Síndrome de Sjögren

CID-10: M35.0 - Síndrome seca [Sjögren]

Introdução

  • A síndrome de Sjögren (SS) é uma doença autoimune sistêmica caracterizada por infiltração linfocitária das glândulas exócrinas, levando principalmente à xeroftalmia e xerostomia.

  • Pode ocorrer como doença primária ou associada a outras doenças autoimunes, especialmente artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico e esclerose sistêmica.

  • Além do acometimento glandular, manifestações sistêmicas podem envolver articulações, pulmões, rins, sistema nervoso e vasos.

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Quando suspeitar?

Suspeitar principalmente em mulheres de meia-idade com sintomas de secura persistentes.

Sinais e sintomas sugestivos

  • Olhos secos

    • Sensação de areia nos olhos;

    • Ardor ocular;

    • Hiperemia ocular recorrente;

    • Fotofobia;

    • Uso frequente de lágrimas artificiais.

  • Boca seca

    • Necessidade de ingerir líquidos para engolir alimentos secos;

    • Dificuldade para falar por tempo prolongado;

    • Cáries de repetição;

    • Candidíase oral recorrente;

    • Aumento recorrente de parótidas.

  • Outras manifestações frequentes

    • Fadiga importante;

    • Artralgia;

    • Artrite não erosiva;

    • Fenômeno de Raynaud;

    • Pele seca;

    • Tosse seca persistente;

    • Dispareunia;

    • Ressecamento vaginal.

Quando pensar em acometimento sistêmico?

Pesquisar sinais de envolvimento extraglandular quando houver:

  • Febre sem causa definida;

  • Perda ponderal;

  • Adenomegalias;

  • Neuropatia periférica;

  • Mononeurite múltipla;

  • Vasculite cutânea;

  • Púrpura palpável;

  • Proteinúria;

  • Hematúria;

  • Acidose tubular renal;

  • Dispneia persistente;

  • Doença pulmonar intersticial;

  • Glomerulonefrite;

  • Alteração persistente das enzimas hepáticas.

Anamnese

  • Há quanto tempo apresenta olho seco ou boca seca?

  • Precisa beber água para conseguir engolir alimentos secos?

  • Utiliza lágrimas artificiais diariamente?

  • Possui aumento recorrente das parótidas?

  • Apresenta múltiplas cáries ou candidíase oral de repetição?

  • Possui artrite reumatoide, lúpus ou outra doença autoimune?

  • Faz uso de medicamentos que causam xerostomia? (antidepressivos, antipsicóticos, anticolinérgicos, anti-histamínicos, diuréticos)

  • Recebeu radioterapia em cabeça e pescoço?

  • Tem história de hepatite C, HIV, sarcoidose ou IgG4-RD?

Diagnóstico

O diagnóstico não deve ser estabelecido apenas pelos sintomas de secura, pois diversas condições podem produzir quadro semelhante. O diagnóstico é baseado na associação entre:

  • sintomas sugestivos;

  • evidências objetivas de hipofunção glandular;

  • autoanticorpos;

  • biópsia de glândula salivar quando indicada.

Critérios classificatórios ACR/EULAR 2016

Pontuação ≥ 4 confirma Síndrome de Sjögren, desde que não haja doença de exclusão.

Fluxograma diagnóstico

Tratamento

Conduta inicial

  • Após a suspeita ou confirmação diagnóstica, os objetivos do tratamento inicial são:

    • Aliviar os sintomas de secura;

    • Prevenir complicações oculares e odontológicas;

    • Identificar manifestações sistêmicas;

    • Encaminhar precocemente ao especialista.

  • Além do tratamento sintomático, orientar:

    • Hidratação adequada;

    • Suspensão do tabagismo;

    • Higiene oral rigorosa;

    • Revisão da prescrição para identificar medicamentos que agravam a secura (anticolinérgicos, antidepressivos tricíclicos, anti-histamínicos sedativos, descongestionantes e outros).

Manejo inicial dos principais sintomas

Medicamentos

Olho seco

  • Carboximetilcelulose (Refresh®, Lacrifilm®) colírio 0,5–1%

    • Instilar 1 gota em cada olho, 4 a 6 vezes ao dia, conforme necessidade.

    • Preferir formulações sem conservantes quando houver necessidade de aplicações frequentes.

  • Hialuronato de sódio (Hyabak®, Adaptis®) colírio

    • Instilar 1 gota 3 a 6 vezes ao dia.

    • Pode ser preferido em pacientes com sintomas moderados ou persistentes.

Boca seca

  • Salivas artificiais

    • Biotène® Oralbalance Gel

      • Aplicar pequena quantidade na mucosa oral conforme necessidade.

    • Xeros Dentaid® Spray Oral

      • Aplicar 2 a 4 borrifadas na cavidade oral, conforme necessidade.

Observação: a disponibilidade desses produtos pode variar entre as regiões e geralmente não são fornecidos pelo SUS. Na ausência de saliva artificial comercial, manter hidratação frequente, estimular a salivação residual com chicletes ou balas sem açúcar e reforçar os cuidados odontológicos.

Estimulantes da produção de saliva

  • Pilocarpina (Salagen®) comp. 5 mg

    • Indicação: xerostomia moderada ou grave em pacientes com função residual das glândulas salivares.

    • Adultos, 5 mg VO, 3 a 4 vezes ao dia.

    • Contraindicações: asma não controlada; glaucoma de ângulo fechado; irite.
      Principais efeitos adversos: sudorese; náuseas; diarreia; polaciúria.

Dor musculoesquelética

  • Paracetamol (Tylenol®) comp. 500 mg ou 750 mg

    • 500–750 mg VO a cada 6 horas, se necessário.

    • Dose máxima: 3 g/dia.

  • Dipirona (Novalgina®) comp. 500 mg

    • 500 a 1.000 mg VO a cada 6 horas, se necessário.

    • Dose máxima: 4 g/dia.

Anti-inflamatórios não esteroidais (AINE)

  • Podem ser utilizados por curto período, quando houver artralgia inflamatória leve e ausência de contraindicações clínicas.

  • Persistência da artrite ou necessidade de uso prolongado deve motivar encaminhamento para Reumatologia.

Candidíase oral

  • Nistatina (Micostatin®) suspensão oral 100.000 UI/mL

    • 5 mL, 4 vezes ao dia, por 7 a 14 dias.

    • Bochechar por alguns minutos antes de engolir.

Medicamentos que pioram sintomas

Sempre revisar a prescrição antes de atribuir toda a secura à Síndrome de Sjögren.

  • Anticolinérgicos (oxibutinina, escopolamina);

  • Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina);

  • Anti-histamínicos sedativos (prometazina, dexclorfeniramina);

  • Descongestionantes (pseudoefedrina);

  • Antipsicóticos com maior efeito anticolinérgico (clozapina, olanzapina, quetiapina, clorpromazina);

  • Diuréticos (podem agravar xerostomia em alguns pacientes).

Critérios de encaminhamento

Encaminhamento eletivo

  • Encaminhar para Reumatologia quando houver:

    • Diagnóstico confirmado ou forte suspeita clínica;

    • Critérios classificatórios ACR/EULAR compatíveis;

    • Anti-SSA (Ro) positivo;

    • Artrite persistente;

    • Sintomas refratários ao tratamento inicial;

    • Necessidade de confirmação diagnóstica.

  • Encaminhar para Oftalmologia quando houver:

    • Necessidade de avaliação inicial da superfície ocular;

    • Persistência da xeroftalmia apesar do uso de lubrificantes.

  • Encaminhar para Odontologia quando houver:

    • Xerostomia importante;

    • Cáries recorrentes;

    • Candidíase oral recorrente;

    • Doença periodontal.

Resumo prático

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Sjögren. Brasília, DF: Ministério da Saúde. (Até o momento, não há PCDT específico vigente para Síndrome de Sjögren publicado pelo Ministério da Saúde.)

[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). Brasília, DF: Ministério da Saúde, edição vigente. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 30 jul. 2026.

[3] BRITISH SOCIETY FOR RHEUMATOLOGY (BSR). Guideline on management of adult and juvenile onset Sjögren disease. Rheumatology, Oxford, v. 64, n. 1, 2025. DOI: 10.1093/rheumatology/keae263.

[4] SOCIEDADE BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA (SBR). Recomendações e documentos científicos sobre Síndrome de Sjögren. São Paulo: Sociedade Brasileira de Reumatologia, publicações vigentes. Disponível em: https://www.reumatologia.org.br. Acesso em: 30 jul. 2026.

[5] UPTODATE. Clinical manifestations and diagnosis of Sjögren's disease. Waltham, MA: UpToDate, atualização de 2026.

Autoria e Curadoria

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