Doenças Exantemáticas Papulovesiculares: Abordagem Diagnóstica
CID 10: B01 - Varicela [Catapora]
CID 10: B084 - Estomatite vesicular devida a enterovírus com exantema
Introdução
As doenças exantemáticas papulovesiculares constituem um grupo de infecções virais frequentes na infância, caracterizadas pelo surgimento de lesões cutâneas que evoluem de máculas ou pápulas para vesículas, muitas vezes acompanhadas de sintomas sistêmicos.
Entre os principais diagnósticos diferenciais desse padrão lesional estão a varicela e a síndrome mão-pé-boca (MPB), ambas de etiologia viral, alta contagiosidade e relevância epidemiológica em ambiente escolar e domiciliar.
Varicela:
Infecção viral altamente contagiosa, mais frequente no final do inverno e início da primavera; em crianças, geralmente cursa de forma leve e confere imunidade duradoura, podendo, em alguns casos, evoluir de forma grave [1].
Síndrome mão-pé-boca (MPB):
Enfermidade de alta contagiosidade, de transmissão fecal-oral e respiratória, causada pelo vírus Coxsackie; acomete principalmente crianças menores de 5 anos, sendo, na maioria dos casos, benigna e autolimitada [2].
Fluxograma Diagnóstico
![papulovesiculares Fluxograma Diagnóstico: Doenças Exantemáticas Papulovesiculares na Infância: Varicela x Síndrome Mão-Pé-Boca. O fluxo parte de um paciente pediátrico com lesões papulovesiculares (exantema papulovesicular) e propõe a pergunta orientadora "Qual a distribuição predominante das lesões e o padrão evolutivo?", que se ramifica em dois caminhos diagnósticos. No caminho da síndrome mão-pé-boca, consideram-se lesões predominantes em mãos e pés, incluindo palmas e plantas, e mucosa oral, com vesículas ovaladas em formato de "grão de arroz" [2], acompanhadas de sintomas sistêmicos como febre, dor de garganta e recusa alimentar, sendo que as lesões orais podem ser o achado predominante [2]; ilustra-se uma lesão papulovesicular em planta do pé (fonte: SBP, Documento Científico, 2019) [2]. Em seguida, orienta-se investigar sinais de alerta — sudorese fria, pele moteada, taquicardia, taquipneia, hipertensão arterial e hiperglicemia [2] —, que se desdobram em duas condutas: quando ausentes, o quadro é típico e autolimitado, durando cerca de uma semana; quando presentes, há risco de disautonomia e falência cardiopulmonar, associado ao enterovírus EV71 [2]; ambas as vias convergem para o diagnóstico de síndrome mão-pé-boca (CID B08.4), cuja conduta envolve tratamento sintomático, hidratação e dieta pastosa, com internação e uso de imunoglobulina intravenosa (IGIV) nos casos com acometimento do sistema nervoso central ou autonômico [2]. No caminho da varicela, consideram-se lesões em face e áreas cobertas do corpo, disseminando para todo o corpo, incluindo mucosa oral, genitália e região do ouvido [1], com padrão evolutivo em que a mácula avermelhada evolui para vesícula de conteúdo claro ou purulento e, ao romper, forma crosta [1]; ilustram-se lesões vesiculares em diferentes estágios evolutivos (fonte: KidsHealth®, via SBP, 2023) [1]. Associam-se sintomas como febre baixa, vômitos, dor de cabeça e irritabilidade, com múltiplos estágios evolutivos das lesões coexistindo na mesma região anatômica [1][2], além do alerta de que o uso de ácido acetilsalicílico (AAS) é contraindicado pelo risco de síndrome de Reye, sendo complicações raras a pneumonia, a infecção bacteriana secundária de pele e alterações neurológicas [1]; esse caminho conduz ao diagnóstico de varicela, ou catapora (CID B01), cuja conduta inclui tratamento sintomático para prurido e dor, afastamento escolar até a fase de crosta (em média sete dias) e vacinação de bloqueio em contactantes suscetíveis [1]. Fonte: [1] Sociedade Brasileira de Pediatria. Grupo de Trabalho Educação e Saúde (gestão 2022-2024). Varicela (Catapora). Informativo para as Escolas, nº 42, 03 fev. 2023; [2] Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Dermatologia; Departamento Científico de Infectologia (2019-2021). Síndrome Mão-Pé-Boca. Documento Científico, set. 2019.](https://assets.gpmed.app/undefined/1787666538943_127f5682.png)
Varicela (Catapora)
Agente Etiológico e Transmissão
Agente causador: vírus Varicella-zoster [1].
Transmissão: pessoa a pessoa, por contato direto ou por secreções respiratórias [1].
Se adquirida nas primeiras semanas de gestação, pode causar malformação fetal [1].
Quadro Clínico
Lesões de pele em áreas cobertas do corpo e face, com disseminação para todo o corpo, incluindo mucosa da boca, genitália e região do ouvido [1].
Evolução das lesões [1]:
Início como manchas avermelhadas (máculas).
Adquirem conteúdo líquido claro ou purulento, caracterizando a vesícula.
Ao romper, formam crostas.
Pode vir acompanhada de febre baixa, vômitos, dor de cabeça e irritabilidade [1].
Complicações
Mais comum: infecção de pele [1].
Mais raras: pneumonia, doenças neurológicas, renais e hemorrágicas [1].
No feto: malformações diversas, quando a infecção ocorre nas primeiras semanas de gestação [1].
Atenção
É fortemente contraindicado o uso de AAS (ácido acetilsalicílico) em crianças e adolescentes com quadros virais, em especial na varicela, pelo risco de Síndrome de Reye (doença rara, porém grave, associada ao uso destes medicamentos) [1].
Deve-se também evitar o uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), como o ibuprofeno, durante o curso da varicela: estudos caso-controle associam seu uso a maior risco de infecções bacterianas graves de pele e tecidos moles, incluindo fasciíte necrotizante [3][4][5]. O paracetamol é considerado o antitérmico/analgésico de escolha nesse contexto [5].
Conduta e Cuidados
Orientar pais/responsáveis a procurar atendimento em saúde [1].
Na maioria dos casos, é necessário apenas o uso de medicação para controle de coceira e dor; a fonte não especifica fármaco ou posologia para essa indicação [1].
Evitar uso de pomadas, cremes, pasta d'água ou banho de permanganato: o uso destas substâncias pode piorar as lesões e a coceira, favorecendo a infecção bacteriana local das feridas [1].
Imunoglobulina humana (antivaricela-zóster): indicada para gestantes e pessoas com doenças que diminuem a imunidade, após contato com casos de varicela ou herpes-zóster; a Unidade Educacional deve comunicar esses casos à Unidade Básica de Saúde [1].
Prevenção
O caso confirmado deve ser afastado imediatamente das atividades escolares [1].
Diante de um caso confirmado, a Unidade Educacional deve comunicá-lo à Unidade Básica de Saúde de referência, para realização de vacinação de bloqueio em crianças suscetíveis entre 9 meses e 5 anos, 11 meses e 29 dias [1].
Recomenda-se não aceitar matrículas de crianças suscetíveis até que tenham decorrido 21 dias do último caso; na impossibilidade, vacinar a criança antes da admissão [1].
A vacina é oferecida pelo Sistema Único de Saúde para todas as crianças, em esquema de 2 doses (15 meses e 4 anos) [1].
Afastamento Escolar e Notificação
Afastamento: desde o início das lesões de pele até que todas estejam na fase de crosta, em média 7 dias, podendo perdurar até 14 dias [1].
Notificação: a ocorrência do primeiro caso em creches já é considerada surto [1].
Síndrome Mão-Pé-Boca
Agente Etiológico e Transmissão
Causada pelo vírus Coxsackie, pertencente à família Picornaviridae, gênero Enterovírus (EV) [2].
Principais agentes: coxsackievírus A16 e EV71; menos frequentemente, outros coxsackievírus A e B [2].
Transmissão pessoa a pessoa, direta ou indireta, pelas fezes ou por secreções respiratórias [2].
Período de transmissibilidade [2]:
Início: alguns dias antes do início dos sintomas.
Maior transmissibilidade: primeira semana após o início dos sintomas.
Excreção respiratória limitada a 1 a 3 semanas; excreção fecal pode persistir por semanas após a infecção primária.
Período de incubação: 3 a 6 dias, na maioria dos casos [2].
Mais frequente em crianças menores de 5 anos, embora possa acometer também adultos [2].
Não é doença de notificação compulsória; porém, dois ou mais casos relacionados devem ser notificados como surto [2].
Quadro Clínico
Doença benigna e autolimitada na maioria dos casos, com duração aproximada de uma semana; entretanto, já foram relatados surtos com erupções extensas e evolução desfavorável, incluindo óbitos [2].
Manifestações clínicas [2]:
Febre, dor de garganta e recusa alimentar.
Lesões vesiculares na mucosa bucal e na língua.
Erupção pápulo-vesicular localizada nas mãos e pés, incluindo palmas e plantas.
Menos frequentemente: cotovelos, tornozelos, glúteos e região genital.
As vesículas são ovaladas, com formato de "grão de arroz"; as lesões ulceradas na cavidade oral podem não estar presentes em todos os casos [2].
Formas graves [2]:
Podem apresentar mioclonia, tremores, ataxia e paralisia de nervos cranianos.
Podem evoluir com falência cardiorrespiratória, frequentemente fatal.
Relacionadas principalmente ao EV71, que pode acometer o sistema nervoso central e autonômico, provocando alterações circulatórias, cardíacas e edema pulmonar.
Formas extensas: lesões vésico-bolhosas nos cotovelos, joelhos, nádegas, região dorsal de pés e mãos, podendo incluir bolhas disseminadas [2].
Sinais de alerta (alteração do sistema nervoso autônomo) [2]:
Sudorese fria, pele moteada, taquicardia, taquipneia, hipertensão arterial e hiperglicemia.
Crianças com essa sintomatologia apresentam risco aumentado de complicações graves e devem ser internadas e monitorizadas continuamente.
Complicações
Desidratação: complicação mais frequente, decorrente da dificuldade de ingesta de líquidos pelas lesões aftosas da cavidade oral, podendo cursar com dificuldade de engolir a própria saliva [2].
Onicomadese: descolamento da unha a partir da base, nas mãos e/ou pés, ocorrendo de 3 a 8 semanas após a infecção aguda; melhora gradualmente, com recuperação total em aproximadamente 2 meses, sem necessidade de tratamento [2].
Descamação das mãos e pés, em alguns casos [2].
Falência cardiopulmonar (incomum): precedida por alterações do sistema nervoso central e desregulação do sistema nervoso autônomo [2].
Diagnóstico Laboratorial
O diagnóstico é predominantemente clínico, com base na aparência típica das lesões e sua localização [2].
Em casos com complicações, pode-se utilizar [2]:
Hemograma: alterações inespecíficas, com aumento da contagem de leucócitos e neutrofilia.
CPK e CK-MB: podem estar aumentados em pacientes com miosite.
Radiografia de tórax: pode não demonstrar o comprometimento da vasculatura pulmonar, mesmo quando há edema pulmonar e alterações cardíacas.
Identificação viral [2]:
Isolamento e cultura celular: sensibilidade de 0 a 80%, conforme sorotipo; tempo de crescimento de 3 a 8 dias; taxa de isolamento de aproximadamente 30% em pacientes com meningite.
PCR (reação em cadeia da polimerase): atualmente substitui a cultura celular como padrão diagnóstico; sensibilidade de 66% a 100% e especificidade de 92% a 100% em amostras de líquor; disponível também para fezes, swab retal, orofaringe, urina e sangue.
Sorologia: utilizada principalmente para determinação de imunidade prévia em estudos epidemiológicos; baixa sensibilidade e especificidade na prática clínica, além de alto custo.
A imunidade não é duradoura; reinfecções já foram documentadas, inclusive pela mesma cepa viral [2].
Tratamento
A maioria das infecções por enterovírus é autolimitada, sendo o tratamento feito à base de sintomáticos [2].
Pleconaril: antiviral com atividade in vitro contra diversos enterovírus; apesar de ensaios clínicos randomizados para meningite asséptica terem demonstrado redução da duração e gravidade da cefaleia e diminuição da excreção viral, os benefícios foram limitados e a droga não foi licenciada até o momento [2].
Casos graves (encefalites, miopericardites, infecções neonatais, infecções em pacientes com deficiência de células B): opções terapêuticas limitadas, sem tratamento específico com eficácia comprovada até o momento [2].
Imunoglobulina humana intravenosa (IGIV) [2]
Recomendada nos casos de encefalite e paralisia flácida [2].
Precauções e contraindicações [7]: contraindicada em pacientes com hipersensibilidade conhecida à imunoglobulina humana; deve ser evitada em pacientes com deficiência seletiva de IgA com anticorpos anti-IgA, pelo risco de reação anafilática; requer cautela em pacientes com insuficiência renal, diabetes, depleção de volume ou idade avançada, pelo risco de disfunção renal aguda; há risco de eventos tromboembólicos, especialmente em infusões rápidas ou em pacientes de risco cardiovascular; recomenda-se hidratação adequada antes da infusão, velocidade de infusão controlada e monitorização clínica contínua durante e após a administração.
Casos graves com falência cardiopulmonar: uso de drogas vasoativas [2].
Indicação de internação [2]:
Lesões extensas e muitas lesões na cavidade oral: pode ser necessária internação para alimentação por sonda nasogástrica, pela dificuldade de deglutição.
Infecção secundária: indicados antibióticos.
Meningite asséptica: bom prognóstico.
Encefalite ou meningoencefalite com alterações do sistema nervoso central (letargia, ataxia, tremores, fraqueza muscular, febre acima de 39°C por mais de 48 horas): manter em observação e avaliação cuidadosa.
Sudorese fria, pele moteada, taquicardia, taquipneia, hipertensão e hiperglicemia: indicam internação, frequentemente conduzida como quadro grave pelo risco de óbito.
Deve-se adotar precauções padrão e de contato para crianças hospitalizadas durante toda a duração da doença [2].
Prevenção
Medidas de higiene, especialmente após a troca de fraldas, são recomendadas para diminuir o risco de transmissão [2].
Devem ser adotadas precauções com desinfecção de superfícies, objetos e utensílios utilizados por indivíduos doentes [2].
Vacina inativada de células inteiras do EV71: aprovada na China desde 2015 para prevenção das formas graves da doença; não há, até o momento, experiências reportadas fora da China com essa vacina [2].
Afastamento Escolar
Afastamento do ambiente escolar até o desaparecimento dos sintomas, geralmente entre 5 e 7 dias após o início do quadro [6].
O retorno deve considerar a melhora clínica geral, e não apenas a resolução de uma lesão isolada; recomenda-se, ainda, que a criança esteja afebril e apta a participar das atividades escolares [6].
Referências
[1] SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Grupo de Trabalho Educação é Saúde (gestão 2022-2024). Varicela (Catapora). Informativo para as Escolas, nº 42, 03 fev. 2023.
[2] SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Dermatologia; Departamento Científico de Infectologia (2019-2021). Síndrome Mão-Pé-Boca. Documento Científico, set. 2019.
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