Dedo em Gatilho (tenossinovite estenosante)
CID-10: M65.3 – Dedo em gatilho
Introdução
O dedo em gatilho, ou tenossinovite estenosante, é uma das causas mais frequentes de dor e limitação funcional da mão no atendimento ambulatorial.
Caracteriza-se pelo espessamento do tendão flexor e/ou da polia A1, dificultando o deslizamento normal do tendão e provocando ressalto, travamento e dor durante a flexão e extensão do dedo.
Na Atenção Primária, o objetivo é reconhecer o quadro clínico, instituir medidas para alívio da dor e identificar os pacientes que necessitam de avaliação especializada para infiltração ou tratamento cirúrgico.
Epidemiologia e fatores de risco
Epidemiologia:
Incidência ao longo da vida estimada em 2–3% da população geral;
Mais frequente entre 40 e 60 anos;
Predomina no sexo feminino;
Acomete principalmente:
polegar;
quarto dedo (anelar);
dedo médio.
Geralmente ocorre na mão dominante;
Pode acometer múltiplos dedos.
Principais fatores de risco
Diabetes mellitus (principal fator associado);
Artrite reumatoide;
Hipotireoidismo;
Gota;
Amiloidose;
Síndrome do túnel do carpo;
Atividades com movimentos repetitivos das mãos;
Uso intenso de ferramentas vibratórias;
Trabalho manual pesado.
Pacientes diabéticos apresentam maior frequência de acometimento múltiplo, pior resposta ao tratamento conservador e maior necessidade de cirurgia.
Anamnese
Sintomas característicos
Dor localizada na base do dedo (região da articulação metacarpofalângica);
Sensação de ressalto durante o movimento;
Estalido doloroso ao abrir ou fechar a mão;
Rigidez matinal;
Sensação de dedo "preso";
Travamento em flexão que pode necessitar auxílio da outra mão para extensão;
Diminuição da força de preensão;
Nos casos avançados:
travamento permanente;
incapacidade de estender o dedo;
limitação funcional importante.
Perguntas importantes
Qual dedo está acometido?
Há quanto tempo os sintomas iniciaram?
Existe piora pela manhã?
O dedo chega a ficar completamente travado?
Existe trauma recente?
O paciente é diabético?
Possui artrite reumatoide ou outra doença reumatológica?
Há sintomas de síndrome do túnel do carpo?
O trabalho envolve movimentos repetitivos?
Diagnóstico
O diagnóstico é essencialmente clínico.
Exame físico
Os principais achados incluem:
dor à palpação sobre a polia A1;
nódulo palpável na base do dedo;
ressalto durante flexão/extensão;
bloqueio mecânico do movimento;
reprodução dos sintomas durante movimentação ativa.
Nos casos graves:
dedo permanece travado em flexão;
incapacidade de extensão ativa.
Classificação clínica (Quinnell)

Exames complementares (na maioria dos pacientes não são necessários)
Ultrassonografia
Pode ser útil quando:
há dúvida diagnóstica;
suspeita de outras lesões tendíneas;
planejamento de infiltração guiada.
Achados possíveis:
espessamento da polia A1;
aumento do tendão flexor;
tenossinovite.
Radiografia
Não confirma o diagnóstico. Solicitar apenas quando houver suspeita de:
fratura;
artrose importante;
corpo estranho;
outras doenças ósseas.
Ressonância magnética raramente é indicada.
Diagnóstico diferencial
Artrose das interfalângicas;
Doença de De Quervain;
Síndrome do túnel do carpo;
Tenossinovites inflamatórias;
Cistos sinoviais;
Lesões dos tendões flexores;
Artrite reumatoide;
Gota.
Tratamento inicial (controle da dor)
O manejo inicial na Atenção Primária tem como objetivo reduzir dor e inflamação, preservar a função da mão e encaminhar os casos que necessitam de tratamento definitivo.
Medidas não farmacológicas
Reduzir atividades repetitivas;
Evitar esforço manual intenso;
Aplicar gelo por 15–20 minutos, 3–4 vezes ao dia;
Alongamentos leves após melhora da dor;
Órtese de repouso (principalmente noturna) pode ser utilizada por 6–10 semanas em casos leves, mantendo a articulação metacarpofalângica em discreta flexão.
Tratamento farmacológico da dor
Os analgésicos e anti-inflamatórios aliviam os sintomas, mas não corrigem o bloqueio mecânico.
Dipirona comp. 500 mg
Tomar 1 a 2 comprimidos de 6/6 horas, se dor (máx. 4 g/dia).
Paracetamol comp. 500 mg ou 750 mg
Tomar 500–750 mg de 6/6 horas, se dor (máx. 3 g/dia em adultos sem doença hepática).
Ibuprofeno comp. 400 mg
Tomar 01 comprimido de 8/8 horas após alimentação, por até 5 dias, se não houver contraindicações.
Naproxeno comp. 500 mg
Tomar 01 comprimido de 12/12 horas, após alimentação, por curto período.
Diclofenaco gel 11,6 mg/g
Aplicar camada fina sobre a região dolorosa 3 a 4 vezes ao dia.
Critérios de encaminhamento
Encaminhamento para Ortopedia/Cirurgia da Mão
Encaminhar quando houver:
falha do tratamento conservador após 6–8 semanas;
travamento frequente do dedo;
dedo bloqueado em flexão;
limitação funcional importante;
recorrência após melhora inicial;
acometimento múltiplo;
necessidade de infiltração;
suspeita diagnóstica duvidosa;
diabetes com sintomas persistentes;
artrite reumatoide associada.
Encaminhamento urgente
Encaminhar rapidamente quando houver:
perda súbita da mobilidade;
suspeita de infecção da bainha tendínea;
trauma associado;
importante déficit neurovascular;
edema intenso, hiperemia e febre.
Resumo prático
Diagnóstico predominantemente clínico.
Dor na base do dedo + ressalto + travamento são altamente sugestivos.
Exames de imagem raramente são necessários.
Analgésicos, AINEs, gelo, modificação das atividades e órtese podem aliviar os sintomas iniciais.
A infiltração com corticosteroide é o principal tratamento não cirúrgico definitivo.
Casos refratários, recorrentes ou com bloqueio fixo devem ser encaminhados ao ortopedista/cirurgião da mão.
Diabetes aumenta a frequência da doença e reduz a resposta ao tratamento conservador.
Referências
[1] BRASIL. Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão. Diretrizes e recomendações para doenças da mão. São Paulo: SBCM, versão vigente. Disponível em: https://www.cirurgiadamao.org.br. Acesso em: 30 jul. 2026.
[2] GIL, Joseph A.; HRESKO, Ashley M.; WEISS, Arnold C. Current Concepts in the Management of Trigger Finger in Adults. Journal of the American Academy of Orthopaedic Surgeons, v. 28, n. 15, p. e642–e650, 2020. DOI: 10.5435/JAAOS-D-19-00614.
[3] JEANMONOD, Rebecca; TIWARI, Vivek; WASEEM, Muhammad. Trigger Finger. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK459310/. Acesso em: 30 jul. 2026.
[4] SOCIEDADE BRASILEIRA DE ORTOPEDIA E TRAUMATOLOGIA. Manual de Ortopedia e Traumatologia. São Paulo: SBOT, edição vigente. Disponível em: https://sbot.org.br. Acesso em: 30 jul. 2026.
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