Tricotilomania

CID-10: F63.3 - Tricotilomania

Introdução

  • A tricotilomania é o arrancar repetido de pelos de qualquer região do corpo, que se apresenta como perda de cabelo ou de pelos causada pelo próprio paciente [1]. Classificada no espectro do transtorno obsessivo-compulsivo [1]; no DSM-IV-TR e na CID-10, entre os transtornos do controle dos impulsos [2].

  • A prevalência ao longo da vida chega a 3,5%, a partir da adolescência, com predomínio feminino de cerca de 9:1 [1]. A idade média de início é de aproximadamente 13 anos [2][3], com maior incidência na infância e na adolescência [3]. O estigma leva à subnotificação, à ocultação do quadro e à procura pelo dermatologista antes ou no lugar do psiquiatra [1].

🔑 Pontos-chave:

  • Paciente que come o cabelo, com qualquer um (dor, náusea, vômito, constipação; massa, dor ou fecaloma ao exame abdominal): investigar tricobezoar, pelo risco de obstrução ou perfuração intestinal, mesmo antes de confirmar o diagnóstico de tricotilomania [1]

  • Suspeitar diante de área de perda geométrica com fios de comprimentos diferentes, mesmo quando o paciente nega arrancar [1]

  • Erupção ou outra alteração da pele no local sugere outro diagnóstico, como tinea capitis [1][3]

  • Rastrear outros transtornos psiquiátricos [1]; depressão, ansiedade e uso de substâncias são as comorbidades mais frequentes [2]

  • Encaminhar todo paciente para manejo por equipe com psiquiatra e terapeuta comportamental [1][2]; terapia comportamental é o pilar do tratamento [1][2], e fármacos são associados à terapia [1]

  • Em criança, perguntar aos pais: predomina a forma automática, sem lembrança do ato [2]

  • O diagnóstico é clínico, pelos critérios do DSM-5; biópsia não é necessária [1]

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🎯 Fluxograma de manejo

O fluxograma organiza a avaliação e o manejo inicial da tricotilomania. Parte da perda de pelos com área geométrica e fios de comprimentos diferentes, com ou sem relato de arrancar. Faz-se anamnese com alta suspeição, perguntando aos pais no caso de criança, pergunta-se sobre tricofagia e queixas gastrointestinais e examinam-se as áreas acometidas, a pele e o abdome (conferir em Diagnóstico). Pergunta-se se o paciente come o cabelo, com qualquer um: dor, náusea, vômito, constipação; massa, dor ou fecaloma ao exame abdominal. Se sim, investiga-se tricobezoar, pelo risco de obstrução ou perfuração intestinal (conferir em Tricobezoar e outras complicações), e segue-se para a pergunta seguinte; se não, segue-se diretamente para ela. Pergunta-se então se há qualquer um: erupção, descamação ou outra alteração da pele no local. Se sim, investiga-se outro diagnóstico; para tinea capitis e alopecia areata, conferir os protocolos específicos (conferir em Diagnóstico diferencial). Se não, pergunta-se se todos os critérios DSM-5 (A a E) estão presentes (conferir em Diagnóstico). Se não, investiga-se outro diagnóstico. Se sim, rastreiam-se comorbidades psiquiátricas: depressão, ansiedade e uso de substâncias (conferir em Comorbidades psiquiátricas). Em seguida, orienta-se evitar gatilhos, limitar atividades associadas, aumentar a atividade física e manter registro diário, e fotografam-se as áreas acometidas (conferir em Orientação ao paciente e à família). Encaminha-se para terapia comportamental (reversão de hábito, TCC) e psiquiatria; os fármacos são prescritos pelo especialista (conferir em Tratamento pelo especialista). O fluxo termina no seguimento, com fotografias e registro diário, considerando recaídas e remissões (conferir em Encaminhamento e seguimento). Abreviações: DSM-5, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição; TCC, terapia cognitivo-comportamental. Fonte: referências [1], [2] e [3] do artigo.

Quadro clínico

  • Como o paciente arranca [1]:

    • Com as mãos, com pinça ou com outros instrumentos

    • Pode haver ritual na escolha do fio e inspeção do fio após arrancá-lo

    • Pode comer todo o fio ou parte dele

  • Locais acometidos [1][2][3]:

    • Em ordem de frequência [2]:

      • Couro cabeludo (80,6%)

      • Cílios (47%) e sobrancelhas (43,5%)

      • Região pubiana (23,7%), extremidades (15,1%), axila (5,4%) e abdome (4,3%)

    • Padrão no couro cabeludo:

      • Placas frontoparietais que progridem para trás, podendo incluir cílios e sobrancelhas [3]

      • Sinal de Friar Tuck: perda em área bem definida no vértice, com preservação das regiões temporais e occipital [1]

  • Formas de arrancar [1][2]:

    • Automática: o ato ocorre sem atenção do paciente [1]; predomina em crianças, que não se lembram de arrancar, mas podem admitir que "brincam com o cabelo" [2]

    • Focada: atenção voltada ao ato [1], às vezes com rituais específicos [2]

  • Gatilhos [1][2]:

    • Estresse ou tédio antes do arrancar; o alívio da tensão pelo ato reforça o comportamento [1]

    • Atividades associadas: dirigir, ler ou fazer trabalho com papéis, assistir à televisão, falar ao telefone [1]; ficar deitado na cama [2]

  • Ocultação [1][2]:

    • O paciente pode negar o arrancar e dar respostas vagas para minimizar o comportamento [1]

    • Vergonha da perda de cabelo e relutância em permitir a inspeção [2]

Diagnóstico

  • Diagnóstico clínico [1]:

    • Anamnese e exame físico bastam para o diagnóstico

    • Biópsia por punch do couro cabeludo pode ajudar, mas não é necessária

    • Escalas de avaliação não são obrigatórias

  • Anamnese [1][2][3]:

    • Manter alta suspeição diante de queixa de queda de cabelo; o paciente pode negar o arrancar [1][3]

    • Relato do paciente incerto (criança, idoso, pouca capacidade de comunicação): perguntar a um familiar [2]

    • Perguntar diretamente sobre tricofagia [2]

    • Perguntar sobre queixas gastrointestinais, que podem indicar tricobezoar [1]

    • Investigar gatilhos e consequências do arrancar (culpa, autoimagem ruim, prazer, alívio) [1]

    • Colher história psiquiátrica [3]

  • Exame físico [1][3]:

    • Achados que sugerem tricotilomania:

      • Áreas de perda com fios de comprimentos diferentes e em fases variadas de recrescimento [1]

      • Área de perda geométrica [1]

      • Falhas irregulares, com fios torcidos ou quebrados [3]

    • Achados que mudam a conduta:

      • Exame abdominal: massa, dor ou fecaloma sugerem tricobezoar [1]

      • Erupção ou outra alteração da pele no local: pensar em outro diagnóstico (conferir em "Diagnóstico diferencial") [1]

    • Registro para o seguimento:

      • Fotografar as áreas acometidas, para acompanhar a resposta ao tratamento [1]

      • Cicatriz nos folículos: sem cicatriz, o recrescimento é possível [1]

  • Critérios diagnósticos (DSM-5), todos [1]:

    • A: arrancar pelos de forma repetida, de qualquer região do corpo, concentrada ou difusa, podendo haver falhas ou rarefação

    • B: tentativas de parar ou reduzir a remoção

    • C: sofrimento significativo ou prejuízo em pelo menos uma área do funcionamento

    • D: perda não causada por outra condição médica (por exemplo, alopecia areata ou tinea capitis)

    • E: arrancar não mais bem explicado por outro transtorno mental

Tricobezoar e outras complicações

  • Suspeita de tricobezoar em quem come o cabelo [1]:

    • Qualquer um:

      • Dor, náusea, vômito ou constipação

      • Massa abdominal, dor ou fecaloma no exame

    • Conduta: investigar tricobezoar, pelo risco de obstrução ou perfuração intestinal; exame de investigação não definido na fonte [1]

  • Frequência de comportamentos orais [2]:

    • Comportamentos orais após arrancar (passar o fio nos lábios, morder, arrancar a raiz, comer o fio): cerca de 48% dos pacientes

    • Tricofagia: 20,6%

  • Outras complicações [1][2][3]:

    • Perda permanente de cabelo, principalmente em quem arranca até a vida adulta [1]

    • Infecção, dano à pele e cicatriz permanente [3]

    • Erosão dental e síndrome do túnel do carpo [2]

    • Baixa autoestima e isolamento social [3]

Diagnóstico diferencial

  • Condições a considerar [1]:

    • Alopecia de tração, calvície de padrão masculino, alopecia de pressão, alopecia areata, tinea capitis

    • Hábito transitório, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno factício

    • Doenças sistêmicas: câncer, lúpus, hipotireoidismo

  • Pistas que separam os diagnósticos em placas (ver tabela) [1][3]:

    • Pontos amarelos ou pretos e hastes quebradas não são específicos da alopecia areata [3]

Condição

Fio e área de perda

Pele do couro cabeludo

Outras pistas

Tricotilomania

Fios de comprimentos diferentes; área geométrica

Sem erupção

Não descritas

Alopecia areata

Placas circunscritas e ovais; pelos em ponto de exclamação

Da cor da pele

Depressões puntiformes nas unhas (pitting)

Tinea capitis

Não descrito

Descamação, pústulas, crostas, erosões ou eritema, que sugerem infecção

Adenopatia local; adenopatia retroauricular ajuda a diferenciar de outras causas inflamatórias

Fonte: [1][3]

  • Teste de tração: positivo sugere outra causa de queda [3]:

    • Técnica: segurar cerca de 40 a 60 fios pela base, entre polegar, indicador e dedo médio, e tracionar suavemente para longe do couro cabeludo

    • Positivo: mais de 10% dos fios arrancados, o que sugere eflúvio telógeno, eflúvio anágeno ou alopecia areata

    • Resultado negativo não exclui essas condições

  • Protocolos relacionados:

    • Conferir os protocolos específicos "Alopecia areata", "Tinea capitis" e "Alopecia de tração"

Comorbidades psiquiátricas

  • Rastreio [1][2]:

    • Investigar sintomas de outros transtornos psiquiátricos na entrevista [1]

    • Avaliar e tratar as comorbidades associadas [2]

  • Mais frequentes, em amostra clínica [2]:

    • Depressão maior (51,6%)

    • Ansiedade generalizada (27,0%)

    • Abuso de álcool (19,4%) e de outras substâncias (16,1%)

    • Fobias simples (18,8%), transtorno obsessivo-compulsivo (13,4%) e fobia social (11,3%)

    • Bulimia nervosa (8,1%), tiques crônicos (3,2%) e anorexia nervosa (1,6%)

  • Outros comportamentos repetitivos associados [2]:

    • Roer unhas, arrancar cutículas, morder lábios ou língua, bruxismo

Esquema de tratamento

  • Encaminhar para manejo por equipe [1]:

    • Psiquiatra, terapeuta comportamental, psicólogo e dermatologista

    • Conferir em "Encaminhamento e seguimento"

  • Terapia comportamental é o pilar do tratamento [1][2]:

    • Reversão de hábito: tratamento comportamental mais eficaz [2]

    • TCC: eficaz na tricotilomania [3]

    • Conferir em "Terapia comportamental"

  • Fármacos [1][3]:

    • Associados à terapia comportamental [1]

    • A combinação de terapia e fármaco pode ser mais eficaz que cada abordagem isolada [3]

    • Prescrição pelo especialista

    • Conferir em "Tratamento pelo especialista"

  • Em qualquer tratamento [1]:

    • Orientação ao paciente e à família (conferir em "Orientação ao paciente e à família")

    • Expectativa: doença sem cura, com recaídas e remissões

Terapia comportamental

  • Reversão de hábito, três componentes [1]:

    • Consciência: reconhecer o ato e as situações ou emoções que o desencadeiam, inclusive o momento em que está prestes a arrancar

    • Resposta concorrente: uma ação realizada no lugar de arrancar, sempre que arrancar ou sentir a urgência de arrancar

    • Apoio social: pessoas próximas elogiam o uso correto da técnica e lembram o paciente de usá-la

  • TCC: isolada ou associada à reversão de hábito [1][2]

  • Automonitoramento [2]:

    • Registro diário do comportamento de arrancar, para acompanhar o progresso e a adesão

    • Limitações: tricofagia e arrancar sem consciência

Tratamento pelo especialista

  • Regras de uso:

    • Prescrição pelo especialista

    • Sempre associado à terapia comportamental [1]

  • Opções farmacológicas [1][2][3]:

    • Clomipramina: fármaco com maior apoio no tratamento [2]; entre os antidepressivos tricíclicos, o mais estudado, com eficácia demonstrada [1]; evidência preliminar de efeito [3]

    • ISRS: efeito modesto, maior quando associado à terapia [1]; resultados mistos, benefício da fluoxetina não confirmado em ensaios controlados [2]; opção de tratamento, sem evidência forte de efeito [3]

    • Antipsicóticos:

      • Olanzapina, aripiprazol e quetiapina: dados preliminares [1]

      • Baixas doses de risperidona, pimozida ou haloperidol: associação em resposta parcial [2]

    • N-acetilcisteína: dados preliminares [1][3]

  • Situação específica [2]:

    • Arrancar provocado por prurido: corticoide tópico associado à clomipramina pode ser efetivo

  • Após a resposta inicial [2]:

    • Recaída frequente após a resposta inicial ao fármaco

Orientação ao paciente e à família

  • Abordagem [2]:

    • A própria avaliação pode funcionar como acolhimento

  • Medidas do dia a dia [1][2]:

    • Evitar situações estressantes e gatilhos do arrancar [1]

    • Limitar as atividades associadas (dirigir, ler, trabalho com papéis, televisão, telefone), quando possível [1]

    • Aumentar a atividade física [1]

    • Registro diário do comportamento [2]

  • Família:

    • Em criança, envolver os pais no relato do comportamento [2]

    • Pessoas próximas fazem parte do apoio social da reversão de hábito [1]

  • Expectativa [1]:

    • Doença crônica, com recaídas e remissões

    • Perda permanente de cabelo principalmente em quem arranca até a vida adulta

Encaminhamento e seguimento

  • Encaminhamento [1][2][3]:

    • Todo paciente com tricotilomania: manejo por equipe que inclua psiquiatra e terapeuta comportamental [1][2]

    • Dermatologia: pode ser consultada [1]

    • Suspeita de tricobezoar: investigação imediata (conferir em "Tricobezoar e outras complicações") [1]

  • Seguimento [1][2]:

    • Fotografias das áreas acometidas para avaliar a resposta [1]

    • Registro diário do comportamento [2]

    • Checar cicatriz nos folículos: sem cicatriz, o recrescimento é possível [1]

    • Doença com recaídas e remissões [1]; instituir estratégias de prevenção da recaída [2]

  • Prognóstico [1][2]:

    • Início na infância ou na adolescência: pode ter evolução benigna, com pouca ou nenhuma intervenção [2]

    • Início na vida adulta: pode ter quadro mais grave, resistente ao tratamento e associado a comorbidades psiquiátricas [2]

    • Prognóstico melhor quanto mais jovem o início e quanto mais precoces o diagnóstico e o tratamento [1]

Referências

[1] PEREYRA, Aubree D.; SAADABADI, Abdolreza. Trichotillomania. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2023 (atualizado em 26 jun. 2023). Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK493186/. Acesso em: 23 out. 2026.

[2] TOLEDO, Edson Luiz; TARAGANO, Rogéria Oliveira; CORDÁS, Táki Athanássios. Tricotilomania. Revista de Psiquiatria Clínica, v. 37, n. 6, p. 251-259, 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rpc/a/6pvPtRXVsxWY58NX3MNQWvk/?lang=pt. Acesso em: 23 out. 2026.

[3] PHILLIPS, T. Grant; SLOMIANY, W. Paul; ALLISON, Robert. Hair Loss: Common Causes and Treatment. American Family Physician, v. 96, n. 6, p. 371-378, 2017. Disponível em: https://www.aafp.org/pubs/afp/issues/2017/0915/p371.html. Acesso em: 23 out. 2026.

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