Manejo da Dor em Crianças com Anemia Falciforme
CID 10: D57 - Transtornos falciformes
Introdução
A dor aguda é a razão mais comum para crianças com anemia falciforme (AF) buscarem atendimento médico [1][2]
Episódios de dor são definidos pelo próprio paciente e não indicam necessariamente uma fisiopatologia específica [2]
A frequência real dos episódios tende a ser subestimada, pois a maioria é tratada em domicílio — especialmente à medida que crianças e famílias aprendem a manejá-los [2]
A dor vaso-oclusiva pode iniciar já aos seis meses de vida e tipicamente persiste ao longo de toda a vida [1][2]
Bebês e crianças pequenas podem apresentar dactilite: dor e edema por infartos nas mãos e pés [1]
Apesar das diretrizes estabelecidas, a adesão dos profissionais às melhores práticas é ruim [2]
O ideal é que toda criança com AF tenha um plano individualizado de dor que contemple manejo domiciliar, critérios para busca de atendimento e orientações ao pronto-socorro [2]
Avaliação da Dor
Considerações:
O padrão ouro para avaliação da dor é o relato do paciente ou da família; não existe combinação de achados laboratoriais ou clínicos que confirme ou negue a dor em crianças com AF [1][2]
A analgesia não deve ser retardada enquanto se aguarda resultados laboratoriais; os resultados dos exames não devem ser usados para justificar a redução ou suspensão da medicação para dor [1][2]
Ferramentas de avaliação da intensidade da dor [1][2]
Lactentes e crianças pequenas: não conseguem descrever verbalmente a dor; observar irritabilidade e dor à palpação
Crianças a partir de 3 anos: escala Wong-Baker FACES
Adolescentes: escala visual analógica (EVA) ou escala numérica de avaliação
Características da dor vaso-oclusiva aguda [1]
Intensidade: variável, de leve a debilitante
Localização: varia entre indivíduos e em momentos diferentes para a mesma criança
Locais mais comuns: costas, peito, abdômen, ossos longos; múltiplos sítios frequentemente envolvidos
Em lactentes e crianças pequenas: dactilite (mãos e pés)
Duração: horas a dias; algumas crianças não ficam completamente sem dor
Fases do episódio doloroso: [1]
Fase prodrômica: dormência, dores vagas e/ou parestesias (até 24h antes da dor aguda)
Fase inicial/infartiva: dor aguda intensa (2 a 3 dias)
Fase pós-infartiva inflamatória
Fase de resolução/recuperação
Fatores que podem agravar a dor [2]
Uso insuficiente de opioides (por efeitos colaterais ou preocupações com dependência)
Alterações no metabolismo dos opioides
Componentes psicológicos ou neuropáticos
Hipoventilação
Insônia
Diminuição da ingestão de líquidos
Frio
Condições Graves Associadas e Sinais de Alerta
A dor aguda em crianças com AF pode não ser apenas vaso-oclusiva. A avaliação para complicações graves deve ocorrer simultaneamente ao tratamento da dor [1][2].
Características que sugerem complicação adicional [1]
Sinais vitais anormais: não atribuir alterações de sinais vitais apenas à dor sem excluir outras causas
Dor atípica: localização ou intensidade diferentes das crises habituais do paciente
Alterações importantes no hemograma:
Leucopenia ou leucocitose: investigar infecção, incluindo síndrome torácica aguda (STA)
Piora da anemia: investigar sequestro esplênico ou hepático, crise aplásica, reação hemolítica transfusional
Hemoglobina elevada: pode indicar desidratação grave
Queda da contagem de reticulócitos: suspeitar de supressão medular
Reticulocitose marcada: pode indicar hemólise aumentada ou sequestro
Sinais físicos:
Distensão abdominal: sequestro esplênico ou hepático, colecistite
Icterícia: hemólise aumentada ou doença hepatobiliar
Hematúria: patologia renal ou infecção urinária
Confusão ou alteração do nível de consciência: embolia gordurosa cerebral, AVC, sepse
Complicações específicas por localização da dor [1]
Dor torácica: investigar STA (principal causa de morte em crianças com AF), pneumonia, embolia pulmonar, infarto de costela
SpO₂ < 96% ou queda ≥ 3 pontos em relação à basal: acionar investigação diagnóstica para STA [1]
A STA pode progredir rapidamente e não deve ser negligenciada
Cefaleia ou alteração do estado mental: investigar AVC (isquêmico ou hemorrágico), meningite, trombose venosa cerebral, aneurisma
Crianças com AF têm risco aumentado de AVC; encaminhar para imagem imediatamente se houver sinais neurológicos
Dor abdominal: investigar sequestro esplênico (potencialmente fatal, mais comum em lactentes com Hb SS), colecistite, sequestro hepático, infecção urinária, pancreatite, constipação por opioides
Dor em extremidades: investigar dactilite (lactentes e crianças pequenas), osteomielite (mais comum em crianças, geralmente com febre), necrose avascular, trombose venosa profunda
Fatores de alto risco para complicações [1]
Comorbidades: doença renal crônica, doença pulmonar crônica, hipertensão pulmonar, disfunção cardíaca, histórico de STA recorrente, doença neurológica prévia (AVC, sangramento intracraniano)
Período pós-operatório: risco aumentado de tromboembolismo venoso, STA e infecção
Triagem e Plano
Triagem [1][2]
Toda criança com AF que se apresente ao pronto-socorro ou hospital de dia deve ser triada com ESI (Emergency Severity Index) ≤ 2
A avaliação e o início da analgesia devem ocorrer em até 60 minutos da apresentação; idealmente em 30 minutos
A administração rápida de opioides associa-se à menor taxa de internação em crianças com AF [2]
Plano individualizado de dor [2]
Idealmente, toda criança com AF deve ter um plano previamente estabelecido, contendo:
Orientações para manejo domiciliar
Contatos para prescrições e situações de escalada da dor
Critérios claros para buscar atendimento de emergência
Planos individualizados proporcionam consistência para os profissionais e podem reduzir a duração da internação [2]
Protocolos padronizados de dor podem reduzir variações e melhorar os desfechos [2]
Manejo Domiciliar
Considerações:
É o ambiente mais frequente de manejo agudo e crônico da dor em AF [2]
Pacientes, famílias e cuidadores devem sempre ter acesso a analgésicos orais para evitar escalada da dor que exija atendimento de emergência [2]
Abordagem gradual [2]
Dor leve (< 6/10): terapia não opioide
Paracetamol ou AINEs em pacientes selecionados com função renal normal
Terapias adjuvantes: exercícios de relaxamento e respiração, bolsas de calor
Gelo e compressas frias são contraindicados: podem precipitar falcização [2]
Dor mais intensa (≥ 6/10): opioides de ação curta
No contexto brasileiro, as opções práticas disponíveis são morfina de liberação imediata e oxicodona
Codeína não é recomendada em crianças com AF: polimorfismo do CYP2D6 reduz o metabolismo para o opioide ativo em proporção significativa dos pacientes; em estudo com 73 crianças com AF, 58% apresentaram alelos de função reduzida na CYP2D6 [2]
Combinações de opioide com paracetamol devem ser limitadas a 48 a 72 horas para evitar toxicidade hepática e mascaramento de febre [2]
Orientações de alarme para buscar atendimento [2]
Febre, tosse ou outros sinais de infecção
Sintomas sugestivos de AVC, STA, sequestro esplênico, crise aplásica ou outras complicações graves
Dor sem controle com os analgésicos orais disponíveis em casa
Manejo no Pronto-Socorro
Avaliação inicial [2]
Hemograma completo com contagem de reticulócitos
Painel metabólico completo com eletrólitos
Função hepática: se uso de paracetamol previsto
Radiografia de tórax, urina e hemoculturas: se o paciente estiver febril
Princípios gerais [1][2]
A dor deve ser reconhecida como intensa e real; a grande maioria dos pacientes com AF não apresenta comportamento de busca por drogas ou transtorno por uso de opioides
Atitudes negativas dos profissionais interferem significativamente na avaliação e no tratamento da dor [2]
O padrão ouro continua sendo o relato do paciente ou da família; a ausência de alterações laboratoriais não deve ser usada para negar ou reduzir a analgesia [1][2]
Placebo nunca deve ser utilizado: destrói a relação médico-paciente e prolonga a duração da dor [2]
Analgesia opioide no pronto-socorro [1][2]
Considerações:
A escolha do opioide é individualizada com base em idade, função renal e hepática, intensidade da dor e probabilidade de internação. A analgesia deve ser iniciada em até 60 minutos da apresentação; idealmente em 30 minutos [1][2].
Se houver plano individualizado de dor, este deve ser seguido [2].
Morfina intravenosa — opção padrão em crianças [1][2]
Morfina (Dimorf®) sol. inj. 10 mg/mL — Notificação de Receita A (Lista A1, Portaria SVS/MS 344/1998) [1][2][3]
Crianças: 0,1 a 0,15 mg/kg IV; dose inicial máxima: 10 mg [1][2]
Para administração IV lenta: diluir em SF 0,9% ou água destilada à concentração final de 1 a 2 mg/mL [3]
Reavaliar em ~20 minutos; se dor intensa persistente, repetir ou administrar 50% da dose inicial com monitoramento para sedação [2]
Dose máxima habitual: 0,1 a 0,2 mg/kg a cada 3 a 4 horas se necessário [3]
Para infusão IV contínua: 10 a 60 mcg/kg/hora [3]
A reavaliação e readministração de opioides parenterais para dor intensa persistente são recomendadas a cada 15 a 60 minutos até controle adequado [2]
Monitorar sedação e SpO₂; evitar intervalos entre doses > 3 horas
Fentanil intranasal — para crianças sem acesso venoso [1][2]
Fentanil (Fentanest®) sol. inj. 50 mcg/mL [1][2]
Preferida para crianças ≥ 10 kg sem acesso venoso para as quais os opioides orais foram ineficazes em casa [2]
Para crianças < 10 kg: o limite de segurança para fentanil intranasal não está estabelecido nas fontes consultadas; priorizar obtenção de acesso venoso para morfina IV ou seguir protocolo institucional
Dose padrão: 1,5 mcg/kg por via intranasal; dose única máxima: 100 mcg [2]
Pode repetir uma vez após 5 a 10 minutos se dor persistente intensa [2]
Regime alternativo descrito na literatura: 2 mcg/kg (dose máxima: 100 mcg); utilizar conforme protocolo institucional [2]
Restringir a no máximo 2 doses pela via intranasal; iniciar morfina IV na sequência [2]
Funciona como ponte até obtenção de acesso venoso; não substitui os opioides IV [2]
Estudo demonstrou que o uso de fentanil intranasal associou-se a chances > 9 vezes maiores de alta do pronto-socorro em crianças com AF [2]
Alto risco de superdosagem; administrar apenas por profissionais experientes em seu uso
Exige notificação de Receita A (Lista A1, Portaria SVS/MS 344/1998)
Alta ou internação [2]
A decisão é feita com base no controle da dor após 2 a 3 doses de opioides IV
Se controlada: alta com medicação oral para desmame e seguimento em 7 a 14 dias
Se não controlada: indicar internação e analgesia controlada pelo paciente (PCA)
Manejo Hospitalar
Princípios gerais [2]
Medicação não deve ser oferecida apenas sob demanda (PRN) como única fonte de alívio
Esquemas exclusivamente "se necessário" são inadequados e podem levar a atrasos de até 1 hora na administração [2]
O uso de vias clínicas com dosagem individualizada pode melhorar a qualidade do cuidado [2]
Opção preferida em crianças: morfina contínua com analgesia controlada pelo paciente (PCA) [2][3]
Morfina (Dimorf®) sol. inj. 10 mg/mL — Notificação de Receita A (Lista A1, Portaria SVS/MS 344/1998) [2][3]
Infusão contínua IV: 10 a 60 mcg/kg/hora [3]
Solução padronizada para PCA: morfina 10 mg (1 ampola) diluída em SF 0,9% para 100 mL (concentração final: 0,1 mg/mL) [3]
Dose de demanda pela PCA: equivalente a 1/6 da dose horária contínua [2]
Dose de ataque inicial: aproximadamente o dobro da dose de demanda [2]
Ajuste da PCA: se doses de demanda adicionais forem necessárias mais de 3 vezes/hora por 2 ou mais horas consecutivas, aumentar dose contínua e de demanda [2]
Nova dose contínua horária: total utilizado na hora anterior (contínuo + demanda), desde que não haja efeitos colaterais limitantes [2]
Nova dose de demanda: manter em 1/6 da nova dose contínua [2]
Se PCA não disponível: morfina IV em doses regulares a cada 2 a 3 horas; intervalos > 3 horas devem ser evitados [2]
Dor de escape (breakthrough pain) [2]
Deve haver prescrição escrita para medicação de escape para todos os pacientes internados
Melhor abordada pela PCA com opção de dose de demanda
Erros comuns a evitar:
Aumentar a dose contínua/horária para tratar a dor de escape
Atrasar o tratamento da dor de escape
Espirometria de incentivo [2]
Obrigatória durante internação; realizar a cada 2 horas em vigília
Objetivo: prevenir hipoventilação, infecções respiratórias hospitalares e STA — complicação frequente em crianças internadas com dor
Benefício demonstrado em ensaio clínico: redução de complicações pulmonares de 42% para 5% com espirometria de incentivo [2]
Monitorização hospitalar [2]
Avaliação contínua da dor com escalas objetivas
Estado neurológico: diferenciar sedação por opioides de complicações cerebrovasculares (AVC, sepse, insuficiência multiorgânica)
Oximetria de pulso durante administração de opioides IV
Balanço hídrico:
Crianças com AF frequentemente apresentam hipovolemia durante episódios de dor (ingesta reduzida, perdas insensíveis aumentadas, hipostenúria renal) [2]
Hidratação oral deve ser estimulada ativamente [2]
Bolus de soro fisiológico associam-se a piores desfechos de dor e devem ser evitados em pacientes normovolêmicos [2]
Para desidratação aguda ou hipovolemia: Ringer Lactato (preferível) ou soro fisiológico 0,9% [2]
Função renal, hepática e cardíaca: monitorar toxicidade medicamentosa e comorbidades
SpO₂ seriada; se taquipneia, sibilância ou retração intercostal: reavaliação imediata do status pulmonar
Efeitos adversos dos opioides — considerações específicas em AF [2]
Sedação e depressão respiratória:
Especialmente preocupantes pelo risco aumentado de STA e infecções respiratórias hospitalares em crianças com AF
Distinguir sedação por opioide de complicações cerebrovasculares (AVC, sepse): as apresentações podem se sobrepor
Causas mais comuns de supersedação: empilhamento de doses em intervalos curtos
Naloxona: reservar para depressão respiratória sintomática ou insuficiência respiratória iminente; não administrar em paciente apenas sonolento mas facilmente despertável, pois pode precipitar dor grave com necessidade de doses maiores [2]
Infusão contínua de baixa dose de naloxona (0,25 mcg/kg/hora) tem sido útil na redução de prurido sem necessidade de ajuste opioide [2]
Constipação:
Relatada em até 80% dos adultos com AF em uso de opioides [2]
Tratar com combinação de laxativo osmótico e estimulante, geralmente nas primeiras 24 horas após início dos opioides [2]
Náusea e vômitos:
Preferir antagonista seletivo do receptor 5-HT₃ (ex.: ondansetrona) pelas propriedades não sedantes [2]
Prurido:
Causado por liberação de histamina induzida pela morfina
Opções: anti-histamínicos não sedantes; troca de opioide; ondansetrona; infusão de naloxona em baixa dose [2]
Evitar difenidramina IV pelo risco aumentado de sedação [2]
Não classificar como alergia a opioide apenas com base no prurido: pode resultar em privação de terapia eficaz [2]
Medicações
Dipirona
Considerações:
Segundo a SBP (2024), a dipirona é liberada para uso a partir de 3 meses de idade.
Para menores de 1 ano deve-se utilizar via oral (VO) ou intramuscular (IM), sendo a via intravenosa (IV) reservada para maiores de 1 ano.
Dipirona gotas 500mg/1mL/20 gotas
Dar 0,6 a 1 gota/kg (max 40 gotas), a cada 6 h se dor ou febre
Dose: 15 a 25 mg/kg/dose
Obs: > 3 meses de idade
Dipirona sol. oral 50mg/1mL
Dar 0,3 a 0,5 mL/kg (máx. 20 mL), a cada 6 h se dor ou febre
Dose: 15 a 25 mg/kg/dose
Obs: > 3 meses de idade
Dipirona sol. injetável. 1g/2mL ou 500mg/1mL
>= 8 kg: 0,1 a 0,2 mL IM
9-15 kg: 0,2 a 0,5 mL IV ou IM
16-23 kg: 0,3 a 0,8 mL IV ou IM
24-30 kg: 0,4 a 1,0 mL IV ou IM
31-45 kg: 0,5 a 1,5 mL IV ou IM
46-53 kg: 0,8 a 1,5 mL IV ou IM
>= 54 kg: 2 mL IV ou IM
A dose pode ser repetida a cada 6h, se necessário.
Paracetamol
Considerações:
Segundo a SBP (2024), o paracetamol é liberado desde o nascimento.
Paracetamol gotas 200mg/1mL/15 gotas
Dar 1 gota/kg (max 35 gotas), a cada 6 h
Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (máx. 75 mg/kg/dia ou 4g/dia)
Paracetamol sol. oral 32mg/1mL
Dar 0,31 a 0,46 mL/kg (máx. 31 mL), a cada 6 h
Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (máx. 75 mg/kg/dia ou 4g/dia)
Paracetamol sol. oral 100mg/1mL
Dar 0,1 a 0,15 mL/kg (máx. 10 mL), a cada 6 h
Dose: 10 a 15 mg/kg/dose (máx. 75 mg/kg/dia ou 4g/dia
AINEs seletivos da COX-2:
Observação:
Utilizar AINEs pelo menor tempo e na menor dose efetiva possível.
Ibuprofeno gotas 100mg/1mL/10 gotas
Dar 1 gota/kg (max 20 gotas), a cada 8-6 h
Max de 20 gotas/dose (200mg) e 80 gotas/dia (800mg)
Dose: 5 a 10 mg/kg/dose (máx. 800mg/dia)
Ibuprofeno gotas 50mg/1mL/10 gotas
Dar 1 a 2 gotas/kg (max 40 gotas), a cada 8-6 h
Max de 40 gotas/dose (200mg) e 160 gotas/dia (800mg)
Dose: 5 a 10 mg/kg/dose (máx. 800mg/dia)
Ibuprofeno sol. oral 30mg/mL
Dar 0,16 a 0,33 mL/kg (máx. 7 mL), a cada 8-6 h
Max de 7 mL/dose (210mg) e 28 mL/dia (840mg)
Dose: 5 a 10 mg/kg/dose (máx. 840 mg/dia)
Cetoprofeno sol. injetável 50mg/ml (a partir 2 anos)
Aplicar 1 mg/kg/dose EV, a cada 12 horas, se dor (máx 3mg/kg/dia)
Diluir em SF 0,9% e administrar em 10 a 30 minutos.
Cetoprofeno sol. injetável 30mg/1mL
Aplicar 0,017 a 0,033 mL/kg (max 1 mL) IM bolus (> 15 seg)
Dose: 0,5 a 1 mg/kg/dose (max 2 mg/kg/dia ou 60 mg/dia)
Diclofenaco resinato gotas 50 mg/mL
Dar 1 gota/kg/dia (0,5 mg/kg/dia) VO a cada 8 horas;
Observação:
Para maiores de 1 ano.
AINEs não-seletivos da COX-2:
Nimesulida gotas 50 mg/mL
Dar 1 gota/kg/dose (2,5 mg/kg/dose) VO a cada 12 horas.
Dose máxima: 40 gotas/dose (100 mg/dose)
Nimesulida comp. 100mg
Dar 1 cp VO a cada 12 horas
Dose máxima: 40 gotas/dose (100 mg/dose)
Observação:
Para maiores de 12 anos.
Utilizar AINEs pelo menor tempo e na menor dose efetiva possível.
Opioides
Considerações:
Maior risco de depressão respiratória e hipotensão.
Devem ser reservados apenas para casos de dor intensa.
Deve-se evitar o uso de tramadol e codeína devido a variabilidade genética no metabolismo.
Primeira opção de opioide:
Morfina solução injetável 10mg/1mL ou 2mg/2mL ou 0,1mg/1mL ou 0,2mg/1mL
Aplicar 0,05 a 0,1 mg/kg/dose IV, a cada 4 horas, se dor moderada a intensa.
Administrar lentamente (em 4 a 5 minutos) para evitar depressão respiratória.
Monitorar sedação, FR, PA e saturação.
Morfina solução gotas 10 mg/1mL/32gotas
Dar a dose de: 0,15 - 0,3 mg/kg VO, a cada 4 horas, se dor moderada a intensa.
Opções alternativas:
Codeína ❌
Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (2024), o uso de codeína é considerado inseguro e ineficaz, sendo contraindicado na população pediátrica.
Tramadol gotas 100mg/1mL/40gotas
Dar 0,7 a 2 mg/kg/dose VO a cada 4-6 horas. Dose máxima 400 mg/dia.
Indicado para maiores de 12 anos (SBP, 2024).
Tramadol sol. injetável 50 mg/1mL
Aplicar 0,7 a 2 mg/kg/dose IV a cada 4-6 horas. Dose máxima 400 mg/dia.
Indicado para maiores de 12 anos (SBP, 2024).
Administrar lentamente (em 4 a 5 minutos) para evitar depressão respiratória.
Monitorar sedação, FR, PA e saturação.
Observações sobre o tramadol:
A indicação de tramadol em pediatria é controversa.
Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (2024), o tramadol tem o seu uso recomendado a partir dos 12 anos, devido à escassez de estudos de efetividade e segurança.
Por outro lado, segundo a Anvisa, o uso do tramadol pode ser considerado a partir do primeiro ano de vida.
Contraindicar o uso em paciente em pós operatório de cirurgia otorrinolaringológica, pacientes com apneia de origem central e em crianças e adolescentes com obesidade mórbida.
Evitar o uso em pacientes com epilepsia, distúrbios metabólicos ou infecções do SNC ou naqueles que tomam agentes psicotrópicos, pois pode diminuir o limiar convulsivo.
Oxigênio Suplementar e Critérios de Uso
Os dois limiares a seguir coexistem com funções distintas e complementares [1][2]:
Critério de investigação diagnóstica para STA:
SpO₂ < 96% ou queda ≥ 3 pontos em relação à basal → Radiografia de tórax, avaliação clínica dirigida [1]
Este limiar é mais sensível e tem função de alarme; não implica suplementação automática de O₂
Critério para suplementação de oxigênio:
SpO₂ < 94% ou queda ≥ 4 pontos em relação à basal [2]
Oxigênio não deve ser utilizado em episódios vaso-oclusivos simples com SpO₂ na basal e sem sintomas pulmonares, pois pode mascarar queda da saturação [2]
Em síntese: um paciente com SpO₂ de 95% e queda de 3 pontos deve ser investigado para STA, mas não necessariamente receber oxigênio, a suplementação será indicada se a avaliação confirmar queda adicional ou sintomas respiratórios.
Terapias que Não Devem ser Utilizadas para Dor
Gelo e compressas frias: podem precipitar falcização [2]
Sedativos e ansiolíticos (exceto se indicados para ansiedade ou insônia): mascaram a resposta comportamental à dor sem prover analgesia [2]
Transfusão de hemácias: não é tratamento para dor vaso-oclusiva não complicada sem anemia sintomática; não deve substituir ou atrasar a analgesia [2]
Corticosteroides (exceto se indicados para outra condição): embora reduzam a duração da internação, associam-se a maior taxa de reinternação em 1 semana e efeitos adversos significativos (hemorragia GI, necrose avascular); não recomendados pela diretriz ASH 2020 [2]
Oxigênio suplementar sem indicação: não indicado em episódios vaso-oclusivos simples com SpO₂ na basal e sem sintomas pulmonares; indicar conforme critérios descritos na seção acima [1][2]
Agentes antiplaquetários: estudos randomizados com prasugrel e ticagrelor não demonstraram redução significativa dos episódios de dor em crianças com AF [2]
Placebo: nunca deve ser utilizado; destrói a confiança e prolonga a dor [2
Alta e Seguimento Ambulatorial
Critérios para alta [2]
Dor adequadamente controlada com analgésicos orais
Condição passível de desmame ambulatorial
Desmame de opioides [2]
Não reduzir opioides nas primeiras 24 horas de internação, salvo depressão respiratória ou letargia importante
Reduzir progressivamente durante o dia, quando a avaliação da dor é mais adequada
Redução incremental de 10 a 20% da dose por vez
Reduzir a dose, não o intervalo entre doses
Converter para medicação oral quando a dose IV for equivalente às doses orais domiciliares
Ao receber alta: fornecer medicação oral para desmame por pelo menos 3 a 5 dias [2]
Seguimento [2]
Agendar consulta de telemedicina ou presencial em 7 a 14 dias após a alta
Na consulta de seguimento:
Revisar e atualizar o plano individualizado de dor
Avaliar mudanças no padrão da dor
Revisar adesão e uso de medicamentos modificadores da doença (ex.: hidroxiuréia)
Identificar e reduzir gatilhos de dor
Duração esperada da internação [2]
Episódios agudos não complicados em crianças: aproximadamente 3 dias
Internação além de 6 dias em crianças: investigar causas secundárias de dor ou alteração na percepção da dor — sem negar a dor do paciente [2]
Referências
[1] VICHINSKY, Elliott P.; FIELD, Joshua J. Evaluation of acute pain in sickle cell disease. UpToDate. Atualizado em: 05 jan. 2026. Revisão da literatura: maio 2026.
Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/evaluation-of-acute-pain-in-sickle-cell-disease.
[2] DEBAUN, Michael R.; MORRIS, Claudia R.; FIELD, Joshua J. Acute vaso-occlusive pain management in sickle cell disease (children and adults). UpToDate. Atualizado em: 06 maio 2026. Revisão da literatura: maio 2026.
Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/acute-vaso-occlusive-pain-management-in-sickle-cell-disease-children-and-adults.
[3] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia Farmacêutico Pediátrico. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês. [s.d.]. Disponível em: acervo institucional.
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