Bradicardia no Adulto: Manejo na Emergência

CID-10: R00.1 - Bradicardia não especificada

Outros temas:

Introdução

  • Bradiarritmia no adulto é definida, para fins de conduta em emergência, como frequência cardíaca tipicamente menor que 50/min. [1]

  • A conduta é orientada por uma pergunta central:

    • Há comprometimento cardiopulmonar atribuível à bradicardia?

    • A partir dela, o paciente é classificado em sintomático (instável) ou não sintomático, o que define toda a sequência terapêutica. [1]

  • Arritmias podem ser tanto a causa quanto uma manifestação da instabilidade clínica; antes de tratar a bradicardia, deve-se avaliar se ela é o real motor do quadro ou uma resposta a outra condição subjacente. [1]

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Fluxograma de manejo

Algoritmo de Bradicardia no Adulto: o fluxograma apresenta a abordagem sistematizada à bradicardia sintomática no adulto, conforme as diretrizes AHA 2025. O ponto de partida é avaliar a adequação para a condição clínica, com frequência cardíaca tipicamente inferior a 50 bpm se bradiarritmia. O primeiro ponto de decisão avalia a presença de comprometimento cardiopulmonar, definido por hipotensão, estado mental agudamente alterado, sinais de choque, desconforto isquêmico no tórax ou insuficiência cardíaca aguda. Na ausência de comprometimento, orienta-se identificar e tratar as causas subjacentes com suporte dos ABCs, considerar oxigênio, obter ECG de 12 derivações e observar o paciente. Na presença de comprometimento, indica-se avaliação e suporte imediatos: manutenção de via aérea pérvia com oferta de oxigênio, ventilação com pressão positiva se necessário, conexão de monitor cardiorrespiratório e monitorização do pulso. Se a bradicardia persistir com comprometimento cardiopulmonar, administra-se atropina; se ineficaz, as alternativas são marcapasso transcutâneo e/ou dopamina ou infusão de epinefrina. O fluxo termina com a recomendação de considerar consulta especializada e marcapasso transvenoso. O painel lateral apresenta as doses dos fármacos: atropina IV com primeira dose de 1 mg em bolus, repetida a cada 3–5 minutos até dose total máxima de 3 mg; dopamina em infusão IV na taxa habitual de 5–20 mcg/kg por minuto, titulada conforme resposta do paciente com redução gradual; epinefrina em infusão IV de 2–10 mcg por minuto, titulada conforme resposta. As causas possíveis listadas incluem isquemia ou infarto miocárdico, drogas e toxicológico como bloqueadores de canais de cálcio, β-bloqueadores e digoxina, hipóxia e distúrbio eletrolítico como hipercalemia. Fonte: American Heart Association Guidelines. Adult Advanced Life Support: 2025.

Avaliação inicial e suporte

  • Manter via aérea pérvia e ofertar oxigênio. [1]

  • Assistir a ventilação com pressão positiva se necessário. [1]

  • Conectar monitor cardiorrespiratório e monitorizar o pulso. [1]

  • Obter acesso venoso. [1]

  • Realizar ECG de 12 derivações, se disponível, para identificar o ritmo e a causa. [1]

Classificação

Quanto ao comprometimento cardiopulmonar:

  • Sintomática (instável)

    • Presença de sinais atribuíveis à bradicardia: hipotensão, alteração aguda do estado mental, sinais de choque, desconforto torácico isquêmico ou insuficiência cardíaca aguda. [1]

    • Frequência cardíaca tipicamente < 50 bpm. [1]

  • Não sintomática

    • Ausência dos critérios acima; a bradicardia não é a causa do quadro clínico. [1]

Bradicardia sintomática

A sequência terapêutica é: atropina primeiro; se ineficaz, marca-passo transcutâneo e/ou agonistas adrenérgicos (dopamina ou epinefrina), enquanto se prepara o marca-passo transvenoso e se busca a etiologia. [1]

1) Atropina

  • Atropina

    • Considerações:

      • Primeira medida na bradicardia sintomática com comprometimento hemodinâmico. [1]

      • Tende a ser ineficaz nos bloqueios de localização infranodal (His-Purkinje), como o BAV de 2º grau Mobitz II e o BAV de 3º grau (total); nesses casos, não postergar o marca-passo transcutâneo ou os agonistas adrenérgicos. [2]

    • Como prescrever?

      • Atropina solução injetável 0,25 mg/mL ou 0,5 mg/mL

        • 1 mg IV em bolus, repetir a cada 3 a 5 min, até dose máxima total de 3 mg. [1]

2) Se refratário à atropina: marca-passo transcutâneo e/ou agonistas adrenérgicos

  • Dopamina

    • Considerações:

      • Agonista adrenérgico com efeito cronotrópico; titular conforme a resposta do paciente e desmamar gradualmente. [1]

    • Como prescrever?

      • Dopamina (Revivan®) solução injetável 5 mg/mL, ampola 10 mL (50 mg/ampola)

        • Diluir 5 ampolas (250 mg) em 200 mL de SG5% (total 250 mL = 1000 mcg/mL) e infundir IV em bomba. [3]

        • 5 a 20 mcg/kg/min, titular conforme resposta. [1]

        • Na prática: 50 kg = 15 a 60 mL/h; 70 kg = 21 a 84 mL/h; 90 kg = 27 a 108 mL/h. [3]

  • Epinefrina

    • Considerações:

      • Agonista adrenérgico com efeito cronotrópico; titular conforme a resposta do paciente. [1]

    • Como prescrever?

      • Epinefrina (Adren®) solução injetável 1 mg/mL, ampola 1 mL

        • Diluir 6 ampolas (6 mg) em 94 mL de SF0,9% (total 100 mL = 60 mcg/mL) e infundir IV em bomba. [3]

        • 2 a 10 mcg/min, titular conforme resposta. [1]

        • Na prática: 2 a 10 mL/h. [3]

  • Marca-passo transcutâneo (medida provisória)

    • Considerações:

      • Requer analgesia e sedação, pois é doloroso no paciente consciente (ver "Analgesia e sedação para marca-passo"). [1][4]

      • Em BAV de alto grau instável, quando não há acesso IV/IO disponível, o marca-passo transcutâneo imediato pode ser considerado enquanto se busca o acesso. [1]

      • Os parâmetros operacionais abaixo (frequência, corrente e ajuste após captura) são orientação prática de execução.

    • Como proceder:

      • 1) Analgesia e sedação. [4]

      • 2) Selecionar o modo "estimulação" no aparelho e posicionar as pás.

      • 3) Selecionar FC entre 70 e 80.

      • 4) Aumentar a corrente elétrica gradativamente (0 a 200 mA) até obter captura.

      • 5) Avaliar captura:

        • Elétrica: espícula seguida de QRS largo e onda T oposta ao QRS.

        • Mecânica: pulso (ex.: femoral) na mesma frequência do marca-passo.

      • 6) Após obter captura, aumentar 10% na corrente elétrica.

3) Avaliação de especialista

  • Marca-passo transvenoso temporário: razoável na bradicardia instável persistente e refratária à terapia medicamentosa. [1]

  • Identificar e tratar a etiologia. [1]

Bradicardia não sintomática

  • Monitorização e observação. [1]

  • Se evoluir com hipotensão, alteração aguda do estado mental, sinais de choque, desconforto torácico isquêmico ou insuficiência cardíaca aguda, seguir como bradicardia sintomática. [1]

Analgesia e sedação para marca-passo

Esquema: Fentanil + (Etomidato ou Midazolam). [4]

  • Fentanil

    • Como prescrever?

      • Fentanil solução injetável 50 mcg/mL, ampola 10 mL (500 mcg/ampola) [3][4]

        • 1,0 a 5,0 mcg/kg IV lento; na prática, ~1,5 mcg/kg (50 kg ≈ 1,5 mL; 70 kg ≈ 2,1 mL; 100 kg ≈ 3 mL). [3][4]

  • Midazolam

    • Considerações:

      • Opção de sedativo se o paciente não estiver hipotenso. [4]

    • Como prescrever?

      • Midazolam (Dormonid®) solução injetável 5 mg/mL, ampola 10 mL (50 mg/ampola) [3][4]

        • 0,1 a 0,3 mg/kg IV, em doses fracionadas de 1 a 2 mg até o nível de sedação desejado; na prática, 0,1 a 0,2 mg/kg (50 kg ≈ 1 a 2 mL; 70 kg ≈ 1,4 a 2,8 mL; 100 kg ≈ 2 a 4 mL). [3][4]

  • Etomidato

    • Considerações:

      • Opção de sedativo preferível se o paciente estiver hipotenso (estabilidade hemodinâmica favorável), com cautela em hipovolêmicos. [4]

    • Como prescrever?

      • Etomidato solução injetável 2 mg/mL, ampola 10 mL (20 mg/ampola) [3][4]

        • 0,1 a 0,5 mg/kg IV até sedação adequada; na prática, 0,1 a 0,2 mg/kg (50 kg ≈ 2,5 a 5 mL; 70 kg ≈ 3,5 a 7 mL; 100 kg ≈ 5 a 10 mL). [3][4]

Investigar causa

  • Sempre avaliar se a causa da sintomatologia é realmente a bradiarritmia; buscar e tratar as causas após a estabilização. [1]

  • Causas possíveis a investigar: [1]

    • Isquemia ou infarto do miocárdio;

    • Drogas e agentes tóxicos (bloqueadores dos canais de cálcio, betabloqueadores, digoxina);

    • Hipóxia;

    • Distúrbios eletrolíticos (ex.: hipercalemia).

Referências

[1] WIGGINTON, J. G.; AGARWAL, S.; BARTOS, J. A. et al. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, v. 152, suppl. 2, p. S538-S577, 2025. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001376. Disponível em: https://www.ahajournals.org/journal/circ.

[2] KUSUMOTO, F. M.; SCHOENFELD, M. H.; BARRETT, C. et al. 2018 ACC/AHA/HRS Guideline on the Evaluation and Management of Patients With Bradycardia and Cardiac Conduction Delay. Circulation, v. 140, p. e382-e482, 2019. DOI: 10.1161/CIR.0000000000000628. Disponível em: https://www.ahajournals.org/journal/circ.

[3] Bulas dos medicamentos citados (apresentações e diluições): sulfato de atropina; cloridrato de dopamina (Revivan®); hemitartarato de epinefrina/adrenalina; citrato de fentanila; midazolam (Dormonid®); etomidato (Hypnomidate®). Bulário Eletrônico da ANVISA. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/.

[4] RAFFAY, V.; FIŠER, Z.; SAMARA, E. et al. Challenges in procedural sedation and analgesia in the emergency department. Journal of Emergency and Critical Care Medicine, v. 4, p. 27, 2020. DOI: 10.21037/jeccm-19-212. Disponível em: https://jeccm.amegroups.org/article/view/6035.

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