Hipotireoidismo Franco no Adulto
CID-10: E03.9 Hipotireoidismo não especificado
Introdução
O hipotireoidismo primário franco é definido por TSH acima do limite superior da faixa de referência com T4 livre abaixo do limite inferior [4]. Este protocolo trata do adulto fora da gestação
Prevalência relatada de 1,5%; o hipotireoidismo subclínico é quase dez vezes mais frequente [1]. A prevalência é maior no sexo feminino, e a incidência aumenta com a idade [4]
Causas:
A mais frequente é a tireoidite autoimune crônica (tireoidite de Hashimoto) [1]
Tratamento do hipertireoidismo com cirurgia, iodo radioativo ou fármacos antitireoidianos; tireoidites pós-parto, subaguda e silenciosa [1]
Radioterapia externa, doenças infiltrativas ou infecciosas e deficiência ou excesso de iodo [1]
Fármacos: amiodarona, lítio, interferon, inibidores de tirosina-quinase, inibidores de checkpoint imunológico e alemtuzumabe [1][4]
Fora do escopo deste protocolo, com protocolo próprio:
Hipotireoidismo subclínico (TSH elevado com T4 livre normal): conferir o protocolo Hipotireoidismo Subclínico
Planejamento de gestação e gestante: conferir o protocolo Hipotireoidismo Antes da Concepção e Durante a Gravidez
Coma mixedematoso: conferir o protocolo Estado Mixedematoso (hipotireoidismo grave)
Criança e adolescente: conferir o protocolo Hipotireoidismo Adquirido na Criança e Adolescente
🔑 Pontos-chave:
O hipotireoidismo primário franco é TSH acima do limite superior com T4 livre baixo; a levotiroxina é o tratamento de escolha [1][2][3][4]
Suspeita de coma mixedematoso (estado mental alterado, hipotermia, depressão respiratória, instabilidade cardiovascular): emergência, com tratamento em unidade de terapia intensiva [1][6]
Insuficiência adrenal suspeita ou confirmada, inclusive no hipotireoidismo central: testar e tratar antes da levotiroxina, porque ela pode precipitar crise adrenal [6][7][12]
Sintomas inespecíficos: o exame físico não confirma nem descarta o diagnóstico, que depende do TSH e do T4 livre [1]
Dose inicial plena no adulto sem doença cardiovascular; dose baixa e titulada no idoso ou cardiopata [1][3]
TSH acima da meta apesar do tratamento: investigar adesão, modo de tomada, interações e má absorção antes de aumentar a dose [1][5]
Evitar sobretratamento: TSH abaixo de 0,1 mU/L associa-se a fibrilação atrial e osteoporose, sobretudo no idoso e após a menopausa [2]
🎯 Fluxograma de manejo
![O fluxograma organiza a avaliação e o tratamento do adulto com suspeita clínica de hipotireoidismo, do adulto de grupo de risco e do paciente que já usa levotiroxina. Primeira pergunta: suspeita de coma mixedematoso, com qualquer um destes achados: estado mental alterado, hipotermia, depressão respiratória ou instabilidade cardiovascular. Se sim, emergência, com tratamento em unidade de terapia intensiva; conferir o protocolo Estado Mixedematoso (hipotireoidismo grave). Se não, pergunta-se se a paciente é gestante ou planeja gestação; se sim, conferir o protocolo Hipotireoidismo Antes da Concepção e Durante a Gravidez. Se não, pergunta-se se há doença aguda em curso, sem suspeita de causa tireoidiana; se sim, não avaliar a função tireoidiana agora e testar após a resolução da doença aguda; no paciente já em uso de levotiroxina, manter a dose habitual; conferir em Situações especiais. Se não, pergunta-se se o paciente já usa levotiroxina; se sim, segue direto para a avaliação do TSH em relação à meta. Se não, dosar TSH e T4 livre e perguntar sobre uso de biotina. Pelo resultado: TSH alto e T4 livre normal, hipotireoidismo subclínico, conferir o protocolo Hipotireoidismo Subclínico; TSH alto e T4 livre alto, considerar resistência ao hormônio tireoidiano, adenoma hipofisário produtor de TSH ou macro-TSH, com consulta com endocrinologista, conferir em Diagnóstico; TSH baixo ou normal e T4 livre baixo, suspeita de hipotireoidismo central: levotiroxina só após evidência de cortisol preservado ou após iniciar corticoide, considerar outros hormônios hipofisários e consulta com endocrinologista, conferir em Situações especiais; TSH baixo e T4 livre normal ou alto, dosar T3 livre na mesma amostra, conferir o protocolo Hipertireoidismo no Adulto; TSH e T4 livre normais, hipotireoidismo improvável, repetir os exames se os sintomas piorarem ou surgirem novos, não antes de 6 semanas. TSH alto e T4 livre baixo: hipotireoidismo primário franco; dosar anti-TPO; ultrassonografia se a palpação for anormal, a considerar se os anticorpos forem negativos. Em seguida, pergunta-se se há insuficiência adrenal suspeita ou confirmada; se sim, testar e tratar a insuficiência adrenal, lembrando que a levotiroxina é contraindicada na insuficiência suprarrenal descompensada, conferir o protocolo Insuficiência Suprarrenal, e depois seguir. Depois, pergunta-se se houve infarto do miocárdio recente; se sim, levotiroxina contraindicada e consulta com endocrinologista, conferir em Tratamento com levotiroxina. Se não, pergunta-se se o paciente tem mais de 60 anos ou doença cardíaca (isquêmica ou insuficiência cardíaca). Se não, levotiroxina, medicamento com ícone de alerta, VO (1,6 a 1,8 mcg/kg de peso ideal, 1 vez ao dia), em jejum, separando de cálcio, ferro e inibidor da bomba de prótons. Se sim, levotiroxina, com ícone de alerta, VO (12,5 a 25 mcg, 1 vez ao dia), com aumentos graduais, em jejum, separando de cálcio, ferro e inibidor da bomba de prótons. Nos dois casos, conferir em Tratamento com levotiroxina. Os dois ramos convergem para TSH em 6 a 8 semanas, com ajuste de 12,5 a 25 mcg por vez. Pergunta-se então como está o TSH em relação à meta para a idade; conferir em Metas de TSH e seguimento. TSH acima da meta: no paciente antes controlado, repetir o exame antes de aumentar a dose e investigar adesão, modo de tomada, interações e má absorção, conferir em TSH fora da meta apesar do tratamento. TSH abaixo da meta: reduzir 12,5 a 25 mcg e evitar sobretratamento. Nos dois casos, volta-se ao controle do TSH em 6 a 8 semanas. TSH na meta: seguimento com TSH em 6 meses e depois anual, mantendo a mesma marca. Pergunta-se se há sintomas persistentes com TSH na meta; se sim, investigar outras causas, como anemia e depressão, sem usar extrato de tireoide nem liotironina isolada, conferir em Sintomas persistentes com TSH normal. Os dois caminhos terminam em seguimento na atenção primária, considerando consulta com endocrinologista nos cenários listados; conferir em Quando encaminhar ao endocrinologista. Na parte inferior, um quadro com o ícone de alerta traz a frase: Antes de prescrever, confira cuidados e contraindicações referentes a esse medicamento. VO: via oral. Fonte: referências [1], [2], [3], [4], [5], [6], [7], [8], [11] e [12] do artigo.](https://assets.gpmed.app/treatments/1793546808287_8e7a7cb7.webp)
Quadro clínico
Sintomas e sinais são inespecíficos: o exame físico isolado não confirma nem descarta o diagnóstico [1]
No idoso, as manifestações são ainda menos específicas [1]
Achados que mais aumentam a probabilidade, em ordem decrescente [1]:
Voz mais grave e voz rouca
Olhos inchados
Bradicardia
Constipação e sensação de frio
Reflexo aquileu lentificado
Alteração de memória
Pele grossa
Outras manifestações comuns [4]:
Astenia, fadiga, pele seca e pálida, cabelo quebradiço, ganho de peso
Edema periorbital, facial e pré-tibial
Fraqueza, rigidez muscular e mialgia
Irregularidade menstrual e humor deprimido
Achados laboratoriais associados:
Elevação do colesterol total e do LDL [4]
Anemia e hiperprolactinemia [1]
Elevação de creatinofosfoquinase e de enzimas hepáticas [6]
Hiponatremia [6]
Tireoidite de Hashimoto: aumento indolor da tireoide, sensação de plenitude cervical [6]
Sem tratamento: progressão com queda da contratilidade miocárdica, dispneia aos esforços e, no extremo, coma mixedematoso [4]; conferir o protocolo Estado Mixedematoso (hipotireoidismo grave)
Sinais de alarme
Suspeitar de coma mixedematoso, se qualquer um:
Estado mental alterado [1] ou encefalopatia [6]
Hipotermia [1][6]
Depressão respiratória [1] ou insuficiência respiratória [6]
Instabilidade cardiovascular [1], arritmia ou choque cardiogênico [6]
Convulsões [6]
Hiponatremia ou hipoglicemia [6]
Retenção hídrica [6]
Conduta: emergência endócrina, com tratamento em unidade de terapia intensiva [1][6]; conferir o protocolo Estado Mixedematoso (hipotireoidismo grave)
Fatores precipitantes:
Interrupção do tratamento [1][6]
Dose inadequada de levotiroxina [6]
Infecção [1]; sepse ou outra doença aguda [6]
Exposição ao frio [1]
Hipotireoidismo sem tratamento, de longa duração [1]; hipotireoidismo não diagnosticado [6]
Quem investigar
Investigar a função tireoidiana, se qualquer um [1]:
Mulher em idade fértil ou mais idosa, especialmente acima de 60 anos
Radioterapia prévia da tireoide (iodo radioativo ou radioterapia externa), cirurgia tireoidiana ou disfunção tireoidiana prévia
Diabetes mellitus tipo 1
Doença autoimune: vitiligo, síndrome de Sjögren, lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide
Síndrome de Down ou síndrome de Turner
História familiar de doença tireoidiana
Bócio ou anti-TPO positivo
Sintomas clínicos de hipotireoidismo
Uso de lítio, amiodarona, interferon alfa, sunitinibe ou sorafenibe
Hiperprolactinemia, dislipidemia, anemia ou insuficiência cardíaca
LDL acima de 160 mg/dL
Investigar também [3]:
Fibrilação atrial de início recente
Depressão ou ansiedade inexplicada: considerar
Não testar [3]:
Durante doença aguda, salvo suspeita de que a própria doença aguda seja tireoidiana, porque ela altera os resultados
Somente por diabetes mellitus tipo 2
Mulher na menopausa: os sintomas de disfunção tireoidiana podem ser confundidos com os da menopausa [3]
Diagnóstico
Exames iniciais:
Probabilidade clínica elevada: TSH e T4 livre [1]
Sem suspeita de doença hipofisária: considerar TSH isolado; se acima da faixa de referência, T4 livre na mesma amostra [3]
Suspeita de doença hipofisária: considerar TSH e T4 livre desde o início [3]
Perguntar sobre biotina em suplementos, porque o consumo elevado pode gerar resultado falsamente alto ou baixo [3]
Interpretação [1][3][4]:
TSH acima do limite superior e T4 livre baixo: hipotireoidismo primário franco [4]
TSH acima do limite superior e T4 livre normal: hipotireoidismo subclínico; conferir o protocolo Hipotireoidismo Subclínico [3]
TSH acima do limite superior e T4 livre alto: considerar resistência ao hormônio tireoidiano, adenoma hipofisário produtor de TSH ou macro-TSH [2]; consulta com endocrinologista [6]
TSH baixo ou inapropriadamente normal com T4 livre baixo: suspeitar de hipotireoidismo central; antes de qualquer levotiroxina, conferir em "Situações especiais" [4][12]
TSH abaixo da faixa de referência com T4 livre normal ou alto: dosar T3 livre na mesma amostra [3]; conferir o protocolo Hipertireoidismo no Adulto
TSH dentro da faixa de referência: diagnóstico improvável, salvo causa hipotálamo-hipofisária [1]; repetir os exames se os sintomas piorarem ou surgirem novos sintomas, não antes de 6 semanas do último exame [3]
Confirmação no rastreamento [1]:
TSH elevado em dosagem inicial isolada, em grupo de risco: repetir TSH com T4 livre em 2 a 3 meses para confirmar o diagnóstico
Elevação transitória do TSH é menos provável com valores mais altos de TSH ou com anti-TPO positivo
Faixa de referência do TSH [1]:
População geral: 0,45 a 4,5 mU/L
Idoso: considerar cortes mais elevados; limite superior em adultos com anti-TPO negativo:
50 a 59 anos: 4,2 mU/L
60 a 69 anos: 4,7 mU/L
70 a 79 anos: 5,6 mU/L
Acima de 80 anos: 6,3 mU/L
Armadilhas na interpretação:
Paciente internado: T4 livre menos confiável; dopamina e glicocorticoides reduzem o TSH [1]
Doença não tireoidiana grave com albumina alterada, ou uso de fenitoína, carbamazepina ou furosemida: avaliar TSH e T4 total [1]
Recuperação de doença não tireoidiana, obesidade e insuficiência adrenal: podem elevar o TSH [1]
Após confirmar, definir a causa:
Anti-TPO: dosar para definir a etiologia autoimune [1]; não repetir a dosagem [3]; se positivo, a repetição é desnecessária [1]
Ultrassonografia da tireoide: não é rotina; considerar se anticorpos negativos, para identificar tireoidite autoimune; realizar se a palpação da tireoide for anormal [1]
Tratamento com levotiroxina
Levotiroxina é o tratamento de escolha [1][2][3][4]
Objetivos [2]:
Resolver sintomas e sinais
Normalizar o TSH
Evitar sobretratamento, sobretudo no idoso
Antes de iniciar:
Insuficiência adrenal suspeita ou confirmada: testar e tratar, porque a levotiroxina pode agravá-la [6] e desencadear crise adrenal aguda [8]; conferir o protocolo Insuficiência Suprarrenal
Infarto do miocárdio recente: levotiroxina contraindicada [7]; consulta com endocrinologista [6]
Definir o perfil: idade, doença cardiovascular, peso, massa magra, etiologia, grau de elevação do TSH e contexto clínico [2][5]
Esquema [1][2][3][4][7][8][10][11]:
Levotiroxina (Puran T4®) comp. 12,5 mcg, 25 mcg, 37,5 mcg, 50 mcg, 62,5 mcg, 75 mcg, 88 mcg, 100 mcg, 112 mcg, 125 mcg, 150 mcg, 175 mcg, 200 mcg e 300 mcg
Dose única diária
Dose plena, no adulto sem doença cardiovascular:
LATS (menos de 60 anos): 1,6 a 1,8 mcg/kg de peso ideal, 1 vez ao dia
NICE (menos de 65 anos): 1,6 mcg/kg, 1 vez ao dia, arredondado para os 25 mcg mais próximos
ATA (jovens e de meia-idade saudáveis, com função tireoidiana residual mínima): 1,6 a 1,8 mcg/kg de peso real, 1 vez ao dia
Italiana (perda completa da função tireoidiana, como na tireoidectomia total): 1,5 a 1,9 mcg/kg, 1 vez ao dia
Dose baixa, no idoso ou cardiopata:
LATS (mais de 60 anos, doença cardíaca isquêmica ou insuficiência cardíaca): 12,5 a 25 mcg, 1 vez ao dia
NICE (65 anos ou mais, ou história de doença cardiovascular): 25 a 50 mcg, 1 vez ao dia, com titulação
ATA (doença arterial coronariana conhecida): 12,5 a 25 mcg, 1 vez ao dia, com aumentos graduais
Hipotireoidismo mais leve (por exemplo, TSH até 10 mU/L):
ATA: doses menores, como 25 a 50 mcg, 1 vez ao dia
Ajuste: 12,5 a 25 mcg/dia por vez, para mais ou para menos, guiado pelo TSH
Administração: via oral, com líquido, com o estômago vazio (30 minutos a 1 hora antes ou 2 horas após o café da manhã)
Considerações:
Contraindicada no infarto do miocárdio recente, na tireotoxicose ou no hipertireoidismo não tratados, na insuficiência suprarrenal descompensada e na hipersensibilidade aos componentes [7]
Doença cardiovascular (angina, insuficiência cardíaca, infarto prévio, hipertensão): doses iniciais menores, aumentos pequenos e intervalos maiores entre os aumentos [7]
Índice terapêutico estreito: pequenas variações de dose causam sub ou sobretratamento [1]
Separar pelo menos 4 horas de outros medicamentos que alteram a absorção [8]; conferir em "Interações e condições que aumentam a necessidade"
Evitar a ingestão simultânea com café [10][11]
Insuficiência renal: sem ajuste de dose [10]
Conservar na embalagem original, entre 15 e 30 °C, protegido da luz e da umidade [10][11]
Synthroid®: comp. 25, 50, 75, 88, 100, 112, 125, 137, 150, 175 e 200 mcg; não partir, abrir nem mastigar [8]
Euthyrox®: comp. 25, 50, 75, 88, 100, 112, 125, 150, 175 e 200 mcg; não partir nem mastigar [11]
Modo de tomada:
LATS: em jejum de 30 minutos ou após pelo menos 2 horas de jejum; alternativa, à noite [1]
ATA: 60 minutos antes do café da manhã ou ao deitar, 3 horas ou mais após o jantar [2]
ETA e italiana: pelo menos 30 minutos, idealmente 60 minutos, antes de alimento ou bebida; à noite, com pelo menos 3 horas de jejum [4][5]
Manter sempre o mesmo esquema, escolhido conforme a rotina do paciente [2][5]
Dose esquecida pode ser reposta [2]
Titulação [2][3][4]:
Repetir o TSH e ajustar a dose até atingir a meta; intervalos em "Metas de TSH e seguimento" [2]
TSH muito elevado antes do tratamento ou hipotireoidismo não tratado prolongado: o TSH pode levar até 6 meses para voltar à faixa de referência [3]
Reajustar com mudança importante de peso, envelhecimento, nova comorbidade ou novo fármaco que interfere na absorção [2][4]
Marca e formulação:
Manter a mesma marca ou preparação ao longo do tratamento [1][2][4][5]
Após troca de marca, controle:
LATS: TSH e T4 livre após 2 meses [1]
ETA: T4 livre e TSH após 6 semanas [5]
Italiana: TSH 4 a 6 semanas após a troca de formulação [4]
Solução oral e cápsula mole de levotiroxina, citadas nas diretrizes:
ETA: alternativa ao comprimido no risco de má absorção e no TSH repetidamente acima da faixa apesar do uso correto, na mesma dose [5]
Italiana: eficácia em geral semelhante à do comprimido [4]
ATA: sem respaldo para uso rotineiro; alternativa na alergia a excipientes do comprimido [2]
Interações e condições que aumentam a necessidade
Perguntar sobre todos os medicamentos e suplementos em uso [5]:
Suspender o fármaco que interfere, quando possível [5]
Se não for possível, respeitar o intervalo entre as tomadas (tabelas abaixo) [5]
Fármaco interferente por mais de 2 semanas: a dose de levotiroxina pode ser ajustada durante o período [5]
Reduzem a absorção: separar as tomadas
Alimento ou fármaco | Conduta |
|---|---|
Café | Levotiroxina pelo menos 1 hora antes [5] |
Leite | Levotiroxina mais de 1 a 2 horas antes [5] |
Soja, fibras alimentares | Levotiroxina pelo menos 4 horas antes [5] |
Sais de cálcio | ETA: levotiroxina pelo menos 4 a 6 horas antes [5]; italiana: separar 4 horas ou mais [4] |
Sais de ferro | Levotiroxina pelo menos 4 horas antes [4][5] |
Inibidor da bomba de prótons | Levotiroxina pelo menos 4 horas antes [4][5] |
Hidróxido de alumínio ou de magnésio, sucralfato | Levotiroxina pelo menos 4 horas antes [5] |
Orlistate, picolinato de cromo | Levotiroxina pelo menos 4 horas antes [5] |
Raloxifeno | Evitar o uso concomitante ou levotiroxina pelo menos 12 horas antes [5] |
Colestiramina, colesevelam, sevelâmer, carbonato de lantânio | Evitar o uso concomitante ou separar ao máximo as tomadas [5] |
Ciprofloxacino | Evitar o uso concomitante [5] |
Fonte: [4][5]
Alteram a necessidade de levotiroxina: monitorar o TSH
Fármaco | Conduta |
|---|---|
Carbamazepina, fenitoína, rifampicina | Monitorar o TSH; aumentar a dose, se necessário [4] |
Estrogênio | Reavaliar o TSH ao iniciar ou suspender; pode exigir aumento da dose [2][5] |
Androgênio | Reavaliar o TSH ao iniciar ou suspender; pode exigir redução da dose [2][5] |
Sertralina, inibidores de tirosina-quinase | Monitorar a função tireoidiana [2][4][5] |
Fonte: [2][4][5]
Condições digestivas que aumentam a necessidade
Suspeitar quando a dose necessária for muito acima do esperado: investigar gastrite por H. pylori, gastrite atrófica e doença celíaca; após tratar, reavaliar a função tireoidiana e a dose [2]
Conduta por condição [4][5]:
Gastrite atrófica ou por Helicobacter pylori: tratar a causa; erradicar o H. pylori [4][5]; as diretrizes citam a solução oral e a cápsula mole como alternativa ao comprimido [4][5], conferir em "Marca e formulação"; conferir o protocolo Erradicação do Helicobacter pylori
Doença celíaca: dieta sem glúten [5]
Intolerância à lactose: dieta sem lactose; levotiroxina sem lactose [4][5]
Puran T4® e Euthyrox®: sem lactose entre os excipientes [7][11]
Synthroid®: contém lactose [8]
Giardíase: tratar a infecção [5]; conferir o protocolo Giardíase
Metas de TSH e seguimento
Meta de TSH [1][2][3][4][5]:
Fonte | Adulto | Idoso |
|---|---|---|
LATS [1] | Menos de 60 anos: 1 a 2,5 mU/L | 60 a 70 anos: 3 a 4 mU/L; mais de 70 anos: 4 a 6 mU/L |
ATA [2] | Dentro da faixa de referência para a idade | 4 a 6 mU/L acima de 70 a 80 anos |
NICE [3] | Dentro da faixa de referência | Dentro da faixa de referência |
Italiana [4] | 1 a 3 mU/L, individualizado | No limite superior da faixa; acima de 70 a 75 anos, não manter no limite inferior |
ETA [5] | Dentro da faixa de referência populacional | Faixa mais flexível acima de 70 anos |
Fonte: [1][2][3][4][5]
Evitar sobretratamento: TSH abaixo de 0,1 mU/L, sobretudo no idoso e na mulher após a menopausa, associa-se a fibrilação atrial e osteoporose [2]
Não buscar TSH baixo-normal em obesidade, depressão ou dislipidemia [2]
TSH após início ou ajuste de dose:
LATS: 6 a 8 semanas [1]
ATA e italiana: 4 a 6 semanas [2][4]
NICE: a cada 3 meses, até estabilizar (2 medidas semelhantes dentro da faixa, com 3 meses de intervalo) [3]
Após estabilizar:
LATS e italiana: após 6 meses e depois anualmente [1][4]
ATA: em 4 a 6 meses e depois anualmente [2]
NICE: anualmente [3]
Exames de seguimento [1][3][4]:
TSH; T4 livre nas fases iniciais do tratamento [1]
T3 livre não é útil de rotina [4]
Sintomas persistentes após iniciar levotiroxina: T4 livre além do TSH [3]
Monitorar com mais frequência: mudança importante de peso, novo medicamento e doença intercorrente [1]
TSH fora da meta apesar do tratamento
Paciente antes controlado: repetir os exames antes de aumentar a dose, porque a alteração pode ser transitória (alimento ou mudança de hábito) [5]
Investigar, nesta ordem [1][2]:
Adesão e modo de tomada [1]
Interações com alimentos e fármacos [1]; conferir em "Interações e condições que aumentam a necessidade"
Síndromes de má absorção [1]
Validade vencida ou comprimido exposto a calor ou umidade [2]
Dose alta sem normalizar o TSH:
LATS: acima de 2 mcg/kg/dia, considerar má adesão, interferência de fármacos ou má absorção [1]
ETA: acima de 1,5 a 1,7 mcg/kg/dia com tireoide presente, ou de 1,8 a 2,0 mcg/kg/dia após tireoidectomia, investigar adesão e pseudomá absorção [5]
Refratário após excluir alimentos, fármacos e comorbidades: teste de absorção da levotiroxina, quando clinicamente apropriado [5]
Má adesão persistente: considerar a dose semanal (7 vezes a dose diária, por via oral, 1 vez por semana) [2]
TSH elevado com T4 livre normal ou alto: considerar resistência ao hormônio tireoidiano, adenoma hipofisário produtor de TSH, macro-TSH ou retomada recente do tratamento [2]
Dificuldade persistente em manter o TSH na faixa: consulta com endocrinologista [4]
Sintomas persistentes com TSH normal
Reconhecer os sintomas e investigar outras causas, como anemia e depressão [1][2]
Sintomas desproporcionais à disfunção confirmada, ou transtorno mental que prejudica o tratamento: considerar avaliação em saúde mental [2]
Ajuste da dose:
LATS: aumentar a dose não é recomendado [1]
NICE: considerar ajuste para o bem-estar, sem suprimir o TSH nem causar tireotoxicose [3]
ATA: não ajustar para TSH baixo-normal em obesidade, depressão ou dislipidemia [2]
Combinação de levotiroxina com liotironina:
LATS, ATA e NICE: não usar de rotina [1][2][3]
Italiana: após excluir outras causas, considerar teste em pacientes selecionados, sem fatores de risco cardiovascular [4]
Neste protocolo, indicação reservada ao endocrinologista
Não usar: extrato de tireoide dessecada nem liotironina isolada [2][3][4]
Eutireoidiano com sintomas inespecíficos, obesidade ou depressão: levotiroxina não é indicada [2]
💊 Como prescrever?
Levotiroxina [1][3]:
Levotiroxina (Puran T4®) comp. 12,5 mcg, 25 mcg, 37,5 mcg, 50 mcg, 62,5 mcg, 75 mcg, 88 mcg, 100 mcg, 112 mcg, 125 mcg, 150 mcg, 175 mcg, 200 mcg e 300 mcg
Dose única diária
Dose plena, no adulto sem doença cardiovascular:
LATS (menos de 60 anos): 1,6 a 1,8 mcg/kg de peso ideal, 1 vez ao dia
NICE (menos de 65 anos): 1,6 mcg/kg, 1 vez ao dia, arredondado para os 25 mcg mais próximos
ATA (jovens e de meia-idade saudáveis, com função tireoidiana residual mínima): 1,6 a 1,8 mcg/kg de peso real, 1 vez ao dia
Italiana (perda completa da função tireoidiana, como na tireoidectomia total): 1,5 a 1,9 mcg/kg, 1 vez ao dia
Dose baixa, no idoso ou cardiopata:
LATS (mais de 60 anos, doença cardíaca isquêmica ou insuficiência cardíaca): 12,5 a 25 mcg, 1 vez ao dia
NICE (65 anos ou mais, ou história de doença cardiovascular): 25 a 50 mcg, 1 vez ao dia, com titulação
ATA (doença arterial coronariana conhecida): 12,5 a 25 mcg, 1 vez ao dia, com aumentos graduais
Hipotireoidismo mais leve (por exemplo, TSH até 10 mU/L):
ATA: doses menores, como 25 a 50 mcg, 1 vez ao dia
Ajuste: 12,5 a 25 mcg/dia por vez, para mais ou para menos, guiado pelo TSH
Administração: via oral, com líquido, com o estômago vazio (30 minutos a 1 hora antes ou 2 horas após o café da manhã)
Situações especiais
Idoso [2][4]:
Iniciar com dose baixa e titular lentamente pelo TSH; a faixa normal de TSH é mais alta acima de 65 anos [2]
Idoso frágil ou com comorbidades importantes: iniciar com cautela, em dose baixa, qualquer que seja a causa ou a gravidade [4]
TSH ainda fora da meta, mas abaixo de 10 mU/L: avaliar as condições gerais antes de aumentar a dose [4]
Maior risco de fibrilação atrial e fratura com excesso de levotiroxina [2]
Doença arterial coronariana [2]:
Dose baixa e aumentos lentos, vigiando angina e taquiarritmia
Se não tolerar a dose que normaliza o TSH, tratar a doença coronariana
Fibrilação atrial: conferir o protocolo Fibrilação Atrial e Flutter Atrial no Adulto
Amiodarona [1][4]:
Antes de iniciar: função tireoidiana basal; depois, a cada 3 meses no início do uso [1]
Hipotireoidismo franco induzido: manter a amiodarona se houver indicação cardiológica; iniciar levotiroxina com cautela e aumento gradual [4]
Lítio [4]:
Monitorar a função tireoidiana a cada 6 a 12 meses
Hipotireoidismo: iniciar levotiroxina sem suspender o lítio
Hipotireoidismo central [2][5][6][7][8][11][12]:
Confirmação: T4 livre abaixo do limite inferior com TSH inapropriadamente baixo ou normal em pelo menos 2 dosagens separadas [12]
Antes de iniciar a levotiroxina:
Iniciar somente após evidência de secreção de cortisol preservada [12]
Insuficiência adrenal central não excluída: iniciar a levotiroxina somente depois do corticoide (hidrocortisona), para prevenir crise adrenal [12]
Considerar deficiência de outros hormônios hipofisários; se diagnosticada, tratar a insuficiência adrenal [8]
A levotiroxina pode precipitar crise suprarrenal aguda na insuficiência pituitária sem cobertura adequada de corticosteroide [7][11]; conferir o protocolo Insuficiência Suprarrenal
Consulta com endocrinologista [6]
Monitorar pelo T4 livre, e não pelo TSH [5]
Meta: T4 livre na metade superior da faixa de referência [2][12]; meta menor no idoso ou com comorbidades [2]
Paciente internado [2][3][5]:
Não avaliar a função tireoidiana durante a doença aguda, salvo suspeita de causa tireoidiana [3]
Manter a dose habitual em UTI e na doença não tireoidiana, independentemente dos exames [5]
TSH elevado com hipotireoidismo já conhecido: considerar ajuste, avaliando adesão, horário e absorção [2]
Não usar levotiroxina para tratar a síndrome do eutireoidiano doente [2]
Obesidade: ajustar a dose pelo peso com cuidado, considerando a proporção entre massa magra e gorda [5]
Mulher em idade fértil: orientar consulta ao planejar ou diagnosticar gestação, para ajuste precoce da dose [4]; conferir o protocolo Hipotireoidismo Antes da Concepção e Durante a Gravidez
Quando encaminhar ao endocrinologista
Emergência: suspeita de coma mixedematoso; conferir em "Sinais de alarme" [1][6]
Seguimento na atenção primária: após o diagnóstico e a estabilização do TSH [4]
Consulta com endocrinologista:
Italiana: o paciente seguido na atenção primária beneficia-se da consulta, se qualquer um [4]:
Planejamento ou diagnóstico de gestação, pós-parto e amamentação
Dificuldade em manter o TSH na faixa de referência
Sintomas persistentes atribuídos ao hipotireoidismo com TSH dentro da faixa
Nova doença que complica o quadro
Uso de fármacos imunomoduladores ou que alteram a função tireoidiana (interferon, alemtuzumabe, amiodarona)
StatPearls: recomendada em cenário complexo, se qualquer um [6]:
Falha do tratamento ou problema de absorção da levotiroxina
Doença cardíaca ou outra doença endócrina coexistente
Dificuldade na interpretação dos exames de função tireoidiana
Hipotireoidismo induzido por fármaco
Pré-concepção e gestação
Outros encaminhamentos [2]:
Alergia ou intolerância à levotiroxina sem resposta à troca de dose ou de produto: alergista
Sintomas desproporcionais à disfunção confirmada: saúde mental
Referências
[1] BRENTA, Gabriela; VAISMAN, Mario; SGARBI, José Augusto; et al. Diretrizes clínicas práticas para o manejo do hipotiroidismo. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, v. 57, n. 4, p. 265-299, 2013. DOI: 10.1590/S0004-27302013000400003. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abem/a/RyCDtMtQqCKP5vG8hVSwpQC/?lang=pt. Acesso em: 29 out. 2026.
[2] JONKLAAS, Jacqueline; BIANCO, Antonio C.; BAUER, Andrew J.; et al. Guidelines for the treatment of hypothyroidism: prepared by the American Thyroid Association Task Force on Thyroid Hormone Replacement. Thyroid, v. 24, n. 12, p. 1670-1751, 2014. DOI: 10.1089/thy.2014.0028. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4267409/. Acesso em: 29 out. 2026.
[3] NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Thyroid disease: assessment and management. NICE guideline NG145. London: NICE, 2019 (atualizada em 12 out. 2023). Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng145. Acesso em: 29 out. 2026.
[4] GUGLIELMI, Rinaldo; MIAN, Caterina; NOVIZIO, Roberto; et al. Italian guidelines for the management of adult individuals with primary hypothyroidism outside pregnancy. Journal of Endocrinological Investigation, v. 48, n. 10, p. 2295-2313, 2025. DOI: 10.1007/s40618-025-02652-y. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12518491/. Acesso em: 29 out. 2026.
[5] CENTANNI, Marco; DUNTAS, Leonidas; FELDT-RASMUSSEN, Ulla; et al. ETA guidelines for the use of levothyroxine sodium preparations in monotherapy to optimize the treatment of hypothyroidism. European Thyroid Journal, v. 14, n. 4, e250123, 2025. DOI: 10.1530/ETJ-25-0123. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12323320/. Acesso em: 29 out. 2026.
[6] PATIL, Nikita; REHMAN, Anis; ANASTASOPOULOU, Catherine; JIALAL, Ishwarlal. Hypothyroidism. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024 (atualizado em 18 fev. 2024). Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK519536/. Acesso em: 29 out. 2026.
[7] SANOFI MEDLEY FARMACÊUTICA. Puran T4® (levotiroxina sódica): comprimidos 12,5 a 300 mcg. Bula para o profissional de saúde. Aprovada pela Anvisa em 28/02/2023.
[8] ABBOTT LABORATÓRIOS DO BRASIL. Synthroid® (levotiroxina sódica): comprimidos 25 a 200 mcg. Bula para o profissional de saúde. Aprovada pela Anvisa em 19/11/2021.
[9] ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, 10ª revisão (CID-10). Capítulo IV: Doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas (E00-E90). Versão em português, DATASUS, versão 2008. Disponível em: http://www2.datasus.gov.br/cid10/V2008/cid10.htm. Acesso em: 29 out. 2026.
[10] HOSPITAL SÃO CAMILO. Guia Farmacêutico: levotiroxina sódica. São Paulo: Sociedade Beneficente São Camilo, 2022. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hospitalsaocamilosp.org.br/blog/2022/11/17/levotiroxina-sodica/. Acesso em: 29 out. 2026.
[11] MERCK S/A. Euthyrox® (levotiroxina sódica): comprimidos 25 a 200 mcg. Bula para o profissional de saúde. Aprovada em 22/08/2025.
[12] PERSANI, Luca; BRABANT, Georg; DATTANI, Mehul; et al. 2018 European Thyroid Association (ETA) Guidelines on the Diagnosis and Management of Central Hypothyroidism. European Thyroid Journal, v. 7, p. 225-237, 2018. DOI: 10.1159/000491388. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6198777/. Acesso em: 30 out. 2026.
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