Ceratite e Úlcera de Córnea (Adulto e Criança)

CID-10: H16.0 - Úlcera de córnea; H16.9 Ceratite não especificada

Introdução

  • Ceratite é a inflamação da córnea, na maioria das vezes por infecção bacteriana, viral ou fúngica, ou por radiação ultravioleta, como na solda elétrica [8].

  • Úlcera de córnea é o defeito do epitélio com acometimento do estroma subjacente, uma emergência que ameaça a visão [2]. A causa mais comum é infecciosa, sobretudo bacteriana [2].

  • O uso de lente de contato é o principal fator de risco em países de alta renda, e o trauma ocular, em grande parte do mundo [1].

  • A ceratite fúngica pode responder por até 50% das ceratites infecciosas em clima tropical e subtropical, em geral após trauma com material vegetal [2].

  • Com germe virulento, a perda de tecido da córnea ocorre em até 24 horas [1]; sem tratamento, a ceratite bacteriana pode evoluir para endoftalmite e perda do olho [2]. É uma das principais causas de cegueira monocular nos países em desenvolvimento [4].

🔑 Pontos-chave:

  • Dor ocular com mancha branca ou perda de transparência da córnea: suspeitar de úlcera e encaminhar à urgência oftalmológica [9]

  • Tratamento inicial com fluoroquinolona tópica; a cultura, colhida pelo oftalmologista, vem antes do antibiótico nos casos com critério de gravidade [1][2]

  • Não prescrever corticoide: piora a ceratite fúngica, viral e por acanthamoeba [1][2]

  • Usuário de lente de contato com olho vermelho doloroso: suspender a lente e levar lentes e estojo para cultura [5][7]; suspeita de acanthamoeba exige encaminhamento no mesmo dia [6]

  • Colírio anestésico nunca deve ser prescrito para uso em casa: o uso prolongado causa opacificação permanente da córnea [10]

  • Na ceratite, a dor melhora após colírio anestésico; na iridociclite e no glaucoma agudo, não [8]

  • Trauma com vegetal ou úlcera que não responde a antibiótico sugere fungo; contato com água em usuário de lente de contato sugere acanthamoeba [4][7]

  • Recém-nascido com secreção purulenta abundante: o gonococo invade a córnea íntegra e exige tratamento parenteral [1][8]

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🎯 Fluxograma de manejo

O fluxograma organiza o atendimento do olho vermelho doloroso com suspeita de ceratite ou úlcera de córnea. Parte-se de olho vermelho doloroso, com fotofobia, lacrimejamento ou visão turva. Avaliam-se a acuidade visual em cada olho, a inspeção com lanterna, a fluoresceína e a pesquisa de hipópio. Pergunta-se se há qualquer um: dor aguda com mancha branca na córnea; perda de transparência da córnea; suspeita de fungo ou acanthamoeba. Se não, considerar outras causas de olho vermelho doloroso (conferir os protocolos Conjuntivite, Uveíte anterior e Glaucoma agudo de ângulo fechado). Se sim, pergunta-se se há secreção purulenta muito abundante com infiltrado de córnea de progressão rápida. Se sim, suspeita de gonococo: internação para ceftriaxona IV e colírio (conferir o protocolo Gonorreia e Clamídia). Se não, antes de encaminhar: suspender a lente de contato e levar lentes e estojo; antibiótico tópico, fluoroquinolona por via oftálmica (ciprofloxacino ou ofloxacino); analgésico e antiemético, se náuseas ou vômitos; não prescrever corticoide nem colírio anestésico para casa (conferir em Conduta e em Antibiótico tópico). Em seguida, encaminhar à urgência oftalmológica, com avaliação em até 12 a 24 horas; na suspeita de fungo ou acanthamoeba, no mesmo dia (conferir em Sinais de alarme e encaminhamento). Abreviação: IV, intravenoso. Fonte: referências [1], [2], [3], [4], [5], [6], [7], [8], [9], [10], [11] e [12] do artigo.

Sinais de alarme e encaminhamento

  • Suspeita de úlcera de córnea: encaminhar ao serviço de urgência oftalmológica [2][9]:

    • Critério: dor aguda com mancha branca na córnea e/ou perda de transparência da córnea [9]

    • Atendimento imediato, fora da regulação eletiva [9]

    • Avaliação pelo oftalmologista em até 12 a 24 horas, com cultura para guiar o antibiótico [2]

  • Suspeita de fungo ou acanthamoeba: encaminhamento de emergência, no mesmo dia [6][7]

  • Suspeita de gonococo (conjuntivite hiperpurulenta com infiltrado de córnea de progressão rápida): internação para ceftriaxona intravenosa, além do colírio [2]; conferir o protocolo Gonorreia e Clamídia

  • Úlcera profunda, com risco de perfuração [2][3]:

    • Não medir a pressão ocular

    • Orientar a evitar tosse excessiva e esforço

Diagnóstico

  • Quadro clínico [4][8][9]:

    • Dor aguda, fotofobia, lacrimejamento e blefaroespasmo

    • Sensação de corpo estranho e visão turva

    • Secreção mucopurulenta

    • História de trauma ocular, uso de lente de contato, oclusão palpebral inadequada ou doença da superfície ocular

  • Exame na atenção primária [8][9]:

    • Acuidade visual em cada olho

    • Inspeção com lanterna: hiperemia difusa, perda de transparência da córnea, ponto ou mancha esbranquiçada na córnea

    • Fluoresceína com lanterna; sem fluoresceína, encaminhar ao oftalmologista

    • Hipópio (pus na câmara anterior): meia-lua no polo inferior da íris, à luz lateral da lanterna

  • Diferenciação com outras causas de olho vermelho [8]:

    • Ceratite: a dor melhora após instilar colírio anestésico no consultório

    • Iridociclite e glaucoma agudo: a dor não melhora com o colírio anestésico

    • Conjuntivite: o embaçamento melhora ao piscar, porque decorre do acúmulo de secreção

  • Abrasão de córnea em usuário de lente de contato ou após trauma: antibiótico tópico de amplo espectro, idealmente nas primeiras 24 horas, sem oclusão do olho [1]; conferir o protocolo Corpo estranho e Trauma ocular

  • Pistas do agente na história [1][2][4][7]:

    • Lente de contato: bactéria e acanthamoeba

    • Acanthamoeba: contato recente com água (natação, banho com a lente) e dor desproporcional ao exame

    • Fungo: trauma com vegetal, olho previamente doente ou úlcera refratária a antibiótico

Conduta

  • Antibiótico tópico:

    • StatPearls [2]:

      • Tratamento inicial com fluoroquinolona tópica, mais comumente ciprofloxacino ou ofloxacino; conferir em "Antibiótico tópico"

      • Cultura colhida pelo oftalmologista, que deve avaliar o paciente em 12 a 24 horas

    • AAO [1]:

      • A maioria dos casos adquiridos na comunidade resolve com tratamento empírico, sem cultura

      • Cultura antes do antimicrobiano se qualquer um: infiltrado central (até 3 mm do centro) de 2 mm ou mais; 2 ou mais lesões adjacentes; acometimento estromal importante ou melting; células na câmara anterior; cirurgia corneana prévia; aspecto sugestivo de fungo, ameba ou micobactéria; múltiplos infiltrados

    • SESA-ES [9]:

      • Analgesia, antiemético se náuseas ou vômitos e encaminhamento de urgência

  • Antes de encaminhar:

    • Suspender a lente de contato; na suspeita de acanthamoeba, nos dois olhos [5][6]

    • Orientar a guardar e levar as lentes e o estojo, para cultura [5][7]

    • Paciente já em uso de colírio de corticoide: reduzir ou suspender até o controle da infecção [1]

    • Analgesia [9]: por exemplo, dipirona ou paracetamol; conferir o protocolo Manejo da Dor no Adulto ou Manejo da Dor em Pediatria

    • Antiemético, se náuseas ou vômitos [9]: por exemplo, ondansetrona ou, no adulto, metoclopramida; conferir o protocolo Náuseas e Vômitos no Adulto ou Náuseas e Vômitos em Pediatria

  • Não fazer:

    • Não prescrever corticoide: piora a ceratite fúngica, viral e por acanthamoeba [1][2]

    • Não prescrever colírio anestésico para uso em casa [10]

    • Não usar colírio ou pomada por conta própria [2]

  • No serviço de oftalmologia:

    • HUCAM-UFES [4]:

      • Cultura e antibiograma de rotina antes do tratamento

      • Úlcera não grave: fluoroquinolona de quarta geração em monoterapia

      • Úlcera grave: colírios guiados pela cultura

    • AAO [1]:

      • Troca do esquema se não houver melhora ou estabilização em 48 horas

Antibiótico tópico

  • Indicação: tratamento inicial da ceratite bacteriana [2]

  • Esquemas [2][11][12]:

    • Ciprofloxacino (Ciloxan®) sol. oft. 3,5 mg/mL de cloridrato (3 mg/mL de ciprofloxacino) (frasco 5 mL)

      • Primeiro dia: 2 gotas a cada 15 minutos nas primeiras 6 horas; no restante do dia, 2 gotas a cada 30 minutos

      • Segundo dia: 2 gotas a cada 1 hora

      • Do terceiro ao décimo quarto dia: 2 gotas a cada 4 horas

      • Duração máxima recomendada: 21 dias

      • Administração: via oftálmica; após instilar, ocluir o ponto lacrimal ou fechar suavemente as pálpebras; não encostar a ponta do frasco no olho

    • Ofloxacino sol. oft. (Oflox®) sol. oft. 3 mg/mL (frasco 5 mL)

      • 1 a 2 gotas a cada 2 a 4 horas nos 2 primeiros dias; depois, 1 a 2 gotas 4 vezes ao dia, por até 10 dias

      • Administração: via oftálmica; não encostar a ponta do frasco nos olhos, nos dedos ou em outras superfícies

    • Considerações:

      • Casos com critério de cultura (AAO): a cultura vem antes do antimicrobiano [1]

      • Contraindicados na hipersensibilidade a quinolonas [11][12]

      • Retirar lentes de contato durante o tratamento [11][12]

      • Ciprofloxacino: mesma dose do adulto na criança; experiência limitada abaixo de 1 ano [11]

      • Ofloxacino: segurança e eficácia não determinadas abaixo de 1 ano [12]

💊 Como prescrever?

Ciprofloxacino [2][11]:

  • Ciprofloxacino (Ciloxan®) sol. oft. 3,5 mg/mL de cloridrato (3 mg/mL de ciprofloxacino) (frasco 5 mL)

    • Primeiro dia: 2 gotas a cada 15 minutos nas primeiras 6 horas; no restante do dia, 2 gotas a cada 30 minutos

    • Segundo dia: 2 gotas a cada 1 hora

    • Do terceiro ao décimo quarto dia: 2 gotas a cada 4 horas

    • Duração máxima recomendada: 21 dias

    • Administração: via oftálmica; após instilar, ocluir o ponto lacrimal ou fechar suavemente as pálpebras; não encostar a ponta do frasco no olho

Ofloxacino [2][12]:

  • Ofloxacino sol. oft. (Oflox®) sol. oft. 3 mg/mL (frasco 5 mL)

    • 1 a 2 gotas a cada 2 a 4 horas nos 2 primeiros dias; depois, 1 a 2 gotas 4 vezes ao dia, por até 10 dias

    • Administração: via oftálmica; não encostar a ponta do frasco nos olhos, nos dedos ou em outras superfícies

Particularidades na criança

  • Mesma conduta do adulto: ceratite e úlcera de córnea acometem todas as idades; encaminhar com urgência [1][4]

  • Recém-nascido com secreção purulenta abundante: suspeitar de gonococo, que invade a córnea íntegra; o tratamento é parenteral, em hospital [1][8]; conferir o protocolo Oftalmia / conjuntivite neonatal

Referências

[1] AMERICAN ACADEMY OF OPHTHALMOLOGY; RHEE, Michelle K.; AHMAD, Sumayya; AMESCUA, Guillermo; et al. Bacterial Keratitis Preferred Practice Pattern®. San Francisco: American Academy of Ophthalmology, 2023 (aprovado em 22 set. 2023). Disponível em: https://www.aao.org/education/preferred-practice-pattern. Acesso em: 23 out. 2026.

[2] BYRD, Liza B.; GURNANI, Bharat; MARTIN, Nathan. Corneal Ulcer. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024. Atualizado em 12 fev. 2024. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK539689/. Acesso em: 23 out. 2026.

[3] GURNANI, Bharat; KAUR, Kirandeep. Bacterial Keratitis. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2023. Atualizado em 11 jun. 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK574509/. Acesso em: 23 out. 2026.

[4] UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO. Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (HUCAM-UFES/Ebserh). Protocolo PRT.UCV.006: Tratamento de úlcera de córnea infecciosa. Vitória, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/ebserh/pt-br/hospitais-universitarios/regiao-sudeste/hucam-ufes.

[5] NHS SCOTLAND. Eyecare Guidelines. 5.12 Keratitis, Microbial, Bacterial. Revisão em 10 abr. 2026. Disponível em: https://www.eyes.nhs.scot/eyecare-guidelines/section-5-corneal/512-keratitis-microbial-bacterial/. Acesso em: 23 out. 2026.

[6] NHS SCOTLAND. Eyecare Guidelines. 5.11 Keratitis, Microbial, Acanthamoeba. Disponível em: https://www.eyes.nhs.scot/eyecare-guidelines/section-5-corneal/. Acesso em: 23 out. 2026.

[7] NHS SCOTLAND. Eyecare Guidelines. 5.13 Keratitis, Microbial, Fungal. Revisão em 10 abr. 2026. Disponível em: https://www.eyes.nhs.scot/eyecare-guidelines/section-5-corneal/. Acesso em: 23 out. 2026.

[8] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Acolhimento à demanda espontânea: queixas mais comuns na Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica, n. 28, v. II. 1. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. Cap. 2.22, Urgências oftalmológicas: "olho vermelho". Disponível em: https://sites.usp.br/guiacseb/wp-content/uploads/sites/943/2023/02/caderno28.pdf.

[9] ESPÍRITO SANTO. Secretaria de Estado da Saúde. Protocolo de Oftalmologia: Autorregulação Formativa Territorial. Vitória, 2021. Disponível em: https://saude.es.gov.br/Media/sesa/Publicações%20em%20PDF/ARFT%20Oftalmologia%20site.pdf.

[10] ALCON LABORATÓRIOS DO BRASIL. Anestalcon® (cloridrato de proximetacaína): solução oftálmica 0,5%. Bula para o profissional de saúde.

[11] NOVARTIS BIOCIÊNCIAS. Ciloxan® (cloridrato de ciprofloxacino): solução oftálmica 3,5 mg/mL. Bula para o profissional de saúde. Histórico de alteração até 21/08/2015.

[12] ALLERGAN PRODUTOS FARMACÊUTICOS. Oflox® (ofloxacino): solução oftálmica 3 mg/mL. Bula para o profissional de saúde. Histórico de alteração até 02/12/2025.

[13] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 10ª revisão (CID-10). Capítulo VII: Doenças do olho e anexos (H00-H59). Versão em português, DATASUS.

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