Manejo da Dor em Crianças com Anemia Falciforme

CID 10: D57 - Transtornos falciformes

Introdução

  • A dor aguda é a razão mais comum para crianças com anemia falciforme (AF) buscarem atendimento médico [1][2]

  • Episódios de dor são definidos pelo próprio paciente e não indicam necessariamente uma fisiopatologia específica [2]

  • A frequência real dos episódios tende a ser subestimada, pois a maioria é tratada em domicílio — especialmente à medida que crianças e famílias aprendem a manejá-los [2]

  • A dor vaso-oclusiva pode iniciar já aos seis meses de vida e tipicamente persiste ao longo de toda a vida [1][2]

    • Bebês e crianças pequenas podem apresentar dactilite: dor e edema por infartos nas mãos e pés [1]

  • Apesar das diretrizes estabelecidas, a adesão dos profissionais às melhores práticas é ruim [2]

  • O ideal é que toda criança com AF tenha um plano individualizado de dor que contemple manejo domiciliar, critérios para busca de atendimento e orientações ao pronto-socorro [2]

Conteúdo direto ao ponto, revisado e atualizado por médicos especialistas.
Exclusivo para médicos e estudantes de medicina.
Acesse o conteúdo completo

Avaliação da Dor

Considerações:

  • O padrão ouro para avaliação da dor é o relato do paciente ou da família; não existe combinação de achados laboratoriais ou clínicos que confirme ou negue a dor em crianças com AF [1][2]

  • A analgesia não deve ser retardada enquanto se aguarda resultados laboratoriais; os resultados dos exames não devem ser usados para justificar a redução ou suspensão da medicação para dor [1][2]

Ferramentas de avaliação da intensidade da dor [1][2]

  • Lactentes e crianças pequenas: não conseguem descrever verbalmente a dor; observar irritabilidade e dor à palpação

  • Crianças a partir de 3 anos: escala Wong-Baker FACES

  • Adolescentes: escala visual analógica (EVA) ou escala numérica de avaliação

Características da dor vaso-oclusiva aguda [1]

  • Intensidade: variável, de leve a debilitante

  • Localização: varia entre indivíduos e em momentos diferentes para a mesma criança

    • Locais mais comuns: costas, peito, abdômen, ossos longos; múltiplos sítios frequentemente envolvidos

    • Em lactentes e crianças pequenas: dactilite (mãos e pés)

  • Duração: horas a dias; algumas crianças não ficam completamente sem dor

  • Fases do episódio doloroso: [1]

    • Fase prodrômica: dormência, dores vagas e/ou parestesias (até 24h antes da dor aguda)

    • Fase inicial/infartiva: dor aguda intensa (2 a 3 dias)

    • Fase pós-infartiva inflamatória

    • Fase de resolução/recuperação

Fatores que podem agravar a dor [2]

  • Uso insuficiente de opioides (por efeitos colaterais ou preocupações com dependência)

  • Alterações no metabolismo dos opioides

  • Componentes psicológicos ou neuropáticos

  • Hipoventilação

  • Insônia

  • Diminuição da ingestão de líquidos

  • Frio

Condições Graves Associadas e Sinais de Alerta

A dor aguda em crianças com AF pode não ser apenas vaso-oclusiva. A avaliação para complicações graves deve ocorrer simultaneamente ao tratamento da dor [1][2].

Características que sugerem complicação adicional [1]

  • Sinais vitais anormais: não atribuir alterações de sinais vitais apenas à dor sem excluir outras causas

  • Dor atípica: localização ou intensidade diferentes das crises habituais do paciente

  • Alterações importantes no hemograma:

    • Leucopenia ou leucocitose: investigar infecção, incluindo síndrome torácica aguda (STA)

    • Piora da anemia: investigar sequestro esplênico ou hepático, crise aplásica, reação hemolítica transfusional

    • Hemoglobina elevada: pode indicar desidratação grave

    • Queda da contagem de reticulócitos: suspeitar de supressão medular

    • Reticulocitose marcada: pode indicar hemólise aumentada ou sequestro

  • Sinais físicos:

    • Distensão abdominal: sequestro esplênico ou hepático, colecistite

    • Icterícia: hemólise aumentada ou doença hepatobiliar

    • Hematúria: patologia renal ou infecção urinária

    • Confusão ou alteração do nível de consciência: embolia gordurosa cerebral, AVC, sepse

Complicações específicas por localização da dor [1]

  • Dor torácica: investigar STA (principal causa de morte em crianças com AF), pneumonia, embolia pulmonar, infarto de costela

    • SpO₂ < 96% ou queda ≥ 3 pontos em relação à basal: acionar investigação diagnóstica para STA [1]

    • A STA pode progredir rapidamente e não deve ser negligenciada

  • Cefaleia ou alteração do estado mental: investigar AVC (isquêmico ou hemorrágico), meningite, trombose venosa cerebral, aneurisma

    • Crianças com AF têm risco aumentado de AVC; encaminhar para imagem imediatamente se houver sinais neurológicos

  • Dor abdominal: investigar sequestro esplênico (potencialmente fatal, mais comum em lactentes com Hb SS), colecistite, sequestro hepático, infecção urinária, pancreatite, constipação por opioides

  • Dor em extremidades: investigar dactilite (lactentes e crianças pequenas), osteomielite (mais comum em crianças, geralmente com febre), necrose avascular, trombose venosa profunda

Fatores de alto risco para complicações [1]

  • Comorbidades: doença renal crônica, doença pulmonar crônica, hipertensão pulmonar, disfunção cardíaca, histórico de STA recorrente, doença neurológica prévia (AVC, sangramento intracraniano)

  • Período pós-operatório: risco aumentado de tromboembolismo venoso, STA e infecção

Triagem e Plano

Triagem [1][2]

  • Toda criança com AF que se apresente ao pronto-socorro ou hospital de dia deve ser triada com ESI (Emergency Severity Index) ≤ 2

  • A avaliação e o início da analgesia devem ocorrer em até 60 minutos da apresentação; idealmente em 30 minutos

  • A administração rápida de opioides associa-se à menor taxa de internação em crianças com AF [2]

Plano individualizado de dor [2]

  • Idealmente, toda criança com AF deve ter um plano previamente estabelecido, contendo:

    • Orientações para manejo domiciliar

    • Contatos para prescrições e situações de escalada da dor

    • Critérios claros para buscar atendimento de emergência

  • Planos individualizados proporcionam consistência para os profissionais e podem reduzir a duração da internação [2]

  • Protocolos padronizados de dor podem reduzir variações e melhorar os desfechos [2]

Manejo Domiciliar

Considerações:

  • É o ambiente mais frequente de manejo agudo e crônico da dor em AF [2]

  • Pacientes, famílias e cuidadores devem sempre ter acesso a analgésicos orais para evitar escalada da dor que exija atendimento de emergência [2]

Abordagem gradual [2]

  • Dor leve (< 6/10): terapia não opioide

    • Paracetamol ou AINEs em pacientes selecionados com função renal normal

    • Terapias adjuvantes: exercícios de relaxamento e respiração, bolsas de calor

    • Gelo e compressas frias são contraindicados: podem precipitar falcização [2]

  • Dor mais intensa (≥ 6/10): opioides de ação curta

    • No contexto brasileiro, as opções práticas disponíveis são morfina de liberação imediata e oxicodona

    • Codeína não é recomendada em crianças com AF: polimorfismo do CYP2D6 reduz o metabolismo para o opioide ativo em proporção significativa dos pacientes; em estudo com 73 crianças com AF, 58% apresentaram alelos de função reduzida na CYP2D6 [2]

    • Combinações de opioide com paracetamol devem ser limitadas a 48 a 72 horas para evitar toxicidade hepática e mascaramento de febre [2]

Orientações de alarme para buscar atendimento [2]

  • Febre, tosse ou outros sinais de infecção

  • Sintomas sugestivos de AVC, STA, sequestro esplênico, crise aplásica ou outras complicações graves

  • Dor sem controle com os analgésicos orais disponíveis em casa

Manejo no Pronto-Socorro

Avaliação inicial [2]

  • Hemograma completo com contagem de reticulócitos

  • Painel metabólico completo com eletrólitos

  • Função hepática: se uso de paracetamol previsto

  • Radiografia de tórax, urina e hemoculturas: se o paciente estiver febril

Princípios gerais [1][2]

  • A dor deve ser reconhecida como intensa e real; a grande maioria dos pacientes com AF não apresenta comportamento de busca por drogas ou transtorno por uso de opioides

  • Atitudes negativas dos profissionais interferem significativamente na avaliação e no tratamento da dor [2]

  • O padrão ouro continua sendo o relato do paciente ou da família; a ausência de alterações laboratoriais não deve ser usada para negar ou reduzir a analgesia [1][2]

  • Placebo nunca deve ser utilizado: destrói a relação médico-paciente e prolonga a duração da dor [2]

Analgesia opioide no pronto-socorro [1][2]

  • Considerações:

    • A escolha do opioide é individualizada com base em idade, função renal e hepática, intensidade da dor e probabilidade de internação. A analgesia deve ser iniciada em até 60 minutos da apresentação; idealmente em 30 minutos [1][2].

    • Se houver plano individualizado de dor, este deve ser seguido [2].

  • Morfina intravenosa — opção padrão em crianças [1][2]

    • Morfina (Dimorf®) sol. inj. 10 mg/mL — Notificação de Receita A (Lista A1, Portaria SVS/MS 344/1998) [1][2][3]

      • Crianças: 0,1 a 0,15 mg/kg IV; dose inicial máxima: 10 mg [1][2]

      • Para administração IV lenta: diluir em SF 0,9% ou água destilada à concentração final de 1 a 2 mg/mL [3]

      • Reavaliar em ~20 minutos; se dor intensa persistente, repetir ou administrar 50% da dose inicial com monitoramento para sedação [2]

      • Dose máxima habitual: 0,1 a 0,2 mg/kg a cada 3 a 4 horas se necessário [3]

      • Para infusão IV contínua: 10 a 60 mcg/kg/hora [3]

      • A reavaliação e readministração de opioides parenterais para dor intensa persistente são recomendadas a cada 15 a 60 minutos até controle adequado [2]

      • Monitorar sedação e SpO₂; evitar intervalos entre doses > 3 horas

  • Fentanil intranasal — para crianças sem acesso venoso [1][2]

    • Fentanil (Fentanest®) sol. inj. 50 mcg/mL [1][2]

      • Preferida para crianças ≥ 10 kg sem acesso venoso para as quais os opioides orais foram ineficazes em casa [2]

      • Para crianças < 10 kg: o limite de segurança para fentanil intranasal não está estabelecido nas fontes consultadas; priorizar obtenção de acesso venoso para morfina IV ou seguir protocolo institucional

      • Dose padrão: 1,5 mcg/kg por via intranasal; dose única máxima: 100 mcg [2]

      • Pode repetir uma vez após 5 a 10 minutos se dor persistente intensa [2]

      • Regime alternativo descrito na literatura: 2 mcg/kg (dose máxima: 100 mcg); utilizar conforme protocolo institucional [2]

      • Restringir a no máximo 2 doses pela via intranasal; iniciar morfina IV na sequência [2]

      • Funciona como ponte até obtenção de acesso venoso; não substitui os opioides IV [2]

      • Estudo demonstrou que o uso de fentanil intranasal associou-se a chances > 9 vezes maiores de alta do pronto-socorro em crianças com AF [2]

      • Alto risco de superdosagem; administrar apenas por profissionais experientes em seu uso

      • Exige notificação de Receita A (Lista A1, Portaria SVS/MS 344/1998)

Alta ou internação [2]

  • A decisão é feita com base no controle da dor após 2 a 3 doses de opioides IV

  • Se controlada: alta com medicação oral para desmame e seguimento em 7 a 14 dias

  • Se não controlada: indicar internação e analgesia controlada pelo paciente (PCA)

Manejo Hospitalar

Princípios gerais [2]

  • Medicação não deve ser oferecida apenas sob demanda (PRN) como única fonte de alívio

  • Esquemas exclusivamente "se necessário" são inadequados e podem levar a atrasos de até 1 hora na administração [2]

  • O uso de vias clínicas com dosagem individualizada pode melhorar a qualidade do cuidado [2]

Opção preferida em crianças: morfina contínua com analgesia controlada pelo paciente (PCA) [2][3]

  • Morfina (Dimorf®) sol. inj. 10 mg/mL — Notificação de Receita A (Lista A1, Portaria SVS/MS 344/1998) [2][3]

    • Infusão contínua IV: 10 a 60 mcg/kg/hora [3]

    • Solução padronizada para PCA: morfina 10 mg (1 ampola) diluída em SF 0,9% para 100 mL (concentração final: 0,1 mg/mL) [3]

    • Dose de demanda pela PCA: equivalente a 1/6 da dose horária contínua [2]

    • Dose de ataque inicial: aproximadamente o dobro da dose de demanda [2]

    • Ajuste da PCA: se doses de demanda adicionais forem necessárias mais de 3 vezes/hora por 2 ou mais horas consecutivas, aumentar dose contínua e de demanda [2]

    • Nova dose contínua horária: total utilizado na hora anterior (contínuo + demanda), desde que não haja efeitos colaterais limitantes [2]

    • Nova dose de demanda: manter em 1/6 da nova dose contínua [2]

    • Se PCA não disponível: morfina IV em doses regulares a cada 2 a 3 horas; intervalos > 3 horas devem ser evitados [2]

Dor de escape (breakthrough pain) [2]

  • Deve haver prescrição escrita para medicação de escape para todos os pacientes internados

  • Melhor abordada pela PCA com opção de dose de demanda

  • Erros comuns a evitar:

    • Aumentar a dose contínua/horária para tratar a dor de escape

    • Atrasar o tratamento da dor de escape

Espirometria de incentivo [2]

  • Obrigatória durante internação; realizar a cada 2 horas em vigília

  • Objetivo: prevenir hipoventilação, infecções respiratórias hospitalares e STA — complicação frequente em crianças internadas com dor

  • Benefício demonstrado em ensaio clínico: redução de complicações pulmonares de 42% para 5% com espirometria de incentivo [2]

Monitorização hospitalar [2]

  • Avaliação contínua da dor com escalas objetivas

  • Estado neurológico: diferenciar sedação por opioides de complicações cerebrovasculares (AVC, sepse, insuficiência multiorgânica)

  • Oximetria de pulso durante administração de opioides IV

  • Balanço hídrico:

    • Crianças com AF frequentemente apresentam hipovolemia durante episódios de dor (ingesta reduzida, perdas insensíveis aumentadas, hipostenúria renal) [2]

    • Hidratação oral deve ser estimulada ativamente [2]

    • Bolus de soro fisiológico associam-se a piores desfechos de dor e devem ser evitados em pacientes normovolêmicos [2]

    • Para desidratação aguda ou hipovolemia: Ringer Lactato (preferível) ou soro fisiológico 0,9% [2]

  • Função renal, hepática e cardíaca: monitorar toxicidade medicamentosa e comorbidades

  • SpO₂ seriada; se taquipneia, sibilância ou retração intercostal: reavaliação imediata do status pulmonar

Efeitos adversos dos opioides — considerações específicas em AF [2]

  • Sedação e depressão respiratória:

    • Especialmente preocupantes pelo risco aumentado de STA e infecções respiratórias hospitalares em crianças com AF

    • Distinguir sedação por opioide de complicações cerebrovasculares (AVC, sepse): as apresentações podem se sobrepor

    • Causas mais comuns de supersedação: empilhamento de doses em intervalos curtos

    • Naloxona: reservar para depressão respiratória sintomática ou insuficiência respiratória iminente; não administrar em paciente apenas sonolento mas facilmente despertável, pois pode precipitar dor grave com necessidade de doses maiores [2]

    • Infusão contínua de baixa dose de naloxona (0,25 mcg/kg/hora) tem sido útil na redução de prurido sem necessidade de ajuste opioide [2]

  • Constipação:

    • Relatada em até 80% dos adultos com AF em uso de opioides [2]

    • Tratar com combinação de laxativo osmótico e estimulante, geralmente nas primeiras 24 horas após início dos opioides [2]

  • Náusea e vômitos:

    • Preferir antagonista seletivo do receptor 5-HT₃ (ex.: ondansetrona) pelas propriedades não sedantes [2]

  • Prurido:

    • Causado por liberação de histamina induzida pela morfina

    • Opções: anti-histamínicos não sedantes; troca de opioide; ondansetrona; infusão de naloxona em baixa dose [2]

    • Evitar difenidramina IV pelo risco aumentado de sedação [2]

    • Não classificar como alergia a opioide apenas com base no prurido: pode resultar em privação de terapia eficaz [2]

Medicações

Dipirona

  • Considerações:

    • Segundo a SBP (2024), a dipirona é liberada para uso a partir de 3 meses de idade.

    • Para menores de 1 ano deve-se utilizar via oral (VO) ou intramuscular (IM), sendo a via intravenosa (IV) reservada para maiores de 1 ano.

  • Dipirona gotas 500mg/1mL/20 gotas

    • Dar 0,6 a 1 gota/kg (max 40 gotas), a cada 6 h se dor ou febre

    • Dose: 15 a 25 mg/kg/dose

    • Obs: > 3 meses de idade

  • Dipirona sol. oral 50mg/1mL

    • Dar 0,3 a 0,5 mL/kg (máx. 20 mL), a cada 6 h se dor ou febre

    • Dose: 15 a 25 mg/kg/dose

    • Obs: > 3 meses de idade

  • Dipirona sol. injetável. 1g/2mL ou 500mg/1mL

    • >= 8 kg: 0,1 a 0,2 mL IM

    • 9-15 kg: 0,2 a 0,5 mL IV ou IM

    • 16-23 kg: 0,3 a 0,8 mL IV ou IM

    • 24-30 kg: 0,4 a 1,0 mL IV ou IM

    • 31-45 kg: 0,5 a 1,5 mL IV ou IM

    • 46-53 kg: 0,8 a 1,5 mL IV ou IM

    • >= 54 kg: 2 mL IV ou IM

    •  A dose pode ser repetida a cada 6h, se necessário.

Paracetamol

  • Considerações:

    • Segundo a SBP (2024), o paracetamol é liberado desde o nascimento.

  • Paracetamol gotas 200mg/1mL/15 gotas

    • Dar 1 gota/kg (max 35 gotas), a cada 6 h

    • Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (máx. 75 mg/kg/dia ou 4g/dia)

  • Paracetamol sol. oral 32mg/1mL

    • Dar 0,31 a 0,46 mL/kg (máx. 31 mL), a cada 6 h

    • Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (máx. 75 mg/kg/dia ou 4g/dia)

  • Paracetamol sol. oral 100mg/1mL

    • Dar 0,1 a 0,15 mL/kg (máx. 10 mL), a cada 6 h

    • Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (máx. 75 mg/kg/dia ou 4g/dia

AINEs seletivos da COX-2:

  • Observação:

    • Utilizar AINEs pelo menor tempo e na menor dose efetiva possível.

  • Ibuprofeno gotas 100mg/1mL/10 gotas

    • Dar 1 gota/kg (max 20 gotas), a cada 8-6 h

    • Max de 20 gotas/dose (200mg) e 80 gotas/dia (800mg) 

    • Dose: 5 a 10 mg/kg/dose (máx. 800mg/dia)

  • Ibuprofeno gotas 50mg/1mL/10 gotas

    • Dar 1 a 2 gotas/kg (max 40 gotas), a cada 8-6 h

    • Max de 40 gotas/dose (200mg) e 160 gotas/dia (800mg) 

    • Dose: 5 a 10 mg/kg/dose (máx. 800mg/dia)

  • Ibuprofeno sol. oral 30mg/mL

    • Dar 0,16 a 0,33 mL/kg (máx. 7 mL), a cada 8-6 h

    • Max de 7 mL/dose (210mg) e 28 mL/dia (840mg) 

    • Dose: 5 a 10 mg/kg/dose (máx. 840 mg/dia)

  • Cetoprofeno sol. injetável 50mg/ml (a partir 2 anos)

    • Aplicar 1 mg/kg/dose EV, a cada 12 horas, se dor (máx 3mg/kg/dia)

      •  Diluir em SF 0,9% e administrar em 10 a 30 minutos.

  • Cetoprofeno sol. injetável 30mg/1mL

    • Aplicar 0,017 a 0,033 mL/kg (max 1 mL) IM bolus (> 15 seg)

    • Dose: 0,5 a 1 mg/kg/dose (max 2 mg/kg/dia ou 60 mg/dia)

  • Diclofenaco resinato gotas 50 mg/mL 

    • Dar 1 gota/kg/dia (0,5 mg/kg/dia) VO a cada 8  horas;

    • Observação:

      • Para maiores de 1 ano.

AINEs não-seletivos da COX-2:

  • Nimesulida gotas 50 mg/mL

    • Dar 1 gota/kg/dose (2,5 mg/kg/dose) VO a cada 12 horas. 

    • Dose máxima: 40 gotas/dose (100 mg/dose)

  • Nimesulida comp. 100mg

    • Dar 1 cp VO a cada 12 horas

    • Dose máxima: 40 gotas/dose (100 mg/dose)

    • Observação:

      • Para maiores de 12 anos.

      • Utilizar AINEs pelo menor tempo e na menor dose efetiva possível.

Opioides

  • Considerações:

    • Maior risco de depressão respiratória e hipotensão.

    • Devem ser reservados apenas para casos de dor intensa.

    • Deve-se evitar o uso de tramadol e codeína devido a variabilidade genética no metabolismo.

  • Primeira opção de opioide:

    • Morfina solução injetável 10mg/1mL ou 2mg/2mL ou 0,1mg/1mL ou 0,2mg/1mL

      •  Aplicar 0,05 a 0,1 mg/kg/dose IV, a cada 4 horas, se dor moderada a intensa.

        • Administrar lentamente (em 4 a 5 minutos) para evitar depressão respiratória.

        • Monitorar sedação, FR, PA e saturação.

    • Morfina solução gotas 10 mg/1mL/32gotas

      • Dar a dose de: 0,15 - 0,3 mg/kg VO, a cada 4 horas, se dor moderada a intensa.

  • Opções alternativas:

    • Codeína ❌

      • Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (2024), o uso de codeína é considerado inseguro e ineficaz, sendo contraindicado na população pediátrica.

    • Tramadol gotas 100mg/1mL/40gotas

      • Dar 0,7 a 2 mg/kg/dose VO a cada 4-6 horas. Dose máxima 400 mg/dia.

      • Indicado para maiores de 12 anos (SBP, 2024).

    • Tramadol sol. injetável 50 mg/1mL

      • Aplicar 0,7 a 2 mg/kg/dose IV a cada 4-6 horas. Dose máxima 400 mg/dia.

      • Indicado para maiores de 12 anos (SBP, 2024).

      • Administrar lentamente (em 4 a 5 minutos) para evitar depressão respiratória.

      • Monitorar sedação, FR, PA e saturação.

    • Observações sobre o tramadol:

      • A indicação de tramadol em pediatria é controversa.

      • Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (2024), o tramadol tem o seu uso recomendado a partir dos 12 anos, devido à escassez de estudos de efetividade e segurança.

      • Por outro lado, segundo a Anvisa, o uso do tramadol pode ser considerado a partir do primeiro ano de vida.

      • Contraindicar o uso em paciente em pós operatório de cirurgia otorrinolaringológica, pacientes com apneia de origem central e em crianças e adolescentes com obesidade mórbida.

      • Evitar o uso em pacientes com epilepsia, distúrbios metabólicos ou infecções do SNC ou naqueles que tomam agentes psicotrópicos, pois pode diminuir o limiar convulsivo.

Oxigênio Suplementar e Critérios de Uso

Os dois limiares a seguir coexistem com funções distintas e complementares [1][2]:

  • Critério de investigação diagnóstica para STA:

    • SpO₂ < 96% ou queda ≥ 3 pontos em relação à basal → Radiografia de tórax, avaliação clínica dirigida [1]

      • Este limiar é mais sensível e tem função de alarme; não implica suplementação automática de O₂

  • Critério para suplementação de oxigênio:

    • SpO₂ < 94% ou queda ≥ 4 pontos em relação à basal [2]

      • Oxigênio não deve ser utilizado em episódios vaso-oclusivos simples com SpO₂ na basal e sem sintomas pulmonares, pois pode mascarar queda da saturação [2]

Em síntese: um paciente com SpO₂ de 95% e queda de 3 pontos deve ser investigado para STA, mas não necessariamente receber oxigênio, a suplementação será indicada se a avaliação confirmar queda adicional ou sintomas respiratórios.

Terapias Adjuvantes e Suporte Psicossocial

As intervenções abaixo devem complementar os analgésicos, não substituí-los, e devem ser adaptadas às necessidades individuais da criança e da família [2].

Intervenções não farmacológicas [2]

  • Abordagens cognitivo-comportamentais

  • Exercícios de relaxamento e respiração

  • Yoga

  • Acupuntura

  • Autohipnose

  • Bolsas de calor, banhos quentes, massagem

  • Gelo e compressas frias: contraindicados — podem precipitar falcização

Sono [2]

  • Insônia pode ser agravada por ansiedade e controle inadequado da dor; por sua vez, aumenta a sensibilidade à dor e o risco de síndrome de hiperalgesia

  • Para insônia: preferir melatonina e higiene do sono

  • Evitar sedativos com potencial de depressão respiratória

Suporte psicossocial [2]

  • Rastreio e tratamento de depressão e ansiedade concomitantes

  • Avaliar fatores sociais (moradia, insegurança alimentar) que possam contribuir para altas taxas de internação

  • Atenção especial durante a transição da pediatria para o atendimento adulto

Terapias que Não Devem ser Utilizadas para Dor

  • Gelo e compressas frias: podem precipitar falcização [2]

  • Sedativos e ansiolíticos (exceto se indicados para ansiedade ou insônia): mascaram a resposta comportamental à dor sem prover analgesia [2]

  • Transfusão de hemácias: não é tratamento para dor vaso-oclusiva não complicada sem anemia sintomática; não deve substituir ou atrasar a analgesia [2]

  • Corticosteroides (exceto se indicados para outra condição): embora reduzam a duração da internação, associam-se a maior taxa de reinternação em 1 semana e efeitos adversos significativos (hemorragia GI, necrose avascular); não recomendados pela diretriz ASH 2020 [2]

  • Oxigênio suplementar sem indicação: não indicado em episódios vaso-oclusivos simples com SpO₂ na basal e sem sintomas pulmonares; indicar conforme critérios descritos na seção acima [1][2]

  • Agentes antiplaquetários: estudos randomizados com prasugrel e ticagrelor não demonstraram redução significativa dos episódios de dor em crianças com AF [2]

  • Placebo: nunca deve ser utilizado; destrói a confiança e prolonga a dor [2

Alta e Seguimento Ambulatorial

Critérios para alta [2]

  • Dor adequadamente controlada com analgésicos orais

  • Condição passível de desmame ambulatorial

Desmame de opioides [2]

  • Não reduzir opioides nas primeiras 24 horas de internação, salvo depressão respiratória ou letargia importante

  • Reduzir progressivamente durante o dia, quando a avaliação da dor é mais adequada

  • Redução incremental de 10 a 20% da dose por vez

  • Reduzir a dose, não o intervalo entre doses

  • Converter para medicação oral quando a dose IV for equivalente às doses orais domiciliares

  • Ao receber alta: fornecer medicação oral para desmame por pelo menos 3 a 5 dias [2]

Seguimento [2]

  • Agendar consulta de telemedicina ou presencial em 7 a 14 dias após a alta

  • Na consulta de seguimento:

    • Revisar e atualizar o plano individualizado de dor

    • Avaliar mudanças no padrão da dor

    • Revisar adesão e uso de medicamentos modificadores da doença (ex.: hidroxiuréia)

    • Identificar e reduzir gatilhos de dor

Duração esperada da internação [2]

  • Episódios agudos não complicados em crianças: aproximadamente 3 dias

  • Internação além de 6 dias em crianças: investigar causas secundárias de dor ou alteração na percepção da dor — sem negar a dor do paciente [2]

Referências

[1] VICHINSKY, Elliott P.; FIELD, Joshua J. Evaluation of acute pain in sickle cell disease. UpToDate. Atualizado em: 05 jan. 2026. Revisão da literatura: maio 2026.
Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/evaluation-of-acute-pain-in-sickle-cell-disease.

[2] DEBAUN, Michael R.; MORRIS, Claudia R.; FIELD, Joshua J. Acute vaso-occlusive pain management in sickle cell disease (children and adults). UpToDate. Atualizado em: 06 maio 2026. Revisão da literatura: maio 2026.
Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/acute-vaso-occlusive-pain-management-in-sickle-cell-disease-children-and-adults.

[3] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia Farmacêutico Pediátrico. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês. [s.d.]. Disponível em: acervo institucional.

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.