Tendinopatia Patelar

CID-10: M76.5 — Tendinite patelar

Introdução

  • A tendinopatia patelar é uma afecção degenerativa do tendão patelar, estrutura que conecta o polo inferior da patela à tuberosidade anterior da tíbia e participa do mecanismo extensor do joelho.

  • É popularmente conhecida como "joelho do saltador" (jumper's knee), devido à sua elevada incidência em modalidades esportivas que envolvem saltos repetitivos e mudanças bruscas de direção, como voleibol, basquetebol e atletismo.

  • Do ponto de vista fisiopatológico, decorre da sobrecarga mecânica repetitiva sobre o tendão, sem tempo adequado para recuperação tecidual. Esse processo leva à desorganização das fibras de colágeno, hipercelularidade e neovascularização, caracterizando um quadro de tendinose, mais do que uma tendinite verdadeira, uma vez que o infiltrado inflamatório costuma ser discreto ou ausente. As alterações concentram-se predominantemente na região do polo inferior da patela.

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Epidemiologia

  • Acomete principalmente atletas jovens envolvidos em esportes com saltos e impacto repetitivo;

  • A tendinopatia bilateral é aproximadamente duas vezes mais frequente em homens; a forma unilateral apresenta prevalência semelhante entre os sexos;

  • Fatores de risco:

    • Alta carga de treinamento;

    • Superfícies rígidas;

    • Desequilíbrios de força e flexibilidade do quadríceps e isquiotibiais;

    • Alterações biomecânicas do membro inferior.

  • Quadros crônicos e sem tratamento adequado aumentam o risco de ruptura do tendão patelar.

Diagnóstico

O diagnóstico é predominantemente clínico:

  • Dor localizada e insidiosa no polo inferior da patela.

  • Piora com:

    • Saltos;

    • Corridas;

    • Agachamentos;

    • Descer escadas.

  • Nas fases iniciais, a dor ocorre apenas após o esforço; posteriormente passa a surgir durante ou logo no início da atividade;

  • Dor à palpação do polo inferior da patela;

  • Em casos avançados:

    • Nódulo palpável;

    • Edema local.

  • Rigidez matinal.

  • Sensação de fraqueza e redução do desempenho esportivo.


Exames complementares

  • Ultrassonografia (identifica espessamento tendíneo, áreas hipoecoicas e neovascularização);

  • Ultrassonografia com Doppler (aumenta a acurácia diagnóstica quando associada ao modo B);

  • Ressonância Magnética (melhor método para avaliar extensão da lesão e alterações degenerativas; indicada em casos de dúvida diagnóstica ou refratariedade);

  • Radiografia (pouco útil para o diagnóstico da tendinopatia, porém auxilia na exclusão de outras causas de dor anterior no joelho).

Classificação de Blazina

Tratamento farmacológico

Os analgésicos e AINEs apresentam benefício apenas para controle sintomático de curto prazo, não substituindo a reabilitação com exercícios.

  • Nimesulida comp. 100 mg

    • Tomar 01 comprimido VO de 12/12 horas, pelo menor tempo possível.

    • Dose máxima: 200 mg/dia.

      • Cautela em hepatopatas.

      • Contraindicada na insuficiência hepática.

  • Ibuprofeno comp. 400 mg ou 600 mg

    • 400 mg VO de 4/4–6/6 horas, ou

    • 600 mg VO de 6/6–8/8 horas.

    • Dose máxima: 2.400 mg/dia.

    • Administrar preferencialmente após as refeições.

  • Diclofenaco dietilamônio gel 11,6 mg/g

    • Aplicar sobre a região dolorosa 3 a 4 vezes ao dia, massageando suavemente.

    • Não utilizar por mais de 2 a 3 semanas sem reavaliação.

    • Menor exposição sistêmica em relação aos AINEs orais.

  • Dipirona comp. 500 mg ou 1 g

    • Tomar 500 mg a 1.000 mg VO de 6/6–8/8 horas, se dor.

    • Dose máxima: 4 g/dia.

      • Alternativa analgésica quando se deseja evitar os efeitos adversos dos AINEs.

      • Contraindicada em pacientes com hipersensibilidade aos pirazolônicos ou história de agranulocitose.

Segunda linha:

  • Procedimentos intervencionistas

    • Corticoide peritendíneo.

    • Plasma rico em plaquetas (PRP).

    • Ácido hialurônico.

    • Ondas de choque extracorpóreas.

    • Dry needling associado à fisioterapia.

Terceira linha:

  • Tratamento cirúrgico

    • Indicado apenas após mínimo de 6 meses de tratamento conservador bem conduzido e sem melhora clínica satisfatória.

    • Consiste em desbridamento do tecido degenerado, podendo ser realizado por técnica aberta ou artroscópica.

    • Não demonstrou superioridade em relação à reabilitação baseada em fortalecimento progressivo, sendo reservado para casos refratários.

Tratamento não farmacológico

Medidas gerais

  • Repouso relativo.

  • Correção dos fatores biomecânicos e etiológicos.

  • Crioterapia local.

Fisioterapia

  • É o pilar do tratamento.

    • Exercícios progressivos de carga.

    • Fortalecimento excêntrico do quadríceps (ex.: agachamento em plano inclinado).

    • Protocolos combinando exercícios concêntricos e excêntricos apresentam eficácia semelhante.

    • Reabilitação progressiva:

      • Exercícios isométricos.

      • Exercícios isotônicos/excêntricos.

      • Exercícios pliométricos.

      • Retorno gradual ao esporte.

    • Melhora clínica geralmente ocorre entre 8 e 12 semanas, podendo o tratamento durar até 6 meses.

    • Atletas com sintomas recentes costumam retornar ao esporte em 2 a 3 meses.

Alongamentos

  • Alongamento dos isquiotibiais.

  • Alongamento da panturrilha.

  • Manutenção do condicionamento físico.

Critérios de encaminhamento

Encaminhar quando houver:

  • Falha do tratamento conservador após 3 a 6 meses;

  • Necessidade de exames complementares complexos;

  • Dúvida diagnóstica;

  • Necessidade de procedimentos intervencionistas.

Encaminhamento urgente

  • Suspeita de ruptura do tendão patelar:

    • Dor intensa após contração súbita do quadríceps;

    • Incapacidade de realizar extensão ativa do joelho;

    • Incapacidade de elevar a perna estendida;

    • Defeito palpável no tendão;

    • Patela alta ao exame físico;

    • Edema importante;

    • Equimose;

    • Impotência funcional imediata.

Atletas competitivos e pacientes com quadros recidivantes também devem ser avaliados por especialista para programação do retorno esportivo.

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. DATASUS. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-10: M76.5 Tendinite patelar. Disponível em: https://datasus.saude.gov.br. Acesso em: 30 jul. 2026.

[2] CENNI, Marcos Henrique Frauendorf et al. Tendinopatia patelar: resultados tardios do tratamento cirúrgico. Revista Brasileira de Ortopedia, v. 50, n. 5, p. 1-6, out. 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbort/a/YXcBYJhJdYThxysrjkcSMTk/. Acesso em: 30 jul. 2026.

[3] COHEN, Moisés; FERRETTI, Mario; MARCONDES, Fabrício Barbosa; AMARO, Joicemar Tarouco; EJNISMAN, Benno. Tendinopatia patelar. Revista Brasileira de Ortopedia, v. 43, n. 8, p. 309-318, 2008. Disponível em: https://rbo.org.br/detalhes/45/pt-BR/tendinopatia-patelar. Acesso em: 30 jul. 2026.

[4] CUNHA, Ronaldo Alves da; DIAS, Andreia Natacha; SANTOS, Marcelo Bannwart; LOPES, Alexandre Dias. Estudo comparativo de dois protocolos de exercícios excêntricos sobre a dor e a função do joelho em atletas com tendinopatia patelar: estudo controlado e aleatorizado. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, v. 18, n. 3, p. 167-170, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbme/a/bPSvm3NpFzVFDXPSDdMhcJv/. Acesso em: 30 jul. 2026.

[5] MABROUK, Ahmed; LEE, Chia-Yuan M.; SHERMAN, Andrew L. Patellar Tendinopathy (Jumper's Knee). In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2026. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK532969/. Acesso em: 30 jul. 2026.

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