Infecção do Trato Urinário (ITU) Recorrente na Mulher
CID-10: N39.0 Infecção do trato urinário de localização não especificada
Introdução
ITU recorrente: três ou mais episódios de cistite em 1 ano, ou dois ou mais em 6 meses [1][2][3]
É frequente e reduz a qualidade de vida, as relações sociais e sexuais e a capacidade de trabalho [1]
Fatores associados [1]:
Mulher jovem e na pré-menopausa: relação sexual, uso de espermicida, parceria sexual nova, mãe com história de cistite, cistite na infância
Mulher na pós-menopausa e idosa: cistite antes da menopausa, incontinência urinária, vaginite atrófica por deficiência de estrogênio, cistocele, aumento do resíduo pós-miccional, cateterismo urinário e piora funcional
Em qualquer idade: status secretor de antígenos de grupo sanguíneo
Gestante: conferir o protocolo Infecção do Trato Urinário (ITU) na Gestação
🔑 Pontos-chave:
ITU recorrente: três ou mais episódios em 1 ano, ou dois ou mais em 6 meses [1][2][3]
Investigar sem demora os casos atípicos: suspeita de cálculo, obstrução, cistite intersticial ou câncer urotelial [1]
Confirmar cada episódio por urocultura; não fazer investigação extensa de rotina na mulher sem fator de risco [1][2]
Prevenção em etapas: medidas comportamentais, depois não antimicrobianas e, por último, profilaxia antimicrobiana [1]
Na pós-menopausa, usar estrogênio vaginal; estrogênio oral não previne ITU recorrente [1][2][3]
Profilaxia antimicrobiana: não usar quinolona [2]
Nitrofurantoína por mais de 14 dias pode causar pneumonite, com risco maior no idoso e na insuficiência renal [2]
🎯 Fluxograma de manejo
![O fluxograma organiza o atendimento da mulher com três ou mais cistites em 1 ano, ou duas ou mais em 6 meses. A primeira pergunta é se é gestante; se sim, segue o protocolo ITU na Gestação. Se não, confirmar cada episódio por urocultura e tratar o episódio agudo com esquema usual de cistite, de preferência por até 7 dias, conferindo o protocolo Infecção do Trato Urinário (ITU) e Pielonefrite no Adulto. Em seguida, pergunta-se se há qualquer um: suspeita de cálculo, obstrução, cistite intersticial ou câncer urotelial; se sim, investigar sem demora, com remissão ao tópico Avaliação. Depois, medidas comportamentais: ingesta hídrica liberal, não adiar a micção, urinar após a relação sexual e evitar duchas vaginais e espermicida, com remissão ao tópico Prevenção. Pergunta-se então se é pós-menopausa; se sim, estrogênio vaginal, com remissão ao tópico Profilaxia não antimicrobiana: esquemas. Depois, discutir profilaxia não antimicrobiana, conforme cada fonte: cranberry, fitoterápico, D-manose, probióticos e lisado bacteriano de E. coli, com remissão ao tópico Prevenção. Por fim, pergunta-se se há recorrência apesar das medidas comportamentais e não antimicrobianas; se sim, profilaxia antimicrobiana contínua, ao deitar, ou pós-coito, com nitrofurantoína, com ícone de alerta, via oral, ou fosfomicina via oral, sem usar quinolona; na paciente aderente, o autotratamento é alternativa; remissão ao tópico Profilaxia antimicrobiana. Se não, manter as medidas e reavaliar. O ícone de alerta acompanha a frase "Antes de prescrever, confira cuidados e contraindicações referentes a esse medicamento". VO: via oral. Fonte: referências [1], [2], [3] e [6] do artigo.](https://assets.gpmed.app/treatments/1793550397669_e970700e.webp)
Avaliação
Confirmar cada episódio por urocultura [1][2]
Não fazer investigação extensa de rotina (cistoscopia, ultrassonografia) na mulher sem fator de risco; EAU: mulher com menos de 40 anos sem fator de risco [1][2]
Investigar sem demora os casos atípicos: suspeita de cálculo, obstrução, cistite intersticial ou câncer urotelial [1]
Não colher urocultura periódica nem tratar bacteriúria na paciente assintomática [2]
Identificar e tratar fatores de risco, como uso de espermicida e resíduo pós-miccional significativo [1][2]
Episódio agudo
Tratamento empírico com os esquemas usuais de cistite, de preferência por até 7 dias, depois de colher a urocultura [2]; conferir o protocolo Infecção do Trato Urinário (ITU) e Pielonefrite no Adulto
Bactéria resistente aos antibióticos orais: antibiótico parenteral pelo menor tempo possível [2]
Autotratamento [1][3]:
Paciente aderente, com ITU recorrente bem documentada, inicia um esquema curto de cistite ao perceber os sintomas [1][3]; esquemas no protocolo Infecção do Trato Urinário (ITU) e Pielonefrite no Adulto
Procurar atendimento se os sintomas não regredirem em até 48 horas [3]
Prevenção
Prevenção, nesta ordem: medidas comportamentais, medidas não antimicrobianas e profilaxia antimicrobiana [1]
Medidas comportamentais [1][2]:
Higiene de frente para trás após evacuar [2]
Ingesta hídrica liberal [2]; EAU: aumentar a ingesta em 1,5 L/dia na mulher na pré-menopausa que bebe pouco (menos de 1,5 L/dia) [1]
Não adiar a micção e urinar após a relação sexual [2]
Evitar duchas vaginais e roupas íntimas oclusivas [2]
Profilaxia não antimicrobiana, conforme cada fonte:
Medida | EAU 2026 | SBI 2020 | FEBRASGO 2021 |
|---|---|---|---|
Estrogênio vaginal na pós-menopausa | Usar (recomendação forte) | Pode ser oferecido, se não houver contraindicação | Recomendado |
Lisado bacteriano de E. coli (OM-89) | Só em ensaio clínico | Evidência insuficiente; discutir caso a caso | Recomendado |
Cranberry | Orientar o uso (recomendação forte), informando que a evidência é de baixa qualidade e contraditória | Evidência insuficiente; discutir caso a caso | Sem recomendação formal; discutir com a paciente |
Fitoterápico com centáurea-menor, levístico e alecrim | Pode ser usado (recomendação fraca) | Não recomendado (terapias fitoterápicas) | Sem menção |
D-manose | Pode ser usada, informando que a evidência é fraca e contraditória | Não recomendada | Não recomendada |
Probióticos | Cepas de eficácia comprovada (recomendação fraca) | Não recomendados | Faltam estudos |
Instilação intravesical (ácido hialurônico com ou sem condroitina) | Após falha das medidas menos invasivas (recomendação fraca) | Não recomendada | Não recomendada |
Fonte: [1][2][3]
Profilaxia não antimicrobiana: esquemas
Estrogênio vaginal, na pós-menopausa [1][2][3]:
Estriol creme vaginal 1 mg/g
SBI 2020:
0,5 mg (1 aplicador cheio) 1 vez ao dia por 2 semanas; depois, a mesma dose 2 vezes por semana
FEBRASGO 2021:
1 mg 1 vez ao dia por 15 dias; depois, 2 ou 3 vezes por semana
Administração: via vaginal, sem orientações específicas.
Promestrieno creme vaginal 10 mg/g
SBI 2020:
10 mg (1 aplicador cheio) 1 vez ao dia por 20 dias; depois, 2 vezes por semana
FEBRASGO 2021:
10 mg 1 vez ao dia por 15 dias; depois, 2 ou 3 vezes por semana
Administração: via vaginal, sem orientações específicas.
Promestrieno cápsula vaginal 10 mg
SBI 2020:
1 cápsula 1 vez ao dia por 20 dias; depois, 2 vezes por semana
FEBRASGO 2021:
10 mg 1 vez ao dia por 15 dias; depois, 2 ou 3 vezes por semana
Administração: via vaginal, sem orientações específicas.
Considerações
Não é necessário associar progestagênio para proteção endometrial [2]
Pode ser mantido conforme a necessidade, sem limite de tempo; sem dados de segurança na paciente com alto risco de câncer de endométrio [2]
Câncer de mama: individualizar, com preferência pelo promestrieno [2]
Estrogênio oral não previne ITU recorrente [1][2]
Conferir também o protocolo Climatério (menopausa)
Lisado bacteriano de E. coli (FEBRASGO 2021) [3][4]:
Lisado bacteriano de Escherichia coli (Uro-Vaxom®) cápsula 6 mg
1 cápsula 1 vez ao dia por 90 dias; pausa de 3 meses; depois, do sétimo ao nono mês, 1 cápsula 1 vez ao dia por 10 dias a cada mês
Administração: pela manhã, em jejum; não abrir nem mastigar a cápsula
Considerações
Evitar na gestação, especialmente no primeiro trimestre [4]
Fitoterápico com centáurea-menor, levístico e alecrim (EAU) [1][5]:
Centaurium erythraea + Levisticum officinale + Rosmarinus officinalis (Canephron®) comprimido revestido 36 mg + 36 mg + 36 mg
1 comprimido 3 vezes ao dia por até 3 meses
Administração: ingerir inteiro, com água, sem partir, abrir ou mastigar
Considerações
Contraindicado abaixo de 12 anos, na úlcera péptica e na intolerância hereditária à frutose [5]
Profilaxia antimicrobiana
Profilaxia antimicrobiana [1][2][3][6]:
Quando: após falha das medidas comportamentais e não antimicrobianas, depois de discutir riscos, benefícios e efeitos adversos [1][2][3]
Estratégia: contínua (diária, ao deitar) ou pós-coito, quando os episódios se relacionam à relação sexual; a eficácia das duas é semelhante [1][2]
Esquemas:
Nitrofurantoína (Macrodantina®) cápsula 100 mg; cápsula 50 mg em farmácias de manipulação
Contínua:
EAU:
50 ou 100 mg 1 vez ao dia
SBI 2020 e FEBRASGO 2021:
100 mg 1 vez ao dia
Pós-coito (SBI 2020 e FEBRASGO 2021):
100 mg em dose única após a relação sexual
Administração: via oral, sem orientações específicas.
Fosfomicina (Monuril®) granulado para solução oral, envelope de 8 g (fosfomicina 3 g)
EAU:
3 g 1 vez por semana
SBI 2020 e FEBRASGO 2021:
3 g a cada 10 dias
Administração: dissolver o conteúdo do envelope em um copo de água (50 a 75 mL) e ingerir logo após o preparo
Considerações
Duração: SBI 2020, de 6 a 12 meses [2]; FEBRASGO 2021, 6 meses [3]; o efeito se limita ao período de uso [2]
Nitrofurantoína por mais de 14 dias pode causar pneumonite, com risco maior no idoso e na insuficiência renal [2]
Nitrofurantoína: eventos pulmonares agudos e crônicos com uso por mais de 6 meses; também neuropatia, anemia e eventos hepáticos; orientar a procurar atendimento se houver dispneia, tosse, cansaço, dor nas pernas ou pele amarelada [6]
Nitrofurantoína: contraindicada na insuficiência renal moderada e após lesão hepática por nitrofurantoína; no idoso, cautela e avaliação periódica da função renal [6]
Não usar quinolona na profilaxia [2]
Escolher o antibiótico pelo perfil local de resistência [1]
💊 Como prescrever?
Estrogênio vaginal [2][3]:
Estriol creme vaginal 1 mg/g
SBI 2020:
0,5 mg (1 aplicador cheio) 1 vez ao dia por 2 semanas; depois, a mesma dose 2 vezes por semana
FEBRASGO 2021:
1 mg 1 vez ao dia por 15 dias; depois, 2 ou 3 vezes por semana
Administração: via vaginal, sem orientações específicas.
Promestrieno creme vaginal 10 mg/g
SBI 2020:
10 mg (1 aplicador cheio) 1 vez ao dia por 20 dias; depois, 2 vezes por semana
FEBRASGO 2021:
10 mg 1 vez ao dia por 15 dias; depois, 2 ou 3 vezes por semana
Administração: via vaginal, sem orientações específicas.
Promestrieno cápsula vaginal 10 mg
SBI 2020:
1 cápsula 1 vez ao dia por 20 dias; depois, 2 vezes por semana
FEBRASGO 2021:
10 mg 1 vez ao dia por 15 dias; depois, 2 ou 3 vezes por semana
Administração: via vaginal, sem orientações específicas.
Lisado bacteriano de E. coli [3][4]:
Lisado bacteriano de E. coli (FEBRASGO 2021) [3][4]:
Lisado bacteriano de Escherichia coli (Uro-Vaxom®) cápsula 6 mg
1 cápsula 1 vez ao dia por 90 dias; pausa de 3 meses; depois, do sétimo ao nono mês, 1 cápsula 1 vez ao dia por 10 dias a cada mês
Administração: pela manhã, em jejum; não abrir nem mastigar a cápsula
Considerações
Evitar na gestação, especialmente no primeiro trimestre [4]
Centáurea-menor, levístico e alecrim [1][5]:
Centaurium erythraea + Levisticum officinale + Rosmarinus officinalis (Canephron®) comprimido revestido 36 mg + 36 mg + 36 mg
1 comprimido 3 vezes ao dia por até 3 meses
Administração: ingerir inteiro, com água, sem partir, abrir ou mastigar
Profilaxia antimicrobiana [1][2]:
Nitrofurantoína (Macrodantina®) cápsula 100 mg; cápsula 50 mg em farmácias de manipulação
Contínua:
EAU:
50 ou 100 mg 1 vez ao dia
SBI 2020 e FEBRASGO 2021:
100 mg 1 vez ao dia
Pós-coito (SBI 2020 e FEBRASGO 2021):
100 mg em dose única após a relação sexual
Administração: via oral, sem orientações específicas.
Fosfomicina (Monuril®) granulado para solução oral, envelope de 8 g (fosfomicina 3 g)
EAU:
3 g 1 vez por semana
SBI 2020 e FEBRASGO 2021:
3 g a cada 10 dias
Administração: dissolver o conteúdo do envelope em um copo de água (50 a 75 mL) e ingerir logo após o preparo
Referências
[1] BONKAT, G. (chair); KRANZ, J.; CAI, T.; et al. EAU Guidelines on Urological Infections. Limited update March 2026. Arnhem: European Association of Urology, 2026. Disponível em: https://uroweb.org/guidelines/urological-infections. Acesso em: 29 out. 2026.
[2] DE ROSSI, Patricia; CIMERMAN, Sergio; TRUZZI, José Carlos; et al. Joint report of SBI (Brazilian Society of Infectious Diseases), FEBRASGO (Brazilian Federation of Gynecology and Obstetrics Associations), SBU (Brazilian Society of Urology) and SBPC/ML (Brazilian Society of Clinical Pathology/Laboratory Medicine): recommendations for the clinical management of lower urinary tract infections in pregnant and non-pregnant women. Brazilian Journal of Infectious Diseases, v. 24, n. 2, p. 110-119, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.bjid.2020.04.002. Acesso em: 29 out. 2026.
[3] FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Infecção do trato urinário. São Paulo: FEBRASGO, 2021. Protocolo FEBRASGO de Ginecologia, n. 49. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br. Acesso em: 29 out. 2026.
[4] APSEN FARMACÊUTICA. Uro-Vaxom® (lisado bacteriano de Escherichia coli): cápsulas 6 mg. Bula do paciente aprovada pela Anvisa em 31/03/2025. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/. Acesso em: 29 out. 2026.
[5] BIONORICA DO BRASIL. Canephron® (Centaurium erythraea, Levisticum officinale, Rosmarinus officinalis): comprimidos revestidos. Bula do paciente. Registro MS 1.2342.0001. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/. Acesso em: 29 out. 2026.
[6] COSMED INDÚSTRIA DE COSMÉTICOS E MEDICAMENTOS. Macrodantina® (nitrofurantoína): cápsula dura 100 mg. Bula do paciente. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/. Acesso em: 30 out. 2026.
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