Nitrofurantoína

Nomes comerciais:

  • Macrodantina®, Nitrofen®, Hantina®.

Apresentações:

  • Cápsula dura 100 mg [1][2]
    • Macrodantina®: embalagens com 28, 40 ou 144 cápsulas
    • Nitrofen®: embalagem com 28 cápsulas
  • Suspensão oral 5 mg/mL [4]
    • Hantina® (frasco com 120 mL)

Posologia:

  • Adultos: [1][2]
    • ITU baixa não complicada: 1 cápsula de 100 mg a cada 6 horas (de 6/6 h), durante 5 a 7 dias. [6]
    • ITU recorrente: [6]
      • Opção 1- Profilaxia pós-coito: 100mg dose única, após relação.
      • Opção 2- Profilaxia contínua: 100mg uma vez ao dia, por 6 meses.
      • Opção 3- Tratamento auto-iniciado: Iniciar o tratamento de curta duração assim que perceber os sintomas (p. ex. nitrofurantoína 100mg 6/6h por 5 dias).
  • Pediátrico:
    • As bulas consultadas classificam o medicamento como de "uso adulto" e não fornecem orientações posológicas pediátricas [1][2]
    • O uso em menores de 1 mês de idade é contraindicado [1][2]
  • Administração: [1][2]
    • Administrar com alimentos (preferencialmente nas principais refeições), pois a ingestão junto à alimentação reduz a ocorrência de eventos adversos gastrintestinais e aumenta a biodisponibilidade em aproximadamente 40% [3]
    • As cápsulas não devem ser partidas, abertas ou mastigadas
    • Dose esquecida: as bulas consultadas não dispõem de orientações específicas sobre esse tópico

Ajuste para Insuficiência Renal:

  • Adulto: [1][2][3]
    • Medicamento contraindicado quando a depuração de creatinina (ClCr) for inferior a 60 mL/min/1,73 m²
    • O uso nesses pacientes eleva o risco de toxicidade sistêmica, incluindo neuropatia periférica, em razão da redução da excreção renal da nitrofurantoína
    • Em idosos, que com maior frequência apresentam função renal diminuída, recomenda-se monitoramento periódico da função renal durante o tratamento
  • Pediátrico:
    • As bulas consultadas não dispõem de orientações específicas sobre ajuste em insuficiência renal para a população pediátrica, além da contraindicação já mencionada para ClCr < 60 mL/min/1,73 m²

Ajuste para Insuficiência Hepática:

  • Adulto: [1][2][3]
    • Contraindicado em pacientes com histórico prévio de doença hepática tóxica com colestase associada ao uso de nitrofurantoína
    • Em pacientes com hepatopatia prévia (sem contraindicação absoluta), a ocorrência de neuropatia periférica pode ser facilitada; eventos adversos hepáticos como hepatite, colestase, hepatite ativa crônica e necrose hepática podem surgir raramente. Recomenda-se monitoramento periódico das enzimas hepáticas (ALT e AST) durante o tratamento
    • As bulas consultadas não dispõem de recomendações de ajuste posológico específico para diferentes graus de insuficiência hepática
  • Pediátrico:
    • As bulas consultadas não dispõem de orientações específicas sobre ajuste em insuficiência hepática para a população pediátrica

Classe:

  • Antibacteriano urinário; derivado nitrofurânico (Código ATC: J01XE01) [1][2]

Farmacologia:

  • Mecanismo de ação: [1][2][3]
    • A nitrofurantoína é reduzida por flavoproteínas bacterianas a intermediários reativos que inativam proteínas ribossomais e outras macromoléculas bacterianas, inibindo processos bioquímicos essenciais: síntese proteica, metabolismo aeróbio, síntese de DNA, de RNA e da parede celular
    • Esse mecanismo amplo e multialvo justifica a baixa taxa de resistência bacteriana adquirida, uma vez que mutações simultâneas em múltiplos alvos seriam letais para o microrganismo
    • A nitrofurantoína é bactericida nas concentrações urinárias terapêuticas
    • Há antagonismo in vitro com quinolonas; a relevância clínica desse achado é desconhecida [3]
  • Espectro de ação: [1][2][3]
    • Ativa principalmente contra: Escherichia coli, Staphylococcus saprophyticus (eficácia clínica estabelecida em estudos), Enterococcus faecalis, Staphylococcus aureus, Streptococcus agalactiae, Klebsiella spp. e Citrobacter spp.
    • Não é ativa contra Proteus spp., Serratia spp. e Pseudomonas spp.
  • Farmacocinética: [1][2][3]
    • A formulação em macrocristais retarda a solubilização no trato gastrintestinal, o que reduz a ocorrência de náuseas e vômitos sem modificar a concentração urinária ativa
    • Pico plasmático atingido entre 4 e 5 horas após a administração; as concentrações plasmáticas são geralmente baixas (inferiores a 1 mcg/mL), pois o fármaco é rapidamente excretado pelos rins
    • Excreção renal ativa por secreção e reabsorção tubular, com aproximadamente 20 a 25% da dose excretada na forma inalterada em 24 horas; cerca de 50% da dose é excretada ao final de 8 horas
    • A ingestão com alimentos aumenta a biodisponibilidade em aproximadamente 40%
    • A nitrofurantoína é altamente solúvel na urina, podendo conferir coloração amarelada ou amarronzada à urina
    • A eliminação biliar e fecal é reduzida, o que explica o baixo impacto sobre a microbiota intestinal normal
    • É dialisável

Tipo de Receita:

  • Receita branca simples, em duas vias.
  • Venda sob prescrição médica com retenção.

Indicações:

  • Bulas brasileiras (Macrodantina® e Nitrofen®): [1][2]
    • Tratamento de infecções do trato urinário agudas e crônicas causadas por bactérias sensíveis à nitrofurantoína, incluindo cistites, pielites, pielocistites e pielonefrites
  • Label da FDA: [3]
    • Indicado exclusivamente para o tratamento de infecções urinárias não complicadas agudas (cistite aguda) causadas por cepas sensíveis de Escherichia coli ou Staphylococcus saprophyticus
    • Não indicado para tratamento de pielonefrite ou abscessos perinéfricos

Contraindicações:

  • Anúria, oligúria ou insuficiência renal com depuração de creatinina inferior a 60 mL/min/1,73 m² [1][2][3]
  • Gestação a termo (38 a 42 semanas), durante o trabalho de parto e parto, ou quando o início do trabalho de parto for iminente, pelo risco de anemia hemolítica por imaturidade enzimática dos eritrócitos fetais e neonatais [1][2][3]
  • Menores de 1 mês de idade, pelo mesmo motivo acima [1][2][3]
  • Hipersensibilidade conhecida à nitrofurantoína ou a qualquer componente da formulação [1][2][3]
  • Histórico prévio de doença hepática tóxica com colestase associada ao uso de nitrofurantoína [1][2][3]
  • Deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD), pelo risco aumentado de anemia hemolítica [1][2]

Efeitos Adversos:

  • Comuns (1 a 10%): [1][2]
    • Cefaleia, náuseas, vômitos, diarreia, dor epigástrica, anorexia e pneumonia intersticial
  • Incomuns (0,1 a 1%): [1][2]
    • Polineuropatia induzida por drogas (neuropatia periférica), anemia megaloblástica, leucopenia e flatulência
  • Raros (menos de 0,1%): [1][2][3]
    • Neurológicos: hipertensão intracraniana benigna (pseudotumor cerebri), parestesias, neurite óptica, transtorno psicótico, depressão, astenia, sonolência e tontura
    • Pulmonares: fibrose pulmonar e pneumonite intersticial crônica, que podem desenvolver-se de forma insidiosa em pacientes sob tratamento prolongado (geralmente superior a 6 meses); a disfunção pulmonar pode ser irreversível mesmo após a suspensão do medicamento; idosos apresentam maior proporção de reações pulmonares graves e fatais [3]
    • Hepáticos: necrose hepática, icterícia colestática e hepatite ativa crônica, raramente fatais; recomenda-se monitoramento periódico das enzimas hepáticas [1][2][3]
    • Hematológicos: anemia hemolítica (do tipo sensibilidade à primaquina, associada à deficiência de G6PD), cianose por meta-hemoglobinemia, trombocitopenia, agranulocitose, leucopenia e aplasia medular [1][2][3]
    • Alérgicos e dermatológicos: dermatite alérgica, prurido, urticária, eritema, reação anafilática, angioedema, eritema multiforme incluindo síndrome de Stevens-Johnson, síndrome semelhante ao lúpus eritematoso e vasculite [1][2][3]
    • Outros: alopécia, febre com calafrio, sialadenite, pancreatite e colite associada a Clostridium difficile [1][2][3]
  • Achados laboratoriais: [3]
    • Eosinofilia, elevação de AST e ALT, redução de hemoglobina e elevação do fósforo sérico

Interações Medicamentosas:

  • Antiácidos contendo trissilicato de magnésio: reduzem a taxa e a extensão da absorção da nitrofurantoína por adsorção à superfície do magnésio; devem ser evitados concomitantemente [1][2][3]
  • Drogas uricosúricas (probenecida e sulfimpirazona): inibem a secreção tubular renal da nitrofurantoína, elevando seus níveis séricos com risco de toxicidade e reduzindo os níveis urinários com perda de eficácia antibacteriana [1][2][3]
  • Quinolonas (ácido nalidíxico, norfloxacino, ácido oxolínico): antagonismo demonstrado in vitro; recomenda-se evitar a associação [1][2]
  • Contraceptivos orais: possível redução da eficácia contraceptiva; recomenda-se o uso adicional e temporário de método de barreira ou alternativa contraceptiva durante o tratamento [1][2]
  • Interferência laboratorial: a presença de nitrofurantoína na urina pode causar resultado falso-positivo para glicosúria nas soluções de Benedict e Fehling; o teste enzimático não é afetado [1][2][3]

Gestação:

  • A nitrofurantoína deve ser evitada nas últimas semanas da gestação, por conta do risco de hemólise em fetos ou recém-nascidos com deficiência de G6PD (prevalente em 0,0004% dos conceptos). [6]
  • Anvisa: [1][2]
    • Categoria de risco B: estudos em animais não demonstraram risco fetal, porém não há estudos adequados e controlados em mulheres grávidas
    • Contraindicado nas semanas 38 a 42 de gestação, durante o trabalho de parto e parto, pelo risco de anemia hemolítica neonatal por imaturidade do sistema enzimático eritrocitário
    • A segurança na gravidez não foi estabelecida; o uso exige avaliação criteriosa dos riscos e benefícios e não deve ser realizado sem orientação médica
  • FDA: [3]
    • Estudos em coelhos e ratos com doses de até 6 vezes a dose humana não demonstraram evidências de prejuízo à fertilidade ou dano fetal. Em camundongos com 68 vezes a dose humana foram observados retardo de crescimento e baixa incidência de malformações menores, sem malformações em 25 vezes a dose humana; a relevância desses achados para humanos é incerta
    • Contraindicado em gestantes a termo (38 a 42 semanas), durante o trabalho de parto, parto ou quando o início do parto for iminente, pelo risco de anemia hemolítica por imaturidade enzimática eritrocitária
    • Não deve ser utilizado durante a gravidez a menos que claramente necessário

Lactação:

  • Anvisa: [1][2]
    • Contraindicado durante o aleitamento materno ou doação de leite humano, pois a nitrofurantoína é excretada no leite humano e pode causar reações indesejáveis no lactente
    • Devem ser oferecidas alternativas terapêuticas para a mãe ou para a alimentação do bebê
  • FDA: [3]
    • A nitrofurantoína foi detectada no leite humano em traços. A decisão de suspender a amamentação ou o medicamento deve levar em conta a importância do fármaco para a mãe e o risco potencial de reações adversas graves em lactentes com menos de 1 mês de idade

Uso por Sonda Nasogástrica/Nasoenteral:

  • As bulas consultadas (Macrodantina® e Nitrofen®) explicitamente contraindicam a abertura, a partição ou a mastigação das cápsulas: "Este medicamento não deve ser partido, aberto ou mastigado." [1][2]
  • Para pacientes que necessitem de administração por sonda, a formulação de suspensão oral (5 mg/mL) é a alternativa preferencial e deve ser utilizada sempre que disponível [4]
  • A abertura das cápsulas para administração por sonda configura uso não licenciado (off-label). Segundo referência especializada em administração de medicamentos por sonda (swallowingdifficulties.com, baseado nas NEWT Guidelines), como há formulação líquida licenciada disponível, a abertura de cápsulas não é recomendada; se for inevitável como último recurso, pode ser praticável, desde que o clínico esteja ciente do caráter não licenciado dessa prática [5]
  • Não há dados publicados robustos sobre biodisponibilidade ou eficácia da nitrofurantoína administrada em formulação de cápsula aberta por sonda nasoenteral; a conduta deve ser avaliada caso a caso, preferencialmente com apoio farmacêutico

Fontes:

[1] Bula do Profissional de Saúde. Macrodantina® (nitrofurantoína). Cosmed Indústria de Cosméticos e Medicamentos S.A. Aprovada em 12/05/2025. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/

[2] Bula do Profissional de Saúde. Nitrofen® (nitrofurantoína). Laboratório Teuto Brasileiro S/A. Aprovada em 27/02/2026. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/

[3] U.S. Food & Drug Administration (FDA). FDA Label. Nitrofurantoin Capsules, USP (monohydrate/macrocrystals). Revised: 03/2022. Available at: https://nctr-crs.fda.gov/fdalabel/ui/search

[4] Ministério da Saúde / InfoSUS-SC. Nitrofurantoína, RENAME 2024 (Componente Básico da Assistência Farmacêutica). Disponível em: http://infosus.saude.sc.gov.br/index.php?title=Nitrofurantoína. Acesso em: abril de 2026.

[5] Swallowing Difficulties. Nitrofurantoin: administration guidance. Baseado nas NEWT Guidelines (Wrexham Maelor Hospital Pharmacy Department). Disponível em: https://www.swallowingdifficulties.com/product/nitrofurantoin/. Acesso em: abril de 2026.

[6] Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Infecção do trato urinário. São Paulo: FEBRASGO; 2021 (Protocolo FEBRASGO-Ginecologia, n. 49/ Comissão Nacional Especializada em Uroginecologia e Cirurgia Vaginal).