Hemorragia Digestiva Alta (HDA) Não Varicosa

CID-10: K92.2 - Hemorragia gastrointestinal, não especificada

CID 10: K25.0 - Úlcera gástrica aguda com hemorragia

CID 10: K22.6 - Síndrome de Mallory-Weiss

Introdução

  • A hemorragia digestiva alta (HDA) origina-se proximal ao ligamento de Treitz. [1]

    • A forma não varicosa é a mais frequente e inclui:

      • Úlcera péptica gástrica e duodenal

      • Síndrome de Mallory-Weiss

      • Lesão de Dieulafoy

      • Neoplasia maligna do trato gastrointestinal superior

      • Angioectasias (incluindo a ectasia vascular antral gástrica, GAVE)

      • Doença erosiva do esôfago/estômago/duodeno

  • A úlcera péptica causa 30% a 50% dos casos de hemorragia digestiva alta; a soma das demais causas não varicosas (hemorragia digestiva alta não varicosa não péptica) responde por mais de um terço a dois terços dos casos, por vezes superando a hemorragia por úlcera péptica [2].

    • Entre essas causas [2]

      • Síndrome de Mallory-Weiss (5% a 15% das hemorragias digestivas altas)

      • Neoplasia maligna (até 5%)

      • GAVE (aproximadamente 4% das hemorragias não varicosas; 6% dos sangramentos digestivos em cirróticos)

      • Lesão de Dieulafoy (1% a 2%, provavelmente subdiagnosticada pelo tamanho pequeno e aspecto sutil da lesão)

🔑 Pontos-chave

  • Glasgow-Blatchford ≤ 1: pode ser manejado com segurança em regime ambulatorial, com endoscopia ambulatorial [1].

  • Endoscopia precoce (até 24 horas da apresentação, após ressuscitação hemodinâmica) é a recomendação padrão; endoscopia emergente (≤ 6h) ou urgente (≤ 12h) não deve ser realizada rotineiramente, exceto se o paciente permanecer hemodinamicamente instável apesar de ressuscitação adequada [1].

  • A classificação de Forrest orienta a decisão terapêutica: Ia/Ib (sangramento ativo) e IIa (vaso visível não sangrante) têm alto risco e exigem hemostasia endoscópica; IIc/III (mancha pigmentada plana/base limpa) têm baixo risco e não requerem terapia endoscópica, permitindo alta hospitalar precoce em casos selecionados [1].

  • Coágulo aderente (Forrest IIb): a remoção do coágulo frequentemente expõe um estigma de alto risco subjacente (Ia, Ib ou IIa); só deve ser tentada por endoscopista com competência técnica para lidar com sangramento induzido pela remoção [1].

  • Nunca usar adrenalina como monoterapia na hemostasia endoscópica; sempre associar a uma segunda modalidade [1].

  • Sangramento persistente refratário a todas as modalidades de hemostasia endoscópica (incluindo agente hemostático tópico e clipe OTS): indicação de embolização angiográfica transcatetérica (TAE); cirurgia se TAE indisponível ou malsucedida [1].

  • Anticoagulação deve ser reiniciada assim que clinicamente indicado, conforme o risco tromboembólico do paciente, mesmo após hemorragia por úlcera péptica [1].

  • Pesquisar H. pylori na endoscopia índice; se negativo, repetir o teste (IBP deve ser suspenso por ao menos 2 semanas antes do reteste para evitar falso-negativo) [1].

  • Síndrome de Mallory-Weiss, lesão de Dieulafoy e GAVE não têm escopo na diretriz ESGE 2026 (restrita a úlcera péptica); o manejo dessas etiologias segue a diretriz canadense endossada pela ESGE [1][2].

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🎯 Fluxograma de manejo

Manejo do sangramento por úlcera péptica, diretriz ESGE – Atualização 2026: o algoritmo parte da pergunta "Sangramento digestivo alto agudo. Hemodinamicamente estável?". Se sim, avalia-se o escore de Glasgow-Blatchford ≤1; se sim, considerar manejo ambulatorial; se não, realizar endoscopia digestiva alta precoce (até 24 horas da apresentação), com úlcera péptica como causa e estratificação por Forrest. Se o paciente não estiver estável, realiza-se ressuscitação hemodinâmica, com cristaloides IV e política restritiva de transfusão sanguínea após a ressuscitação hemodinâmica, e em seguida a endoscopia precoce. A estratificação de Forrest tem quatro categorias. Forrest Ia/Ib (sangramento ativo): terapia combinada com injeção de epinefrina diluída + segunda modalidade (térmica ou mecânica de contato [clipe TTS, clipe OTS]); ou, como novidade, considerar monoterapia com clipe OTS; alternativa, também nova, considerar pinça hemostática. Forrest IIa (vaso visível sem sangramento): monoterapia ± epinefrina diluída, com térmica de contato ou sem contato, mecânica (clipe TTS, clipe OTS) ou injeção de esclerosante; alternativa, nova, considerar pinça hemostática. Forrest IIb (coágulo aderente): *remoção do coágulo + tratamento, em três passos (1 injetar previamente epinefrina diluída; 2 remover o coágulo; 3 tratar o estigma endoscópico subjacente); o asterisco indica que requer competência técnica endoscópica, item atualizado. Forrest IIc/III (mancha pigmentada plana / base limpa): terapia endoscópica desnecessária, seguir para o manejo clínico pós-endoscopia e considerar alta precoce se baixo risco. Um alerta abaixo das colunas IIa e IIb determina: NÃO usar injeção de epinefrina como monoterapia. Em seguida pergunta-se "Hemostasia alcançada?". Se não, sangramento persistente/recorrente: repetir a endoscopia (considerar clipe OTS se não usado inicialmente; considerar agente hemostático tópico como resgate); se a endoscopia falhar, embolização angiográfica transcateter (TAE) ou cirurgia (se TAE indisponível ou sem sucesso). Se sim, manejo pós-endoscopia: inibidor de bomba de prótons (IBP) em dose alta (bolus IV + infusão contínua, ou no mínimo bolus IV 2x/dia por 72 horas, ou via oral); pode iniciar dieta líquida clara logo após a endoscopia; pesquisar H. pylori na endoscopia índice e tratar se positivo; se H. pylori negativo na endoscopia índice, repetir o teste para confirmar o verdadeiro negativo, suspendendo o IBP por pelo menos 2 semanas antes do novo teste; manejo de anticoagulantes/antiagregantes, se aplicável; terapia com ferro, considerando iniciar antes da alta hospitalar em caso de deficiência de ferro e/ou anemia (novo). Abreviações: ESGE, Sociedade Europeia de Endoscopia Gastrointestinal; IBP, inibidor de bomba de prótons; IV, intravenoso; OTS, over-the-scope (clipe sobre o endoscópio); TAE, embolização angiográfica transcateter; TTS, through-the-scope (através do canal do endoscópio). Fonte: Endoscopic diagnosis and management of peptic ulcer bleeding: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Guideline – Update 2026.

Avaliação inicial e ressuscitação hemodinâmica

  • Avaliação imediata do estado hemodinâmico, com reposição volêmica intravascular pronta, inicialmente com cristaloides, se houver instabilidade hemodinâmica [1].

    • Ringer Lactato ou Soro Fisiológico 0,9%

      • Iniciar com 20 a 40 ml/kg nas primeiras horas.

      • Repetir alíquotas adicionais de 250 ou 500 mL.

        • Sempre reavaliando ausculta respiratória, FC e PA.

        • Manter cautela na infusão de volume em pacientes cardiopatas ou nefropatas.

  • Estratégia transfusional: [1]

    • Sem doença cardiovascular, hemodinamicamente estável:

      • Estratégia restritiva, com limiar de hemoglobina (Hb) < 7 g/dL para transfusão de concentrado de hemácias;

      • Alvo pós-transfusional de Hb 7-9 g/dL.

    • Com doença cardiovascular aguda ou crônica, hemodinamicamente estável:

      • Estratégia mais liberal, com limiar de Hb ≤ 8 g/dL para transfusão;

      • Alvo pós-transfusional de Hb ≥ 10 g/dL.

Estratificação de risco

  • Uso do Glasgow-Blatchford Score (GBS) para estratificação de risco pré-endoscópica em todo paciente com HDA aguda [1].

    • GBS ≤ 1: pode ser manejado com segurança em regime ambulatorial, com endoscopia ambulatorial [1].

  • Não é recomendado o uso rotineiro de cápsula endoscópica de vídeo ou cápsulas telemétricas sensoras de sangue no manejo de pacientes com suspeita de HDA [1].

  • Nenhuma ferramenta de estratificação de risco substitui o julgamento clínico [1].

Antitrombóticos (manejo pré-endoscópico)

Pacientes em uso de anti-plaquetários:

  • Ácido acetilsalicílico (AAS) em profilaxia primária: [1]

    • Interromper temporariamente;

    • Reintroduzir após reavaliação criteriosa da indicação clínica.

  • AAS em profilaxia secundária: [1]

    • Não interromper; mas se interrompido por qualquer motivo, reiniciar o quanto antes, preferencialmente em 3 a 5 dias.

  • Dupla antiagregação em profilaxia secundária: [1]

    • Manter o AAS; interromper o segundo antiagregante, reiniciando-o o quanto antes, preferencialmente em até 5 dias;

    • Sugere-se avaliação cardiológica.

Pacientes em uso de anticoagulantes:

  • Antagonista de vitamina K (AVK):

    • Suspender o anticoagulante [1].

    • Se instabilidade hemodinâmica:

      • Administrar vitamina K em baixa dose associada a complexo protrombínico (CCP) intravenoso, ou plasma fresco congelado (PFC) se CCP indisponível;

      • Isso não deve atrasar a endoscopia ou a hemostasia endoscópica, se necessária.

  • Anticoagulante oral direto (DOAC): [1]

    • Suspender o anticoagulante, sem atrasar a endoscopia;

    • Em sangramento grave em curso, considerar agente reversor específico do DOAC ou CCP intravenoso.

Outras recomendações:

  • Não é recomendada transfusão rotineira de plaquetas em pacientes com HDA não varicosa em uso de antiagregantes [1].

  • Não é recomendado o uso de ácido tranexâmico na HDA não varicosa aguda [1].

  • Antiplaquetários, anticoagulantes ou um ponto de corte pré-determinado de INR não devem ser usados para definir ou orientar o momento da endoscopia [1].

  • Doses de vitamina K e de CCP para reversão de AVK não são detalhadas na diretriz; seguir protocolo institucional de reversão de anticoagulação [1].

Procinéticos pré-endoscópicos

Considerar em pacientes selecionados com HDA aguda clinicamente grave e/ou sangramento ativo em curso, antes da endoscopia [1][3][4]

  • Primeira linha:

    • Eritromicina (Tromaxil®) pó liófilo para solução injetável 1 g/frasco

      • 250 mg por via intravenosa, em infusão única de 5 a 30 minutos (mais frequentemente 20 a 30 minutos), 20 a 90 minutos antes da endoscopia

      • Administração: reconstituir com água destilada, evitando soro fisiológico e glicosado a 5%; diluir em SF 0,9% até concentração máxima de 5 mg/mL

  • Alternativa, se eritromicina intravenosa estiver indisponível:

    • Metoclopramida (Plasil®) sol. inj. 5 mg/mL (ampola 2 mL)

      • 10 mg por via oral, intravenosa ou intramuscular, três vezes ao dia

      • Administração: doses acima de 10 mg devem ser diluídas em 50 mL de SF 0,9%; injeção direta lenta, em no mínimo 3 minutos, ou infusão em 15 a 30 minutos

  • Considerações

    • Critérios para seleção de candidatos à eritromicina: sem alergia conhecida a macrolídeo, sem prolongamento de intervalo QT conhecido, sem uso concomitante de medicação com potencial interação com macrolídeo [1]

    • Metoclopramida: risco de eventos adversos graves, incluindo anafilaxia, síndrome serotoninérgica, reação extrapiramidal e arritmia cardíaca; usar com cautela [1]

    • Dose de eritromicina conforme diretriz ACG 2021, por corresponder ao esquema utilizado nos ensaios que sustentam a recomendação da ESGE [4]

    • Posologia da metoclopramida corresponde ao uso geral do fármaco; a diretriz ESGE não especifica dose própria para a indicação de procinético pré-endoscópico [1][3]

Inibidor de bomba de prótons pré-endoscópico

Considerar em pacientes com HDA aguda; não deve atrasar a endoscopia precoce [1][3]

  • Pantoprazol (Pantocal®) pó liófilo injetável 40 mg

    • 80 mg em bólus intravenoso, seguidos de infusão contínua de 8 mg/hora

    • Administração: administrar sem diluição, ou diluído em 100 mL de SF 0,9% ou SG 5% ou 10%; bólus direto em no mínimo 2 minutos, ou infusão em 15 minutos

  • Alternativas:

    • Omeprazol pó inj. 40mg

      • Ataque: Aplicar 2 amp (80mg) + 10ml SF0,9%, IV bolus

      • Manutenção: Aplicar 1 amp (40mg) + 5ml SF0,9%, IV de 12/12h, OU

    • Esomeprazol pó inj. 40mg

      • Ataque: Aplicar 2 amp (80mg) + 10ml SF0,9%, IV bolus

      • Manutenção: Aplicar 1 amp (40mg) + 5ml SF0,9%, IV de 12/12h

  • Considerações

    • Recomendação condicional, evidência de baixa qualidade [1]

Intubação orotraqueal

  • Não é recomendada intubação orotraqueal profilática rotineira para proteção de via aérea antes da endoscopia digestiva alta em HDA aguda [1].

  • Intubação orotraqueal profilática é recomendada apenas em pacientes selecionados: [1]

    • Hematêmese ativa em curso

    • Agitação

    • Encefalopatia com incapacidade de controlar adequadamente a via aérea

Momento da endoscopia

  • Definições de tempo em relação à apresentação do paciente: [1]

    • Urgente ≤ 12 horas;

    • Precoce ≤ 24 horas;

    • Tardia > 24 horas.

  • Após ressuscitação hemodinâmica, realizar endoscopia digestiva alta precoce (≤ 24 horas) [1].

  • Endoscopia emergente (≤ 6 horas) ou urgente (≤ 12 horas) não é recomendada, a menos que o paciente permaneça hemodinamicamente instável apesar de ressuscitação adequada [1].

  • Disponibilidade de endoscopista de plantão proficiente em hemostasia endoscópica e de equipe de enfermagem com expertise técnica em dispositivos endoscópicos, em regime 24 horas/7 dias [1].

Classificação de Forrest e diagnóstico endoscópico

Classificação de Forrest: a tabela organiza os achados endoscópicos da úlcera péptica em três grupos. Em hemorragia aguda, Forrest Ia corresponde a sangramento ativo em jato e Forrest Ib a sangramento ativo em babação (porejamento). Em sinais de hemorragia recente, Forrest IIa corresponde a vaso visível sem sangramento, Forrest IIb a coágulo aderente e Forrest IIc a mancha de hematina plana pigmentada na base da úlcera. Em lesões sem sangramento ativo, Forrest III corresponde a úlcera de base limpa. Abreviação: ESGE, Sociedade Europeia de Endoscopia Gastrointestinal. Fonte: Endoscopic diagnosis and management of peptic ulcer bleeding: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Guideline – Update 2026.

Uso da classificação de Forrest (F) em todo paciente com hemorragia por úlcera péptica, para diferenciar estigmas endoscópicos de baixo e de alto risco [1]:

  • Forrest Ia: sangramento em jato (spurting)

  • Forrest Ib: sangramento em babação (oozing)

  • Forrest IIa: vaso visível não sangrante

  • Forrest IIb: coágulo aderente

  • Forrest IIc: mancha pigmentada plana

  • Forrest III: base limpa

Considerações:

  • Úlceras com sangramento em jato ou em babação (Ia e Ib) ou com vaso visível não sangrante (IIa) devem receber hemostasia endoscópica, por serem estigmas de alto risco para sangramento persistente ou recorrente [1].

  • Úlceras com coágulo aderente (IIb): considerar terapia endoscópica, com remoção do coágulo e hemostasia endoscópica subsequente se indicada, desde que o endoscopista tenha competência técnica para remover o coágulo com segurança e manejar eventual conversão para lesão de maior risco [1].

  • Não é recomendada hemostasia endoscópica em úlceras com mancha pigmentada plana (IIc) ou base limpa (III), por baixo risco de desfecho adverso; em contextos clínicos selecionados, esses pacientes podem ter alta hospitalar antecipada [1].

  • Sem consenso da ESGE a favor ou contra o uso rotineiro de sonda Doppler endoscópica (DEP) na decisão terapêutica de estigmas endoscópicos de alto risco de hemorragia por úlcera péptica [1].

Manejo endoscópico da úlcera péptica

Esquema de manejo endoscópico da úlcera péptica, por estigma de Forrest: [1]

  • Forrest Ia/Ib (sangramento ativo):

    • Terapia combinada (adrenalina + segunda modalidade) ou clipe OTS como monoterapia;

    • Alternativa: fórceps hemostático;

    • Ver bloco de conduta abaixo.

  • Forrest IIa (vaso visível não sangrante):

    • Dispositivo térmico, mecânico ou esclerosante como monoterapia ou combinado a adrenalina diluída;

    • Clipe OTS como monoterapia alternativa;

    • Alternativa: fórceps hemostático;

    • Ver bloco de conduta abaixo.

  • Forrest IIb (coágulo aderente):

    • Remoção do coágulo com pré-injeção de adrenalina diluída, seguida de tratamento do estigma subjacente exposto;

    • Ver bloco de conduta abaixo.

  • Forrest IIc/III (baixo risco):

    • Nenhuma terapia endoscópica;

    • Seguir diretamente para manejo clínico pós-endoscópico.

  • Sangramento persistente ou recorrente:

    • Repetir endoscopia com clipe OTS (se não usado inicialmente) ou agente hemostático tópico como resgate; se hemostasia endoscópica malsucedida, indicar TAE ou cirurgia.

  • Nunca usar adrenalina como monoterapia, em nenhum estigma.

Forrest Ia/Ib: sangramento ativo (jato ou babação)

  • Combinação de adrenalina diluída com uma segunda modalidade de hemostasia, ou clipe OTS como monoterapia [1]

    • Adrenalina (epinefrina) sol. inj. 1 mg/mL (ampola 1 mL)

      • Injeção submucosa diluída, em combinação com uma segunda modalidade de hemostasia (terapia térmica de contato ou mecânica: clipe TTS ou clipe OTS)

      • Administração: diluição não especificada na fonte; seguir protocolo institucional de hemostasia endoscópica

    • Segunda modalidade de hemostasia (associada à adrenalina), ou alternativa como monoterapia:

      • Clipe over-the-scope (OTS) como monoterapia, alternativa à terapia combinada, por menor risco de ressangramento em comparação à hemostasia endoscópica padrão [1]

      • Terapia térmica de contato ou mecânica (clipe TTS ou OTS), associada à adrenalina [1]

      • Alternativa: fórceps hemostático (bipolar ou monopolar) com coagulação suave, como monoterapia [1]

    • Considerações

      • Nunca usar adrenalina isolada; sempre associar a uma segunda modalidade [1]

      • Clipe OTS como monoterapia é recomendação condicional, evidência muito baixa; a evidência disponível avalia exclusivamente o sistema de clipe OTS da Ovesco Endoscopy, com dados sobre outros dispositivos cap-mounted limitados a relatos e pequenas séries de casos [1]

      • Fórceps hemostático: recomendação condicional, evidência muito baixa [1]

      • Agente hemostático tópico não deve ser usado como monoterapia de primeira linha em estigma de alto risco; mantém papel como terapia de resgate em sangramento refratário [1]

Forrest IIa: vaso visível não sangrante

  • Terapia térmica, mecânica ou esclerosante, cada uma como monoterapia ou combinada a adrenalina diluída [1]

    • Terapia térmica de contato ou não contato, terapia mecânica (clipe TTS ou OTS) ou injeção de agente esclerosante, cada uma como monoterapia ou combinada à adrenalina [1]

    • Clipe OTS como monoterapia alternativa [1]

    • Alternativa: fórceps hemostático (bipolar ou monopolar) com coagulação suave, como monoterapia [1]

    • Adrenalina (epinefrina) sol. inj. 1 mg/mL (ampola 1 mL)

      • Injeção submucosa diluída, sempre associada a uma das modalidades acima; nunca como monoterapia

      • Administração: diluição não especificada na fonte; seguir protocolo institucional de hemostasia endoscópica

    • Considerações

      • Terapia com dispositivo térmico, mecânico ou esclerosante, isolada ou combinada à adrenalina, é recomendação forte, evidência moderada [1]

      • Clipe OTS como monoterapia alternativa e fórceps hemostático são recomendações condicionais, evidência muito baixa [1]

Forrest IIb: coágulo aderente

  • Remoção do coágulo seguida de hemostasia do estigma subjacente, se indicada, desde que o endoscopista tenha competência técnica para remover o coágulo com segurança e manejar eventual conversão para lesão de maior risco [1]

    • Adrenalina (epinefrina) sol. inj. 1 mg/mL (ampola 1 mL)

      • Pré-injeção diluída ao redor e/ou sob o coágulo, antes da tentativa de remoção, para mitigar o risco de sangramento franco induzido pela remoção

      • Administração: diluição não especificada na fonte; seguir protocolo institucional de hemostasia endoscópica

    • Após remoção do coágulo: se estigma Ia, Ib ou IIa exposto, aplicar a hemostasia correspondente (ver blocos acima)

    • Considerações

      • Recomendação condicional, evidência muito baixa [1]

      • A prática de pré-injeção de adrenalina antes da remoção do coágulo não é sustentada por evidência comparativa direta e não substitui as técnicas definitivas de hemostasia endoscópica [1]

      • Nunca usar adrenalina isolada; sempre associar à remoção do coágulo e ao tratamento do estigma subjacente [1]

Forrest IIc/III: mancha pigmentada plana ou base limpa

  • Não é indicada terapia endoscópica [1].

  • Proceder diretamente ao manejo clínico pós-endoscópico; considerar alta hospitalar precoce se baixo risco [1].

Sangramento persistente ou refratário [1]

  • Definição: sangramento ativo em curso, refratário às modalidades padrão de hemostasia [1].

  • Uso de agente hemostático tópico ou clipe OTS deve ser considerado [1].

  • Se refratário a todas as modalidades de hemostasia endoscópica, incluindo agente hemostático tópico e clipe OTS:

    • Indicar embolização angiográfica transcatetérica (TAE);

    • Cirurgia se TAE indisponível localmente ou malsucedida.

Manejo pós-endoscópico

Terapia antissecretora

  • Pacientes submetidos a hemostasia endoscópica e pacientes com estigma IIb (coágulo aderente) não tratados endoscopicamente [1][3]

    • Pantoprazol (Pantocal®) pó liófilo injetável 40 mg

      • Esquema preferencial: 80 mg em bólus intravenoso, seguidos de infusão contínua de 8 mg/hora, por 72 horas pós-endoscopia

      • Esquemas alternativos: bólus intravenoso em alta dose, duas vezes ao dia; ou via oral em alta dose, duas vezes ao dia

      • Administração: administrar sem diluição, ou diluído em 100 mL de SF 0,9% ou SG 5% ou 10%; bólus direto em no mínimo 2 minutos, ou infusão em 15 minutos

    • Considerações

      • Recomendação forte, evidência de alta qualidade [1]

      • Bloqueador ácido competitivo de potássio (ex.: vonoprazano): sem consenso da ESGE a favor ou contra seu uso rotineiro após hemostasia endoscópica [1]

Ressangramento

  • Ressangramento é definido como sangramento após hemostasia endoscópica inicial bem-sucedida [1].

  • Evidência clínica de ressangramento: hematêmese recorrente ou aspirado nasogástrico sanguinolento após a primeira endoscopia, taquicardia ou hipotensão recorrente após estabilidade hemodinâmica alcançada, melena e/ou hematoquezia após normalização da cor das fezes, ou queda de Hb ≥ 2 g/dL após valor de Hb estável [1].

  • Para pacientes com evidência clínica de ressangramento: repetir endoscopia digestiva alta com hemostasia, se indicado [1].

  • Para pacientes com evidência clínica de ressangramento por úlcera péptica: considerar uso de clipe OTS. Se essa segunda tentativa de hemostasia endoscópica também for malsucedida, considerar TAE. Cirurgia é indicada quando TAE está indisponível localmente ou após TAE malsucedida [1].

Reinício de anticoagulação

  • Em pacientes com hemorragia por úlcera péptica que necessitam de anticoagulação contínua, a anticoagulação deve ser retomada assim que clinicamente indicado, com base no risco tromboembólico [1].

  • Considerações

    • A decisão de reiniciar deve equilibrar o risco de ressangramento com o risco de eventos tromboembólicos e suas sequelas, incluindo óbito [1]

    • Escores de predição clínica validados (CHA₂DS₂-VASc para risco trombótico, HAS-BLED para risco hemorrágico) podem auxiliar a decisão clínica [1]

    • Antagonistas de vitamina K devem ser reiniciados mais precocemente, pois o tempo até anticoagulação adequada é maior (até 5 dias), em comparação aos DOACs (horas) [1]

Helicobacter pylori

  • Investigar a presença de H. pylori no cenário agudo (na primeira endoscopia), com início de antibioticoterapia apropriada se detectado [1].

  • Retestar H. pylori em pacientes com teste negativo na primeira endoscopia [1].

    • IBP deve ser suspenso por ao menos 2 semanas antes do reteste, para evitar resultado falso-negativo [1]

  • Documentar a erradicação bem-sucedida de H. pylori [1].

  • Considerações

    • Esquema de erradicação não é detalhado nesta diretriz; seguir protocolo institucional/diretriz específica de erradicação de H. pylori [1]

Terapia com ferro

  • Pacientes com hemorragia por úlcera péptica e deficiência de ferro e/ou anemia, antes da alta hospitalar [1][3]

    • Sulfato ferroso comp. 300 mg (≈ 97 mg de ferro elementar)

      • Deficiência de ferro manifesta: 1 comprimido, 1 a 3 vezes ao dia

      • Deficiência de ferro latente: 1 comprimido, 1 vez ao dia

      • Administração: via oral, 30 minutos antes das refeições, com água ou suco (não usar leite); administrar 2 horas antes ou 4 horas após antiácidos e quinolonas orais

    • Carboximaltose férrica (Ferinject®) sol. inj. 50 mg/mL (ampola 10 mL = 500 mg; ampola 20 mL = 1.000 mg)

      • Dose cumulativa conforme peso corporal e hemoglobina:

        • Hb < 10 g/dL: 35 kg a < 70 kg: 1.500 mg; ≥ 70 kg: 2.000 mg

        • Hb ≥ 10 g/dL: 35 kg a < 70 kg: 1.000 mg; ≥ 70 kg: 1.500 mg

        • Hb ≥ 14 g/dL: dose inicial de 500 mg, independente do peso; reavaliar parâmetros de ferro antes de repetir a dose

      • Administração: via intravenosa exclusiva; doses de 100 a 200 mg diluídas em 50 mL de SF 0,9%; 200 a 500 mg em 100 mL (infusão mínima de 6 minutos); 500 a 1.000 mg em 250 mL (infusão mínima de 15 minutos)

    • Considerações

      • Recomendação condicional, evidência de baixa qualidade [1]

      • A fonte não especifica via preferencial (oral versus intravenosa) nem posologia própria para esta indicação; a escolha da via segue avaliação clínica da gravidade da anemia e da tolerância oral [1]

Reintrodução da dieta oral

  • Iniciar dieta oral precoce, dentro de 24 horas após a hemostasia endoscópica, em pacientes com hemorragia por úlcera péptica nos quais a hemostasia durável foi alcançada [1].

  • Considerações

    • Recomendação condicional, evidência de baixa qualidade [1]

💊 Como prescrever?

Procinéticos pré-endoscópicos [1][3][4]

  • Primeira linha:

    • Eritromicina (Tromaxil®) pó liófilo para solução injetável 1 g/frasco

      • 250 mg por via intravenosa, em infusão única de 5 a 30 minutos (mais frequentemente 20 a 30 minutos), 20 a 90 minutos antes da endoscopia

      • Administração: reconstituir com água destilada, evitando soro fisiológico e glicosado a 5%; diluir em SF 0,9% até concentração máxima de 5 mg/mL

  • Alternativa, se eritromicina intravenosa estiver indisponível:

    • Metoclopramida (Plasil®) sol. inj. 5 mg/mL (ampola 2 mL)

      • 10 mg por via oral, intravenosa ou intramuscular, três vezes ao dia

      • Administração: doses acima de 10 mg devem ser diluídas em 50 mL de SF 0,9%; injeção direta lenta, em no mínimo 3 minutos, ou infusão em 15 a 30 minutos

Inibidor de bomba de prótons, alta dose (pré e pós-endoscopia) [1][3]

  • Pantoprazol (Pantocal®) pó liófilo injetável 40 mg

    • Esquema preferencial: 80 mg em bólus intravenoso, seguidos de infusão contínua de 8 mg/hora, por 72 horas pós-endoscopia

    • Esquemas alternativos: bólus intravenoso em alta dose, duas vezes ao dia; ou via oral em alta dose, duas vezes ao dia

    • Administração: administrar sem diluição, ou diluído em 100 mL de SF 0,9% ou SG 5% ou 10%; bólus direto em no mínimo 2 minutos, ou infusão em 15 minutos

Adrenalina, hemostasia endoscópica [1][2]

  • Adrenalina (epinefrina) sol. inj. 1 mg/mL (ampola 1 mL)

    • Injeção submucosa diluída, sempre associada a uma segunda modalidade de hemostasia; nunca como monoterapia

    • Administração: diluição não especificada na fonte; seguir protocolo institucional de hemostasia endoscópica

Terapia com ferro [1][3]

  • Sulfato ferroso comp. 300 mg (≈ 97 mg de ferro elementar)

    • Deficiência de ferro manifesta: 1 comprimido, 1 a 3 vezes ao dia

    • Deficiência de ferro latente: 1 comprimido, 1 vez ao dia

    • Administração: via oral, 30 minutos antes das refeições, com água ou suco (não usar leite); administrar 2 horas antes ou 4 horas após antiácidos e quinolonas orais

  • Carboximaltose férrica (Ferinject®) sol. inj. 50 mg/mL (ampola 10 mL = 500 mg; ampola 20 mL = 1.000 mg)

    • Dose cumulativa conforme peso corporal e hemoglobina:

      • Hb < 10 g/dL: 35 kg a < 70 kg: 1.500 mg; ≥ 70 kg: 2.000 mg

      • Hb ≥ 10 g/dL: 35 kg a < 70 kg: 1.000 mg; ≥ 70 kg: 1.500 mg

      • Hb ≥ 14 g/dL: dose inicial de 500 mg, independente do peso; reavaliar parâmetros de ferro antes de repetir a dose

    • Administração: via intravenosa exclusiva; doses de 100 a 200 mg diluídas em 50 mL de SF 0,9%; 200 a 500 mg em 100 mL (infusão mínima de 6 minutos); 500 a 1.000 mg em 250 mL (infusão mínima de 15 minutos)

Embolização angiográfica transcatetérica (TAE) profilática

  • Considerar TAE (embolização angiográfica transcatetérica) profilática, após hemostasia endoscópica bem-sucedida, em casos selecionados de alto risco de hemorragia por úlcera péptica [1]:

    • Instabilidade hemodinâmica na apresentação

    • Localização em parede posterior do duodeno

    • Úlcera de grande tamanho (> 2 cm)

    • Hemostasia endoscópica considerada de durabilidade incerta

  • Considerações

    • Recomendação condicional, evidência muito baixa [1]

Outras causas de HDA não varicosa

As recomendações a seguir são da diretriz canadense de manejo endoscópico da HDA não varicosa não péptica, endossada pela ESGE para as etiologias fora do escopo da atualização 2026 [2].

Síndrome de Mallory-Weiss

  • Sangramento ativo (jato ou babação): terapia hemostática endoscópica é sugerida, em vez de nenhuma terapia endoscópica [2].

    • Preferir ligadura elástica (EBL) ou clipe através do escópio (through-the-scope clip, TTSC), em vez de injeção isolada de adrenalina [2]

  • Vaso visível não sangrante: terapia hemostática endoscópica não é sugerida [2].

  • Coágulo aderente não sangrante: terapia hemostática endoscópica não é sugerida [2].

  • Úlcera de base limpa ou mancha pigmentada plana não sangrante: terapia hemostática endoscópica não é sugerida [2].

  • Adrenalina, nunca como monoterapia [2]

    • Adrenalina (epinefrina) sol. inj. 1 mg/mL (ampola 1 mL)

      • Não deve ser usada isolada; se usada, associar a ligadura elástica ou clipe através do escópio

      • Administração: diluição não especificada na fonte; seguir protocolo institucional de hemostasia endoscópica

    • Considerações

      • Todas as recomendações desta seção são condicionais, com evidência de certeza muito baixa [2]

Lesão de Dieulafoy

  • Dispositivo mecânico (ligadura elástica ou clipe através do escópio), dispositivo térmico de contato (sonda térmica ou eletrocoagulação bipolar) ou injeção de agente esclerosante, cada um com ou sem injeção de adrenalina: opções equivalentes entre si, sem preferência estabelecida [2].

  • Evidência insuficiente para recomendar clipe cap-mounted sobre a terapia endoscópica convencional [2].

  • Injeção isolada de adrenalina não é sugerida em vez de dispositivo mecânico (ligadura elástica ou clipe através do escópio) [2].

  • Injeção isolada de adrenalina não é sugerida em vez de dispositivo térmico (sonda térmica, eletrocoagulação bipolar ou multipolar) [2].

  • Adrenalina, nunca como monoterapia [2]

    • Adrenalina (epinefrina) sol. inj. 1 mg/mL (ampola 1 mL)

      • Não deve ser usada isolada; associar a dispositivo mecânico (ligadura elástica ou clipe através do escópio) ou térmico

      • Administração: diluição não especificada na fonte; seguir protocolo institucional de hemostasia endoscópica

    • Considerações

      • Todas as recomendações desta seção são condicionais, com evidência de certeza muito baixa [2]

Sangramento de neoplasia maligna do trato gastrointestinal superior

  • Terapia hemostática endoscópica convencional (injeção, dispositivo térmico, dispositivo mecânico, ou combinação) é sugerida em vez de nenhuma terapia endoscópica [2].

  • Agente hemostático tópico (spray/pó) é sugerido em vez de nenhuma terapia endoscópica, e também em vez da terapia hemostática endoscópica convencional [2].

  • Evidência insuficiente para recomendar uma modalidade convencional específica sobre outra [2].

  • Iniciar terapia oncológica (cirurgia, quimioterapia, radioterapia) após a terapia hemostática endoscópica, em vez de não a oferecer [2].

  • Considerações

    • Todas as recomendações desta seção são condicionais, com evidência de certeza muito baixa [2]

Ectasia vascular antral gástrica (GAVE)

  • Ligadura elástica (EBL) é sugerida em vez de coagulação com plasma de argônio (APC) [2].

  • Ablação por radiofrequência (RFA) não é sugerida em vez de APC [2].

  • Considerações

    • Todas as recomendações desta seção são condicionais, com evidência de certeza muito baixa [2]

Referências

[1] GRALNEK, Ian M.; MORRIS, John; LAURSEN, Stig Borbjerg; et al. Endoscopic diagnosis and management of peptic ulcer bleeding: European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE) Guideline – Update 2026. Endoscopy, v. 58, p. 899-924, 2026. DOI: 10.1055/a-2863-8314.

[2] BARKUN, Alan N.; LAINE, Loren; LEONTIADIS, Grigorios I.; et al. Canadian Association of Gastroenterology Clinical Practice Guideline for the Endoscopic Management of Nonvariceal Nonpeptic Ulcer Upper Gastrointestinal Bleeding. Gastroenterology, v. 169, p. 863-891, 2025. DOI: 10.1053/j.gastro.2025.04.041.

[3] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia Farmacêutico. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/. Acesso em: 25 set. 2026.

[4] LAINE, Loren; BARKUN, Alan N.; SALTZMAN, John R.; MARTEL, Myriam; LEONTIADIS, Grigorios I. ACG Clinical Guideline: Upper Gastrointestinal and Ulcer Bleeding. American Journal of Gastroenterology, v. 116, n. 5, p. 899-917, 2021. DOI: 10.14309/ajg.0000000000001245.

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