Epicondilite Medial (cotovelo do golfista)
CID-10: M77.0 — Epicondilite medial
Introdução
A epicondilite medial é uma tendinopatia por sobrecarga da origem comum dos músculos flexores-pronadores no epicôndilo medial do úmero. Também denominada “cotovelo do golfista” ou “cotovelo do arremessador”, decorre de microtraumas repetitivos relacionados sobretudo à flexão do punho, pronação do antebraço e atividades de preensão sustentada.
Embora seja observada em atletas que realizam arremessos ou utilizam tacos e raquetes, é frequente em contextos ocupacionais com movimentos repetitivos e esforço manual. A apresentação típica é dor medial no cotovelo, com piora durante a atividade desencadeante.
Fluxograma de avaliação e manejo

Fisiopatologia e fatores associados
Sobrecarga repetitiva do complexo musculotendíneo flexor-pronador.
Movimentos repetidos de flexão do punho e pronação do antebraço.
Preensão manual vigorosa ou prolongada.
Microtrauma cumulativo na origem tendínea comum, com alterações degenerativas compatíveis com tendinose.
Estruturas frequentemente envolvidas:
Pronador redondo.
Flexor radial do carpo.
Contextos associados:
Golfe, arremessos, tênis, beisebol e outros esportes com carga repetitiva no membro superior.
Trabalho manual repetitivo, ferramentas vibratórias, carga e transporte de peso.
Retorno abrupto a atividades físicas ou laborais após inatividade.
Quadro clínico
Dor localizada na face medial do cotovelo.
Pode irradiar para a face volar e proximal do antebraço.
Habitualmente de instalação insidiosa.
Piora com:
Flexão resistida do punho.
Pronação resistida do antebraço.
Preensão manual.
Movimentos que reproduzam a atividade desencadeante.
Sensibilidade dolorosa à palpação:
Geralmente distal e anterior ao epicôndilo medial, sobre a origem flexor-pronadora.
Pode haver redução funcional por dor e diminuição da força de preensão.
Sintomas neurológicos, como parestesias no quarto e quinto dedos, exigem investigação de acometimento do nervo ulnar.
Diagnóstico
O diagnóstico é predominantemente clínico, baseado na história de sobrecarga mecânica e no exame físico direcionado.
Exames de imagem não são necessários nos casos típicos, mas podem ser indicados diante de apresentação atípica, trauma, déficit neurológico, suspeita de lesão associada ou falha do tratamento conservador.
Sugestivo de epicondilite medial:
Sobrecarga repetitiva por flexão do punho, pronação ou preensão
Localização da dor → Face medial do cotovelo, junto à origem flexor-pronadora
Palpação → Dor sobre ou discretamente distal ao epicôndilo medial
Flexão resistida do punho → Reproduz dor medial
Pronação resistida → Reproduz dor medial
Avaliação neurológica → Deve incluir pesquisa de sintomas e sinais do nervo ulnar
Exame físico dirigido
Inspeção:
Avaliar edema, equimose, deformidade, atrofia muscular e assimetria.
Palpação:
Identificar ponto de maior dor na origem flexor-pronadora.
Palpar trajeto do nervo ulnar posteriormente ao epicôndilo medial.
Testes provocativos:
Flexão resistida do punho com cotovelo estendido.
Pronação resistida do antebraço.
Alongamento passivo dos flexores do punho, com extensão do punho e dedos.
Avaliação neurológica:
Sensibilidade no território ulnar.
Força intrínseca da mão.
Sinal de Tinel no túnel cubital.
Avaliação de instabilidade:
Em atletas arremessadores ou pacientes com trauma, pesquisar instabilidade em valgo e lesão do ligamento colateral ulnar.
Diagnóstico diferencial
Síndrome do túnel cubital
Parestesia em quarto e quinto dedos, fraqueza intrínseca da mão, Tinel positivo no sulco ulnar.
Lesão do ligamento colateral ulnar
Dor medial associada a trauma ou arremessos; instabilidade em valgo.
Radiculopatia cervical
Cervicalgia, dor irradiada, alterações sensitivas ou motoras não restritas ao cotovelo.
Artrose do cotovelo
Rigidez, limitação de amplitude de movimento, crepitação e alterações radiográficas.
Fratura ou avulsão do epicôndilo medial
Trauma agudo, edema, deformidade, dor intensa e limitação importante.
Apofisite medial
Crianças e adolescentes atletas com esqueleto imaturo, especialmente arremessadores.
Epicondilite lateral
Dor e sensibilidade predominantes na face lateral do cotovelo.
Exames complementares
Radiografia simples do cotovelo
Considerar em trauma, deformidade, suspeita de fratura, calcificações, artrose ou corpo livre intra-articular.
Ultrassonografia musculoesquelética
Pode demonstrar espessamento, heterogeneidade e alterações na origem tendínea flexor-pronadora.
Útil quando há dúvida diagnóstica ou para planejamento de procedimento guiado.
Ressonância magnética
Considerar em sintomas persistentes, suspeita de ruptura tendínea, lesão ligamentar associada, neuropatia ou indicação cirúrgica.
Eletroneuromiografia
Considerar quando houver suspeita clínica de neuropatia ulnar ou outra causa neurológica de dor e disfunção.
Manejo inicial na Atenção Primária
A primeira linha é conservadora. Deve-se orientar redução temporária das atividades que desencadeiam dor, sem imobilização prolongada, e iniciar reabilitação progressiva. A maioria dos pacientes apresenta melhora sem necessidade de procedimento invasivo.
Medidas não farmacológicas
Modificar ou suspender temporariamente a atividade desencadeante.
Reduzir movimentos repetitivos de flexão do punho, pronação e preensão vigorosa.
Corrigir ergonomia no trabalho e técnica esportiva.
Crioterapia:
Aplicar compressa fria por 15 a 20 minutos, 3 a 4 vezes ao dia, especialmente após atividade.
Proteger a pele com tecido entre a fonte de frio e o membro.
Órteses:
Pode-se considerar faixa de contraforça no antebraço ou órtese de punho em curto prazo para redução da sobrecarga.
Não substituir reabilitação e ajuste de atividade.
Fisioterapia:
Alongamento progressivo da musculatura flexor-pronadora.
Fortalecimento progressivo de punho, antebraço, ombro e cadeia cinética do membro superior.
Progressão para exercícios excêntricos conforme tolerância.
Treino de retorno gradual à atividade laboral ou esportiva.
Tratamento Medicamentoso
Os analgésicos e anti-inflamatórios devem ser utilizados como adjuvantes de curto prazo para controle da dor e viabilização da reabilitação. A escolha deve considerar risco gastrointestinal, cardiovascular, renal, hepático, idade, comorbidades e medicamentos em uso.
Dipirona comp. 500 mg ou 1 g
Tomar 500 mg a 1 g VO de 6/6h a 8/8h, se dor.
Máximo: 4 g/dia.
Paracetamol comp. 500 mg ou 750 mg
Tomar 500 a 750 mg VO de 6/6h a 8/8h, se dor.
Máximo: 3 g/dia em adultos; considerar limite menor em hepatopatia, etilismo crônico ou fragilidade clínica.
Diclofenaco dietilamônio gel 11,6 mg/g
Aplicar fina camada sobre a região dolorosa, 3 a 4 vezes ao dia, por curto período.
Evitar aplicação sobre pele lesada, uso sob curativo oclusivo ou associação com fonte de calor.
Ibuprofeno comp. 400 mg ou 600 mg
Tomar 400 mg VO de 8/8h, após alimentação, por 3 a 5 dias, se dor persistente.
Máximo: 1.200 mg/dia sem supervisão especializada.
Evitar em doença renal crônica, insuficiência cardíaca descompensada, doença ulcerosa péptica ativa, sangramento gastrointestinal e gestação no terceiro trimestre.
Naproxeno comp. 250 mg ou 500 mg
Tomar 250 a 500 mg VO de 12/12h, após alimentação, por 3 a 5 dias.
Máximo: 1.000 mg/dia.
Evitar nas mesmas situações de risco dos demais anti-inflamatórios não esteroidais.
Observação:
Não associar dois anti-inflamatórios não esteroidais. Em pacientes com risco gastrointestinal elevado, avaliar necessidade de gastroproteção conforme perfil clínico e duração prevista do uso.
Infiltração e procedimentos
A infiltração com corticosteroide pode ser considerada apenas após falha das medidas conservadoras adequadamente conduzidas.
Deve ser realizada por profissional habilitado, preferencialmente com técnica guiada por ultrassonografia quando disponível.
Pode proporcionar redução da dor no curto prazo, mas o benefício sustentado é incerto.
Infiltrações repetidas devem ser evitadas devido ao risco de atrofia cutânea, despigmentação, lesão ou ruptura tendínea.
Encaminhamento para ortopedia
Encaminhar para avaliação especializada nas seguintes situações:
Suspeita de ruptura tendínea, fratura, lesão ligamentar ou instabilidade em valgo.
Trauma agudo associado a deformidade, edema importante ou incapacidade funcional relevante.
Parestesia persistente, déficit sensitivo, fraqueza intrínseca da mão ou suspeita de neuropatia ulnar.
Dor persistente apesar de tratamento conservador estruturado e reabilitação adequada.
Limitação funcional importante para trabalho, autocuidado ou prática esportiva.
Dúvida diagnóstica ou suspeita de condição articular, neurológica ou cervical associada.
Consideração de infiltração ou tratamento cirúrgico.
Quadro-resumo

Referências
[1] KIEL, John; KAISER, Karen; LI, David. Medial Epicondylitis (Golfer’s Elbow). In: STATPEARLS [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2023. Disponível em: NCBI Bookshelf. Acesso em: 7 jul. 2026.
[2] REECE, Christopher L.; LUCADO, Andrew M. Medial Epicondylitis. In: STATPEARLS [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2024. Disponível em: NCBI Bookshelf. Acesso em: 7 jul. 2026.
[3] ZAHN, Kevin V.; BYERLY, David W. Medial Epicondyle Injection. In: STATPEARLS [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2023. Disponível em: NCBI Bookshelf. Acesso em: 7 jul. 2026.
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