Epicondilite Lateral (cotovelo do tenista)
CID-10: M77.1 – Epicondilite lateral
Introdução
A epicondilite lateral, também denominada cotovelo do tenista, é a causa mais frequente de dor na face lateral do cotovelo em adultos.
Apesar do termo "epicondilite", atualmente reconhece-se que a doença apresenta natureza predominantemente degenerativa (tendinose), caracterizada por microlesões repetitivas na origem do tendão extensor comum, principalmente do extensor radial curto do carpo (Extensor Carpi Radialis Brevis – ECRB), com mínima ou nenhuma inflamação aguda.
A maioria dos casos está relacionada à sobrecarga mecânica ocupacional ou esportiva, sendo considerada uma tendinopatia por uso excessivo.
Aproximadamente 80–90% dos pacientes apresentam melhora com tratamento conservador, embora a recuperação possa exigir vários meses.
Epidemiologia:
Prevalência estimada na população geral:
Cerca de 1–3%.
Pico de incidência:
Entre 35 e 55 anos.
Distribuição entre os sexos:
Sem diferença consistente entre homens e mulheres.
Lado acometido:
Predominantemente o membro dominante.
Apenas 5–10% dos casos estão relacionados à prática do tênis.
Maior incidência em trabalhadores expostos a:
movimentos repetitivos do punho;
preensão vigorosa;
pronação e supinação repetidas;
uso de ferramentas vibratórias;
levantamento frequente de cargas.
Anatomia e fisiopatologia:
A lesão localiza-se predominantemente na origem do tendão extensor comum, no epicôndilo lateral.
O tendão mais frequentemente acometido é o:
Extensor radial curto do carpo (ECRB).
Outros tendões eventualmente envolvidos:
extensor comum dos dedos;
extensor ulnar do carpo;
extensor radial longo do carpo.
O mecanismo fisiopatológico envolve:
microtraumas repetitivos;
falha do processo normal de cicatrização;
degeneração do colágeno;
desorganização das fibras tendíneas;
aumento de fibroblastos e neovascularização.
Achado histológico clássico:
Hiperplasia angiofibroblástica (angiofibroblastic tendinosis).
Não há infiltrado inflamatório significativo na maioria dos casos crônicos.
Fatores de risco
Ocupacionais
Trabalho manual repetitivo.
Uso frequente de ferramentas.
Movimentos repetitivos do punho contra resistência.
Movimentos vigorosos de preensão.
Ferramentas vibratórias.
Atividades acima do nível da cintura por tempo prolongado.
Esportivos
Tênis.
Squash.
Badminton.
Padel.
Golfe.
Escalada.
CrossFit.
Remo.
Fatores predisponentes no tênis:
Técnica inadequada.
Backhand de uma mão.
Encordoamento excessivamente rígido.
Empunhadura inadequada.
Raquete pesada.
Aumento abrupto do volume de treino.
Individuais
Tabagismo.
Obesidade.
Diabetes mellitus.
Idade acima de 40 anos.
Baixo condicionamento muscular.
Retorno precoce às atividades após lesões.
História natural
Evolução geralmente autolimitada.
Cerca de 80–90% evoluem favoravelmente com tratamento conservador.
A recuperação costuma ocorrer entre:
6 e 24 meses.
Pequena parcela evolui para dor persistente e incapacidade funcional.
Manifestações clínicas
Sintoma principal
Dor localizada sobre o epicôndilo lateral.
Características da dor
Início insidioso.
Progressiva.
Relacionada ao esforço.
Pode irradiar para:
antebraço dorsal;
face lateral do braço.
Situações que pioram a dor
Apertar mãos.
Abrir potes.
Girar maçanetas.
Levantar chaleiras.
Segurar sacolas.
Uso de chave de fenda.
Digitação prolongada.
Levantar objetos com o cotovelo estendido.
Evolução
Inicialmente ocorre apenas durante atividades.
Posteriormente pode surgir:
durante atividades leves;
em repouso;
durante a noite (menos comum).
Alterações funcionais
Redução da força de preensão.
Dificuldade para atividades laborais.
Limitação esportiva.
Dificuldade nas atividades de vida diária.
Sintomas geralmente ausentes
Parestesias.
Fraqueza muscular verdadeira.
Febre.
Edema importante.
Rubor local.
Obs: A presença desses achados deve motivar investigação de diagnósticos alternativos.
Exame físico
O diagnóstico da epicondilite lateral é predominantemente clínico, baseado na história e no exame físico. A sensibilidade e a especificidade aumentam quando há concordância entre a história típica e testes provocativos positivos.
Inspeção
Geralmente sem alterações.
Em casos crônicos:
discreta atrofia muscular do antebraço pode estar presente.
Ausência de:
edema importante;
hiperemia;
deformidades articulares.
Palpação
Dor localizada sobre o epicôndilo lateral.
Maior sensibilidade dolorosa:
5 a 10 mm distal e anterior ao epicôndilo lateral (origem do tendão do extensor radial curto do carpo – ECRB).
A palpação do tendão extensor comum reproduz a dor habitual do paciente.
Amplitude de movimento
Cotovelo:
geralmente preservada.
Punho:
preservado.
Limitação importante da mobilidade sugere diagnóstico alternativo.
Força muscular
Redução da força de preensão.
Fraqueza secundária à dor ("fraqueza antálgica"), e não por déficit neurológico.
Testes provocativos
Nenhum teste isoladamente confirma o diagnóstico. A combinação de história clínica típica, dor localizada e testes positivos apresenta melhor desempenho diagnóstico.
Teste de Cozen
Como realizar
Cotovelo em aproximadamente 90° de flexão.
Antebraço pronado.
Punho fechado.
Solicitar extensão do punho contra resistência.
Resultado positivo
Reprodução da dor sobre o epicôndilo lateral.
É o teste provocativo mais utilizado na prática clínica.
Teste de Mill
Como realizar
Cotovelo estendido.
Antebraço pronado.
Punho em flexão passiva.
Resultado positivo
Dor intensa sobre o epicôndilo lateral.
Avalia o alongamento do complexo extensor.
Teste de Maudsley
Como realizar
Resistência à extensão do terceiro dedo.
Resultado positivo
Dor sobre o epicôndilo lateral.
Apresenta boa capacidade para reproduzir sintomas relacionados ao ECRB.
Dinamometria
Pode ser utilizada para:
quantificar perda funcional;
acompanhar resposta terapêutica;
documentar evolução clínica.
O paciente frequentemente apresenta redução significativa da força de preensão quando comparado ao lado contralateral.
Diagnóstico
Critérios clínicos
O diagnóstico pode ser estabelecido quando houver:
dor localizada na face lateral do cotovelo;
piora da dor com atividades de preensão ou extensão do punho;
dor à palpação do epicôndilo lateral;
pelo menos um teste provocativo positivo (Cozen, Mill ou Maudsley).
Na ausência de sinais de alerta, exames complementares geralmente não são necessários.
Exames complementares
Radiografia simples
Indicações
Não é exame de rotina.
Solicitar quando houver:
trauma prévio;
suspeita de fratura;
limitação importante da mobilidade;
deformidade;
suspeita de artrose;
corpos livres articulares;
dor persistente sem diagnóstico definido.
Achados
Frequentemente normal.
Pode demonstrar:
calcificações na origem tendínea;
osteófitos;
alterações degenerativas do cotovelo.
Ultrassonografia
Pode ser utilizada quando:
persistência dos sintomas;
dúvida diagnóstica;
planejamento de infiltrações guiadas.
Achados possíveis:
espessamento do tendão;
áreas hipoecoicas;
roturas parciais;
neovascularização ao Doppler.
Vantagens:
baixo custo;
exame dinâmico;
comparação com lado contralateral.
Ressonância nuclear magnética
Não indicada rotineiramente.
Principais indicações:
falha do tratamento conservador;
planejamento cirúrgico;
suspeita de rotura extensa;
diagnósticos diferenciais complexos.
Achados:
degeneração do tendão extensor comum;
edema intratendíneo;
roturas parciais;
roturas completas (raras).
Eletroneuromiografia
Não indicada para confirmação da epicondilite.
Pode ser útil quando houver suspeita de:
síndrome do túnel radial;
síndrome do nervo interósseo posterior;
radiculopatia cervical;
neuropatias periféricas.
Diagnósticos diferenciais
Síndrome do túnel radial
Características sugestivas:
dor mais distal (3–5 cm abaixo do epicôndilo);
piora com supinação resistida;
dor à palpação sobre o túnel radial;
pouca dor diretamente sobre o epicôndilo.
Síndrome do nervo interósseo posterior
Fraqueza motora.
Déficit de extensão dos dedos.
Pouca dor local.
Déficit neurológico evidente.
Artrose do cotovelo
Dor mecânica.
Crepitação.
Rigidez.
Limitação da amplitude de movimento.
Alterações radiográficas.
Instabilidade ligamentar lateral
Mais provável quando houver:
trauma prévio;
sensação de falseio;
episódios de subluxação;
dor associada a movimentos de apoio.
Osteocondrite dissecante do capítulo
Mais comum em:
adolescentes;
atletas arremessadores;
ginastas.
Cervicobraquialgia
Sugere-se quando houver:
dor cervical associada;
irradiação para membro superior;
parestesias;
alterações sensitivas;
alterações reflexas.
Radiculopatia cervical
Considerar principalmente quando:
déficit neurológico;
dor irradiada além do cotovelo;
teste de Spurling positivo.
Outras causas
Epicondilite medial.
Bursite do olécrano.
Artrite séptica.
Artrite inflamatória.
Gota.
Fratura oculta.
Tumores ósseos (raros).
Sinais de alerta ("red flags")
A presença dos achados abaixo torna o diagnóstico de epicondilite menos provável e exige investigação adicional:
trauma de alta energia;
deformidade;
edema importante;
calor local intenso;
febre;
perda ponderal inexplicada;
limitação importante da mobilidade;
déficit motor verdadeiro;
alterações sensitivas persistentes;
dor noturna intensa e progressiva;
massa palpável;
história de neoplasia.
Na presença de sinais de alerta, deve-se ampliar a investigação e considerar encaminhamento para avaliação especializada.
Tratamento conservador
Objetivos do tratamento
Aliviar a dor.
Restaurar a função do membro.
Permitir retorno gradual às atividades laborais e esportivas.
Corrigir fatores biomecânicos predisponentes.
Evitar recorrências.
Reduzir a necessidade de tratamento cirúrgico.
Importante: A maioria dos pacientes (80–90%) apresenta melhora com tratamento conservador. Deve-se orientar que a recuperação é gradual e pode levar de 6 a 12 meses, podendo estender-se por até 24 meses em alguns casos.
Tratamento conservador
É considerado o tratamento de primeira linha para praticamente todos os pacientes.
Educação do paciente
Orientar:
Natureza degenerativa da doença (tendinopatia), e não inflamatória.
Evolução geralmente favorável.
Necessidade de adesão aos exercícios.
Recuperação frequentemente lenta.
Possibilidade de oscilações dos sintomas durante a reabilitação.
Evitar:
repouso absoluto prolongado;
imobilização prolongada;
retorno precoce às atividades desencadeantes.
Modificação das atividades
Recomenda-se reduzir temporariamente:
movimentos repetitivos do punho;
levantamento de cargas;
movimentos vigorosos de preensão;
uso prolongado de ferramentas;
atividades esportivas desencadeantes.
Quando possível:
alternar tarefas;
realizar pausas programadas;
corrigir ergonomia;
adequar equipamentos esportivos.
Crioterapia
Pode ser utilizada:
após atividades dolorosas;
durante exacerbações.
Orientação:
gelo protegido por tecido;
aplicar por 15–20 minutos;
repetir 3–5 vezes ao dia conforme necessidade.
Órteses
Podem ser utilizadas como tratamento adjuvante.
Faixa contraforça ("counterforce brace")
Posicionada aproximadamente 2–5 cm distal ao epicôndilo lateral.
Pode reduzir a sobrecarga sobre a origem do tendão extensor.
Útil principalmente durante atividades que desencadeiam sintomas.
Órtese de punho
Pode ser considerada:
em pacientes com dor intensa;
durante fases iniciais.
Não deve substituir o programa de fortalecimento.
Fisioterapia
É um dos pilares do tratamento conservador.
Exercícios excêntricos
São considerados o componente mais importante da reabilitação.
Objetivos:
reorganização das fibras colágenas;
melhora da resistência tendínea;
redução da dor;
melhora funcional.
Devem ser realizados de forma progressiva.
Exercícios concêntricos
Introduzidos conforme melhora da dor.
Objetivos:
fortalecimento muscular;
recuperação funcional.
Alongamentos
Alongamento dos músculos extensores do punho:
diariamente;
mantido por 30–45 segundos;
repetir 3–5 vezes.
Fortalecimento
Progressão habitual:
isométrico;
excêntrico;
concêntrico;
exercícios funcionais;
retorno esportivo específico.
Treino proprioceptivo
Pode ser incorporado durante fases mais avançadas da reabilitação.
Terapia manual
Pode proporcionar melhora de curto prazo quando associada ao programa de exercícios.
Modalidades físicas
As evidências para terapias passivas são limitadas.
Podem ser utilizadas como adjuvantes:
ultrassom terapêutico;
laser de baixa intensidade;
TENS.
Não devem substituir o fortalecimento progressivo.
Tratamento medicamentoso
Os medicamentos têm como principal objetivo proporcionar analgesia para facilitar a reabilitação, não modificando a história natural da tendinopatia.
Analgésicos
Dipirona (Novalgina®) comp. 500 mg
Tomar 1 a 2 comprimidos VO a cada 6 horas, se dor.
Dose máxima: 4 g/dia.
Dipirona (Novalgina®) sol. oral 500 mg/mL
Adultos: 20–40 gotas VO a cada 6 horas, se dor.
Dose máxima: 4 g/dia.
Paracetamol (Tylenol®) comp. 500 mg ou 750 mg
Tomar 500–1.000 mg VO a cada 6–8 horas, se dor.
Dose máxima: 3 g/dia (considerar até 4 g/dia em adultos sem fatores de risco para hepatotoxicidade, conforme protocolos locais).
Anti-inflamatórios não esteroidais (AINE) - Via oral
Considerações:
Podem proporcionar alívio sintomático de curto prazo, principalmente quando utilizados durante períodos de exacerbação dolorosa. O benefício parece ser predominantemente analgésico, uma vez que a epicondilite lateral apresenta fisiopatologia degenerativa.
Devem ser utilizados pelo menor tempo possível, considerando risco gastrointestinal, cardiovascular e renal.
Ibuprofeno (Alivium®) comp. 400 mg ou 600 mg
Tomar 400 mg VO a cada 8 horas, após refeições, por 5–7 dias.
Dose máxima: 2.400 mg/dia.
Naproxeno (Flanax®) comp. 250 mg ou 500 mg
Tomar 250–500 mg VO a cada 12 horas por 5–10 dias.
Dose máxima: 1.000 mg/dia.
Diclofenaco potássico (Cataflam®) comp. 50 mg
Tomar 1 comprimido VO a cada 8 horas por até 7 dias.
Dose máxima: 150 mg/dia.
Formulações tópicas
Podem ser preferidas em pacientes idosos ou com maior risco de eventos adversos sistêmicos.
Diclofenaco dietilamônio gel 11,6 mg/g
Aplicar fina camada sobre a região dolorosa 3–4 vezes ao dia por até 14 dias.
Infiltração com corticosteroides
Não deve ser utilizada rotineiramente.
As evidências demonstram:
melhora significativa da dor nas primeiras semanas;
maior taxa de recorrência em médio e longo prazo;
piores desfechos funcionais após alguns meses quando comparada ao exercício supervisionado.
Pode ser considerada apenas em situações selecionadas:
dor intensa incapacitante;
impossibilidade temporária de reabilitação;
necessidade de analgesia de curto prazo após discussão dos riscos e benefícios.
A infiltração deve ser realizada preferencialmente por profissional experiente, utilizando técnica asséptica e evitando injeção intratendínea.
Plasma rico em plaquetas (PRP)
As evidências permanecem conflitantes.
Pode apresentar benefício em alguns pacientes com sintomas persistentes.
Não é considerado tratamento de primeira linha.
Não há consenso quanto à superioridade em relação ao tratamento conservador bem conduzido.
Ondas de choque extracorpóreas
As evidências são heterogêneas.
Pode ser considerada em:
pacientes com sintomas persistentes;
falha do tratamento conservador estruturado por vários meses.
Não é recomendada como terapia inicial.
Acupuntura
Pode proporcionar melhora analgésica de curto prazo em alguns pacientes, porém as evidências permanecem limitadas.
Retorno às atividades
Atividades laborais
Retorno gradual conforme:
melhora da dor;
recuperação da força;
capacidade funcional.
Sempre que possível:
ajustar ergonomia;
reduzir movimentos repetitivos;
programar pausas durante a jornada.
Retorno ao esporte
Recomenda-se progressão gradual.
Critérios desejáveis:
ausência de dor em repouso;
dor mínima durante exercícios;
amplitude de movimento completa;
força próxima ao membro contralateral;
execução dos gestos esportivos sem limitação significativa.
No tênis e esportes de raquete, deve-se revisar:
técnica esportiva;
tamanho da empunhadura;
tensão do encordoamento;
tipo de raquete;
volume de treinamento.
Acompanhamento
Reavaliar o paciente em aproximadamente 6 a 8 semanas para:
intensidade da dor;
capacidade funcional;
adesão aos exercícios;
necessidade de progressão do fortalecimento;
reconsideração diagnóstica caso não haja resposta clínica.
Na ausência de melhora após 6 a 12 meses de tratamento conservador bem conduzido, deve-se considerar encaminhamento ao especialista para avaliação de terapias intervencionistas ou tratamento cirúrgico.
Tratamento cirúrgico
A cirurgia é indicada para uma minoria dos pacientes. Deve ser considerada apenas após falha do tratamento conservador adequadamente conduzido.
Indicações
Persistência dos sintomas por 6–12 meses, apesar de tratamento conservador estruturado e adesão satisfatória.
Dor persistente com limitação funcional importante.
Incapacidade para atividades laborais ou esportivas após reabilitação adequada.
Confirmação diagnóstica e exclusão de diagnósticos diferenciais.
Roturas tendíneas significativas (menos frequentes).
A decisão cirúrgica deve considerar a intensidade dos sintomas, o impacto funcional e as expectativas do paciente, uma vez que muitos casos continuam apresentando melhora espontânea ao longo do tempo.
Técnicas cirúrgicas
As principais técnicas incluem:
Desbridamento do tecido tendíneo degenerado.
Liberação parcial da origem do tendão extensor comum.
Reparo ou reinserção tendínea, quando indicado.
Podem ser realizadas por:
técnica aberta;
técnica artroscópica;
técnica percutânea.
Até o momento, não há evidências consistentes de superioridade de uma técnica sobre as demais quando corretamente indicadas.
Pós-operatório
O protocolo varia conforme a técnica empregada e a preferência do cirurgião.
De modo geral:
mobilização precoce conforme tolerância;
fisioterapia para recuperação da amplitude de movimento;
fortalecimento progressivo após cicatrização inicial;
retorno às atividades leves em algumas semanas;
retorno às atividades de maior demanda após recuperação funcional completa.
Prognóstico
Considerações:
A evolução costuma ser favorável.
Aproximadamente 80–90% dos pacientes apresentam melhora satisfatória com tratamento conservador.
O tempo de recuperação é variável:
melhora inicial em semanas;
recuperação funcional geralmente entre 3 e 6 meses;
resolução completa pode levar 6–12 meses ou mais, especialmente em casos crônicos.
A persistência de dor não implica necessariamente falha terapêutica, sendo comum melhora gradual da função antes da resolução completa dos sintomas.
Fatores associados a pior prognóstico
Alta demanda ocupacional com movimentos repetitivos.
Retorno precoce às atividades desencadeantes.
Tabagismo.
Obesidade.
Diabetes mellitus.
Dor intensa na avaliação inicial.
Sintomas prolongados antes do início do tratamento.
Baixa adesão ao programa de reabilitação.
Complicações
Relacionadas à doença
Dor crônica.
Redução persistente da força de preensão.
Limitação funcional.
Incapacidade laboral temporária.
Recorrência dos sintomas.
Relacionadas ao tratamento
Infiltração com corticosteroides
Possíveis complicações:
atrofia cutânea;
despigmentação local;
lesão tendínea;
ruptura tendínea (rara);
infecção (incomum);
recorrência precoce da dor.
Tratamento cirúrgico
Possíveis complicações:
infecção;
rigidez do cotovelo;
lesão neurovascular (rara);
dor residual;
recidiva dos sintomas;
necessidade de reoperação (incomum).
Critérios de encaminhamento
Encaminhamento para Ortopedia
Considerar encaminhamento quando houver:
ausência de melhora após 6–12 meses de tratamento conservador bem conduzido;
dor persistente com importante limitação funcional;
dúvida diagnóstica;
suspeita de ruptura tendínea significativa;
indicação de infiltração em casos selecionados (conforme protocolo local);
avaliação para tratamento cirúrgico.
Encaminhamento para Fisioterapia
Indicado para praticamente todos os pacientes, especialmente quando houver:
limitação funcional;
dor persistente;
necessidade de programa estruturado de fortalecimento;
retorno esportivo;
recidivas.
Encaminhamento imediato
Avaliação especializada deve ser considerada precocemente diante de:
déficit neurológico;
instabilidade do cotovelo;
trauma importante;
suspeita de fratura;
infecção articular;
massa tumoral;
sinais sistêmicos inexplicados.
Orientações ao paciente
Explicar que a doença corresponde a uma tendinopatia por sobrecarga, e não a um processo inflamatório persistente.
Orientar que a recuperação costuma ser lenta, podendo exigir vários meses.
Manter as atividades cotidianas conforme tolerância, evitando apenas aquelas que exacerbem significativamente a dor.
Evitar repouso absoluto prolongado.
Realizar regularmente os exercícios prescritos.
Utilizar gelo após atividades que desencadeiem sintomas.
Corrigir fatores ergonômicos no trabalho e nas atividades domésticas.
Em esportistas, revisar técnica esportiva e equipamentos utilizados.
Retornar para reavaliação em caso de:
piora progressiva da dor;
surgimento de parestesias;
perda de força progressiva;
edema importante;
febre;
limitação importante da mobilidade.
Pontos-chave para a prática clínica
O diagnóstico é essencialmente clínico.
Exames de imagem não são necessários na maioria dos casos.
Exercícios de fortalecimento progressivo constituem a principal intervenção terapêutica.
AINEs promovem alívio sintomático, mas não modificam a evolução da tendinopatia.
Infiltrações com corticosteroides podem proporcionar melhora de curto prazo, porém apresentam maior risco de recorrência e não devem ser utilizadas rotineiramente.
A maioria dos pacientes evolui favoravelmente sem necessidade de cirurgia.
Referências
[1] BELL, Simon; DE SA, Daniel; JOHNSON, Matthew et al. Management of Lateral Epicondylitis: A Clinical Practice Guideline From the Japanese Orthopaedic Association (JOA). Journal of Orthopaedic Science, v. 27, n. 1, p. 27–36, 2022.
[2] CLINICAL PRACTICE GUIDELINE. Lateral Elbow Pain and Muscle Function Impairments. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy (JOSPT), 2022.
[3] CULLINANE, Fiona L. et al. Nonoperative treatment of lateral epicondylitis: an umbrella review and meta-analysis. Journal of Shoulder and Elbow Surgery, 2022.
[4] MAXFIELD, Luke; CRANE, Jonathan S. Lateral Epicondylitis (Tennis Elbow). In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK431092/. Acesso em: 28 jun. 2026.
[5] ORCHARD, John; KOUNTSOURIS, Athanasios. Lateral epicondylalgia: update on diagnosis and management. Australian Journal of General Practice, v. 50, n. 11, p. 769–774, 2021.
Autoria e Curadoria
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