Hematúria: Abordagem Diagnóstica
CID-10: R31 — Hematúria
Introdução
Hematúria é um achado frequente na população geral e importante causa de procura por clínicos, pediatras e nefrologistas. A forma microscópica costuma ser identificada como achado incidental em exames de urina, representando um desafio clínico pela ampla variedade de possibilidades diagnósticas, que vão desde ocorrências benignas após esforço físico até condições graves como neoplasias do trato urinário. [2]
Definição: [2]
Conceito prático: Hematúria é sinal clínico, não diagnóstico.
Hematúria microscópica: duas ou mais hemácias por campo de grande aumento no sedimento urinário; pode ser classificada como persistente ou transitória.
Hematúria macroscópica: coloração avermelhada ou marrom da urina, com mais de 10⁶ hemácias/mL.
Cerca de 2/3 dos indivíduos com hematúria em um único exame não a apresentarão novamente, sendo as causas mais comuns de resolução espontânea: menstruação, febre, infecção, lesão do trato urinário e exercício físico.
Prevalência: [2]
Crianças: hematúria macroscópica em 0,13%; microscópica estimada em dez vezes mais frequente (1% a 2%), com apenas 0,5% persistindo após exames repetidos.
Adultos: hematúria microscópica persistente em 4% a 13%; em maiores de 50 anos, mesmo o achado transitório não deve ser desprezado pelo risco de neoplasia incipiente.
Em estudo com idosos assintomáticos em São Paulo, hematúria foi observada em 28% dos homens e 27% das mulheres.
Diagnóstico: [2]
Padrão ouro: sedimento urinário obtido por centrifugação a 3.000 rpm por 5 minutos; duas ou mais hemácias por campo confirmam o diagnóstico.
Fita reagente: útil para triagem em larga escala; sensibilidade de 100% e especificidade acima de 95%. Todo resultado positivo deve ser confirmado pelo sedimento urinário.
Falso negativo: raro; pode ocorrer em usuários de vitamina C. Falso positivo: 1% a 35%, mais frequente em urina alcalina, contaminação perineal ou presença de espermatozoides.
O objetivo inicial é:
confirmar a presença de hemácias;
excluir pseudo-hematúria;
identificar emergências;
distinguir origem glomerular vs urológica;
estratificar risco de malignidade.
Definições e Conceitos Fundamentais
Hematúria macroscópica
Sangue na urina visível a olho nu.
Hematúria microscópica
≥ 3 hemácias/campo em microscopia urinária.
Pseudo-hematúria
Beterraba
Rifampicina
Fenazopiridina
Mioglobinúria
Hemoglobinúria
Contaminação menstrual
Hematúria glomerular
Características:
Proteinúria associada
Cilindros hemáticos
Hemácias dismórficas
HAS
Edema
IRA
Hematúria não glomerular
Características:
Coágulos
Hemácias isomórficas
Sintomas urinários
Dor lombar/cólica
Sangramento terminal/inicial
Confirmação Diagnóstica
Teste de fita urinária (dipstick)
Alta sensibilidade
Baixa especificidade
Detecta heme, não hemácias.
Limitações:
Mioglobina
Hemoglobina livre
Contaminação
Sedimento urinário
Confirmar:
Quantidade de hemácias
Morfologia eritrocitária
Cilindros
Proteinúria
Quando repetir exame
Exercício vigoroso recente
Menstruação
ITU
Trauma recente
Instrumentação urinária
Avaliação Inicial e Estratificação Clínica
Identificação de sinais de alarme
Instabilidade hemodinâmica
Retenção por coágulos
IRA
Sepse
Dor intensa
Anemia significativa
Caracterização da hematúria
Macro vs micro
Dolorosa vs indolor
Persistente vs transitória
Inicial, terminal ou total
História clínica dirigida
Fatores urológicos
Tabagismo
Exposição ocupacional
Radioterapia
Litíase
ITU recorrente
Fatores nefrológicos
HAS
Diabetes
Doença autoimune
Edema
História familiar renal
Medicamentos
Anticoagulantes
Antiagregantes
Ciclofosfamida
Ponto importante: Anticoagulação NÃO exclui investigação etiológica.
Exame Físico
Pressão arterial (PA)
Edema
Sinais de vasculite
Dor em flancos
Massa abdominal
Próstata
Lesões cutâneas
Sinais sistêmicos
Exames Complementares Iniciais
Laboratoriais
EAS
Sedimento urinário
Relação albumina/creatinina
Proteinúria
Creatinina/eTFG
Hemograma
Urocultura
Exames adicionais conforme suspeita
CPK
Complemento
FAN
ANCA
Sorologias
Diferenciação: Origem Glomerular vs Urológica

Estratificação de Risco para Neoplasia Urológica
Basear principalmente em:
idade;
tabagismo;
hematúria macroscópica;
persistência;
intensidade da hematúria;
fatores ocupacionais;
sintomas irritativos.
A AUA 2025 reforça abordagem baseada em risco.
Diagnóstico da Hematúria Microscópica
Estratificação de risco para malignidade na hematúria microscópica:
🟢 Baixo risco
Todos os seguintes:
Mulheres < 60 anos
Homens < 40 anos
3–10 hemácias/campo no EAS
Não fumante ou < 10 maços-ano
Ausência de outros fatores de risco para câncer urotelial
Conduta
Repetir EAS em até 6 meses.
Se persistir, reclassificar o risco.
🟠 Risco intermediário
Presença de qualquer um:
Homens 40–59 anos
Mulheres ≥ 60 anos
11–25 hemácias/campo
Tabagismo de 10–30 maços-ano
Hematúria persistente após reavaliação
Fatores de risco adicionais para neoplasia urotelial
Conduta
Cistoscopia.
Ultrassonografia renal e vesical.
🔴 Alto risco
Presença de qualquer um:
Homens ≥ 60 anos
25 hemácias/campo
Tabagismo > 30 maços-ano
História de hematúria macroscópica
Múltiplos fatores de risco para câncer urotelial
Conduta
Cistoscopia.
Urotomografia (TC com protocolo para trato urinário superior).
⚠️ Fatores de risco adicionais para câncer urotelial
Tabagismo atual ou prévio.
Exposição ocupacional a aminas aromáticas (indústria química, tintas, borracha, couro).
Radioterapia pélvica prévia.
Uso de ciclofosfamida.
Síndrome de Lynch.
História familiar de câncer urotelial.
Irritação vesical crônica.
Cateter vesical de longa permanência.
Diagnóstico da Hematúria Macroscópica
Regra prática:
Hematúria macroscópica indolor em adulto → considerar neoplasia até exclusão diagnóstica.
Investigar:
Cistoscopia
Imagem de trato urinário superior
Avaliação urológica prioritária
Exames de Imagem
Ultrassonografia
Melhor utilidade:
APS
Litíase
Hidronefrose
Massa renal
Limitações:
Baixa sensibilidade para carcinoma urotelial.
TC sem contraste
Principal exame para:
Litíase urinária
Urotomografia
Melhor método para:
Neoplasia urotelial
Alto risco oncológico
Ressonância magnética
Reservar:
Contraindicação à TC contrastada
Cistoscopia
Indicações principais
Hematúria macroscópica
Alto risco oncológico
Hematúria persistente sem causa definida
Critérios de Encaminhamento
Encaminhamento para urologia
Hematúria macroscópica
Alto risco oncológico
Persistência sem causa definida
Alteração estrutural
Encaminhamento para nefrologia
Proteinúria significativa
Cilindros hemáticos
IRA
HAS associada
Suspeita glomerular
🚨 Encaminhamento urgente
Retenção por coágulos
Instabilidade
IRA obstrutiva
Sepse
Situações Especiais
Hematúria associada à ITU:
Tratar infecção
Repetir EAS após resolução
Persistência:
Prosseguir investigação
Paciente anticoagulado:
Investigar normalmente
Hematúria induzida por exercício:
Repetir exame após repouso
Crianças:
Maior prevalência de causas glomerulares
Suspeita de Nefrolitíase
Manejo inicial se suspeita de nefrolitíase / ureterolitíase:
Solicitar imagem.
Analgesia.
Avaliar sinais de complicação:
febre;
anúria;
IRA;
obstrução bilateral.
Ir para Cólica Renal e Ureterolitíase
Armadilhas Diagnósticas e Erros Comuns
Não confirmar hematúria microscópica em microscopia.
Atribuir hematúria apenas ao anticoagulante.
Não repetir exame após ITU.
Ignorar proteinúria associada.
Subinvestigar hematúria macroscópica indolor.
Solicitar sorologias extensas sem suspeita clínica.
Referências
[1] AMERICAN UROLOGICAL ASSOCIATION (AUA); SOCIETY OF URODYNAMICS, FEMALE PELVIC MEDICINE & UROGENITAL RECONSTRUCTION (SUFU). Microhematuria: AUA/SUFU Guideline. 2025. Disponível em: https://www.auanet.org. Acesso em: 23 maio 2026.
[2] ABREU, Patrícia Ferreira; REQUIÃO-MOURA, Lúcio R.; SESSO, Ricardo. Avaliação diagnóstica de hematúria. Jornal Brasileiro de Nefrologia, v. 29, n. 3, set. 2007.
[3] DUNCAN, Bruce B.; SCHMIDT, Maria Inês; GIUGLIANI, Elsa R. J.; et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
[4] GUIDELINE CENTRAL. AUA Microhematuria Guideline Summary. 2025. Disponível em: https://www.guidelinecentral.com. Acesso em: 23 maio 2026.
[5] GUSSO, Gustavo; LOPES, José Mauro Ceratti; DIAS, Lêda Chaves. Tratado de Medicina de Família e Comunidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
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