Capsulite Adesiva (ombro congelado)

CID-10: M750 - Capsulite adesiva do ombro

Introdução

  • A capsulite adesiva, também conhecida como ombro congelado, é uma síndrome dolorosa caracterizada por perda progressiva da mobilidade glenoumeral ativa e passiva, decorrente de inflamação seguida por fibrose e contratura da cápsula articular. O quadro costuma evoluir lentamente ao longo de meses, causando importante limitação funcional e impacto nas atividades de vida diária.

  • O diagnóstico é predominantemente clínico, sendo os exames de imagem utilizados principalmente para excluir outras causas de dor no ombro. O tratamento inicial tem como objetivo o controle da dor, permitindo posteriormente a reabilitação funcional.

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Epidemiologia e classificação

Epidemiologia

  • Incidência estimada entre 2–5% da população geral;

  • Maior frequência entre 40 e 60 anos;

  • Predomina no sexo feminino;

  • Diabetes mellitus aumenta significativamente o risco (prevalência podendo chegar a 20%).

  • Também apresenta associação com:

    • Hipotireoidismo e hipertireoidismo.

    • Doença de Parkinson.

    • Doenças cardiovasculares.

    • Imobilização prolongada.

    • Cirurgias ou traumas do ombro.

    • Cirurgias torácicas ou mamárias.

Pode ser classificada em:

  • Primária (idiopática): sem causa identificável.

  • Secundária: relacionada a trauma, cirurgia, imobilização ou outra doença do ombro.

Anamnese

A história clínica costuma ser bastante característica.

Queixas principais

  • Dor de início insidioso;

  • Dor progressiva ao longo de semanas ou meses;

  • Dor noturna, frequentemente despertando o paciente;

  • Dificuldade para vestir roupas;

  • Dificuldade para pentear os cabelos;

  • Limitação para alcançar objetos acima da cabeça;

  • Dificuldade para colocar a mão nas costas (abotoar sutiã, colocar carteira no bolso traseiro).

Perguntas importantes

  • Houve trauma recente?

  • Foi realizada cirurgia no ombro, tórax ou mama?

  • Houve período prolongado de imobilização?

  • Possui diabetes mellitus?

  • Possui doença da tireoide?

  • Já apresentou episódios semelhantes?

  • A dor surgiu antes da limitação do movimento? (achado típico)

Evolução clínica

  • Classicamente ocorre em três fases:

    • Fase dolorosa 

      • Dor intensa;

      • Piora noturna;

      • Início da perda de mobilidade;

      • Duração aproximada de 2 a 9 meses.

    • Fase de rigidez

      • Dor tende a diminuir;

      • Rigidez importante;

      • Grande limitação funcional;

      • Duração de 4 a 12 meses.

    • Fase de recuperação

      • Recuperação gradual da amplitude de movimento;

      • Pode durar 12 a 36 meses.

Diagnóstico

O diagnóstico é essencialmente clínico.

Exame físico

  • O principal achado é a redução da amplitude de movimento ativa e passiva.

  • A perda de movimento costuma seguir o padrão:

    1. Rotação externa (primeira e mais acometida)

    2. Abdução

    3. Rotação interna

    4. Flexão

  • Outros achados:

    • Dor difusa no ombro.

    • Ausência de deformidades.

    • Força muscular geralmente preservada quando a dor permite avaliação.

    • Exame neurológico normal.

  • A perda simultânea dos movimentos ativos e passivos diferencia a capsulite adesiva da maioria das lesões do manguito rotador.

Exames complementares

  • Não existe exame que confirme isoladamente o diagnóstico.

  • Radiografia do ombro

    • Solicitar principalmente para excluir:

      • Artrose glenoumeral;

      • Calcificações;

      • Fraturas;

      • Tumores.

  • Ultrassonografia

    • Útil quando há suspeita de:

      • Lesão do manguito rotador;

      • Bursite;

      • Tendinopatias.

  • Ressonância Magnética

    • Não é exame obrigatório. Pode ser indicada quando:

      • Dúvida diagnóstica;

      • Suspeita de outras patologias;

      • Falha terapêutica;

      • Planejamento cirúrgico.

    • Achados possíveis:

      • Espessamento do ligamento coracoumeral;

      • Espessamento capsular;

      • Redução do recesso axilar.

Tratamento inicial (controle da dor)

O objetivo inicial é reduzir a dor para permitir o início da fisioterapia, principal tratamento da doença.

Medidas não farmacológicas

  • Explicar que a recuperação costuma ser lenta;

  • Evitar imobilização completa;

  • Manter movimentos dentro do limite da dor;

  • Iniciar fisioterapia precocemente;

  • Compressas quentes podem aliviar a dor antes dos exercícios.

Primeira linha

  • Paracetamol comp. 500–750 mg

    • Tomar 01 a 02 cp VO de 6/6h, se dor (máx. 3 g/dia), OU

  • Dipirona comp. 500 mg

    • Tomar 01 a 02 cp VO de 6/6h, se dor (máx. 4 g/dia).

Segunda linha (na ausência de contraindicações)

  • Ibuprofeno comp. 400 mg

    • Tomar 01 cp VO de 8/8h por 5–7 dias, após as refeições, OU

  • Naproxeno comp. 500 mg

    • Tomar 01 cp VO de 12/12h por 7–10 dias.

    • Sempre avaliar risco gastrointestinal, renal e cardiovascular antes da prescrição de AINEs.

Terceira linha

  • Quando houver dor intensa persistente, apesar das medidas iniciais:

    • Encaminhar para avaliação ortopédica.

    • Considerar infiltração intra-articular com corticosteroide, procedimento realizado por profissional habilitado, especialmente nas fases iniciais da doença, quando há maior componente inflamatório.

Critérios de encaminhamento

Encaminhamento eletivo ao ortopedista

  • Suspeita diagnóstica não esclarecida;

  • Limitação funcional importante;

  • Falha do tratamento conservador após 6–12 semanas;

  • Necessidade de infiltração intra-articular;

  • Persistência de dor intensa;

  • Suspeita de doença associada do manguito rotador;

  • Indicação de distensão capsular ou tratamento cirúrgico.

Encaminhamento urgente

  • Trauma importante com incapacidade funcional;

  • Suspeita de fratura ou luxação;

  • Febre ou sinais de artrite séptica;

  • Dor intensa associada a edema importante e calor local;

  • Déficit neurológico;

  • Suspeita de neoplasia;

  • Perda ponderal inexplicada ou dor noturna progressiva desproporcional.

Referências

[1] AMERICAN ACADEMY OF ORTHOPAEDIC SURGEONS (AAOS). Management of Frozen Shoulder (Adhesive Capsulitis): Clinical Practice Guideline. Rosemont: AAOS, versão vigente. Disponível em: https://www.aaos.org. Acesso em: 30 jul. 2026.

[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, versões vigentes. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 30 jul. 2026.

[3] LI, Daniel; ST ANGELO, John M.; TAQI, Muhammad. Adhesive Capsulitis (Frozen Shoulder). In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2026. Atualizado em 28 mar. 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK532955/. Acesso em: 30 jul. 2026.

[4] SOCIEDADE BRASILEIRA DE ORTOPEDIA E TRAUMATOLOGIA (SBOT). Diretrizes e consensos sobre patologias do ombro. São Paulo: SBOT, versões vigentes. Disponível em: https://sbot.org.br. Acesso em: 30 jul. 2026.

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