Olho Seco (Adulto e Criança)
CID-10: H04.1 - Outros transtornos da glândula lacrimal
Introdução
Olho seco (síndrome do olho seco, ceratoconjuntivite seca) é um grupo de distúrbios do filme lacrimal por produção reduzida de lágrima, instabilidade do filme lacrimal ou ambos, com desconforto ocular, sintomas visuais e inflamação da superfície ocular [1]. Divide-se em deficiência aquosa e evaporativo, este último geralmente por disfunção das glândulas de meibômio; as duas formas coexistem na maioria dos pacientes [1].
É condição comum, mais frequente em mulheres e com o avanço da idade, sobretudo após a menopausa [1]. Raramente ameaça a visão, mas tem curso crônico, sem cura, com flutuação dos sintomas; o tratamento costuma ser contínuo [1].
🔑 Pontos-chave:
Olho seco com dor moderada a intensa, baixa visual, infiltrado ou úlcera de córnea: encaminhar ao oftalmologista [1]
Olho seco com boca seca: suspeitar de síndrome de Sjögren, que se associa a risco aumentado de linfoma [1]
Olho seco em homem, em paciente jovem ou em criança: investigar causa sistêmica ou local associada [1]
Revisar medicamentos: diuréticos, anti-histamínicos, anticolinérgicos, antidepressivos e isotretinoína agravam o quadro [1]
Lágrima artificial com conservante: até 4 a 6 vezes ao dia; acima disso, preferir sem conservante [1][7]
Piora no fim do dia sugere olho seco; piora pela manhã sugere blefarite [1]
Lágrima artificial isolada costuma falhar se os fatores contribuintes não forem corrigidos [1]
🎯 Fluxograma de manejo
![O fluxograma organiza o manejo do paciente com ardor, sensação de areia, visão flutuante e piora no fim do dia. Pergunta-se se há qualquer um: dor moderada a intensa; baixa visual; infiltrado ou úlcera de córnea; cicatrização conjuntival progressiva. Se sim, encaminhar ao oftalmologista (conferir em Sinais de alarme e encaminhamento). Se não, pergunta-se se há qualquer um: boca seca; dor articular, fadiga ou Raynaud; homem, paciente jovem ou criança. Se sim, investigar causa sistêmica, com anti-Ro, anti-La, fator reumatoide e FAN se houver suspeita de Sjögren (conferir em Diagnóstico), e seguir para a etapa 1. Se não, seguir direto para a etapa 1: ajustar ambiente e telas, suspender o tabagismo, rever medicamentos agravantes, tratar a blefarite e usar lágrima artificial por via oftálmica (conferir em Conduta). Com controle dos sintomas, manter o tratamento contínuo. Sem controle, etapa 2: lubrificante sem conservante por via oftálmica e gel lubrificante oftálmico à noite (conferir em Lágrima artificial). Com controle dos sintomas, manter o tratamento contínuo; sem controle, encaminhar ao oftalmologista. Abreviações: FAN, fator antinuclear. Fonte: referência [1] do artigo.](https://assets.gpmed.app/treatments/1792790583265_921e3167.png)
Sinais de alarme e encaminhamento
Ao oftalmologista, se qualquer um [1]:
Dor moderada a intensa
Baixa visual
Infiltrado ou úlcera de córnea
Cicatrização conjuntival progressiva
Ausência de resposta ao tratamento
Encaminhamento oportuno [1]:
Olho seco moderado a grave sem resposta
Suspeita de doença sistêmica (conferir em "Diagnóstico")
Ao clínico ou reumatologista: suspeita de doença autoimune ou necessidade de imunossupressão [1]
Antes de cirurgia refrativa ou de catarata: olho seco deve estar controlado; pode piorar no pós-operatório [1]
Diagnóstico
Clínico: nenhum exame isolado confirma ou exclui; teste terapêutico com lágrima artificial é válido quando outras causas de irritação foram afastadas [1]
Sintomas [1]:
Ardor, sensação de areia ou corpo estranho, irritação e lacrimejamento
Vermelhidão e secreção mucoide
Visão embaçada flutuante, fotofobia, cansaço ocular
Intolerância a lentes de contato
Piora no fim do dia
Gravidade [1]:
Leve: irritação, ardor, prurido ou embaçamento intermitente
Moderada: desconforto mais intenso e frequente; prejuízo visual mais constante
Grave: sintomas visuais frequentes ou constantes, potencialmente incapacitantes
Fatores agravantes, a identificar e corrigir [1]:
Ambiente e hábitos: baixa umidade, vento, ventilador, ar-condicionado, aquecimento, viagem de avião; uso prolongado de telas, leitura e direção; tabagismo ativo ou passivo; máscara de CPAP mal ajustada
Medicamentos sistêmicos: diuréticos, anti-histamínicos, anticolinérgicos, antidepressivos e isotretinoína; também betabloqueadores, antiarrítmicos, hormônios, quimioterápicos e dupilumabe
Colírios: qualquer colírio instilado mais de 4 vezes ao dia, pelo conservante; antiglaucomatosos com cloreto de benzalcônio
Pálpebras: blefarite, fechamento palpebral incompleto ou má posição palpebral, paralisia facial periférica
Causa sistêmica: suspeitar se qualquer um [1]:
Boca seca, cáries ou úlceras orais
Dor articular, fadiga ou fenômeno de Raynaud
Homem ou paciente jovem com olho seco
Olho seco importante com história familiar de doença autoimune
Investigação da causa sistêmica [1]:
Síndrome de Sjögren, associada a risco aumentado de linfoma: anti-Ro (SSA), anti-La (SSB), fator reumatoide e FAN; conferir o protocolo Síndrome de Sjögren
Outras causas: doenças reumatológicas, doença ocular tireoidiana, doença do enxerto contra o hospedeiro, HIV e hepatite C, deficiência de vitamina A
Conduta
Orientação: doença crônica; o tratamento alivia, mas raramente cura; combinar expectativas realistas com o paciente [1]
Etapa 1, para todos [1]:
Ambiente:
Umidificar o ar e evitar correntes de ar diretas no rosto
Óculos com proteção lateral ou câmara úmida
Telas e leitura:
Posicionar a tela abaixo do nível dos olhos
Fazer pausas regulares e piscar por completo de forma consciente
Suspender o tabagismo e evitar fumaça
Rever e, se possível, substituir medicamentos agravantes, sistêmicos e tópicos
Tratar a blefarite associada com compressa morna e higiene palpebral (conferir o protocolo Blefarite)
Lágrima artificial (conferir em "Lágrima artificial"):
Com disfunção das glândulas de meibômio, considerar lubrificante com lipídio
Etapa 2, sem controle com a etapa 1 [1]:
Lubrificante sem conservante
Gel ou pomada lubrificante à noite
Demais medidas da etapa 2 (oclusão do ponto lacrimal, ciclosporina tópica, corticoide tópico de curta duração, antibiótico oral para disfunção das glândulas de meibômio): indicação e seguimento pelo oftalmologista; o corticoide exige controle da pressão intraocular e do risco de catarata
Ômega 3 oral: sem benefício sobre placebo em 12 meses no olho seco moderado a grave [1]
Sem resposta: encaminhar ao oftalmologista (conferir em "Sinais de alarme e encaminhamento") [1]
Lágrima artificial
Escolha [1][7]:
Eficácia semelhante entre as lágrimas artificiais
Quanto mais espesso o produto (gel, pomada), maior a duração do efeito e maior o embaçamento transitório
Com conservante: adequado no olho seco leve com superfície ocular saudável
Acima de 4 a 6 vezes ao dia: preferir sem conservante
Esquemas [1][2][3][4][5][7]:
Colírio com conservante:
Carmelose Sódica (colírio) (Fresh Tears®) sol. oft. 0,5% (frasco 5, 10 ou 15 mL)
1 a 2 gotas no olho afetado, até 4 a 6 vezes ao dia
Administração: via oftálmica; não encostar a ponta do frasco nos olhos, nos dedos ou em outras superfícies; manter fechado após o uso
Carmelose Sódica (colírio) (Fresh Tears® Liquigel) sol. oft. 1% (frasco 15 mL)
1 a 2 gotas no olho afetado, até 4 a 6 vezes ao dia
Administração: via oftálmica; não encostar a ponta do frasco nos olhos, nos dedos ou em outras superfícies; manter fechado após o uso
Dextrana 70 + hipromelose (Lacrima Plus®) sol. oft. 0,1% + 0,3% (frasco 15 mL)
1 a 2 gotas no olho afetado, até 4 a 6 vezes ao dia
Administração: via oftálmica, no saco conjuntival; não encostar a ponta do frasco nos olhos
Colírio sem conservante:
Carmelose Sódica (colírio) + glicerol + hialuronato de sódio (Optive® UD) sol. oft. (flaconete 0,4 mL, caixas com 5, 10, 20 ou 30)
1 a 2 gotas nos olhos, quantas vezes forem necessárias
Administração: via oftálmica; usar logo após abrir e descartar o flaconete após o uso; com outros colírios, intervalo de 5 minutos
Gel:
Carbômer + sorbitol (Liposic®) gel oft. 2 mg/g + 48,5 mg/g (bisnaga 10 g)
1 gota no saco conjuntival, 3 a 5 vezes ao dia ou com maior frequência
Aplicar cerca de 30 minutos antes de deitar
Administração: via oftálmica; remover lentes de contato antes e recolocar só 30 minutos após a aplicação
Considerações:
Uso crônico e frequente: o conservante pode causar irritação e lesão do epitélio da córnea; preferir sem conservante [1][5][7]
Carmelose (Fresh Tears®) e carbômer + sorbitol (Liposic®): uso adulto; Dextrana 70 + hipromelose (Lacrima Plus®): uso adulto e pediátrico [2][3][5]
Gel: embaçamento por alguns minutos após a aplicação; aguardar a visão clarear para dirigir [5]
Optive® UD: pode ser usado com lentes de contato [4]
💊 Como prescrever?
Lágrima artificial com conservante [1][2]:
Carmelose Sódica (colírio) (Fresh Tears®) sol. oft. 0,5% (frasco 5, 10 ou 15 mL)
1 a 2 gotas no olho afetado, até 4 a 6 vezes ao dia
Administração: via oftálmica; não encostar a ponta do frasco nos olhos, nos dedos ou em outras superfícies; manter fechado após o uso
Carmelose Sódica (colírio) (Fresh Tears® Liquigel) sol. oft. 1% (frasco 15 mL)
1 a 2 gotas no olho afetado, até 4 a 6 vezes ao dia
Administração: via oftálmica; não encostar a ponta do frasco nos olhos, nos dedos ou em outras superfícies; manter fechado após o uso
Dextrana 70 + hipromelose (Lacrima Plus®) sol. oft. 0,1% + 0,3% (frasco 15 mL)
1 a 2 gotas no olho afetado, até 4 a 6 vezes ao dia
Administração: via oftálmica, no saco conjuntival; não encostar a ponta do frasco nos olhos
Lágrima artificial sem conservante [1][4]:
Carmelose Sódica (colírio) + glicerol + hialuronato de sódio (Optive® UD) sol. oft. (flaconete 0,4 mL, caixas com 5, 10, 20 ou 30)
1 a 2 gotas nos olhos, quantas vezes forem necessárias
Administração: via oftálmica; usar logo após abrir e descartar o flaconete após o uso; com outros colírios, intervalo de 5 minutos
Gel lubrificante [1][5]:
Carbômer + sorbitol (Liposic®) gel oft. 2 mg/g + 48,5 mg/g (bisnaga 10 g)
1 gota no saco conjuntival, 3 a 5 vezes ao dia ou com maior frequência
Aplicar cerca de 30 minutos antes de deitar
Administração: via oftálmica; remover lentes de contato antes e recolocar só 30 minutos após a aplicação
Particularidades na criança
Buscar causa associada: olho seco é pouco frequente e subdiagnosticado na criança [1]:
Autoimune: artrite idiopática juvenil, síndrome de Sjögren
Dermatológica: rosácea, síndrome de Stevens-Johnson
Nutricional: deficiência de vitamina A, má absorção, dieta muito restrita (inclusive no transtorno do espectro autista)
Medicamento: isotretinoína
Congênita ou pós-infecciosa (sarampo, vírus Epstein-Barr)
Ambiental: alergia e uso prolongado de telas
Rosácea ocular: blefaroceratoconjuntivite recorrente, calázios de repetição e acometimento assimétrico podem preceder a lesão de pele, com risco à visão [1]
Referências
[1] AMERICAN ACADEMY OF OPHTHALMOLOGY; AMESCUA, Guillermo; AHMAD, Sumayya; CHEUNG, Albert Y.; et al. Dry Eye Syndrome Preferred Practice Pattern®. San Francisco: American Academy of Ophthalmology, 2023 (aprovado em 22 set. 2023). Disponível em: https://www.aao.org/education/preferred-practice-pattern/dry-eye-syndrome-ppp-2023. Acesso em: 22 out. 2026.
[2] ALLERGAN PRODUTOS FARMACÊUTICOS. Fresh Tears® e Fresh Tears® Liquigel (carmelose sódica): solução oftálmica 5 mg/mL e 10 mg/mL. Bula para o profissional de saúde.
[3] NOVARTIS BIOCIÊNCIAS. Lacrima® Plus (dextrana 70 + hipromelose): solução oftálmica 1,0 mg/mL + 3,0 mg/mL. Bula para o profissional de saúde. Aprovada pela Anvisa em 01/09/2021.
[4] ALLERGAN PRODUTOS FARMACÊUTICOS. Optive® UD: solução oftálmica estéril sem conservante. Instruções de uso.
[5] BL INDÚSTRIA ÓTICA. Liposic® (carbômer + sorbitol): gel oftálmico 2,0 mg/g + 48,5 mg/g. Bula para o profissional de saúde. Aprovada pela Anvisa em 27/02/2025.
[6] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 10ª revisão (CID-10). Capítulo VII: Doenças do olho e anexos (H00-H59). Versão em português, DATASUS.
[7] RONCONI, Cristiana Soares; ISSAHO, Dayane C.; EJZENBAUM, Fabio; et al. Diretrizes brasileiras sobre o monitoramento e tratamento da conjuntivite alérgica pediátrica. Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, v. 85, n. 4, p. 415-425, 2022. DOI: 10.5935/0004-2749.20220053. Disponível em: https://aboonline.org.br/details/6221/pt-BR.
Autoria e Curadoria
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