Síndrome Nefrítica

CID-10: N00 – Síndrome nefrítica aguda

CID-10: N03 – Síndrome nefrítica crônica

Introdução

  • A síndrome nefrítica é uma manifestação clínica decorrente de inflamação glomerular, caracterizada por hematúria glomerular, proteinúria (geralmente subnefrótica), edema, hipertensão arterial e redução variável da taxa de filtração glomerular (TFG).

  • Pode apresentar evolução aguda ou rapidamente progressiva, constituindo emergência nefrológica quando há perda acelerada da função renal.

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Epidemiologia

  • A incidência varia conforme a etiologia.

  • Crianças:

    • principal causa: glomerulonefrite pós-infecciosa.

  • Adultos:

    • nefropatia por IgA;

    • nefrite lúpica;

    • vasculites associadas ao ANCA;

    • glomerulonefrite membranoproliferativa.

  • A forma rapidamente progressiva apresenta elevada morbidade e risco de perda irreversível da função renal.

Fisiopatologia

A inflamação glomerular pode ser desencadeada por imunocomplexos, ativação do complemento, autoanticorpos ou lesão imunomediada da membrana basal glomerular, resultando em:

  • redução da TFG;

  • hematúria glomerular;

  • proteinúria;

  • retenção de sódio e água;

  • edema e hipertensão arterial.

Etiologias

Glomerulopatias primárias

  • Nefropatia por IgA.

  • Glomerulonefrite pós-infecciosa.

  • Glomerulonefrite membranoproliferativa.

  • Doença por anticorpo anti-membrana basal glomerular.

Glomerulopatias secundárias

  • Lúpus eritematoso sistêmico.

  • Vasculites associadas ao ANCA.

  • Vasculite por IgA.

  • Endocardite infecciosa.

  • Hepatites B e C.

  • HIV.

  • Crioglobulinemia.

Fatores de risco

Variam conforme a etiologia, destacando-se:

  • infecção estreptocócica recente;

  • doenças autoimunes;

  • hepatites virais;

  • HIV;

  • neoplasias hematológicas;

  • história familiar de glomerulopatias;

  • exposição a medicamentos ou agentes infecciosos.

Quadro clínico

Manifestações clássicas

  • Hematúria microscópica ou macroscópica (urina cor de "chá" ou "coca-cola").

  • Proteinúria (<3,5 g/24 h).

  • Edema (periorbitário e/ou membros inferiores).

  • Hipertensão arterial.

  • Oligúria.

  • Insuficiência renal aguda de intensidade variável.

Sintomas associados

  • Mal-estar.

  • Astenia.

  • Cefaleia.

  • Náuseas.

  • Dispneia por congestão pulmonar.

  • Dor lombar ocasional.

Achados sugestivos de doença sistêmica

  • Artrite.

  • Púrpura palpável.

  • Lesões cutâneas.

  • Úlceras orais.

  • Sinusite crônica.

  • Hemorragia alveolar.

Apresentações clínicas

Síndrome nefrítica aguda

  • Caracteriza-se por:

    • hematúria;

    • edema;

    • hipertensão;

    • redução discreta ou moderada da função renal.

Síndrome nefrítica rapidamente progressiva

  • Caracteriza-se por:

    • perda rápida da função renal (dias a semanas);

    • hematúria glomerular;

    • cilindros hemáticos;

    • proteinúria variável;

    • necessidade frequente de biópsia renal e imunossupressão precoce.

Quando suspeitar?

  • Suspeitar em pacientes com:

    • hematúria associada à proteinúria;

    • edema;

    • hipertensão arterial de início recente;

    • oligúria;

    • aumento da creatinina;

    • hematúria após infecção de vias aéreas superiores ou de pele;

    • manifestações sugestivas de doença autoimune.

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico-laboratorial e deve ser complementado pela investigação etiológica.

Critérios clínicos

  • Hematúria glomerular.

  • Proteinúria (geralmente <3,5 g/24 h).

  • Edema.

  • Hipertensão arterial.

  • Redução da TFG.

  • Oligúria.

Exames iniciais

Avaliação da função renal

  • Creatinina.

  • Ureia.

  • Eletrólitos (Na+, K+, HCO3-).

  • TFGe.

Urina / EAS

  • Pesquisar:

    • hematúria;

    • proteinúria;

    • cilindros hemáticos;

    • cilindros granulosos;

    • leucocitúria.

    • Hemácias dismórficas e cilindros hemáticos sugerem fortemente origem glomerular.

Quantificação da proteinúria

  • Relação proteína/creatinina urinária (preferencial).

  • Proteinúria de 24 horas.

Outros exames

  • Hemograma.

  • PCR.

  • VHS.

Investigação etiológica

  • Individualizar conforme idade e suspeita clínica.

  • Complemento

    • Solicitar:

      • C3.

      • C4.

  • C3 reduzido

    • Glomerulonefrite pós-infecciosa.

    • Glomerulonefrite membranoproliferativa.

    • Nefrite lúpica.

  • Complemento normal

    • Nefropatia por IgA.

    • Vasculites ANCA.

    • Doença anti-MBG.

  • Sorologias

    • Quando indicadas:

      • Hepatite B.

      • Hepatite C.

      • HIV.

      • Sífilis.

  • Pesquisa de infecção estreptocócica

    • ASLO.

    • Anti-DNase B.

  • Autoanticorpos

    • Solicitar conforme suspeita clínica:

      • FAN.

      • Anti-DNA dupla hélice.

      • ANCA.

      • Anti-membrana basal glomerular.

      • Crioglobulinas.

Exames de imagem

Ultrassonografia renal

  • Exame inicial para avaliação de:

    • tamanho renal;

    • espessura cortical;

    • obstrução urinária;

    • alterações estruturais.

  • Rins reduzidos sugerem doença renal crônica.

Radiografia ou TC de tórax

  • Indicadas quando houver:

    • hemorragia alveolar;

    • congestão pulmonar;

    • suspeita de vasculite.

Biópsia renal

  • É o exame padrão-ouro para definição etiológica.

  • Indicações

    • Síndrome nefrítica rapidamente progressiva.

    • Etiologia indefinida.

    • Proteinúria persistente significativa.

    • Piora progressiva da função renal.

    • Suspeita de nefrite lúpica.

    • Suspeita de vasculite.

    • Hematúria glomerular persistente associada à redução da função renal.

  • Contraindicações relativas

    • Coagulopatia.

    • Hipertensão arterial não controlada.

    • Rim único (avaliação individualizada).

    • Infecção ativa no local da punção.

Diagnósticos diferenciais

Glomerulares

  • Síndrome nefrótica.

  • Nefropatia por IgA.

  • Glomerulonefrite pós-infecciosa.

  • Nefrite lúpica.

  • Vasculites ANCA.

  • Doença anti-MBG.

Não glomerulares

  • Litíase urinária.

  • Infecção urinária.

  • Neoplasias urológicas.

  • Hiperplasia prostática.

  • Trauma urinário.

  • Necrose tubular aguda.

  • Nefrite intersticial aguda.

  • Doença renal obstrutiva.

  • Microangiopatias trombóticas.

Critérios de gravidade

Considerar maior gravidade na presença de:

  • aumento rápido da creatinina;

  • oligúria ou anúria;

  • hipercalemia;

  • acidose metabólica;

  • hipertensão grave;

  • edema agudo de pulmão;

  • hemorragia alveolar;

  • síndrome nefrítica rapidamente progressiva.

Fluxo diagnóstico inicial

Hematúria + proteinúria + edema/hipertensão ± redução da função renal

Solicitar:

  • EAS.

  • Relação proteína/creatinina ou proteinúria de 24 h.

  • Creatinina, ureia e eletrólitos.

  • Hemograma.

  • C3 e C4.

Confirmada a síndrome nefrítica:

  • investigar etiologia (sorologias e autoanticorpos);

  • realizar ultrassonografia renal;

  • avaliar indicação de biópsia renal.

Encaminhamento urgente ao nefrologista se houver:

  • síndrome nefrítica rapidamente progressiva;

  • oligúria importante;

  • síndrome pulmão-rim;

  • hipertensão grave;

  • hipercalemia;

  • edema agudo de pulmão;

  • necessidade de biópsia renal ou imunossupressão.

Tratamento

O tratamento deve ser direcionado à etiologia da glomerulopatia, associado ao controle da sobrecarga volêmica, hipertensão, distúrbios hidroeletrolíticos e insuficiência renal.

  • Critérios de internação

    • Internar pacientes com:

      • Insuficiência renal aguda moderada ou grave.

      • Oligúria ou anúria.

      • Hipercalemia.

      • Acidose metabólica importante.

      • Hipertensão grave ou emergência hipertensiva.

      • Edema agudo de pulmão.

      • Sobrecarga volêmica importante.

      • Suspeita de síndrome nefrítica rapidamente progressiva.

      • Necessidade de biópsia renal urgente.

      • Necessidade de pulsoterapia, plasmaférese ou imunossupressão intravenosa.

  • Manejo inicial e monitorização

    • Medidas gerais

      • Restrição de sódio (~2 g/dia ou 5 g de sal/dia).

      • Restrição hídrica conforme diurese e estado volêmico.

      • Suspender medicamentos nefrotóxicos.

      • Ajustar doses dos medicamentos à TFG.

      • Evitar contraste iodado sempre que possível.

    • Monitorização

      • Realizar diariamente:

        • Pressão arterial.

        • Peso.

        • Diurese.

        • Balanço hídrico.

        • Creatinina.

        • Eletrólitos.

Controle da hipertensão e do edema

  • A correção da sobrecarga volêmica é a primeira medida.

  • Furosemida (Lasix®) comp. 40 mg

    • VO: 20–80 mg/dia, ajustando conforme resposta clínica.

  • Furosemida (Lasix®) sol. inj. 10 mg/mL

    • 20–40 mg IV.

    • Repetir ou titular conforme diurese e função renal.

    • Monitorar:

      • creatinina;

      • potássio;

      • pressão arterial;

      • débito urinário.

  • Se persistir hipertensão:

    • Anlodipino (Norvasc®) comp. 5 mg ou 10 mg

      • Iniciar 5 mg VO 1x/dia.

      • Dose máxima: 10 mg/dia.

Emergência hipertensiva

  • Nitroprussiato de sódio sol. inj. 50 mg

    • Iniciar 0,3 mcg/kg/min IV em infusão contínua.

    • Titular conforme resposta.

    • Uso exclusivo em ambiente monitorizado.

  • Ir para Crise Hipertensiva

Manejo da insuficiência renal aguda

  • Ir para Lesão Renal Aguda

  • Corrigir distúrbios hidroeletrolíticos.

  • Evitar nefrotóxicos.

  • Ajustar medicamentos conforme TFG.

  • Avaliar necessidade de terapia renal substitutiva.

Hipercalemia

  • Ir para Hipercalemia

  • Seguir protocolo específico quando houver:

    • Potássio ≥6,0 mEq/L.

    • Alterações eletrocardiográficas.

    • Fraqueza muscular.

Tratamento específico conforme etiologia

  • Glomerulonefrite pós-estreptocócica

    • Tratamento predominantemente de suporte.

    • Se houver infecção estreptocócica ativa:

      • Penicilina benzatina (Benzetacil®) sol. injetável 1.200.000 U

        • Adultos

          • 1.200.000 UI IM, dose única.

        • Crianças

          • <27 kg: 600.000 UI IM, dose única.

          • ≥27 kg: 1.200.000 UI IM, dose única.

      • Alergia à penicilina:

        • Azitromicina (Zitromax®) comp. 500 mg

          • Adultos: 500 mg VO 1x/dia por 5 dias.

  • Nefrite lúpica

    • O tratamento depende da classe histológica.

    • Pode incluir:

      • corticosteroides;

      • micofenolato de mofetila;

      • ciclofosfamida;

      • rituximabe;

      • belimumabe.

  • Vasculites ANCA

    • Indução de remissão com:

      • corticosteroides;

      • rituximabe;

      • ciclofosfamida.

    • Em casos selecionados, considerar plasmaférese.

  • Doença antimembrana basal glomerular

    • Tratamento de urgência com:

      • plasmaférese;

      • corticosteroides;

      • ciclofosfamida.

Corticoterapia

  • Não iniciar empiricamente em toda síndrome nefrítica.

  • Está indicada apenas quando houver confirmação ou forte suspeita de glomerulonefrite imunomediada.

    • Metilprednisolona (Solu-Medrol®) pó inj. 500 mg ou 1 g

      • Pulsoterapia: 500–1.000 mg IV/dia por 3 dias.

  • Após pulsoterapia:

    • Prednisona (Meticorten®) comp. 5 mg ou 20 mg

      • Dose conforme a etiologia da glomerulopatia, com redução gradual.

Indicações de diálise

  • Iniciar terapia renal substitutiva na presença de:

    • Hipercalemia refratária.

    • Acidose metabólica refratária.

    • Edema agudo de pulmão refratário.

    • Uremia sintomática.

    • Sobrecarga volêmica refratária.

    • Oligúria ou anúria persistente com complicações.

Fluxograma de manejo

Síndrome nefrítica confirmada

Avaliar gravidade

  • IRA?

  • Hipercalemia?

  • HAS grave?

  • Edema agudo de pulmão?

SIM → Internação + Avaliação Nefrologia

Tratamento de suporte

  • Restrição hidrossalina.

  • Controle volêmico.

  • Controle pressórico.

  • Correção hidroeletrolítica.

Investigação etiológica

  • Sorologias.

  • Autoanticorpos.

  • Complemento.

  • Biópsia renal quando indicada.

Tratamento específico da glomerulopatia

Seguimento nefrológico

Acompanhamento

Monitorar:

  • pressão arterial;

  • peso;

  • diurese;

  • creatinina;

  • potássio;

  • EAS;

  • proteinúria;

  • complemento e marcadores imunológicos, quando indicados.

Após resolução do episódio:

  • seguimento com nefrologista;

  • controle rigoroso da pressão arterial;

  • monitorização da função renal e da proteinúria;

  • rastreamento para doença renal crônica.

Critérios de encaminhamento

Encaminhamento urgente

  • Síndrome nefrítica rapidamente progressiva.

  • Creatinina em rápida elevação.

  • Oligúria ou anúria.

  • Hipercalemia.

  • Acidose metabólica.

  • Edema agudo de pulmão.

  • Hemorragia alveolar.

  • Suspeita de vasculite sistêmica.

  • Suspeita de doença anti-MBG.

  • Necessidade de biópsia renal.

Encaminhamento ambulatorial

  • Hematúria glomerular persistente.

  • Proteinúria persistente.

  • Hipertensão de difícil controle.

  • Redução persistente da TFG.

  • Complemento persistentemente reduzido.

  • Recorrência da síndrome nefrítica.

Prognóstico

  • Depende da etiologia, gravidade inicial e precocidade do tratamento.

  • A glomerulonefrite pós-estreptocócica apresenta excelente prognóstico na maioria das crianças.

  • Adultos apresentam maior risco de doença renal crônica.

  • Vasculites e doença anti-MBG possuem pior prognóstico quando o tratamento é tardio.

  • Creatinina elevada, oligúria e glomerulonefrite rapidamente progressiva estão associadas a pior evolução.

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Renal Crônica. Brasília: Ministério da Saúde.

[2] SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEFROLOGIA. Recomendações e consensos sobre glomerulopatias. Disponível em: https://www.sbn.org.br.

[3] Jornal Brasileiro de Nefrologia. Diretrizes e consensos sobre glomerulopatias e doenças glomerulares. Disponível em: https://www.bjnephrology.org.

Autoria e Curadoria

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