Náuseas e Vômitos no Adulto
CID-10: R11 - Náusea e vômitos
Introdução
Trata-se de um dos sintomas mais frequentes na prática clínica, podendo estar associado a doenças gastrointestinais, neurológicas, vestibulares, metabólicas, infecciosas, cardiovasculares, gestacionais ou ao uso de medicamentos.
Embora a maioria dos casos decorra de condições benignas e autolimitadas, como gastroenterites virais e efeitos adversos medicamentosos, náuseas e vômitos também podem representar manifestações iniciais de doenças potencialmente graves, incluindo obstrução intestinal, pancreatite aguda, síndrome coronariana aguda, hipertensão intracraniana e sepse. Dessa forma, a avaliação deve priorizar a identificação de sinais de gravidade e da etiologia subjacente.
O tratamento baseia-se em três pilares: estabilização clínica, correção das alterações hidroeletrolíticas e tratamento da causa de base, associado ao uso racional de antieméticos quando indicado.
Diagnóstico
Avaliação inicial: A investigação deve buscar identificar rapidamente a provável etiologia e excluir condições que necessitem de tratamento imediato.
Anamnese
Caracterização dos sintomas
Início (agudo ou crônico);
Frequência e intensidade;
Relação com alimentação;
Episódios isolados ou persistentes;
Presença de náusea sem vômito;
Horário predominante (matinal, pós-prandial ou noturno).
Características do vômito
Alimentar;
Biliar;
Fecaloide;
Hemático;
Aspecto em "borra de café".
Sintomas associados
Dor abdominal;
Diarreia;
Febre;
Cefaleia;
Vertigem;
Alteração visual;
Distensão abdominal;
Constipação;
Dor torácica;
Dispneia;
Disúria;
Perda ponderal.
Antecedentes relevantes
Diabetes mellitus;
Doença renal crônica;
Hepatopatias;
Neoplasias;
Cirurgias abdominais;
Enxaqueca;
Gestação;
Uso de álcool ou outras drogas.
Uso de medicamentos
Avaliar especialmente:
Agonistas do receptor de GLP-1;
Metformina;
Opioides;
Digoxina;
Antibióticos;
Antineoplásicos;
Levodopa;
Anti-inflamatórios não esteroidais.
Exame físico
Avaliar sistematicamente:
Estado geral
Nível de consciência;
Estado nutricional;
Grau de hidratação;
Perfusão periférica.
Sinais vitais
Pressão arterial;
Frequência cardíaca;
Frequência respiratória;
Temperatura;
Saturação de O₂.
Abdome
Distensão;
Dor localizada ou difusa;
Defesa ou rigidez abdominal;
Sinais de irritação peritoneal;
Massas palpáveis;
Ruídos hidroaéreos.
Exame neurológico
Déficits focais;
Rigidez de nuca;
Papiledema (quando possível);
Alteração do nível de consciência.
Principais causas
Gastrointestinais
Gastroenterite aguda;
Gastrite;
Doença ulcerosa péptica;
Doença do refluxo gastroesofágico;
Gastroparesia;
Pancreatite aguda;
Colecistite;
Colangite;
Hepatite aguda;
Obstrução intestinal;
Apendicite;
Diverticulite.
Neurológicas
Acidente vascular cerebral;
Hemorragia intracraniana;
Hipertensão intracraniana;
Tumores do SNC;
Meningite;
Enxaqueca.
Metabólicas e endócrinas
Cetoacidose diabética;
Estado hiperglicêmico hiperosmolar;
Uremia;
Hipercalcemia;
Hiponatremia;
Insuficiência adrenal.
Cardiovasculares
Síndrome coronariana aguda (especialmente IAM inferior);
Insuficiência cardíaca.
Medicamentos e toxinas
Opioides;
Agonistas de GLP-1;
Digoxina;
Quimioterápicos;
Álcool;
Cannabis (síndrome da hiperêmese canabinoide).
Outras
Gestação;
Transtornos funcionais;
Transtornos psiquiátricos.
Exames complementares
A investigação deve ser direcionada pela hipótese diagnóstica.
Exames laboratoriais
Hemograma;
Glicemia;
Ureia e creatinina;
Sódio e potássio;
AST, ALT, FA, GGT e bilirrubinas;
Lipase (preferencialmente à amilase na suspeita de pancreatite);
EAS;
β-hCG em mulheres em idade fértil;
Gasometria e lactato quando indicados.
Exames de imagem
Ultrassonografia abdominal;
Tomografia computadorizada de abdome;
Tomografia de crânio;
Radiografia de abdome (casos selecionados);
ECG quando houver suspeita cardiovascular;
Endoscopia digestiva alta conforme indicação clínica.
Considerações sobre o tratamento
O tratamento deve ser direcionado à etiologia, associado à correção das repercussões clínicas.
Medidas gerais
Suspender medicamentos potencialmente desencadeantes, quando possível;
Corrigir hipovolemia e distúrbios hidroeletrolíticos;
Incentivar hidratação oral nos casos leves;
Utilizar hidratação venosa quando houver intolerância à via oral ou desidratação moderada/grave;
Introduzir dieta leve e fracionada após melhora dos sintomas.
Tratamento Via Oral
Comprimidos
Bromoprida (Plamet®) comp. 10mg
Tomar 1 cp (10 mg) de 8/8h, se náuseas ou vômitos (max 60mg/dia).
Metoclopramida (Plasil®) comp. 10mg
Tomar 1 cp (10 mg) de 8/8h, se náuseas ou vômitos (max 30mg/dia).
Ondansetrona (Vonau®) comp. 4mg ou 8mg
Tomar 1 cp (4 mg) de 8/8h ou 1 cp (8mg) de 12/12h, se náuseas ou vômitos (max 24mg/dia)
Domperidona (Motilium®) comp. 10mg
Tomar 1 cp (10mg) 30 min antes das principais refeições (café, almoço e janta) (max 40mg/dia).
Obs: mais utilizado em casos de doença do refluxo gastroesofágico.
Dimenidrinato (Dramin® B6) comp. 50mg+10mg
Tomar 1 cp a cada 6-4h, se náuseas ou vômitos (max 400 mg/dia).
Dimenidrinato (Dramin®) comp. 25mg
Tomar 1 cp a cada 6-8h, se náuseas ou vômitos (max 150 mg/dia).
Gotas:
Bromoprida (Plamet®) gotas 4mg/1mL/24gotas
Tomar 50 gotas (~8,5 mg) de 8/8h, se náuseas ou vômitos (max 30mg/dia ou 60 gotas/dose).
Metoclopramida (Plasil®) gotas 4mg/1mL/20gotas
Tomar 50 gotas (10 mg) de 8/8h, se náuseas ou vômitos (max 30mg/dia ou 50 gotas/dose).
Solução oral:
Bromoprida (Plamet®) sol. oral 1mg/mL
Tomar 10 mL (10 mg) de 8/8h, se náuseas ou vômitos (max 30mg/dia).
Tratamento Parenteral
Intravenoso
Bromoprida (Plamet®) inj. 10mg/2ml
Aplicar 1 amp (10mg) + 100ml SF0,9% IV de 8/8h, S/N (max 30mg/dia)
Evento adverso: Ansiedade, acatisia (causa menos do que metoclopramida)
Metoclopramida (Plasil®) inj. 10mg/2ml
Aplicar 1 amp (10mg) + 100ml SF0,9% IV de 8/8h, S/N (max 30mg/dia)
Evento adverso: Ansiedade, acatisia
Ondansetrona (Nausedron®) inj. 4mg/2ml ou 8mg/4ml
Aplicar 1 amp + 100ml SF0,9% IV de 8/8h ou 12/12h (max 24mg/dia)
Evento adverso: cefaleia (10%), constipação (1-10%), convulsão (0,1%)
Dimenidrinato inj. (Dramin® B6 DL) 30+50mg/10mL
Aplicar 1 amp + 10ml SF0,9% IV bolus lento (5 min) ou diluído em 100 mL SF0,9%, de até 6/6h (max 300 mg/dia)
Evento adverso: sonolência.
Intramuscular
Bromoprida (Plamet®) inj. 10mg/2ml
Aplicar 1 amp (10mg) IM, de até 8/8h, se náuseas ou vômitos (max 30 mg/dia).
Evento adverso: ansiedade, acatisia (causamenos do que a metoclopramida).
Metoclopramida (Plasil®) inj. 10mg/2ml
Aplicar 1 amp (10mg) IM, de até 8/8h, se náuseas ou vômitos (max 30mg/dia).
Evento adverso: ansiedade, acatisia.
Ondansetrona (Nausedron®) inj. 4mg/2ml ou 8mg/4ml
Aplicar 1 amp IM, em até 8-12h, se náuseas ou vômitos (max 24mg/dia).
Dimenidrinato inj. (Nausicalm® B6) 50+50mg/1mL
Aplicar 1 amp IM, em até 4-6h, se náuseas ou vômitos (max 300 mg/dia).
Opção menos convencionais para casos selecionados / refratários:
Prometazina (Fenergan®) solução injetável 25 mg/mL
Adultos: 25 mg VO, IM ou IV a cada 8–12 horas.
Evitar em idosos frágeis pelo efeito anticolinérgico e sedativo.
Administrar lentamente quando utilizada por via intravenosa.
Haloperidol (Haldol®) solução injetável 5 mg/m
Dose: 0,5–2 mg IV ou IM.
Monitorar prolongamento do QT e reações extrapiramidais.
Apenas em casos selecionados, como síndrome da hiperêmese canabinoide ou vômitos refratários.
Critérios de encaminhamento
Encaminhar para serviço de urgência/emergência
Instabilidade hemodinâmica;
Desidratação grave;
Distúrbios hidroeletrolíticos importantes;
Hemorragia digestiva;
Abdome agudo;
Obstrução intestinal;
Pancreatite aguda;
Alteração neurológica;
Suspeita de AVC;
Suspeita de hipertensão intracraniana;
Suspeita de síndrome coronariana aguda;
Incapacidade persistente de ingestão oral.
Encaminhamento ambulatorial
Náuseas e vômitos persistentes (>4 semanas);
Suspeita de gastroparesia;
Perda ponderal involuntária;
Necessidade de investigação endoscópica;
Recorrência sem etiologia definida.
Fluxograma diagnóstico

Referências
[1] AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Bulário Eletrônico. Brasília: ANVISA, 2025. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/bulario/. Acesso em: 23 jul. 2026.
[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Cuidados Paliativos. 2. ed. rev. e ampl. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Capítulo 14: Sintomas gastrointestinais. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2023/manual-de-cuidados-paliativos-2a-edicao. Acesso em: 23 jul. 2026.
[3] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Protocolos de Atenção Primária à Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, publicação mais recente. Disponível em: https://aps.saude.gov.br. Acesso em: 23 jul. 2026.
[4] FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE GASTROENTEROLOGIA (FBG). Documentos científicos e consensos em gastroenterologia. São Paulo: FBG, publicação mais recente. Disponível em: https://www.fbg.org.br. Acesso em: 23 jul. 2026.
[5] SOCIEDADE BRASILEIRA DE CLÍNICA MÉDICA (SBCM). Tratado de Clínica Médica. 3. ed. Barueri: Manole, 2021.
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