Parada Cardiorrespiratória (PCR) no Adulto

CID-10: I46 - Parada cardíaca

CID-10: I469 - Parada cardíaca não especificada

Outros temas:

Introdução

A parada cardiorrespiratória permanece um desafio de saúde pública de alta letalidade, e o desfecho depende diretamente da qualidade da RCP e da precocidade da desfibrilação quando indicada. [1]

  • Epidemiologia: a incidência de PCR extra-hospitalar atendida por serviços de emergência é de 83,4 casos por 100.000 habitantes ao ano, com sobrevida à alta hospitalar de aproximadamente 10%. [1]

  • A PCR intra-hospitalar ocorre em cerca de 1 a cada 100 adultos internados; aproximadamente 72,2% alcançam retorno da circulação espontânea (RCE), com sobrevida à alta de cerca de 24,2%, e, entre os que sobrevivem à alta, cerca de 85% apresentam desfecho neurológico favorável. [1]

  • A conduta se organiza a partir da checagem do ritmo, que divide o atendimento em dois ramos: ritmo chocável (FV/TVSP) e ritmo não chocável (AESP/assistolia). Em ambos, a RCP de alta qualidade e a busca das causas reversíveis são simultâneas. [1]

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Fluxograma de atendimento

Algoritmo de Parada Cardiorrespiratória no Adulto: o fluxograma organiza o atendimento à parada cardiorrespiratória no adulto conforme o suporte avançado de vida cardiovascular. O passo 1 é iniciar a RCP, começando a ventilação com bolsa-válvula-máscara e ofertando oxigênio, além de acoplar o monitor/desfibrilador. Avalia-se então se o ritmo é chocável, o que define duas vias. Na via dos ritmos chocáveis, identifica-se o passo 2, fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso (FV/TVsp), seguido do passo 3, aplicação de choque, e do passo 4, RCP por 2 minutos com obtenção de acesso intravenoso ou intraósseo. Reavalia-se o ritmo: se chocável, aplica-se o passo 5, novo choque, seguido do passo 6, RCP por 2 minutos com epinefrina a cada 3 a 5 minutos e consideração de via aérea avançada e capnografia. Nova reavaliação do ritmo: se chocável, aplica-se o passo 7, novo choque, seguido do passo 8, RCP por 2 minutos com amiodarona ou lidocaína e tratamento das causas reversíveis, retornando em seguida à reavaliação do ritmo. Se em qualquer das reavaliações dessa via o ritmo não for chocável, segue-se para o passo 12. Na via dos ritmos não chocáveis, identifica-se o passo 9, assistolia ou atividade elétrica sem pulso (AESP), administrando-se epinefrina o quanto antes, seguido do passo 10, RCP por 2 minutos com acesso intravenoso ou intraósseo, epinefrina a cada 3 a 5 minutos e consideração de via aérea avançada e capnografia. Reavalia-se o ritmo: se chocável, segue-se para o passo 5; se não chocável, aplica-se o passo 11, RCP por 2 minutos com tratamento das causas reversíveis, seguido de nova reavaliação do ritmo, na qual, se chocável, segue-se para o passo 5, e se não chocável, segue-se para o passo 12. O passo 12 orienta que, se não houver sinais de retorno da circulação espontânea (RCE), deve-se ir para o passo 10; se houver RCE, deve-se ir para os cuidados pós-parada cardíaca; e deve-se considerar a adequação da continuidade da reanimação. A tabela de detalhes complementa o algoritmo. Quanto à RCP de alta qualidade, deve-se comprimir com força (pelo menos 5 cm), comprimir rápido (100 a 120 por minuto) permitindo o retorno completo do tórax, minimizar interrupções nas compressões, evitar ventilação excessiva, revezar o compressor a cada 2 minutos ou antes se houver fadiga, usar relação compressão-ventilação de 30:2 na ausência de via aérea avançada, aplicar 1 ventilação a cada 6 segundos (10 ventilações por minuto) com compressões contínuas quando houver via aérea avançada, e manter capnografia com forma de onda contínua, reavaliando a qualidade da RCP se a ETCO₂ estiver baixa ou em queda. Quanto à energia do choque para desfibrilação, no desfibrilador bifásico deve-se seguir a recomendação do fabricante, com dose inicial habitual de 120 a 200 J, usando a energia máxima disponível se desconhecida, com doses subsequentes equivalentes ou eventualmente maiores; no monofásico, 360 J. Quanto à terapia medicamentosa, a epinefrina intravenosa ou intraóssea é administrada na dose de 1 mg a cada 3 a 5 minutos; a amiodarona intravenosa ou intraóssea tem primeira dose de 300 mg em bolus e segunda dose de 150 mg; alternativamente, a lidocaína intravenosa ou intraóssea tem primeira dose de 1 a 1,5 mg/kg e segunda dose de 0,5 a 0,75 mg/kg. Quanto à via aérea avançada, indica-se intubação endotraqueal ou via aérea avançada supraglótica, com capnografia com forma de onda contínua ou capnometria para confirmar e monitorar o posicionamento do tubo endotraqueal. As causas reversíveis seguem a mnemônica dos 5 H's e 5 T's: hypovolemia (hipovolemia), hypoxia (hipóxia), hydrogen ion (íon hidrogênio, acidose), hypo/hyperkalemia (hipocalemia ou hipercalemia), hypothermia (hipotermia), tension pneumothorax (pneumotórax hipertensivo), tamponade cardiac (tamponamento cardíaco), toxins (toxinas), thrombosis pulmonary (trombose pulmonar) e thrombosis coronary (trombose coronária). Fonte: American Heart Association. Adult Cardiac Arrest Algorithm, 2025.

Manejo inicial

Medidas gerais: [1]

  • Iniciar compressões + trazer desfibrilador + bolsa-máscara ligada a oxigênio 100% + monitorização + acesso venoso + material de IOT.

Compressões torácicas (RCP de alta qualidade): [1]

  • Frequência de 100 a 120 por min.

  • Profundidade de pelo menos 5 cm (adulto médio) [1], evitando ultrapassar 6 cm. [5]

  • Permitir retorno total do tórax.

  • Minimizar interrupções nas compressões.

  • Trocar o profissional na compressão a cada 2 min, ou antes se fadigado.

  • Evitar ventilação excessiva.

  • A RCP com elevação da cabeça (head-up CPR) não é recomendada fora do contexto de ensaios clínicos. [1]

Ventilação: [1]

  • Paciente SEM via aérea avançada (bolsa-máscara): 30 compressões intercaladas com 2 ventilações (30:2).

    • Pode-se usar cânula orofaríngea (Guedel) para manter via aérea pérvia. [5]

  • Paciente COM via aérea avançada (intubado): 1 ventilação a cada 6 segundos (10 por min), com compressões contínuas.

Via aérea avançada: [1]

  • Tanto a ventilação com bolsa-máscara quanto uma estratégia de via aérea avançada podem ser consideradas durante a RCP, a depender da situação e da habilidade do profissional.

  • Se a colocação da via aérea avançada interromper as compressões, deve-se adiar a inserção até que o paciente não responda à RCP e às tentativas iniciais de desfibrilação, ou até obter RCE.

  • Capnografia em forma de onda contínua é recomendada, em adição à avaliação clínica, como o método mais confiável para confirmar e monitorar o posicionamento do tubo endotraqueal.

  • Se disponível, é razoável utilizar a maior concentração de oxigênio inspirado possível durante a RCP.

Acesso vascular: [1]

  • O acesso intravenoso (IV) é a primeira escolha para administração de drogas na PCR.

  • O acesso intraósseo (IO) é alternativa razoável se as tentativas iniciais de acesso IV forem malsucedidas ou inviáveis.

  • O acesso venoso central pode ser considerado por profissionais treinados se IV e IO forem malsucedidos ou inviáveis, com atenção para não atrasar compressões ou desfibrilação.

  • A administração de drogas pelo tubo endotraqueal foi removida das diretrizes (baixas concentrações sanguíneas e efeitos imprevisíveis).

Ritmo chocável: FV e TVSP

Prioridades: [1]

  • Desfibrilar imediatamente e retomar RCP por 2 min e checar o ritmo

  • Epinefrina entra após a falha das tentativas iniciais de desfibrilação (geralmente após 2⁰ choque)

  • Antiarrítmico (amiodarona ou lidocaína) na FV/TVSP que não responde ao choque (geralmente após 3⁰ choque)

Desfibrilação

  • Pedir para a equipe se afastar e desconectar/afastar o oxigênio. [5]

  • Carga: [1]

    • Bifásico: conforme a recomendação do fabricante (ex.: dose inicial de 120 a 200 J); se desconhecida, utilizar a dose máxima disponível.

    • Monofásico: 360 J.

  • Doses subsequentes devem ser equivalentes, e doses maiores podem ser consideradas se o choque inicial não restaurar ritmo com perfusão. [1]

  • É preferível a estratégia de choque único à de choques empilhados, por reduzir a interrupção das compressões. [1]

  • O desfibrilador bifásico é preferível ao monofásico. [1]

Epinefrina

  • Epinefrina (Adren®) solução injetável 1 mg/mL, ampola 1 mL

    • 1 ampola (1 mg) IV ou IO, a cada 3 a 5 min. [1]

    • Aplicar bolus de 20 mL de SF0,9% após cada dose e elevar o membro. [5]

  • Considerações

    • Recomendada para todos os pacientes adultos em PCR. [1]

    • No ritmo chocável, é razoável administrar a epinefrina após as tentativas iniciais de desfibrilação terem falhado, priorizando a desfibrilação rápida. [1]

    • Na prática, administrar a epinefrina a cada segundo ciclo de RCP, após a dose inicial, atende à recomendação de intervalo. [1]

    • Epinefrina em altas doses não é recomendada de rotina. [1]

    • Vasopressina, isolada ou associada à epinefrina, não oferece vantagem como substituta da epinefrina. [1]

Antiarrítmicos

  • Amiodarona ou lidocaína podem ser consideradas na FV ou TVSP que não responde à desfibrilação. Os dados são insuficientes para distinguir a efetividade entre as duas, ou para definir o benefício da associação. [1]

  • Amiodarona (Ancoron®, Atlansil®, Miodon®) solução injetável 50 mg/mL, ampola 3 mL (150 mg/ampola)

    • 1ª dose: 2 ampolas (300 mg) IV ou IO em bolus. [1]

    • 2ª dose: 1 ampola (150 mg) IV ou IO. [1]

    • Aplicar bolus de 20 mL de SF0,9% após cada dose e elevar o membro. [5]

  • Lidocaína (Xylestesin® sem vasoconstritor) solução injetável 1% (10 mg/mL) ou 2% (20 mg/mL)

    • 1ª dose: 1 a 1,5 mg/kg IV ou IO. [1]

      • Na prática (lidocaína 1%): 50 kg = 5 a 7,5 mL; 70 kg = 7 a 10,5 mL; 90 kg = 9 a 13,5 mL. [4]

    • Demais doses: 0,5 a 0,75 mg/kg IV ou IO [1], a cada 5 a 10 min, até dose máxima total de 3 mg/kg. [5]

      • Na prática (lidocaína 1%): 50 kg = 2,5 a 3,7 mL; 70 kg = 3,5 a 5,2 mL; 90 kg = 4,5 a 6,7 mL. [4]

  • Considerações

    • Amiodarona: Melhorou a sobrevida à admissão hospitalar em comparação ao placebo, sem diferença na sobrevida à alta. [1]

    • Betabloqueadores, bretílio, procainamida e sotalol têm benefício incerto na FV/TVSP não responsiva à desfibrilação. [1]

FV/TVSP persistente (após 3 ou mais choques consecutivos)

  • Antes de recorrer a estratégias alternativas de choque, corrigir deficiências técnicas da desfibrilação: otimizar o contato pá-pele, aplicar pressão manual sobre as pás e reposicionar as pás de modo a englobar o coração anatomicamente. [1]

  • A utilidade da mudança de vetor (reposicionamento das pás) para adultos com FV/TVSP persistente após 3 ou mais choques não está estabelecida. [1]

  • A utilidade da desfibrilação sequencial dupla para adultos com FV/TVSP persistente após 3 ou mais choques não está estabelecida. [1]

  • Na maioria dos casos (cerca de 80%), a FV/TVSP vista na checagem de ritmo após o choque decorre de recorrência da arritmia após terminação bem-sucedida, e não de falha do choque. [1]

Ritmo não chocável: AESP e assistolia

Prioridades: [1]

  • RCP contínua de alta qualidade

  • Epinefrina o mais precocemente possível

  • Foco na identificação e no tratamento das causas reversíveis

Confirmação da assistolia

  • Checar cabos e monitor. [5]

  • Colocar o ganho do aparelho no máximo. [5]

  • Mudar a derivação para nova análise do ritmo. [5]

Epinefrina

  • Epinefrina solução injetável 1 mg/mL, ampola 1 mL

    • 1 ampola (1 mg) IV ou IO, a cada 3 a 5 min. [1]

    • Aplicar bolus de 20 mL de SF0,9% após cada dose e elevar o membro. [5]

  • Considerações

    • Recomendada para todos os pacientes adultos em PCR. [1]

    • No ritmo não chocável, é razoável administrar a epinefrina o mais precocemente possível. [1]

    • Na prática, administrar a epinefrina a cada segundo ciclo de RCP, após a dose inicial, atende à recomendação de intervalo. [1]

    • Epinefrina em altas doses não é recomendada de rotina. [1]

    • Vasopressina, isolada ou associada à epinefrina, não oferece vantagem como substituta da epinefrina. [1]

Marca-passo elétrico

  • O uso rotineiro de marca-passo elétrico não é recomendado durante a reanimação de uma PCR já estabelecida, independentemente do ritmo (assistolia ou AESP) e do momento da tentativa. [1]

  • Interrupções prolongadas nas compressões para avaliar o sucesso do marca-passo podem ser prejudiciais à sobrevida. [1]

Busca das causas reversíveis

  • A conduta no ritmo não chocável se concentra na identificação e no tratamento das causas reversíveis. [1]

    • 5 Hs (ACLS 2025): hipovolemia, hipóxia, hipotermia, H+ (acidose), hipo/hipercalemia [1]; acrescenta-se a hipoglicemia como 6º H por convenção prática. [5]

    • 5 Ts: tensão no tórax (pneumotórax hipertensivo), tamponamento cardíaco, tóxicos, trombose pulmonar, trombose coronariana. [1]

    • O tratamento de cada causa está detalhado no tópico "Causas reversíveis (6 Hs e 5 Ts)". [1]

Capnografia (ETCO2)

Se disponível, utilizar a capnografia em forma de onda contínua durante a RCP. [1]

  • Qualidade das compressões: [1]

    • ETCO2 menor que 10 mmHg associa-se a piores desfechos.

    • Valores acima de 10 mmHg, e idealmente de 20 mmHg ou mais, sugerem técnica de compressão mecanicamente adequada.

    • Se o ETCO2 estiver baixo ou em queda, reavaliar a qualidade da RCP.

  • Detecção de RCE: [1]

    • Elevação abrupta do ETCO2 (aumento súbito maior que 10 mmHg) pode indicar RCE durante as compressões ou quando a checagem de ritmo revela ritmo organizado.

    • O RCE ainda pode ocorrer com elevações menores que 10 mmHg.

  • Confiabilidade: [1]

    • A monitorização é mais confiável quando medida através de tubo endotraqueal; o uso com dispositivo supraglótico ou bolsa-máscara tem utilidade menos definida.

    • Outros fatores alteram o ETCO2 e devem ser considerados: ventilação-minuto, qualidade da RCP, administração de epinefrina ou bicarbonato, manejo da via aérea e etiologia da parada.

Causas reversíveis (6 Hs e 5 Ts)

O ACLS 2025 lista 5 Hs (hipovolemia, hipóxia, H+/acidose, hipo/hipercalemia, hipotermia) e 5 Ts (pneumotórax hipertensivo, tamponamento cardíaco, toxinas, trombose pulmonar e trombose coronariana). [1] A hipoglicemia é acrescentada como 6º H por convenção prática. [5]

Drogas fora do algoritmo: [1]

  • Cálcio, bicarbonato de sódio e magnésio não são recomendados de rotina na PCR; seu uso restringe-se às causas específicas descritas nesta seção.

  • O uso de corticosteroides na PCR tem benefício incerto.

Diagnóstico por imagem: [1]

  • Se disponível e por profissional experiente, o ultrassom point-of-care (POCUS) pode ser considerado para diagnosticar causas reversíveis, desde que não interrompa a RCP.

  • O POCUS associa-se a maior interrupção das compressões e maior duração da reanimação, de modo que a prioridade é minimizar interrupções na RCP.

Hipovolemia

  • Reposição volêmica: SF0,9% 30 mL/kg IV, associado a concentrado de hemácias se indicado. [5]

Hipóxia

  • IOT e oxigênio a 100%; se disponível, utilizar a maior concentração de oxigênio inspirado possível durante a RCP. [1]

Hipoglicemia

  • Glicose 50% solução injetável, ampola 10 mL [4][5]

    • 5 ampolas (50 mL) IV em bolus. [5]

    • Seguir com flush de SF0,9% 20 mL e elevação do membro. [5]

  • Conduta detalhada em "Hipoglicemia".

Hipotermia

  • Modificações do algoritmo na hipotermia grave (temperatura central < 30 °C): [2]

    • Desfibrilação: pode ser razoável desfibrilar uma vez e, se sem sucesso, adiar novas desfibrilações até a temperatura central atingir ≥ 30 °C. [2]

    • Epinefrina: pode ser razoável adiar a administração de epinefrina até a temperatura central atingir ≥ 30 °C. [2]

  • Reaquecimento: [2]

    • Remover o paciente da exposição ambiental e retirar roupas molhadas.

    • Reaquecimento passivo: cobertores.

    • Reaquecimento ativo: manta térmica de ar forçado aquecido, fluidos IV ou IO aquecidos, oxigênio umidificado aquecido, lavagem com água aquecida das cavidades torácica e peritoneal, ou cateteres endovasculares de controle de temperatura.

    • É razoável reaquecer o adulto em PCR hipotérmica com suporte de vida extracorpóreo (ECLS), que permite reaquecimento com suporte circulatório simultâneo, onde disponível.

  • Atenção: na hipotermia grave, pulso e respiração podem ser lentos ou indetectáveis, e sinais como rigidez aparente ou pupilas fixas e dilatadas não são confiáveis para constatar óbito. [2]

H+ (acidose metabólica)

  • Bicarbonato de sódio 8,4% (1 mEq/mL)

    • 1 mEq/kg IV em bolus; após, 0,5 mEq/kg a cada 10 min até RCE. [5]

    • Ex. 70 kg: 70 mL IV em bolus; após, 35 mL IV a cada 10 min até RCE. [5]

  • Considerações

    • A administração de rotina de bicarbonato de sódio na PCR não é recomendada; reservar para situações específicas, como hipercalemia e intoxicação por bloqueadores de canal de sódio. [1][2]

    • Após a primeira dose, guiar as demais por gasometria. [5]

Hipercalemia

  • Gluconato de cálcio 10% (100 mg/mL), ampola 10 mL

    • 10 a 20 mL IV em bolus; pode repetir a cada 5 min. [5]

  • Bicarbonato de sódio 8,4% (1 mEq/mL)

    • 1 mEq/kg IV em bolus; após, 0,5 mEq/kg a cada 10 min até RCE. [5]

    • Ex. 70 kg: 70 mL IV em bolus; após, 35 mL IV em bolus. [5]

  • Solução polarizante: SG10% 500 mL (glicose 50 g) + insulina regular 10 UI

    • IV em 10 a 20 min. [5]

  • Considerações

    • A efetividade do cálcio IV, do bicarbonato de sódio IV e da insulina com glicose na PCR por suspeita de hipercalemia não está bem estabelecida. [2]

    • Beta-2-agonistas inalatórios não são recomendados na PCR por suspeita de hipercalemia. [2]

    • A confirmação laboratorial não é necessária para iniciar o tratamento; história e alterações do ECG sustentam a suspeita. [2]

    • Alterações características do ECG podem incluir onda T apiculada, achatamento da onda P, alargamento do PR, alargamento do QRS e depressão do segmento ST seguida de fusão de S e T (onda sinusoidal), embora com baixas sensibilidade e especificidade. [2]

    • Bicarbonato de sódio:

      • Após a primeira dose, guiar as demais doses por gasometria. [5]

    • Considerar diálise. [5]

  • Conduta detalhada em "Hipercalemia no adulto". [5]

Hipocalemia

  • Cloreto de potássio19,1%

    • 8 mL (20 mEq) + SF0,9% 20 mL, IV em 10 min. [5]

    • Se mantém PCR: repetir 4 mL + SF0,9% 20 mL, IV em 10 min. [5]

  • Considerações

    • Dosar o potássio sérico em vaso calibroso. [5]

  • Conduta detalhada em "Hipocalemia no adulto". [5]

Hipomagnesemia

  • Sulfato de Magnésio 10% (100 mg/mL), 20% ou 50%, ampola 10 mL

    • 20 mL de Mg 10% (2 g) IV em bolus, em 1 a 2 min. [5]

    • Após: 5 a 20 mL de Mg 10% (0,5 a 2 g) por hora, se necessário. [5]

  • Considerações

    • A administração de rotina de magnésio na PCR não é recomendada; reservar para a suspeita de hipomagnesemia ou torsades de pointes. [1]

Hipocalcemia

  • Gluconato de cálcio 10% (100 mg/mL), ampola 10 mL [4][5]

    • 10 a 20 mL IV em bolus; pode repetir a cada 5 min. [5]

Tamponamento cardíaco

  • Pericardiocentese guiada por ultrassom. [5]

  • Toracotomia de ressuscitação. [5]

Tromboembolismo pulmonar

  • Em adultos com TEP confirmado como precipitante da PCR, a fibrinólise sistêmica, a embolectomia cirúrgica e a embolectomia mecânica percutânea são opções razoáveis de tratamento. [2]

  • Em PCR por suspeita de TEP, a fibrinólise sistêmica pode ser considerada. [2]

  • É razoável utilizar ECLS em adultos com PCR por TEP confirmado ou suspeito. [2]

  • A duração ideal da RCP após a administração do fibrinolítico não é clara. [2]

  • Conduta detalhada, incluindo os esquemas de trombolíticos, em "Tromboembolismo Pulmonar (TEP) no Adulto".

Trombose coronariana

  • A coronariografia é recomendada de forma emergente após a PCR em todos os pacientes com suspeita de causa cardíaca e supradesnivelamento persistente do segmento ST no ECG, independentemente de coma. [3]

  • A coronariografia emergente é razoável também na presença de choque cardiogênico, arritmias ventriculares recorrentes ou evidência de isquemia miocárdica significativa em curso. [3]

  • Em pacientes comatosos, na ausência de supra-ST, choque, instabilidade elétrica ou isquemia significativa em curso, a coronariografia emergente não é recomendada em detrimento de uma estratégia tardia ou seletiva. [3]

  • Conduta detalhada em "Síndrome Coronariana Aguda e Infartos".

Tensão no tórax (pneumotórax hipertensivo)

  • Punção de alívio: 5º espaço intercostal, entre as linhas axilar média e anterior. [5]

  • Drenagem torácica. [5]

  • Conduta detalhada em "Pneumotórax".

Tóxicos (intoxicações)

  • Por bloqueadores de canal de sódio (ex.: antidepressivos tricíclicos)

    • Bicarbonato de sódio 8,4% (1 mEq/mL)

      • 50 a 150 mEq IV (50 a 150 mL da solução 8,4%). [2]

      • Manutenção: preparar solução de 150 mEq/L (ex.: 150 mL de bicarbonato 8,4% + 850 mL de SG5%) e infundir a 1 a 3 mL/kg/h. [2][4]

        • Ex. 70 kg: 70 a 210 mL/h. [4]

    • Considerações

      • Atenção para hipernatremia, alcalemia, hipocalemia e hipocloremia. [2]

      • Após a primeira dose, guiar as demais doses por gasometria. [5]

  • Por anestésico local

    • Emulsão lipídica 20%

      • Menos de 70 kg: 1,5 mL/kg IV em bolus (ex. 50 kg: 75 mL). [2][4]

      • Mais de 70 kg: 100 mL IV em bolus, em 2 a 3 min. [2]

      • Manutenção (menos de 70 kg): 0,25 mL/kg/min por até 30 min. [2]

      • Manutenção (mais de 70 kg): 200 a 250 mL em 15 a 20 min. [2]

    • Considerações

      • Todos os estudos utilizaram emulsão lipídica a 20%. [2]

  • Por betabloqueador ou bloqueador de canal de cálcio

    • Glucagon (GlucaGen®) 1 mg/mL

      • 2 a 10 mg IV (2 a 10 mL). [2]

      • Manutenção: 1 a 15 mg/h. [2]

    • Gluconato de cálcio 10% (100 mg/mL), ampola 10 mL

      • 6000 mg IV (60 mL da solução a 100 mg/mL, equivalente a 28 mEq de Ca²⁺). [2]

      • Manutenção: 60 a 120 mg/kg/h (ex. 70 kg: 42 a 84 mL/h da solução a 100 mg/mL). [2][4]

    • Insulina Regular100 UI/mL (terapia com insulina em altas doses)

      • 1 UI/kg IV (ex. 70 kg: 70 UI). [2][4]

      • Manutenção: 1 a 10 UI/kg/h. [2]

    • Considerações

      • Glucagon:

        • Antecipar vômitos. [2]

      • Gluconato de cálcio:

        • Titular pela pressão arterial; não exceder concentração de cálcio iônico sérico de 1,5 a 2 vezes o limite superior da normalidade. [2]

      • Insulina regular:

        • Monitorizar hipoglicemia, hipocalemia e sobrecarga volêmica. [2]

  • Por opioide

    • Naloxona (Narcan®) solução injetável 0,4 mg/mL, ampola 1 mL

      • 0,2 a 2 mg IV, IO ou IM (0,5 a 5 mL), repetindo a cada 2 a 3 min conforme necessário. [2][4]

      • Manutenção: dois terços da dose de despertar por hora. [2]

    • Considerações

      • Titular até a reversão da depressão respiratória e a restauração dos reflexos protetores de via aérea. [2]

Cuidados pós-PCR

Avaliar via aérea (DOPE): [5]

  • Deslocamento: avaliar a posição do tubo.

  • Obstrução: aspirar o tubo.

  • Pneumotórax: avaliar a ausculta.

  • Equipamento: avaliar vazamento ou desconexão.

Avaliar respiração (oxigenação e ventilação): [3]

  • Utilizar oxigênio a 100% até que a saturação (SpO2) ou a PaO2 possam ser medidas de forma confiável.

  • Após medida confiável, titular a FiO2 para SpO2 de 90% a 98% (PaO2 de 60 a 105 mmHg), evitando hipoxemia e hiperoxemia.

  • Manter a PaCO2 dentro da faixa fisiológica normal (geralmente 35 a 45 mmHg).

  • Atenção: a oximetria de pulso tem maior risco de imprecisão, podendo mascarar hipoxemia, em pacientes com pigmentação cutânea mais escura.

Avaliar circulação: [3]

  • Evitar hipotensão, mantendo PAM de pelo menos 65 mmHg. Não há evidência suficiente para recomendar um vasopressor específico nesse contexto.

  • O ACLS 2025 passou a orientar a meta apenas por PAM (≥ 65 mmHg) e removeu o alvo de pressão arterial sistólica das recomendações anteriores. [3]

Avaliar glicemia: [3]

  • Evitar hipoglicemia (glicose < 70 mg/dL) e hiperglicemia (glicose > 180 mg/dL).

Avaliar neurológico e controle de temperatura: [3]

  • Uma estratégia deliberada e protocolizada de controle de temperatura é recomendada para todos os adultos que permaneçam sem resposta a comandos verbais após o RCE, independentemente do local da parada ou do ritmo de apresentação.

  • É recomendado manter a temperatura entre 32 °C e 37,5 °C, incluindo controle hipotérmico (32 °C a 34 °C) ou controle normotérmico/prevenção de febre (36 °C a 37,5 °C).

  • É razoável manter o controle de temperatura por pelo menos 36 horas.

  • Alvos de temperatura mais elevados podem associar-se a maior risco de febre.

Exames complementares: [3]

  • Obter ECG de 12 derivações o mais precocemente possível em todos os pacientes após o RCE.

  • Pode ser razoável realizar tomografia computadorizada de crânio a pelve (head-to-pelvis) para investigar a etiologia da PCR e complicações da reanimação.

  • Pode ser razoável realizar ecocardiograma ou ultrassom cardíaco point-of-care para identificar diagnósticos clinicamente significativos que exijam intervenção.

  • Solicitar também hemograma, eletrólitos, função renal e gasometria arterial, conforme a necessidade. [5]

Encaminhar para UTI. [5]

Fim dos esforços

Quando considerar o fim dos esforços?

  • Não utilizar parâmetros isoladamente. [1]

  • Considerar o tempo de PCR antes do atendimento e o tempo total de PCR. [5]

  • Considerar o prognóstico prévio do paciente. [5]

  • Em pacientes intubados, a falha em atingir ETCO2 maior que 10 mmHg pela capnografia em forma de onda após 20 min de reanimação avançada pode ser considerada como um componente de uma abordagem multimodal para decidir o momento de encerrar os esforços. [1]

  • Em pacientes não intubados, um valor de corte específico de ETCO2, em qualquer momento da RCP, não deve ser utilizado como indicação para encerrar os esforços. [1]

  • Valores isolados de ETCO2 acima de 20 mmHg, em fases mais tardias da reanimação, não devem ser usados isoladamente como indicador para continuar os esforços, particularmente quando outros indicadores prognósticos são desfavoráveis. [1]

Referências

[1] WIGGINTON, J. G.; AGARWAL, S.; BARTOS, J. A. et al. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, v. 152, suppl. 2, p. S538-S577, 2025. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001376. Disponível em: https://www.ahajournals.org/journal/circ.

[2] CAO, D.; ARENS, A. M.; CHOW, S. L. et al. Part 10: Adult and Pediatric Special Circumstances of Resuscitation: 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, v. 152, suppl. 2, p. S578-S672, 2025. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001380. Disponível em: https://www.ahajournals.org/journal/circ.

[3] HIRSCH, K. G.; AMORIM, E.; COPPLER, P. J. et al. Part 11: Post-Cardiac Arrest Care: 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, v. 152, suppl. 2, p. S673-S718, 2025. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001375. Disponível em: https://www.ahajournals.org/journal/circ.

[4] Bulas dos medicamentos citados (apresentações e diluições): hemitartarato de epinefrina/adrenalina; cloridrato de amiodarona (Ancoron®); cloridrato de lidocaína 2% sem vasoconstritor (Xylestesin®); bicarbonato de sódio 8,4%; gluconato de cálcio 10%; cloreto de potássio 19,1%; sulfato de magnésio (Magnoston®); glicose 50%; insulina humana regular; glucagon (GlucaGen®); emulsão lipídica 20%; naloxona (Narcan®). Bulário Eletrônico da ANVISA. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/.

[5] VELASCO, I. T. (coord.). Medicina de emergência: abordagem prática. 13. ed., rev., atual. e ampl. Barueri (SP): Manole, 2019.

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