Vaginose bacteriana

CID-10: N76.0 – Vaginite aguda

Outros temas:

Introdução

  • A vaginose bacteriana (VB) é a causa mais frequente de corrimento vaginal em mulheres em idade reprodutiva. Caracteriza-se por um desequilíbrio da microbiota vaginal, com redução dos Lactobacillus spp. e proliferação de bactérias anaeróbias, principalmente Gardnerella vaginalis, Atopobium vaginae, Mobiluncus spp. e Prevotella spp..

  • Embora esteja relacionada à atividade sexual, não é considerada uma infecção sexualmente transmissível clássica. O reconhecimento precoce evita tratamentos inadequados, reduz recorrências e diminui o risco de complicações obstétricas e ginecológicas.

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Quando suspeitar

Quando suspeitar: A suspeita é essencialmente clínica.

Principais manifestações

  • Corrimento fino, homogêneo, branco ou branco-acinzentado;

  • Odor fétido ("cheiro de peixe"), frequentemente mais intenso após relação sexual ou durante a menstruação;

  • Pouco ou nenhum prurido;

  • Pouca ou nenhuma dor;

  • Dispareunia ocasional;

  • Disúria leve em alguns casos.

Pensar em outro diagnóstico quando houver

  • prurido intenso;

  • edema vulvar importante;

  • placas esbranquiçadas aderidas;

  • corrimento grumoso;

  • cervicite evidente;

  • úlceras genitais.

Nessas situações, considerar principalmente candidíase, tricomoníase, cervicites ou outras IST.

Fatores de risco

  • Nova parceria sexual;

  • Múltiplos parceiros;

  • Relações sexuais sem preservativo;

  • Duchas vaginais;

  • História prévia de vaginose bacteriana;

  • Uso de DIU de cobre (maior risco descrito em alguns estudos);

  • Tabagismo.

Diagnóstico

Anamnese

  • Perguntas importantes:

    • Quando iniciaram os sintomas?

    • Existe odor desagradável?

    • O odor piora após relação sexual?

    • Como é o corrimento?

    • Existe prurido?

    • Existe dor pélvica?

    • Está gestante?

    • Utilizou antibióticos recentemente?

    • Realiza duchas vaginais?

    • História de IST?

Exame físico

  • Avaliar:

    • aspecto do corrimento;

    • quantidade;

    • coloração;

    • odor;

    • hiperemia vaginal;

    • colo uterino;

    • sinais de cervicite;

    • lesões vulvares.

Exames complementares

  • Na Atenção Primária normalmente são suficientes:

    • pH vaginal (elevado (>4,5) sugere VB);

    • Microscopia a fresco (pesquisa de clue cells e exclusão de tricomoníase);

    • Teste das aminas (auxilia confirmação clínica);

    • Gram (Nugent) (quando disponível);

    • Testes moleculares (casos selecionados).

Não solicitar cultura vaginal de rotina, pois apresenta baixo valor diagnóstico para vaginose bacteriana.

Tratamento

Indicar tratamento apenas para mulheres sintomáticas. A presença isolada de Gardnerella vaginalis em exames laboratoriais, na ausência de sintomas, não constitui indicação de tratamento.

Tratamento em mulher não gestante

  • Primeira linha:

    • Metronidazol comp. 500 mg

      • Tomar 01 comprimido VO de 12/12 horas por 7 dias.

      • Observações:

        • Esquema de escolha para a maioria das pacientes;

        • Orientar completar o tratamento mesmo com melhora dos sintomas;

        • Evitar ingestão de bebidas alcoólicas durante o tratamento e por pelo menos 24 horas após a última dose.

  • Segunda linha:

    • Metronidazol gel vaginal 0,75%

      • Aplicar 5 g por via vaginal, à noite, durante 5 dias.

      • Indicações:

        • Intolerância ao metronidazol por via oral;

        • Preferência pela terapia tópica;

        • Pacientes com efeitos adversos gastrointestinais importantes.

  • Terceira linha

    • Clindamicina creme vaginal 2%

      • Aplicar 5 g por via vaginal, à noite, durante 7 dias.

      • Indicações:

        • Contraindicação ou intolerância ao metronidazol;

        • Falha terapêutica ou impossibilidade de utilizar os esquemas anteriores.

      • Orientação importante: o creme vaginal de clindamicina pode reduzir a resistência de preservativos e diafragmas de látex por até 5 dias após o término do tratamento.

Mulher gestante

  • A vaginose bacteriana sintomática deve ser tratada durante a gestação, devido à associação com desfechos obstétricos desfavoráveis.

  • Primeira linha

    • Metronidazol comp. 500 mg

      • Tomar 01 comprimido VO de 12/12 horas por 7 dias.

  • Segunda linha

    • Metronidazol comp. 250 mg

      • Tomar 01 comprimido VO de 8/8 horas por 7 dias.

      • O metronidazol é considerado seguro durante a gestação, inclusive no primeiro trimestre, quando utilizado nas doses recomendadas pelas diretrizes vigentes.

Mulher com vaginose bacteriana recorrente

  • Na recorrência, antes de repetir o tratamento, recomenda-se:

    • Confirmar novamente o diagnóstico.

    • Excluir candidíase vulvovaginal, tricomoníase e cervicites.

    • Avaliar adesão ao tratamento anterior.

    • Investigar fatores predisponentes (duchas vaginais, múltiplos parceiros, uso de DIU de cobre, tabagismo).

  • Após confirmação do diagnóstico, pode-se repetir um dos esquemas recomendados. Nos casos de recorrências frequentes ou falha terapêutica persistente, recomenda-se encaminhamento ao ginecologista para investigação complementar e definição de terapias supressivas, quando indicadas.

Fluxograma diagnóstico

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis. Brasília: Ministério da Saúde, edição vigente.

[2] CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Bacterial Vaginosis – STI Treatment Guidelines. Atlanta: CDC, 2021. Disponível em: https://www.cdc.gov/std/treatment-guidelines/bv.htm. Acesso em: 30 jul. 2026.

[3] CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Diseases Characterized by Vulvovaginal Itching, Burning, Irritation, Odor or Discharge. Atlanta: CDC, 2021. Disponível em: https://www.cdc.gov/std/treatment-guidelines/vaginal-discharge.htm. Acesso em: 30 jul. 2026.

[4] WORKOWSKI, K. A. et al. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recommendations and Reports, v. 70, n. 4, p. 1–187, 2021. DOI: 10.15585/mmwr.rr7004a1. Disponível em: https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/70/rr/rr7004a1.htm. Acesso em: 30 jul. 2026.

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