Bulimia Nervosa no Adulto

Introdução

CID 10: F502 - Bulimia nervosa

CID 10: F503 - Bulimia nervosa atípica

CID 10: F50 - Transtornos da alimentação

  • A bulimia nervosa (BN) é um transtorno alimentar psiquiátrico caracterizado por episódios recorrentes de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios inapropriados para evitar o ganho de peso, como vômitos autoinduzidos, uso indevido de laxantes, diuréticos, jejum ou exercício físico excessivo.

  • A autoavaliação é indevidamente influenciada pelo peso e forma corporal, sem que necessariamente haja baixo peso. [1][2]

  • A prevalência é de 2% a 3% na população geral dos EUA, podendo atingir até 10% em populações vulneráveis. [1]

  • No Brasil, estudo com 1.807 participantes identificou incidência de 1,3% em mulheres e 0,8% em homens. [2]

  • O pico de início ocorre entre 18 e 25 anos, com relação feminino:masculino de aproximadamente 5:1. [4]

Fatores de Risco

  • Abuso sexual na infância; baixa autoestima; dietas restritivas [1]

  • Hábito de comer sozinho; residência em repúblicas universitárias femininas [1]

  • Esportes competitivos; profissões com controle de peso (modelos, bailarinos) [1][2]

  • Diabetes melito com controle glicêmico inadequado; homossexualidade masculina [1]

  • Histórico de obesidade; bullying (78% maior chance de desenvolver TA) [4]

  • Transtornos mentais maternos; ambiente familiar conflituoso [1][2][4]

  • Sobrepeso e práticas não saudáveis de controle de peso na infância e adolescência [3]

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Critérios Diagnósticos

  • A: episódios recorrentes de compulsão alimentar, com ingestão de grande quantidade em período determinado e sensação de perda de controle [4]

  • B: comportamentos compensatórios inapropriados recorrentes (vômito autoinduzido, laxantes, diuréticos, jejum, exercício excessivo) [4]

  • C: compulsão e comportamentos compensatórios ocorrem ao menos uma vez por semana durante três meses [4]

  • D: autoavaliação indevidamente influenciada pela forma e peso corporais [4]

  • E: perturbação não ocorre exclusivamente durante episódios de anorexia nervosa [4]

  • Subtipos: purgativo (vômito, laxantes, diuréticos, enemas) e não purgativo (jejum ou exercício excessivo). [1]

Gravidade da Bulimia Nervosa Conforme Frequência de Comportamentos Compensatórios: a tabela estratifica a gravidade do transtorno em quatro categorias com base no número semanal de episódios de comportamentos compensatórios, entendidos como condutas adotadas pelo paciente para neutralizar os efeitos de episódios de hiperfagia, tais como vômitos autoinduzidos, uso de laxantes, diuréticos ou enemas, jejum e exercício físico excessivo. A classificação leve corresponde a 1 a 3 episódios por semana; a moderada, a 4 a 7 episódios; a grave, a 8 a 13 episódios; e a extrema, a 14 ou mais episódios semanais. Essa estratificação tem implicação direta na conduta clínica, orientando a intensidade do acompanhamento, a necessidade de abordagem multidisciplinar e a indicação de internação, sendo a forma extrema aquela de maior risco para complicações clínicas decorrentes da purga recorrente, como distúrbios hidroeletrolíticos, erosão dentária, esofagite e hipertrofia das glândulas parótidas. Fonte: SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Transtornos alimentares na adolescência: anorexia e bulimia em tempos de pandemia. *Manual de Orientação* n. 21. São Paulo: SBP, out. 2021.

Rastreamento

Questionário SCOFF para Triagem de Transtornos Alimentares: a tabela apresenta o questionário SCOFF organizado em três colunas — letra do acrônimo, palavra-chave em inglês com tradução em português e a pergunta correspondente em português. A letra S corresponde à palavra-chave Sick (Vômito) e à pergunta "Você provoca vômitos por se sentir desconfortavelmente cheio(a)?". A letra C corresponde a Control (Controle) e à pergunta "Você se preocupa por ter perdido o controle sobre quanto come?". A letra O corresponde a One stone (Peso) e à pergunta "Você perdeu mais de 6 kg nos últimos 3 meses?". A primeira letra F corresponde a Fat (Gordura) e à pergunta "Você se acredita gordo(a) mesmo quando outros dizem que está muito magro(a)?". A segunda letra F corresponde a Food (Comida) e à pergunta "Você diria que a comida domina sua vida?". Abaixo da tabela, uma caixa de interpretação destaca que o rastreio é considerado positivo quando o paciente responde "Sim" a 2 ou mais perguntas, indicando suspeita de transtorno alimentar (alimentação desordenada) e necessidade de avaliação diagnóstica aprofundada. O rodapé informa o desempenho diagnóstico do instrumento: o questionário SCOFF apresentou alta acurácia em amostras agrupadas, com sensibilidade de 86,0% e especificidade de 83,0%. Fonte: Morgan JF, et al. The SCOFF questionnaire: assessment of a new screening tool for eating disorders. BMJ. 1999.

EDS-PC: Rastreio de Transtornos Alimentares na Atenção Primária: a tabela apresenta o questionário EDS-PC (Eating Disorder Screen for Primary Care) organizado em três colunas — número da pergunta, pergunta em português e resposta de risco equivalente a 1 ponto. A pergunta 1 é "Você está satisfeito(a) com seus hábitos alimentares?" e a resposta de risco é "Não", com indicação de codificação reversa. A pergunta 2 é "Você costuma comer em segredo?" e a resposta de risco é "Sim". A pergunta 3 é "Seu peso afeta a forma como você se sente em relação a si mesmo(a)?" e a resposta de risco é "Sim". A pergunta 4 é "Algum membro de sua família já sofreu com um transtorno alimentar?" e a resposta de risco é "Sim". A pergunta 5 é "Você sofre atualmente ou já sofreu no passado com um transtorno alimentar?" e a resposta de risco é "Sim". Abaixo da tabela, uma caixa de interpretação esclarece que as respostas são pontuadas como Sim = 1 / Não = 0, exceto na pergunta 1, que possui codificação reversa (Não = 1 / Sim = 0), e que o rastreio é considerado positivo quando a pontuação total é igual ou superior a 2, indicando suspeita de transtorno alimentar e necessidade de avaliação diagnóstica aprofundada. O rodapé contém a abreviação EDS-PC: Eating Disorder Screen for Primary Care (Rastreio de Transtornos Alimentares na Atenção Primária). Fonte: Nagata JM, et al. New US Preventive Services Task Force Recommendations on Screening for Eating Disorders. JAMA Intern Med. 2022.
  • Outros instrumentos citados na literatura:

    • BITE (Bulimic Investigatory Test, Edinburgh): 33 questões; escore ≥ 20 indica padrão muito perturbado; escore 10–19 requer avaliação clínica; mais indicado para monitorar gravidade em diagnóstico já estabelecido [1]

    • Avaliação de dois itens: instrumento específico para bulimia nervosa, composto por duas perguntas diretas: "Você come em segredo?" e "Você está satisfeito com seus padrões alimentares?"; resposta positiva a qualquer uma das perguntas é considerada rastreamento positivo; sensibilidade 1,00 e especificidade 0,90 para BN [1]

  • Para triagem inicial na atenção primária, recomenda-se o Eating Disorder Screen for Primary Care (EDS-PC) ou o SCOFF. Resultados negativos não excluem o diagnóstico em pacientes motivados a ocultar o transtorno. [1]

Quadro Clínico

  • A BN frequentemente se apresenta com peso normal ou acima do normal. Os sintomas cardinais são compulsão alimentar e comportamentos compensatórios, não o baixo peso. [1]

  • Compulsão alimentar [1][2]

    • Percepção de compulsão relacionada ao tipo de alimento e estado emocional, não necessariamente à quantidade calórica

    • Ingestão média de 3.000 a 4.000 kcal por episódio; episódios com até 20.000 kcal já foram descritos

    • Sensação de perda de controle é característica central

    • Episódios ocorrem em privado; privação alimentar prévia reforça o padrão ritualístico

    • Padrão típico: tédio, fissura e humor deprimido antes do episódio; depressão e perda de autocontrole após

  • Perfil psicológico [1][2]

    • Autoestima flutuante fortemente vinculada à imagem corporal

    • Traços de perfeccionismo, impulsividade e desregulação emocional

    • Crença de que o controle do peso proporciona segurança emocional

Avaliação Laboratorial e Física

  • Exame físico:

    • Erosão do esmalte dentário; sinal de Russell; aumento de parótidas; oscilações de peso; irritação de orofaringe; perda de cabelo; unhas frágeis. [1][4]

  • Laboratório (especialmente em sinais físicos presentes, baixo peso ou purgação intensa): [1][4]

    • Eletrólitos séricos e urinários; bicarbonato sérico; fósforo

    • Amílase sérica fracionada: fração salivar elevada em relação à pancreática sugere vômitos recentes

    • Hemograma, perfil lipídico, glicemia de jejum, transaminases, TSH, vitamina B12 e vitamina D

  • Interpretação eletrolítica: [1]

    • Vômito: alcalose metabólica (bicarbonato elevado)

    • Laxantes: acidose metabólica (bicarbonato reduzido)

    • Hipopotassemia e hipocloremia: achados clássicos, proporcionais à frequência de purgação

    • Razão Na urinário/Cl urinário > 1,16: identifica ~52% dos casos (falso-positivo 5%)

  • ECG:

    • Idicado em alterações eletrolíticas, palpitações, dor torácica ou baixo peso. [1]

Tratamento Não Farmacológico

Abordagem Geral

  • Tratamento preferencial é ambulatorial, mas pode necessitar de internação em alguns casos, como: [1][3][4]

    • Distúrbios eletrolíticos severos; desidratação; compulsão ou purgação incontroláveis; falha ambulatorial; ideação suicida; condições médicas limitantes (ex.: diabetes tipo 1 descontrolado).

  • Psicoterapia

    • A TCC é o método padrão e preferencial, com superioridade demonstrada sobre outras psicoterapias. Estrutura em 20 semanas: [1]

    • Fase 1: psicoeducação; registro alimentar com frequência de compulsões e purgações

    • Fase 2: ampliação das escolhas alimentares; correção de cognições disfuncionais

    • Fase 3 (últimas 3 sessões): manutenção e prevenção de recaída

    • Resultados esperados:

      • 45% cessam compulsão e purgação; 35% não preenchem mais critérios diagnósticos. Recaída em 31% a 44%, predominantemente nos primeiros 4 meses. [1]

  • Terapia Nutricional

    • TN oral é a modalidade indicada; objetivo central é restabelecer padrões regulares de alimentação [3]

    • Plano estruturado: 3 refeições e 2 a 3 lanches/dia, sem intervalos superiores a 4 horas [4]

    • Atividade física estruturada e supervisionada pode ser efetiva na redução de episódios de compulsão-purgação; avaliar previamente se o exercício já é utilizado como comportamento compensatório [3]

    • TNE e TNP raramente indicadas na BN; na internação, visa restabelecimento alimentar e correção eletrolítica [3]

Tratamento Farmacológico

Considerações:

  • Antidepressivos são a classe farmacológica de escolha:

    • Redução sintomática em torno de 60%;

    • Remissão completa em ~20%;

  • Tempo mínimo de tratamento de 6 meses

  • A associação TCC + fluoxetina é superior a qualquer monoterapia. O tratamento farmacológico possui abandono elevado (~35%) quando usados isoladamente. [1][2]

    • TCC: Terapia Cognitivo-Comportamental.

  • Bupropiona é contraindicada na BN devido ao risco de convulsões

Antidepressivos:

  • Fluoxetina (Prozac®, Daforin®, Eufor®) cáps. 20 mg [1][2][bula ANVISA]

    • Tomar 1 cáps. (20 mg) pela manhã; aumentar progressivamente até 60 mg/dia (dose alvo para BN)

    • Dose máxima: 80 mg/dia;

    • Duração de tratamento mínima: 6 meses [2]

    • Observações: [2]

      • Monitorar ideação suicida no início e em ajustes de dose

      • Contraindicado com IMAO: intervalo mínimo de 14 dias após sua suspensão

      • Metabolizadores lentos de CYP2D6 e CYP2C19 têm maior risco de reações adversas

      • É o único fármaco com aprovação FDA e ANVISA para bulimia nervosa em adultos.

  • Topiramato (Topamax®) comp. 25 mg, 50 mg ou 100 mg [2]

    • Tomar 25 mg/dia; aumentar gradualmente até 100 mg/dia (dose mediana nos ECRs; variação de 25 a 250 mg/dia)

    • Monitorar efeitos cognitivos, nefrolitiase e perda de peso

    • Observação: Uso off-label para BN

Terapia adjuvante em casos graves e resistentes:

  • Ondansetrona (Vonau®, Zofran®) comp. 4 mg [2]

    • Tomar 1 comp. (4 mg) sempre que surgir o impulso de compulsar ou vomitar, até 6 comp./dia (24 mg/dia)

    • Observações:

      • Múltiplas doses diárias pela meia-vida curta podem limitar a adesão

      • Uso off-label para BN

Complicações Clínicas

  • Distúrbios menstruais: prevalência de amenorreia ou oligomenorreia variável (20% a 50%), mais elevada em pacientes com maior frequência de purgação e menor peso; mecanismo relacionado à redução da pulsatilidade do GnRH e ao papel da leptina [1]

  • Gastrointestinais: distensão, flatulência, constipação, retardo do esvaziamento gástrico, DRGE, lacerações de Mallory-Weiss; prolapso retal em mulher jovem deve levantar suspeita de BN [1][3]

  • Orais e faciais: erosão do esmalte dentário (face lingual); sinal de Russell (calosidades interfalangeanas); sialadenose (incidência 10%–66%, predominantemente parótida); aumento de cáries e perda dentária [1][3]

  • Cardiovasculares: cardiotoxicidade por ipeca (cardiomiopatia com disfunção ventricular esquerda — indicar ecocardiograma se histórico de uso); arritmias por distúrbios eletrolíticos graves [1][3]

  • Outras: hipertrigliceridemia, alterações hematológicas, comprometimento muscular [3]

  • Densidade óssea: geralmente preservada em pacientes com peso normal, especialmente quando exercício é o mecanismo compensatório [1]

Comorbidades

  • Qualquer transtorno afetivo: 75%; transtorno depressivo maior: 63%; transtornos de ansiedade: 36% — na maioria, antecedem os sintomas bulímicos [1][4]

  • Abuso de substâncias em 30% a 70% (tabaco, álcool, estimulantes, pílulas dietéticas); alcoolismo em 31%, frequentemente associado a TDM e TEPT [1]

  • Autolesão relatada por 34% ao longo da vida; 21,3% nos últimos 5 meses; risco aumentado na comorbidade com transtorno de personalidade borderline [1]

  • Mortalidade de cerca de 1%, predominantemente por suicídio e não por complicações clínicas [4]

Prognóstico

  • Mortalidade de 0% a 3%, inferior à da anorexia nervosa [1]

  • 50% livres de sintomas 5 anos após tratamento;

  • 47% com resposta satisfatória ao completar o tratamento;

  • 26% remissão parcial; 26% cronificação [1][4]

  • Risco de morte predominantemente por suicídio [4]

  • Migração para transtorno de compulsão alimentar periódica é mais comum do que para anorexia nervosa [4]

  • Desfechos diretamente relacionados à detecção precoce e intervenção oportuna [1]

Critérios de Encaminhamento

  • Encaminhar para serviço especializado em transtornos alimentares quando: [1][3][4]

    • Sintomas persistentes após manejo inicial

    • Comorbidades psiquiátricas (TDM, borderline, abuso de substâncias)

    • Autolesão ou ideação suicida

    • Complicações clínicas graves (distúrbios eletrolíticos, falha ambulatorial, purgação incontrolável)

  • O tratamento ideal requer equipe multidisciplinar com psiquiatra, psicólogo, nutricionista e clínico experientes em transtornos alimentares. [2][3][4]

Referências

[1] RUSHING, Jona M.; JONES, Laura E.; CARNEY, Caroline P. Bulimia Nervosa: A Primary Care Review. Primary Care Companion J Clin Psychiatry, v. 5, n. 5, p. 217–224, 2003. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC419417/. Acesso em: 7 jun. 2026.

[2] CAMPOS, José Gustavo Sousa Carneiro de; HAACK, Adriana. Anorexia e bulimia: aspectos clínicos e drogas habitualmente usadas no seu tratamento medicamentoso. Comunicação em Ciências da Saúde, v. 23, n. 3, p. 253–262, 2012. Disponível em: https://revistaccs.escs.edu.br. Acesso em: 7 jun. 2026.

[3] BORGES, V.C.; CORDÁS, T.A.; WAITZBERG, D.L. Terapia Nutricional no Paciente com Transtornos Alimentares. Projeto Diretrizes AMB/CFM. SBNPE; ABN, 2011. Disponível em: https://www.projetodiretrizes.org.br. Acesso em: 7 jun. 2026.

[4] SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Transtornos alimentares na adolescência: anorexia e bulimia em tempos de pandemia. Manual de Orientação n. 21. São Paulo: SBP, out. 2021. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/23202c-MO_Transt_alim_adl-AnorexiaBulimia_tempos_pandemia.pdf. Acesso em: 7 jun. 2026.

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