Violência / abuso sexual
CID-10: T74.2 — Abuso sexual
CID-10: Y05 — Agressão sexual por meio de força física
CID-10: Z04.4 — Exame e observação após alegado estupro
Introdução
O atendimento à pessoa em situação de violência sexual deve ser imediato, sigiloso, livre de julgamentos e centrado no consentimento.
A assistência em saúde não depende de boletim de ocorrência, exame pericial ou autorização policial. As prioridades são estabilização clínica, acolhimento, tratamento de lesões, prevenção de gravidez e IST, coleta de vestígios quando consentida, notificação compulsória e articulação com a rede de proteção.
A PEP para HIV deve ser iniciada preferencialmente nas primeiras horas e, no máximo, até 72 horas após a exposição.
Fluxograma

Acolhimento
Realizar atendimento em ambiente privativo, com acompanhante de escolha da pessoa atendida quando desejado. Evitar repetição desnecessária do relato e registrar no prontuário, preferencialmente entre aspas, as informações relevantes fornecidas espontaneamente.
Avaliar inicialmente:
Estabilidade hemodinâmica, nível de consciência e necessidade de atendimento de emergência;
Data e horário da violência; tipo de contato sexual; uso de preservativo; ejaculação; número de agressores; uso de objetos; possível exposição a sangue;
Possibilidade de gestação prévia ou atual;
Uso de contraceptivos, vacinação contra hepatite B, alergias e medicamentos em uso;
Risco de autoagressão, ideação suicida, ameaça atual e possibilidade de retorno seguro ao domicílio;
Necessidade de acionamento imediato de serviço social, psicologia, rede de proteção ou segurança institucional.
Exame físico e tratamento de lesões
Realizar exame físico completo, respeitando o consentimento em cada etapa. O exame genital, anal ou oral deve ser direcionado pela história e pelos sintomas; não deve ser compulsório.
Documentar:
Escoriações, equimoses, lacerações, mordeduras, sangramento e dor;
Lesões em região genital, perineal, anal e oral;
Sinais de estrangulamento, trauma craniano, trauma abdominal ou lesões que demandem avaliação cirúrgica;
Estado emocional, dissociação, agitação, sedação ou risco de suicídio.
Tratar ferimentos, atualizar profilaxia antitetânica conforme situação vacinal e indicar analgesia, sutura, antibiótico ou encaminhamento cirúrgico conforme a gravidade.
Coleta de vestígios e exame pericial
A coleta de vestígios deve ser ofertada quando houver possibilidade de interesse pericial, mas não deve atrasar medidas clínicas urgentes, especialmente PEP para HIV, contracepção de emergência e tratamento de lesões.
A pessoa atendida pode recusar a coleta, o exame no Instituto Médico-Legal (IML) e o registro policial. A recusa não impede atendimento, profilaxias, notificação compulsória ou seguimento em saúde.
Quando disponível, coletar vestígios conforme protocolo institucional, com cadeia de custódia adequada. Evitar orientar banho, troca de roupas ou descarte de roupas antes da avaliação pericial quando a pessoa desejar registrar ocorrência; entretanto, essas situações não contraindicam nem inviabilizam o atendimento.
Contracepção de emergência
Levonorgestrel 0,75 ou 1,5 mg
Tomar 1 cp (de 1,5mg) ou 2cp (de 0,75mg), dose única
Até 5 dias pós evento
Observação:
Indicado para pacientes que não fazem uso de método contraceptivo eficaz
Se possível, realizar teste rápido de gravidez previamente
Conduta detalhada em Contracepção de emergência
Profilaxia de IST virais
HIV (até 72 horas)
Considerações e indicação:
A exposição ao HIV constitui urgência médica. A PEP deve ser iniciada o mais precocemente possível, com limite de 72 horas após a exposição, e mantida por 28 dias. Após 72 horas, não há indicação de iniciar PEP para HIV.
Indicar PEP quando houver, simultaneamente:
exposição a material biológico com risco de transmissão, como sangue, sêmen ou fluidos vaginais;
exposição de risco, incluindo relação sexual desprotegida com contato de mucosa, exposição percutânea ou contato com pele não íntegra;
menos de 72 horas desde a exposição;
pessoa exposta sem diagnóstico prévio de HIV.
A ejaculação não é requisito obrigatório para indicação da PEP. Nos casos em que o status da pessoa-fonte for desconhecido, a decisão deve considerar o tipo e a gravidade da exposição e o risco epidemiológico, sem atrasar o início da PEP enquanto se aguarda investigação da fonte.
Realizar teste rápido para HIV no atendimento inicial. O resultado da pessoa-fonte não deve retardar o início da profilaxia quando esta estiver indicada.
Esquema preferencial
Esquema: Tenofovir + lamivudina + Dolutegravir
Este é o esquema preferencial atual do Ministério da Saúde.
Tenofovir + lamivudina comp. 300 mg + 300 mg
Tomar 01 cp por via oral, 1x/dia, por 28 dias.
Dolutegravir comp. 50 mg
Tomar 01 cp por via oral, 1x/dia, por 28 dias.
Esquema em gestantes:
Esquema:
Opção 1: Tenofovir + Lamivudina + Dolutegravir
Opção 2: Tenofovir + Lamivudina + Darunavir + Ritonavir (esquema indicado se intolerância ou contraindicação ao dolutegravir)
Considerações:
Não é necessário substituir o dolutegravir em razão da idade gestacional.
O esquema acima é considerado como preferencial para pessoas gestantes, inclusive no período periconcepcional e no primeiro trimestre.
Não utilizar como rotina os antigos esquemas diferenciados por trimestre com atazanavir/ritonavir ou raltegravir.
Tenofovir + lamivudina comp. 300 mg + 300 mg
Tomar 01 cp por via oral, 1x/dia, por 28 dias.
Dolutegravir comp. 50 mg
Tomar 01 cp por via oral, 1x/dia, por 28 dias.
O Ministério da Saúde considera o dolutegravir preferencial em qualquer idade gestacional; as evidências atuais não demonstram aumento do risco de defeitos do tubo neural com seu uso no período periconcepcional ou no primeiro trimestre.
Darunavir comp. 600 mg
Tomar 01 cp por via oral, de 12/12h, durante o período indicado para PEP.
Ritonavir comp. 100 mg
Tomar 01 cp por via oral, de 12/12h, durante o período indicado para PEP.
Hepatite B
Considerações e indicação:
Avaliar no primeiro atendimento:
histórico vacinal para hepatite B;
documentação das doses recebidas;
HBsAg da pessoa exposta;
quando possível, HBsAg da pessoa-fonte.
Pessoas não vacinadas, com vacinação incompleta ou sem documentação de vacinação, e sem evidência de infecção atual pelo HBV, devem iniciar ou completar a vacinação. A primeira dose deve ser administrada preferencialmente no primeiro atendimento e dentro das primeiras 24 horas.
Vacina contra hepatite B
Vacina hepatite B (recombinante) suspensão injetável
Aplicar 01 dose por via intramuscular no primeiro atendimento e completar o esquema conforme histórico vacinal.Para adultos sem esquema completo, o Calendário Nacional de Vacinação 2026 recomenda 3 doses, com intervalo recomendado de:
1ª dose: momento inicial;
2ª dose: 1 mês após a primeira;
3ª dose: 6 meses após a primeira.
Não reiniciar esquemas previamente iniciados: completar as doses faltantes conforme histórico vacinal.
Imunoglobulina humana anti-hepatite B — IGHAHB
Em situações de violência sexual, indicar IGHAHB para pessoas presumidamente suscetíveis quando houver exposição a pessoa:
com HBsAg reagente; ou
considerada potencial portadora do HBV ou pertencente a grupo de alto risco para infecção pelo HBV.
Administrar o mais precocemente possível, preferencialmente nas primeiras 24 horas, podendo ser utilizada até 14 dias após a exposição sexual.
Imunoglobulina humana anti-hepatite B solução injetável
Aplicar 0,06 mL/kg, IM, em dose única, com dose máxima total de 5 mL.
Administrar em local anatômico diferente daquele utilizado para a vacina contra hepatite B. Vacina e IGHAHB podem ser administradas simultaneamente.
Exemplos:
50 kg → 3 mL IM, dose única.
70 kg → 4,2 mL IM, dose única.
90 kg → cálculo de 5,4 mL, porém administrar no máximo 5 mL.
A vacina contra hepatite B e a IGHAHB podem ser utilizadas durante a gestação, independentemente da idade gestacional, e durante o aleitamento.
Atenção:
Esquema vacinal completo com resposta adequada documentada (anti-HBs ≥10 mUI/mL): não é necessária profilaxia adicional para hepatite B.
Vacinação incompleta: completar o esquema; avaliar necessidade de IGHAHB conforme status/risco da pessoa-fonte.
HBsAg reagente na pessoa exposta: não se trata de indicação de profilaxia vacinal para aquela exposição; investigar e acompanhar a infecção pelo HBV.
Hepatite C: não existe vacina, imunoglobulina ou medicamento recomendado como PEP. Realizar investigação e seguimento laboratorial.90kg: Aplicar 2,7 ml IM, em cada glúteo (total: 5,4 ml)
Profilaxia de IST não virais
Considerações:
A profilaxia preemptiva das IST não virais é recomendada independentemente da presença de sinais ou sintomas nas pessoas em situação de violência sexual, devido ao risco de transmissão e de perda de seguimento. Deve ser realizada o mais precocemente possível, preferencialmente no atendimento inicial.
Não há mais um limite de 14 dias para início da profilaxia das IST não virais. Segundo a Nota Técnica nº 222/2025 do Ministério da Saúde, o tratamento preventivo pode ser realizado mesmo após esse período e, quando necessário para melhorar a adesão, pode ser postergado.
O esquema contempla profilaxia para:
sífilis;
gonorreia;
infecção por Chlamydia trachomatis;
tricomoníase.
Adultos e adolescentes > 45 kg
Sífilis
Penicilina G benzatina pó inj. 1.200.000 UI
Aplicar 1.200.000 UI IM em cada glúteo, em dose única.
Dose total: 2.400.000 UI.
A dose única é utilizada para profilaxia após violência sexual e também corresponde ao tratamento da sífilis recente.
Gonorreia e infecção por clamídia
Esquema: Ceftriaxona + Azitromicina
Ceftriaxona pó para solução injetável 500 mg
Aplicar 500 mg IM, em dose única.
Azitromicina comp. 500 mg
Tomar 02 cp VO, em dose única.
Dose total: 1 g.
Observações:
Gestação: não reduzir a dose da ceftriaxona para 250 mg. A recomendação atual mantém ceftriaxona 500 mg IM, dose única + azitromicina 1 g VO, dose única.
Tricomoníase
Metronidazol comp. 400mg ou 250mg
Tomar 2 g VO, em dose única.
Observações:
O Ministério da Saúde recomenda postergar o metronidazol quando houver uso concomitante de contracepção de emergência ou antirretrovirais.
Gestação: não prescrever metronidazol para profilaxia no primeiro trimestre.
Crianças e adolescentes < 45 kg
Sífilis
Penicilina G benzatina pó inj. 1.200.000 UI
Aplicar 50.000 UI/kg IM, em dose única.
Dose máxima total: 2.400.000 UI.
Na prática:
10 kg → 500.000 UI IM, dose única;
20 kg → 1.000.000 UI IM, dose única;
40 kg → 2.000.000 UI IM, dose única.
Gonorreia e infecção por clamídia
Esquema: Ceftriaxona + Azitromicina
Ceftriaxona pó injetável 250mg ou 500mg
Aplicar 125 mg IM, em dose única.
Azitromicina suspensão oral 200 mg/5 mL
Administrar 20 mg/kg VO, em dose única.
Dose máxima total: 1 g.
Para a apresentação de 200 mg/5 mL:
Volume (mL) = peso (kg) ÷ 2
Exemplos:
10 kg → 5 mL VO, dose única;
20 kg → 10 mL VO, dose única;
40 kg → 20 mL VO, dose única.
Tricomoníase
Metronidazol susp. oral 40 mg/mL, comp. 250mg ou 400mg
Administrar 15 mg/kg/dia VO, divididos em 3 doses, a cada 8 horas, por 7 dias.
Dose diária máxima: 2 g.
Testagem associada à profilaxia
No primeiro atendimento, realizar:
teste rápido para sífilis;
pesquisa de C. trachomatis e N. gonorrhoeae por teste de biologia molecular, quando disponível;
coletar amostras de acordo com os sítios envolvidos na exposição: vaginal, anal e/ou orofaríngeo.
Se os testes para clamídia e gonococo forem negativos inicialmente, repetir em 4 a 6 semanas após a exposição.
Se o teste rápido para sífilis for reagente
A conduta deixa de ser apenas profilática.
Na ausência de diagnóstico prévio adequadamente documentado, o Ministério da Saúde orienta iniciar tratamento como sífilis latente tardia:
Penicilina G benzatina pó inj. 1.200.000 UI
Aplicar 2.400.000 UI IM, 1 vez por semana, por 3 semanas.
Coletar simultaneamente teste não treponêmico. A primeira dose deve ser aplicada no atendimento inicial. Se o teste não treponêmico resultar não reagente, reavaliar a necessidade de continuidade conforme o protocolo e histórico clínico.
Hipersensibilidade aos antimicrobianos
Em pessoas com história de hipersensibilidade grave aos antimicrobianos do esquema preferencial:
caracterizar o tipo e a gravidade da reação alérgica;
realizar testagem etiológica para as IST quando disponível;
individualizar o esquema conforme o agente que precisa ser coberto;
discutir com infectologia, pediatria, ginecologia ou serviço de referência quando houver alergia imediata grave ou impossibilidade de utilizar o esquema recomendado.
Na gestante com sífilis diagnosticada e alergia confirmada à penicilina, a penicilina permanece o tratamento de escolha; deve-se realizar dessensibilização em ambiente apropriado.
Coleta de exames
Teste de gravidez
Hemograma (controle 28 dias, devido TARV)
Ureia, Creatinina e Urina 1
TGO, TGP (controle 28 dias, devido TARV)
VDRL (controle 45 e 90 dias)
Anti-HCV, anti-HBs, HbsAg, Anti-HBc (controle 180 dias)
Anti-HIV (controle 90 e 180 dias)
Coleta de secreção vaginal e endocervical
Coletar provas para o IML, por meio de dois SWABs ou similar, acondicionado em papel filtro estéril e mantido em envelope lacrado em ambiente climatizado
Notificação e comunicação às autoridades
Considerações:
A violência sexual é agravo de notificação compulsória imediata, devendo ser registrada no SINAN em até 24 horas, conforme fluxos de vigilância locais. A notificação em saúde é sigilosa e tem finalidade epidemiológica, assistencial e de proteção; não substitui boletim de ocorrência.
Em casos de violência contra mulheres, a legislação brasileira determina comunicação obrigatória à autoridade policial em até 24 horas, preservando o sigilo das informações e a segurança da vítima.
Para crianças e adolescentes, a suspeita ou confirmação de violência deve ser comunicada ao Conselho Tutelar e às autoridades competentes, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Conduta prática
Preencher ficha de notificação individual de violência interpessoal/autoprovocada do SINAN.
Acionar serviço social e rede de proteção da instituição.
Comunicar Conselho Tutelar quando a vítima for criança ou adolescente.
Realizar comunicação à autoridade policial nos casos legalmente previstos, conforme fluxo institucional.
Orientar sobre possibilidade de registro de boletim de ocorrência e exame pericial.
Explicar que o atendimento de saúde e as profilaxias não dependem da decisão de registrar ocorrência.
Registrar detalhadamente em prontuário as condutas, recusas, orientações e encaminhamentos realizados.
Encaminhamentos
Encaminhar para serviço de referência em violência sexual, ginecologia, infectologia, pediatria, saúde mental e assistência social conforme necessidade clínica e disponibilidade da rede.
Indicar avaliação imediata em unidade de maior complexidade quando houver:
Instabilidade hemodinâmica;
Sangramento genital, anal ou vaginal importante;
Suspeita de lesão visceral, perfuração, trauma cranioencefálico ou estrangulamento;
Criança pequena com suspeita de penetração ou lesão genital/anal;
Risco atual de nova violência;
Ideação suicida, autoagressão, dissociação intensa ou sofrimento psíquico grave;
Necessidade de interrupção legal da gestação, quando aplicável.
Quadro-resumo

Referências
[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição de Risco à Infecção pelo HIV, IST e Hepatites Virais. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: PCDT PEP — Ministério da Saúde. Acesso em: 7 jul. 2026.
[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Profilaxia Pós-Exposição ao HIV: PEP. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: PEP — Ministério da Saúde. Acesso em: 7 jul. 2026.
[3] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: PCDT IST — Ministério da Saúde. Acesso em: 7 jul. 2026.
[4] BRASIL. Ministério da Saúde. VIVA/SINAN: vigilância de violências interpessoais e autoprovocadas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: VIVA/SINAN — Ministério da Saúde. Acesso em: 7 jul. 2026.
[5] BRASIL. Ministério da Saúde. Notificação de violências interpessoais e autoprovocadas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2017. Disponível em: Manual de notificação de violências — Ministério da Saúde. Acesso em: 7 jul. 2026.
[6] MENEZES, M. L. B. et al. Violência sexual: protocolo brasileiro para infecções sexualmente transmissíveis 2020. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, DF, v. 30, n. esp. 1, e2020834, 2021. DOI: 10.1590/S1679-4974202100005.esp1. Disponível em: Artigo sobre violência sexual e PCDT-IST. Acesso em: 7 jul. 2026.
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