Fascite Plantar

CID-10: M72.2 - Fibromatose da fáscia plantar

Introdução

  • A fascite plantar (FP) é a causa mais comum de dor na região plantar do calcanhar em adultos. Caracteriza-se pela inflamação do tecido denso que ocupa a parte anterior do tubérculo interno do calcâneo, com irradiação possível para a borda interna do pé. [1][2]

  • A fáscia plantar é uma aponeurose fibrosa espessada que se origina do tubérculo medial do calcâneo e forma o arco longitudinal do pé, exercendo funções de suporte estático e absorção dinâmica de choque.

  • Apesar de o termo "fascite" sugerir inflamação, pesquisas recentes indicam que o processo subjacente é predominantemente degenerativo: microrrupturas repetitivas da fáscia superam a capacidade de reparo tecidual, resultando em degeneração do colágeno, tendinose e necrose. [1]

  • Estima-se que aproximadamente 10% da população seja afetada ao longo da vida. A condição acomete homens e mulheres; a referência [1] descreve predomínio em mulheres ativas entre 40 e 70 anos, e a referência [2] aponta acometimento principal em homens entre 40 e 70 anos, sendo também frequente em atletas, especialmente corredores.

  • É considerada autolimitada, com resolução espontânea na maioria dos casos (80–90%) em um período de até 6 a 18 meses, embora esse intervalo seja frustrante para paciente e médico. [1][2]

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Fatores de risco

  • Intrínsecos [1][2]

    • Pé cavo ou pé plano (arcos altos ou baixos)

    • Pronação excessiva do pé

    • Deficiência ou perda de elasticidade dos músculos flexores plantares

    • Rigidez e fraqueza do complexo gastrocnêmio-sóleo e tendão de Aquiles

    • Sobrepeso e obesidade: em atividades de impacto, um excesso de 3 kg de peso corporal gera impacto adicional de 9 kg por apoio, podendo levar à sobrecarga cumulativa [1]

    • Atrofia senil do coxim adiposo plantar após os 40 anos

    • Neuropatias periféricas e consumo abusivo de álcool

    • Fator hereditário

  • Extrínsecos [1][2]

    • Calçado inadequado

    • Sobrecargas posturais e funcionais

    • Aumento súbito de atividades com descarga de peso (especialmente corrida)

    • Superfícies irregulares para caminhada ou corrida

Quadro clínico

  • Dor [1][2]

    • Localizada na região ântero-interna do calcâneo, com possível irradiação para a borda medial do pé

    • Pior pela manhã, ao dar os primeiros passos

    • Melhora após os primeiros minutos de deambulação

    • Piora com permanência prolongada em pé e atividades com descarga de peso

    • Em casos graves, também piora ao final do dia

  • Outros achados [1][2]

    • Rigidez associada

    • Parestesias e dores noturnas são raras

    • Edema leve e eritema podem estar presentes

    • Nos casos com encarceramento do nervo plantar lateral, a dor irradia proximal e distalmente ao longo do pé

  • Exame físico [1][2]

    • Ponto de sensibilidade máxima na região anteromedial do calcâneo

    • Dor exacerbada pela dorsiflexão passiva dos dedos ou ao ficar na ponta dos pés

    • Fáscia plantar deve ser palpada com o tornozelo em dorsiflexão para identificar nodulações

    • Pesquisar sinal de Tinel no túnel do tarso

Diagnóstico

  • O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história e no exame físico. Exames complementares raramente são necessários na avaliação inicial, sendo indicados em casos atípicos, suspeita de outras etiologias ou ausência de resposta ao tratamento. [1][2]

  • Radiografia do pé em carga [1][2]

    • Pode ser normal ou evidenciar esporão calcâneo

    • O esporão não é a causa da fascite; é consequência da tração crônica da fáscia em sua inserção proximal

    • Presente em cerca de 50% dos pacientes sintomáticos; até 25% da população assintomática também o apresentam

    • Deve ser obtida antes de qualquer infiltração de esteroides, para excluir neoplasia

  • Ultrassonografia [1][2]

    • Avalia características histopatológicas da fáscia e sua espessura

    • Útil para guiar infiltrações

  • Ressonância magnética [2]

    • Raramente indicada; útil para excluir outras causas (fibromatose plantar, tumores, infecção, fratura de estresse)

  • Cintilografia óssea [2]

    • Auxilia no diagnóstico diferencial com fratura de estresse do calcâneo

  • Eletroneuromiografia [2]

    • Indicada quando há suspeita de neuropatia periférica ou síndrome do túnel do tarso

  • Exames laboratoriais [2]

    • Indicados quando sintomas são persistentes e bilaterais, para investigar espondiloartropatias soronegativas

    • Incluem: hemograma, VHS, ácido úrico, fator reumatoide, anticorpos antinucleares, HLA-B27

  • Diagnóstico diferencial [2]

    • Fratura de estresse do calcâneo

    • Síndrome de Baxter (encarceramento do nervo abdutor do 5º dedo)

    • Síndrome do túnel do tarso

    • Artrite reumatoide, espondilite anquilosante, artrite reativa

    • Apofisite do calcâneo (doença de Sever) em crianças

    • Gota, abscesso profundo (em diabéticos)

Tratamento Não Cirúgico

O tratamento conservador é a primeira linha [1][2]

  • Taxa de sucesso em torno de 90% dos pacientes.

  • A combinação de técnicas é mais eficaz do que qualquer modalidade isolada.

  • O reconhecimento e tratamento precoces, preferencialmente nas primeiras 6 semanas do início dos sintomas, aumentam a chance de sucesso.

Plano de tratamento escalonado

  • 1ª etapa: medidas iniciais [1][2]

    • Repouso relativo: reduzir atividades que agravam os sintomas; substituir por atividades alternativas de baixo impacto

    • Aplicação de gelo após atividades: massagem com gelo por 5–10 min, banho de gelo por 10–15 min ou bolsa de gelo por 15–20 min

    • Avaliação e troca de calçado: preferir sola grossa e acolchoada (EVA de alta densidade); sapatos com solas intermediárias mais grossas reduzem a dor em longos períodos de marcha

    • Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs): indicados ao longo do tratamento conservador para controle da dor; o paciente deve ser orientado de que o uso é analgésico, não resolutivo da patologia subjacente

  • 2ª etapa: programa de alongamento e fortalecimento [1][2]

    • Alongamento: primeira linha do tratamento conservador; deve ser realizado de 3 a 5 vezes ao dia

      • Protocolo: 10 repetições alternando a posição dos pés, cada uma com 10 segundos de duração, em pelo menos 3 séries ao dia (manhã, tarde e noite), por 3 a 6 semanas consecutivas

      • Técnicas: alongamento de parede e de meio-fio ou escada, com ênfase simultânea no complexo gastrocnêmio-sóleo e na fáscia plantar

    • Fortalecimento dos músculos intrínsecos do pé:

      • Exercício de ondulação com toalha: enrolar toalha com os dedos, mantendo o calcanhar no chão

      • Batidas com os dedos: alternar elevação do hálux e dos demais dedos repetidamente

      • Pegar objetos (bolinhas de gude, moedas) com os dedos dos pés

  • 3ª etapa: suporte mecânico [1][2]

    • Bandagem:

      • Bandagem em arco ou calcânea para reduzir a pronação e corrigir biomecânica deficiente

      • Pode ser usada tanto na fase aguda quanto crônica, antes ou no lugar de órteses

      • Eficácia diminui após 24 minutos de atividade; mais indicada nas fases iniciais e como teste de resposta antes de prescrever órteses

    • Palmilhas e órteses:

      • Palmilhas pré-fabricadas com suporte do arco longitudinal medial e acolchoamento do calcâneo; material macio (silicone, microespuma, feltro, plastazote)

      • Órteses personalizadas semi-rígidas (3/4 a completas): indicadas nos casos crônicos ou recorrentes; controlam pronação excessiva e movimento da cabeça do 1º metatarso

      • Suportes de arco de venda livre: opção intermediária, especialmente útil em adolescentes e na fascite plantar aguda com pé plano leve

    • Talas noturnas: [1][2]

      • Mantêm o tornozelo em dorsiflexão durante o sono, promovendo alongamento passivo da fáscia plantar

      • Indicadas especialmente em casos com sintomas por mais de 12 meses

      • Resultam em melhora em aproximadamente 80% dos pacientes que as utilizam [1]

      • Desvantagem: desconforto leve que pode interferir no sono do paciente ou do parceiro

    • Imobilização em bota gessada ou walker boot: [2]

      • Indicada quando não há resposta às etapas anteriores

      • Duração aproximada de 6 a 8 semanas

  • 4ª etapa: tratamentos mais invasivos [1][2]

    • Infiltração com corticosteroides:

      • Indicadas em casos recalcitrantes após falha do tratamento conservador

      • Podem ser realizadas por via plantar ou medial, com ou sem guia de ultrassom

      • Taxa de sucesso de 70% ou mais [1]

      • Injeções múltiplas não são recomendadas: risco de ruptura da fáscia plantar (encontrada em quase 10% dos pacientes após injeção, em uma série) [1] e atrofia do coxim adiposo

      • Sequelas de longo prazo de ruptura foram encontradas em aproximadamente metade dos pacientes com ruptura, sendo a deformação do arco longitudinal a complicação crônica mais frequente [1]

      • Radiografia simples deve ser obtida antes da infiltração para excluir neoplasia [2]

    • Plasma rico em plaquetas (PRP): [1]

      • Guiado por ultrassom; obtido do próprio sangue do paciente

      • Alternativa injetável quando corticosteroides não são adequados ou falharam

    • Terapia por ondas de choque extracorpóreas (ESWT): [1][2]

      • Indicada para fascite plantar crônica (mais de 6 meses), resistente a pelo menos 3 modalidades conservadoras

      • Resultados variáveis na literatura: alguns estudos demonstram benefício, outros não evidenciam superioridade sobre placebo

      • Contraindicada em: hemofilia, coagulopatia, neoplasia, presença de placa de crescimento

    • Reparo tecidual ultrassônico: [1]

      • Tecnologia minimamente invasiva; sonda guiada por ultrassom fragmenta e aspira o tecido degenerado da fáscia

      • Indicada em casos selecionados resistentes ao tratamento conservador

Tratamento Cirúrgico

  • Indicado somente quando os sintomas persistem sem melhora significativa após pelo menos 6 meses de tratamento conservador supervisionado pelo médico. O paciente deve ser informado de que a cirurgia não garante a resolução dos sintomas. [1][2]

  • Procedimentos disponíveis: [1][2]

    • Fasciotomia plantar parcial (liberação da porção medial da fáscia): método mais frequente

    • Ressecção do esporão calcâneo, quando indicada

    • Liberação da fáscia profunda do músculo abdutor do hálux com neurólise do nervo do músculo abdutor do 5º dedo

    • Abordagens: incisional direta (aberta), endoscópica ou por radiofrequência

    • Nota: a fasciotomia plantar completa deve ser evitada, pois pode causar aplanamento do arco longitudinal e síndrome da coluna lateral [2]

  • Taxa de sucesso:

    • 70–95% dos casos, a depender da técnica e da série estudada [1][2]

  • Complicações potenciais: [1][2]

    • Achatamento do arco longitudinal

    • Hipoestesia do calcanhar

    • Ruptura da fáscia plantar

    • Pé plano valgo adquirido (especialmente com técnica endoscópica)

    • Complicações anestésicas

Referências

[1] ARAGÃO, Felipe Matheus Sant'Anna et al. Tratamento da fascite plantar. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 6, n. 10, p. 1417–1439, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.36557/2674-8169.2024v6n10p1417-1439. Acesso em: 7 jun. 2026.

[2] FERREIRA, Ricardo Cardenuto. Talalgias: fascite plantar. Revista Brasileira de Ortopedia, v. 49, n. 3, p. 213–217, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.rbo.2014.02.004. Acesso em: 7 jun. 2026.

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