Síndrome do Manguito Rotador

CID-10: M75.1 — Síndrome do manguito rotador

Introdução

  • A síndrome do manguito rotador compreende um espectro de condições que envolvem tendinopatia, bursite subacromial-subdeltoidea e roturas parciais ou completas dos tendões do supraespinal, infraespinal, subescapular e redondo menor. 

  • É uma causa frequente de dor no ombro em adultos, sobretudo após os 40 anos, e pode decorrer de sobrecarga mecânica, degeneração tendínea relacionada à idade ou trauma agudo. 

  • A apresentação clínica deve ser correlacionada ao exame físico e à funcionalidade. Alterações em exames de imagem são comuns em indivíduos assintomáticos, especialmente em idosos; portanto, não devem definir isoladamente a conduta. 

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Quadro clínico e suspeita clínica

  • Dor no ombro

    • Predomínio anterolateral, frequentemente na região do deltóide;

    • Piora com elevação, abdução ou rotação externa do membro;

    • Pode ser desencadeada por trabalho repetitivo acima da cabeça, prática esportiva ou esforço físico.

  • Dor noturna

    • Frequente em decúbito sobre o ombro acometido;

    • Pode causar despertar noturno e limitação funcional relevante.

  • Limitação funcional

    • Dificuldade para pentear os cabelos, vestir-se, alcançar objetos elevados ou realizar higiene pessoal;

    • Perda de força, principalmente em abdução e rotação externa.

  • Apresentação sugestiva de rotura aguda

    • Trauma com queda, tração ou luxação do ombro;

    • Dor súbita associada a incapacidade de elevar ativamente o braço;

    • Fraqueza importante após trauma, especialmente em pacientes com mais de 40 anos.

Fatores associados

  • Idade acima de 40–50 anos;

  • Trabalho manual com movimentos repetitivos ou sustentados acima da linha do ombro;

  • Esportes com arremesso ou elevação repetitiva do membro superior;

  • Trauma direto ou queda sobre o membro superior;

  • Tabagismo;

  • Diabetes mellitus;

  • Obesidade;

  • Dislipidemia;

  • História prévia de dor ou lesão no ombro.

Testes clínicos

Os testes devem ser interpretados em conjunto com a história clínica, avaliação da força e amplitude de movimento. Nenhum teste isolado confirma o diagnóstico.

  • Teste de Jobe (Empty Can)

    • Avalia predominantemente o tendão do supraespinal.

    • Positivo quando há dor ou fraqueza durante abdução do ombro contra resistência, com o polegar voltado para baixo.

  • Teste de Neer

    • Avalia sinais de impacto subacromial.

    • Positivo quando ocorre dor à elevação passiva forçada do braço em rotação interna.

  • Teste de Hawkins-Kennedy

    • Avalia sinais de impacto subacromial.

    • Positivo quando há dor à rotação interna passiva do ombro com o braço em flexão anterior de 90°.

  • Teste de Patte

    • Avalia principalmente o infraespinal.

    • Positivo quando há dor ou fraqueza à rotação externa contra resistência, com o ombro abduzido.

  • Teste de Gerber (Lift-off)

    • Avalia o tendão do subescapular.

    • Positivo quando o paciente não consegue afastar a mão da região lombar contra resistência.

  • Teste de queda do braço (Drop Arm)

    • Sugere rotura extensa do manguito rotador.

    • Positivo quando o paciente não consegue manter o braço em abdução ou abaixá-lo lentamente de forma controlada.

  • Teste de Apley

    • Avalia mobilidade funcional do ombro.

    • Pode evidenciar limitação para movimentos combinados de abdução, rotação externa, adução e rotação interna.

Exames complementares

Os exames devem complementar a avaliação clínica; não são necessários de rotina em quadros típicos com boa resposta ao manejo conservador inicial.

  • Radiografia do ombro

    • Solicitar em trauma, dor persistente, suspeita de artrose, tendinite calcária, fratura ou deformidade óssea.

    • Incidências usuais: anteroposterior verdadeira, perfil escapular e axilar.

    • Avalia calcificações, artrose acromioclavicular/glenoumeral, osteófitos, fraturas e migração superior da cabeça umeral.

  • Ultrassonografia do ombro

    • Exame inicial para suspeita de tendinopatia, bursite subacromial-subdeltoidea ou rotura do manguito.

    • Útil para avaliar supraespinal, infraespinal, subescapular, cabeça longa do bíceps e bursa.

    • Preferir quando houver disponibilidade de examinador experiente.

    • Pode ser solicitada em dor persistente, fraqueza ou falha do tratamento conservador.

  • Ressonância magnética do ombro

    • Solicitar quando houver suspeita de rotura completa, trauma com perda funcional, fraqueza importante, atrofia muscular ou indicação cirúrgica.

    • Considerar em persistência dos sintomas após tratamento conservador ou quando a ultrassonografia for inconclusiva.

    • Avalia extensão da rotura, retração tendínea, atrofia muscular, infiltração gordurosa, bursite e lesões associadas.

  • Não solicitar rotineiramente

    • Tomografia computadorizada.

    • Eletroneuromiografia.

    • Exames laboratoriais.

  • Exceções

    • Solicitar hemograma, PCR e VHS se houver suspeita de artrite séptica ou doença inflamatória sistêmica.

    • Solicitar eletroneuromiografia se houver suspeita de neuropatia periférica, lesão do nervo supraescapular ou radiculopatia cervical.

Tratamento farmacológico da dor

O tratamento medicamentoso é adjuvante e deve facilitar a manutenção de mobilidade e a adesão à reabilitação. Avaliar contraindicações, comorbidades, risco gastrointestinal, renal, cardiovascular e interações medicamentosas antes da prescrição.

Analgésicos

  • Dipirona (Novalgina®) comp. 500mg ou 1g; sol. oral 500mg/mL; sol. inj. 500mg/mL

    • 500 mg a 1 g VO a cada 6–8 horas, se dor.

    • Dose máxima: 4g/dia.

    • Evitar em pacientes com antecedente de agranulocitose relacionada ao medicamento.

  • Paracetamol (Tylenol®) comp. 500mg, 750mg ou1g

    • 500mg a 1g VO a cada 6–8 horas, se dor.

    • Dose máxima habitual: 3g/dia.

    • Em hepatopatia, etilismo crônico ou uso concomitante de fármacos hepatotóxicos, reduzir a dose máxima e individualizar a prescrição.

Anti-inflamatórios não esteroidais

  • Indicar por curto período, na menor dose eficaz, quando houver componente inflamatório doloroso e ausência de contraindicações.

    • Ibuprofeno (Alivium®) comp. 400 mg ou 600 mg

      • 400 mg VO a cada 8 horas, após alimentação, por 5 a 7 dias.

      • Dose máxima: 1.200 mg/dia sem supervisão especializada; doses maiores exigem avaliação individualizada.

      • Evitar em doença renal crônica, insuficiência cardíaca descompensada, doença ulcerosa ativa, sangramento gastrointestinal ou alto risco cardiovascular.

    • Naproxeno (Flanax®) comp. 250 mg, 500 mg ou 550 mg

      • 250 a 500 mg VO a cada 12 horas, após alimentação, por 5 a 7 dias.

      • Considerar proteção gástrica em pacientes com risco gastrointestinal elevado.

      • Evitar nas mesmas situações de risco dos demais anti-inflamatórios não esteroidais.

    • Diclofenaco sódico (Voltaren®) comp. 50 mg

      • 50 mg VO a cada 8–12 horas, após alimentação, por até 5 dias.

      • Dose máxima: 150 mg/dia.

      • Evitar em pacientes com doença cardiovascular estabelecida, insuficiência renal, hepatopatia relevante ou risco gastrointestinal elevado.

Não associar dois anti-inflamatórios não esteroidais.

Indicações de encaminhamento para ortopedia

Encaminhar de forma prioritária quando houver:

  • Trauma agudo associado à incapacidade de elevar ativamente o braço;

  • Suspeita de rotura completa ou extensa;

  • Fraqueza objetiva importante em abdução ou rotação externa;

  • Teste de Drop Arm positivo;

  • Luxação do ombro em paciente acima de 40 anos com fraqueza persistente após redução;

  • Atrofia muscular evidente;

  • Dor intensa e incapacitante sem resposta inicial;

  • Suspeita de artrite séptica, fratura, neoplasia ou dor referida não musculoesquelética;

  • Falha do tratamento conservador adequadamente conduzido por 6 a 12 semanas;

  • Necessidade de infiltração ou avaliação cirúrgica.

Fluxograma de manejo inicial

Referências

[1] ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA. Síndrome do manguito rotador: reabilitação. Projeto Diretrizes. São Paulo: Associação Médica Brasileira, 2011. Disponível em: Associação Médica Brasileira. Acesso em: 7 jul. 2026.

[2] DESMEULES, François et al. Rotator cuff tendinopathy diagnosis, nonsurgical medical care, and rehabilitation: a clinical practice guideline. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 2025. DOI: 10.2519/jospt.2025.13182. Disponível em: Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy. Acesso em: 7 jul. 2026.

[3] HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN. Lesão do manguito rotador. Medical Suite: Pathways. São Paulo, 2026. Disponível em: Hospital Israelita Albert Einstein. Acesso em: 7 jul. 2026.

[4] ORTHOPAEDIC SURGEONS, American Academy of. Management of rotator cuff injuries: clinical practice guideline. Rosemont: American Academy of Orthopaedic Surgeons, 2025. Disponível em: American Academy of Orthopaedic Surgeons. Acesso em: 7 jul. 2026.

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