifema
Lesão ocular significativa ou suspeita de acometimento da órbita ou do segmento posterior
Ministério da Saúde [7]:
Trauma com suspeita de perfuração ocular: encaminhar com urgência ao serviço de oftalmologia
Trauma contuso com baixa da acuidade visual: encaminhar com urgência ao oftalmologista, pela possibilidade de descolamento de retina
SESA-ES [8]:
Atendimento imediato no serviço de urgência oftalmológica, fora da regulação, se qualquer um: laceração palpebral, fratura orbitária, perfuração ocular suspeita ou confirmada, erosão corneana suspeita ou confirmada
Fratura de órbita: encaminhamento precoce ao oftalmologista ou ao especialista em órbita [6]; NHS Scotland: suspeita de lesão facial associada, encaminhar também à cirurgia bucomaxilofacial [4]
Aviso ao serviço de destino: comunicar a urgência e avisar o serviço que vai receber o paciente [3][4]
Diagnóstico
História [2][3][4][8]:
Mecanismo e horário do trauma [4]
Natureza, tamanho e velocidade de qualquer corpo estranho [3]
Acidente com material pontiagudo ou capaz de perfurar o olho, acidente de trabalho, doméstico ou de trânsito, agressão [8]
Uso de anticoagulante, distúrbio de coagulação ou doença falciforme [5]
Suspeita de corpo estranho intraocular, se qualquer um [3]:
Metal batendo em metal
Trauma sem óculos de proteção
Exame na atenção primária [1][2][8]:
Prioridade: avaliar e tratar primeiro as lesões com risco de vida [2]
Acuidade visual em cada olho, sem manipular o globo [1]
Inspeção com lanterna e motilidade ocular [8]
Pupila: forma e reação à luz [2]
Câmara anterior: sangue (hifema) forma uma meia-lua no polo inferior da íris [7]
Na suspeita de globo aberto, não pressionar o olho: sem tonometria e sem everter as pálpebras [2]
Sinais de globo aberto [1][2][7]:
Queda da visão ou perda visual completa
Pupila em gota ou desviada
Câmara anterior rasa
Hifema
Contorno irregular do globo
Saída de humor aquoso pela ferida, nos casos mais graves [7]
Teste de Seidel: contraindicado na ruptura evidente; o globo pode estar aberto mesmo com teste negativo [2]
Hematoma retrobulbar [1][5]:
Proptose e dor ocular intensa, com ou sem queda da visão [1]
Defeito pupilar aferente e resistência à retropulsão do olho [5]
Fratura do assoalho da órbita, se qualquer um, indicar tomografia [6]:
Diplopia ou limitação ao olhar para cima
Dor ou degrau na borda infraorbitária
Reflexo pupilar ausente ou baixa acuidade visual
Quemose, hemorragia subconjuntival, edema e equimose periorbitária
Hipoestesia abaixo da órbita, que pode se estender à região nasolabial
Enfisema subcutâneo, sinal de fratura do seio maxilar
Ausência de sinal externo: hematoma, vermelhidão, sangramento ou pupila deformada podem faltar mesmo com lesão interna grave [1]
Diagnóstico diferencial [3][4]:
Celulite pré-septal; conferir o protocolo Celulite Periorbitária e Orbital
Queimadura química; conferir o protocolo Queimadura Química Ocular (Adulto e Criança)
Conduta
Suspeita de globo aberto [2][3]:
Encaminhar com urgência ao oftalmologista; primeiros socorros, sem outra intervenção [2][3]
Não fazer [2][3]:
Não pressionar o olho
Não forçar a abertura das pálpebras
Não retirar objeto cravado no olho; a retirada é feita na cirurgia
Não recolocar tecido que esteja saindo pela ferida
Proteção do olho:
NHS Scotland e StatPearls: protetor rígido de plástico, sem tampão [1][2][3]
Ministério da Saúde: curativo não compressivo e orientar o paciente a não comprimir o olho [7]
SESA-ES: oclusão sem compressão [8]
Jejum, para cirurgia o mais breve possível; um pouco de água para tomar medicamento [2][3][8]
Evitar tosse e esforço; paciente semissentado, com cabeceira a 30 graus [1][2][3]
Analgesia [1][3][8]: por exemplo, dipirona ou paracetamol; conferir o protocolo Manejo da Dor no Adulto
Antiemético, se náuseas ou vômitos, sem atrasar o encaminhamento: o vômito aumenta a pressão no olho e pode agravar a lesão [1][3][8]; por exemplo, metoclopramida ou ondansetrona; conferir o protocolo Náuseas e Vômitos no Adulto
Tétano: verificar a situação vacinal; o globo aberto é ferimento com risco de tétano, e o reforço é indicado se a vacinação for incerta ou incompleta [2][3][8]; conferir o protocolo Profilaxia do Tétano
Colírio anestésico: só para o exame [3]
Hematoma retrobulbar [1]:
Emergência oftalmológica, com analgesia e antiemético
Tratamento: descompressão imediata por cantotomia lateral e cantólise inferior, feita pelo médico da emergência ou pelo oftalmologista se a avaliação oftalmológica não for imediata
O resultado visual piora quando a descompressão passa de 4 horas do início dos sintomas
Hifema [1][5]:
Antes, excluir globo aberto e hematoma retrobulbar [5]
Protetor rígido sobre o olho e avaliação oftalmológica com urgência [5]
Cabeceira elevada o tempo todo e repouso relativo [5]
Evitar anti-inflamatório não esteroide e ácido acetilsalicílico nos primeiros 5 dias: aumentam o sangramento; analgesia com paracetamol [1]
Considerar antiemético para prevenir náuseas e vômitos [5]
Não suspender anticoagulante ou antiagregante sem falar com o médico que o prescreveu [5]
Colírio cicloplégico, corticoide e hipotensor: indicados e acompanhados pelo oftalmologista [5]
Fratura de órbita [6]:
Encaminhar precocemente ao oftalmologista ou ao especialista em órbita
Orientar a não assoar o nariz e evitar esforço, que pioram o enfisema da órbita
Antibiótico profilático e corticoide: neste protocolo, indicados no serviço de referência
Trauma contuso sem sinal de gravidade:
NHS Scotland [4]:
Manejo conservador costuma bastar; encaminhamento em geral desnecessário se não houver lesão ocular significativa e os sintomas estiverem melhorando
Analgésico simples; anti-inflamatório não esteroide oral se houver edema importante de partes moles
Compressa fria no edema palpebral
StatPearls: evitar anti-inflamatório não esteroide até excluir hifema [1]
Ministério da Saúde: baixa da acuidade visual, encaminhar com urgência [7]
SESA-ES: laceração palpebral, fratura orbitária, perfuração ou erosão corneana, encaminhar ao serviço de urgência [8]
Abrasão de córnea associada: conferir o protocolo Corpo estranho ocular e abrasão de córnea
Orientação na alta [1]:
O descolamento de retina pode surgir semanas após o trauma
Retornar se houver moscas volantes ou flashes novos, visão borrada súbita, dor ou vermelhidão intensas, falha no campo visual ou halos ao redor das luzes
Manter o seguimento mesmo com o olho de aparência normal
Usar óculos de proteção em esportes e no trabalho; nas pessoas de alto risco, lentes de policarbonato o tempo todo [1][10]
Particularidades na criança
Maus-tratos [1][5]:
Trauma não acidental é causa importante de trauma ocular no lactente e na criança pequena [1]
Hifema sem trauma relatado, sem cirurgia ocular e sem outra causa: considerar maus-tratos [5]
Suspeita de abuso sexual: conferir o protocolo Violência / abuso sexual
Globo aberto: na criança, tesoura e outros objetos cortantes são a causa mais provável, quase sempre em casa [2]
Fratura de órbita em alçapão [6]:
O assoalho volta ao lugar e pode prender o tecido da órbita
Pode haver pouco ou nenhum sinal externo: fratura de olho branco
Instabilidade de sinais vitais com fratura em alçapão exige cirurgia imediata
Hifema: risco de ambliopia abaixo de 7 a 10 anos; a idade com risco de ambliopia pode indicar internação [5]
Analgesia e antiemético: conferir os protocolos Manejo da Dor em Pediatria e Náuseas e Vômitos em Pediatria
Referências
[1] MOHSENI, Michael; GURNANI, Bharat; BLAIR, Kyle. Blunt Eye Trauma. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. Atualizado em 21 fev. 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK470379/. Acesso em: 27 out. 2026.
[2] BLAIR, Kyle; ALHADI, Sameir A.; CZYZ, Craig N. Globe Rupture. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. Atualizado em 1 mar. 2024. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK551637/. Acesso em: 27 out. 2026.
[3] NHS SCOTLAND. Eyecare Guidelines. 5.15 Penetrating Injury, Corneal; 3.17 Penetrating Injury, Conjunctiva; 4.2 Penetrating Injury, Sclera/Episclera; 1.12 Penetrating Injury, Eyelid. Revisão em 21 set. 2026. Disponível em: https://www.eyes.nhs.scot/eyecare-guidelines/section-5-corneal/515-penetrating-injury-corneal/. Acesso em: 27 out. 2026.
[4] NHS SCOTLAND. Eyecare Guidelines. 5.1 Blunt Trauma. Revisão em 21 set. 2026. Disponível em: https://www.eyes.nhs.scot/eyecare-guidelines/section-5-corneal/51-blunt-trauma/. Acesso em: 27 out. 2026.
[5] HYDE, Monika R.; BLAIR, Kyle. Hyphema. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. Atualizado em 14 set. 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK507802/. Acesso em: 27 out. 2026.
[6] KOENEN, Lukas; WASEEM, Muhammad. Orbital Floor Fracture. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2023. Atualizado em 15 dez. 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK534825/. Acesso em: 27 out. 2026.
[7] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Acolhimento à demanda espontânea: queixas mais comuns na Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica, n. 28, v. II. 1. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Cap. 2.22, Urgências oftalmológicas: "olho vermelho". Disponível em: https://sites.usp.br/guiacseb/wp-content/uploads/sites/943/2023/02/caderno28.pdf.
[8] ESPÍRITO SANTO. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de Oftalmologia: Autorregulação Formativa Territorial. Vitória, 2021. Disponível em: https://saude.es.gov.br/Media/sesa/Publicações%20em%20PDF/ARFT%20Oftalmologia%20site.pdf.
[9] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 10ª revisão (CID-10). Capítulo VII: Doenças do olho e anexos (H00-H59); Capítulo XIX: Lesões, envenenamento e algumas outras consequências de causas externas (S00-T98). Versão em português, DATASUS.
[10] MAHAN, Marielle; GURNANI, Bharat; PURT, Boonkit. Ocular Trauma Prevention Strategies and Patient Counseling. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. Atualizado em 24 jun. 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK580537/. Acesso em: 27 out. 2026.
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