Lesão por Queimadura Elétrica em Crianças

CID -10: T75.4

Introdução

  • A lesão elétrica é um trauma multissistêmico resultante do efeito direto da corrente elétrica sobre os tecidos, da conversão de energia elétrica em térmica e do trauma mecânico contundente associado. [1]

  • Pode causar destruição tecidual, disfunção de órgãos, complicações respiratórias e cardíacas, além de queimaduras que frequentemente exigem múltiplas intervenções cirúrgicas, incluindo fasciotomia e enxertos de pele. [1]

  • Na população pediátrica, a incidência apresenta distribuição bimodal por faixa etária: [1]

    • Crianças menores de 6 anos: exposição predominantemente doméstica, por contato com fios ou tomadas elétricas. As lesões de baixa voltagem são mais frequentes.

    • Crianças mais velhas e adolescentes: exposição de alta voltagem, geralmente relacionada a atividades como escalar árvores ou postes de energia.

  • Lesões elétricas acidentais em crianças são duas vezes mais comuns em meninos do que em meninas. [1]

  • Raios são uma causa adicional relevante: respondem por uma média de 300 ferimentos e até 100 mortes por ano nos Estados Unidos, com lesões mais comuns em jovens do sexo masculino durante atividades ao ar livre, especialmente na primavera e no verão. [1]

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Física e Mecanismo da Lesão Elétrica

  • O mecanismo e a extensão da lesão dependem de seis fatores principais: [1]

    • Quantidade de corrente (A)

    • Tensão (V)

    • Resistência tecidular (R)

    • Tipo de corrente (CA ou DC)

    • Via de passagem da corrente pelo corpo

    • Duração do contato

  • Tensão (V): [1]

    • Lesões de baixa voltagem: inferiores a 600 V; incluem a corrente doméstica (110 V no Brasil, 220 V em países europeus e asiáticos)

    • Lesões de alta voltagem: superiores a 1.000 V; linhas de alta tensão podem carregar mais de 100.000 V

    • Raios: exposição única de altíssima tensão (diferença de potencial superior a 10 milhões de volts), com duração de apenas milissegundos

  • Corrente (I): [1]

    • Corrente contínua (DC): direção de fluxo constante; encontrada em baterias, trilhos de trem e raios

    • Corrente alternada (CA): direção cíclica, entre 50 e 60 Hz na corrente doméstica padrão; particularmente arritmogênica

  • Resistência (R): determinada pelo tipo de tecido. Lei de Ohm: I = V/R. [1]

    • Tecidos de maior resistência (pele seca, osso, gordura): geram mais calor; protegem órgãos internos

    • Tecidos de menor resistência (nervos, vasos sanguíneos): transmitem melhor a corrente

    • Pele úmida: resistência drasticamente reduzida (inferior a 2.500 ohms vs. aproximadamente 100.000 ohms da pele seca), aumentando a passagem de corrente para órgãos internos

  • Mecanismos gerais de lesão: [1]

    • Efeito direto da corrente elétrica nos tecidos, com risco de disritmia ventricular e parada respiratória

    • Conversão de energia elétrica em térmica (queimadura eletrotérmica), predominante na maioria das correntes elétricas

    • Eletroporação: criação de poros nas membranas celulares com morte celular, sem geração de calor

    • Trauma mecânico secundário: espasmo muscular, arremesso da vítima, efeito de explosão (especialmente por raios)

  • Corrente alternada doméstica (CA) e exposição prolongada: [1]

    • A CA entre 15 e 150 Hz causa tetania muscular esquelética repetitiva

    • Quando o local de contato é a palma da mão, os flexores são mais fortes que os extensores, impedindo a soltura da fonte elétrica ("corrente de solta")

    • O prolongamento do contato agrava a lesão tecidual

Lesões por Sistema de Órgãos

Cardíaco

  • As disritmias são a principal causa de morte imediata. [1]

  • Incidência: estimada em aproximadamente 15% após lesão elétrica; a maioria é benigna (taquicardia sinusal, fibrilação atrial, complexos ventriculares prematuros). [1]

  • Fibrilação ventricular: disritmia fatal mais comum; ocorre em até 60% dos casos em que a via da corrente passa de uma mão para a outra. [1]

  • Momento: a maioria das disritmias ventriculares ocorre precocemente; algumas podem surgir até 12 horas após a exposição. [1]

  • Por tipo de exposição: [1]

    • Raios: disritmia inicial mais comum é a assistolia, frequentemente com parada respiratória concomitante; a atividade cardíaca espontânea tende a retornar antes da respiratória, gerando hipoxemia secundária que pode deteriorar para fibrilação ventricular

    • CA de baixa voltagem doméstica: pode causar disritmias ventriculares mesmo sem queimaduras visíveis

  • Dano miocárdico: incomum, mas pode ocorrer por lesão eletrotérmica, eletroporação ou contusão. Raros relatos de cardiomiopatia em Takotsubo e infarto do miocárdio. [1]

Neurológico

  • Dano ao sistema nervoso central e periférico é mais comum em lesões de alta voltagem. [1]

  • Parada respiratória: pode ocorrer imediatamente após a lesão, por efeito direto nos centros respiratórios do SNC ou por paralisia muscular respiratória; pode persistir após o retorno da circulação espontânea. [1]

  • Lesão de nervos periféricos: déficits sensitivos e motores de distribuição irregular ("em manchas"); fraqueza de extremidades inferiores pode não ser detectada inicialmente se a criança não deambular. As manifestações neurológicas de lesões de alta voltagem podem ser retardadas por dias a meses. [1]

  • Outras sequelas: convulsões refratárias, perda de consciência, sequelas neuropsicológicas e distúrbios de memória. [1]

  • Efeitos específicos de raios: ceraunoparalisia, disfunção autonômica, encefalopatia hipóxica, hemorragia intracerebral, infarto cerebral e fraturas da coluna vertebral por trauma contuso secundário. [1]

Pele e Queimaduras

  • Queimaduras superficiais, de espessura parcial e total podem ocorrer. [1]

  • Pele seca (resistência aproximada de 100.000 ohms): gera calor ao ser exposta à corrente, causando queimaduras locais; protege órgãos internos. [1]

  • Regra importante: as lesões cutâneas subestimam significativamente o grau de lesão térmica interna. Após exposição de alta voltagem, queimaduras superficiais aparentemente menores podem coexistir com coagulação muscular maciça e lesão de órgãos internos (analogia ao "pico do iceberg"). [1]

  • Padrões específicos de queimadura elétrica: [1]

    • Queimaduras de contato: mais frequentes no ponto de entrada da corrente e no ponto de contato com o solo; as mais comuns

    • Queimaduras orais: frequentes em crianças pequenas que mordem ou chupam fios de extensão; risco particular de hemorragia tardia da artéria labial quando a escara se separa, podendo ocorrer dias a duas semanas após a queimadura inicial

    • "Kissing burns": queimaduras nas pregas de flexão, onde as superfícies flexoras adjacentes a uma articulação se tocam

    • Queimaduras por chama: ocorrem quando as roupas pegam fogo na presença de uma fonte elétrica; objetos metálicos (joias, fivelas, zíperes) podem superaquecer após um raio, causando queimaduras superficiais e profundas

    • Figuras de Lichtenberg: lesões cutâneas ramificadas, em "pena", transitórias; patognomônicas de lesão por raio

    • Queimaduras por arco elétrico: lesões de alta voltagem com centro seco e esbranquiçado e comprometimento profundo de músculo e tecido

    • Flash elétrico: queimaduras superficiais ou de espessura parcial difusas, sem lesão profunda

  • Queimaduras térmicas: classificação geral [2]

    • Classificadas por profundidade e extensão (% de superfície corporal total, TBSA)

    • A terminologia tradicional de 1°, 2° e 3° grau foi substituída por: superficial, espessura parcial e espessura total

    • Queimadura superficial (1° grau): epiderme apenas; não requer curativo

    • Espessura parcial (2° grau): acomete derme; requer curativo e antibiótico tópico

    • Espessura total (3° grau): toda a espessura da pele; frequentemente requer enxerto cirúrgico

Musculoesquelético e Renal

  • Ossos e tecidos adjacentes: o osso possui a maior resistência de todos os tecidos, gerando intensa calor quando exposto à corrente elétrica; podem ocorrer queimaduras periosteais, destruição da matriz óssea e osteonecrose, especialmente nas lesões de alta voltagem. [1]

  • Fraturas: podem ocorrer por queda, arremesso ou pelo estresse das contrações tetânicas musculares repetitivas. [1]

  • Síndrome compartimental: a lesão eletrotérmica profunda causa necrose e edema tecidual; pode levar a síndrome compartimental de extremidades. [1]

  • Rabdomiólise: a necrose tecidual maciça pode causar rabdomiólise e lesão visceral. [1]

  • Lesão renal aguda: pode ocorrer por hipovolemia ou por lesão pigmentar decorrente da rabdomiólise (mioglobinúria). [1]

Olho e Ouvido

  • Membrana timpânica: ruptura em 50 a 80% dos pacientes atingidos por raios; pode ser um achado importante quando a criança é encontrada inconsciente sem causa aparente. [1]

  • Perda auditiva neurossensorial, zumbido, vertigem e lesão do nervo facial também são descritos. [1]

  • Oftalmológico: catarata, hifema, hemorragia vítrea e lesão do nervo óptico podem ocorrer após lesão por raio. Todas as vítimas de raio, mesmo assintomáticas, devem ser encaminhadas a oftalmologista para avaliação ambulatorial abrangente. [1]

Vascular e Gastrointestinal

  • Lesão vascular: lesão por compartimento ou coagulação elétrica de pequenos vasos; trombose arterial tardia e formação de aneurisma foram relatados. [1]

  • Lesão gastrointestinal: incomum; quando ocorre, geralmente por insulto vascular semelhante à isquemia mesentérica. Pode se apresentar com íleo paralítico persistente, dor ou sensibilidade abdominal de forma tardia. [1]

Avaliação Pré-Hospitalar

  • Avaliar a segurança da cena antes de qualquer abordagem: não avançar até que a fonte elétrica seja desligada ou os fios de alta tensão sejam desenergizados. [1]

  • Triagem invertida em eventos com múltiplas vítimas (ex.: queda de raio): atender primeiro os pacientes aparentemente sem sinais de vida, pois os que apresentam atividade cardíaca e respiratória tendem a sobreviver sem intervenção imediata. [1]

  • Após queda de raio: evacuar a cena o mais rápido possível e continuar a reanimação durante o transporte, pois as condições que causaram o raio podem persistir. [1]

Avaliação e Manejo Inicial

Paciente em Parada Cardiorrespiratória

  • Prolongar os esforços de RCP, independentemente do ritmo inicial ou do exame pupilar, mesmo na presença de assistolia. [1]

    • Pupilas fixas, dilatadas ou assimétricas em vítimas de raio não devem ser utilizadas para encerrar a reanimação, pois podem refletir disfunção autonômica e não lesão cerebral. [1]

  • O tratamento das disritmias específicas segue os princípios do ACLS/PALS. [1]

  • Pacientes que retomam atividade cardíaca espontânea mas permanecem sem respiração exigem ventilação imediata para prevenir lesão cardíaca e neurológica hipóxica secundária. [1]

Todos os Pacientes

  • Avaliação de trauma: seguir os princípios do ATLS (avaliação primária e secundária), com atenção a: [1]

    • Avaliação rápida das vias aéreas, status cardiopulmonar e pulsos

    • Suspeita de inalação de fumaça ou queimadura de vias aéreas

    • Imobilização da coluna cervical nos casos com lesão elétrica significativa ou rebaixamento do nível de consciência

    • Pesquisa de sangramento torácico ou intraabdominal em pacientes hipotensos

    • Neuroimagem em alteração do nível de consciência, coma ou déficit neurológico

    • Radiografias das regiões suspeitas de trauma, incluindo coluna cervical

  • Exame físico dirigido: [1]

    • Exame neurológico completo, incluindo reatividade pupilar, força motora e sensibilidade

    • Inspeção de toda a superfície corporal para queimaduras (descoloração, bolhas, carbonização); em crianças pequenas, examinar cuidadosamente a cavidade oral

    • Palpação de ossos e coluna; amplitude de movimento de todas as articulações e avaliação de compartimentos

    • Inspeção das membranas timpânicas

    • Exame ocular completo, incluindo acuidade visual, biomicroscopia e fundoscopia

  • Monitorização cardíaca contínua (telemetria): indicada em todos os pacientes, exceto quando todos os critérios abaixo estiverem presentes: [1]

    • Exposição de baixa voltagem

    • Ausência de sintomas

    • Sem relato de perda de consciência

    • Exame físico normal (sem queimaduras cutâneas ou feridas no ponto de contato)

  • Exames complementares: [1]

    • Todos os pacientes, mesmo assintomáticos: ECG

    • Qualquer paciente sintomático ou com queimaduras cutâneas: acrescentar EAS/urinálise (pesquisa de mioglobinúria)

    • Pacientes com exposição de alta voltagem, raio, queimaduras extensas, suspeita de lesão profunda ou com previsão de internação: acrescentar:

      • Eletrólitos séricos (incluindo cálcio)

      • Creatinoquinase (CK)

      • Troponina sérica

      • Hemograma completo

      • Função renal (creatinina e ureia)

Manejo das Feridas

  • Feridas tratadas de forma semelhante às queimaduras térmicas por chama. [1][2]

  • Cuidados iniciais das queimaduras: [2]

    • Remover roupas, joias e detritos não aderentes

    • Resfriar com água corrente em temperatura ambiente ou gaze úmida resfriada por até 30 minutos; não utilizar gelo ou água gelada, pois aumentam dor e lesão tecidual

    • Monitorar hipotermia, especialmente em crianças pequenas

    • Limpar com sabão suave e água; não utilizar soluções iodadas (inibem a cicatrização)

    • Desbridar bolhas rompidas e pele necrótica; bolhas íntegras menores de 2 cm podem ser mantidas

  • Antibiótico tópico: indicado em queimaduras não superficiais. [1][2]

    • Sulfadiazina de prata (SSD): frequentemente utilizada; pode retardar a cicatrização e aumentar a frequência de trocas de curativo

    • Curativos modernos com prata ou hidrocoloides podem ser superiores à SSD

  • Profilaxia antitetânica: indicada conforme situação vacinal. [1][2]

  • Curativos: queimaduras superficiais não exigem curativo; queimaduras de espessura parcial e total requerem. [2]

    • Curativo básico: gaze não aderente (ex.: Adaptic, Xeroform) sobre a queimadura, seguida de gaze seca e rolo de gaze elástica (ex.: Kerlix); dedos devem ser envolvidos individualmente

    • Trocas diárias para curativos com antibiótico tópico e gaze não aderente

Manejo por Tipo de Exposição

Alta voltagem (exceto raios): [1]

  • Lesão profunda de tecidos e órgãos internos mais provável; o grau externo de lesão não reflete o dano interno

  • CK > 400 U/L: sinal de lesão tecidual profunda; CK > 5.000 U/L no primeiro dia: maior risco de amputação e mortalidade

  • Reposição volêmica agressiva com soro fisiológico isotônico, iniciando 1 L/hora em adultos (em crianças, ajustar proporcionalmente ao peso); evitar soluções com potássio; não usar fórmulas de Parkland (subestimam a lesão)

  • Débito urinário alvo: > 100 mL/hora em adultos; aproximadamente 1,5 a 2 mL/kg/hora em crianças

  • Monitorar eletrólitos e função renal a cada 2 a 4 horas nas fases iniciais

  • Monitorar síndrome compartimental: compartimentos tensos e dolorosos, dor à extensão passiva, parestesias, palidez

  • CK seriada: correlaciona-se com a necessidade de cirurgia

  • Fasciotomia dentro de 6 horas pode prevenir amputação; a decisão é do cirurgião de queimados

  • Monitorização cardíaca por 12 a 24 horas, mesmo sem lesão aparente

  • Profilaxia gástrica com inibidor de bomba de prótons (IBP) para prevenção de úlceras de Curling [1]

Raios: [1]

  • Queimaduras profundas são incomuns (apenas 5% dos casos em uma série; 89% apresentavam queimaduras, mas a maioria superficial)

  • Alterações do ECG (supradesnivelamento de ST, alterações de onda T e ST, prolongamento do QT) são frequentes, mas geralmente não são indicativas de lesão miocárdica e costumam resolver sem sequelas

  • Monitorização cardíaca por 24 horas quando: alterações persistentes do ECG, disritmia, parada cardíaca, troponina elevada, cardiomiopatia ou suspeita de impacto direto; caso contrário, observar no pronto-socorro por 4 a 6 horas

  • Pacientes com extremidades azuladas, mosqueadas e sem pulso: não realizar fasciotomia; provavelmente ceraunoparalisia, que se resolve espontaneamente em horas a dias

  • Reposição volêmica agressiva não é necessária como nas lesões térmicas ou elétricas com comprometimento profundo

  • Monitorar sódio: hiponatremia com sinais de depleção do volume extracelular pode indicar síndrome cerebral perdedora de sal

Baixa voltagem: [1]

  • Assintomáticos, sem queimaduras, sem perda de consciência e ECG normal: não requerem exames adicionais nem monitorização cardíaca; podem receber alta com orientações

  • Sintomas leves ou queimaduras cutâneas menores: realizar ECG e EAS; observar em monitorização cardíaca contínua por 6 horas; se ECG normal, sem mioglobinúria e sem disritmia, alta com acompanhamento conforme lesões

  • Exposição prolongada à CA por incapacidade de soltar: pode causar queimaduras de espessura total em pele, tecido subcutâneo, tendões e músculo; encaminhar para centro de queimados

Queimadura Oral Elétrica

Considerações:

  • Ocorre frequentemente em crianças pequenas que mordem ou chupam fios de extensão. [1]

  • Risco principal: hemorragia tardia da artéria labial quando a escara se separa, podendo ocorrer dias a duas semanas após a queimadura inicial. [1]

  • Defeitos estéticos também são comuns. [1]

  • Queimadura oral significativa: indicação de internação para hidratação intravenosa, controle da dor e avaliação da cirurgia plástica. [1]

  • Queimadura oral leve limitada à comissura oral: pode receber alta se for possível garantir acompanhamento com otorrinolaringologista ou cirurgião plástico em 2 a 3 dias, e desde que os pais ou responsáveis sejam orientados sobre o risco de sangramento tardio. [1]

  • Orientação a cuidadores: implementar medidas preventivas no domicílio, como protetores de tomada e manter fios elétricos e de extensão fora do alcance das crianças. [1]

Avaliação e Manejo Geral:

  • A avaliação e o manejo após lesão elétrica em crianças são semelhantes aos dos adultos, com exceção das queimaduras orais. [1]

  • Na abordagem das queimaduras em crianças, aguardar 2 semanas antes de avaliar a necessidade cirúrgica em queimaduras por escaldo; excisão e enxerto precoces excessivamente agressivos resultaram em desfechos piores. [2]

  • Cicatrizes hipertróficas são esperadas quando a epitelização demora mais de 10 a 14 dias em crianças negras e pequenas, e mais de 14 a 21 dias nas demais. [2]

Critérios de Internação e Encaminhamento

  • Internação em UTI:

    • Indicada em casos de: [1]

      • Instabilidade hemodinâmica (disritmia recorrente ou hipotensão)

      • Trauma significativo

      • Queimaduras extensas ou suspeita de lesão profunda

  • Transferência para centro de queimados:

    • Indicada em: [1][2]

      • Queimaduras significativas ou lesão profunda de tecidos, após estabilização

      • Queimadura oral elétrica com lesão significativa

      • Exposição prolongada à CA com queimaduras de espessura total em extremidades

      • Queimaduras sem início de epitelização após 1 semana

      • Feridas com complicações (infecção, tecido necrótico, cicatriz hipertrófica)

      • Na transferência: cobrir as feridas apenas com gaze seca não aderente; não aplicar pomadas ou curativos úmidos; manter o paciente aquecido e acelerar o transporte [2]

  • Alta com seguimento ambulatorial:

    • Pacientes com avaliação tranquilizadora e sem fatores de risco para sequelas cardíacas graves, após 4 a 6 horas de observação. [1]

Seguimento

  • Pacientes com exposição de alta voltagem ou por raio devem ser orientados a agendar: [1]

    • Otorrinolaringologista: avaliação otológica e audiometria

    • Oftalmologista: avaliação de catarata de desenvolvimento tardio (pode surgir dias, semanas ou meses após a lesão); todas as vítimas de raio devem ser encaminhadas mesmo que assintomáticas

    • Cardiologista: pacientes com alterações do ECG ou bloqueios atrioventriculares/de ramo

    • Psiquiatra: pacientes com sinais de depressão ou transtorno de estresse pós-traumático (TEPT); taxas significativas após lesão por raio

    • Crianças com queimadura oral leve da comissura devem retornar ao otorrinolaringologista ou cirurgião plástico em 2 a 3 dias. [1]

  • Acompanhamento das queimaduras: [2]

    • Dia seguinte à lesão: ajuste de analgesia e avaliação da troca de curativo

    • Semanal até epitelização completa

    • A cada 4 a 6 semanas após epitelização: monitorar cicatriz hipertrófica

    • Aplicação precoce de folhas de gel de silicone pode reduzir risco de cicatriz hipertrófica

Referências

[1] O'KEEFE, Kelly P. Electrical injuries and lightning strikes: Evaluation and management. In: UpToDate. Atualizado em: 22 jul. 2025.
Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/electrical-injuries-and-lightning-strikes-evaluation-and-management

[2] WIKTOR, Arek; RICHARDS, David. Treatment of minor thermal burns. In: UpToDate. Atualizado em: 9 jun. 2026.
Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/treatment-of-minor-thermal-burns

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