Hipotireoidismo Congênito
CID 10: E03.0 Hipotireoidismo congênito com bócio difuso
CID 10: E03.1 Hipotireoidismo congênito sem bócio
Introdução
O hipotireoidismo congênito (HC) é um distúrbio metabólico sistêmico caracterizado pela secreção insuficiente dos hormônios tireoidianos, tiroxina (T4) e triiodotironina (T3).
Trata-se da doença congênita mais comum do sistema endócrino e do defeito endócrino metabólico congênito mais frequente, com prevalência estimada de 1:1.500 a 1:4.000 nascidos vivos, acometendo duas vezes mais o sexo feminino. É a principal causa de deficiência mental passível de prevenção no mundo. [1][2]
Os hormônios tireoidianos têm papel fundamental na maturação do sistema nervoso central (SNC). O período crítico de dependência desses hormônios abrange desde a vida fetal até os dois anos de idade.
Quando não tratado e acompanhado de forma adequada, o HC pode levar a complicações irreversíveis, incluindo retardo mental grave, falência do crescimento e distúrbios neurológicos como ataxia, incoordenação, estrabismo, movimentos coreiformes e perda auditiva neurossensorial. [1][2]
A maioria das crianças com HC diagnosticadas e tratadas pelos programas de triagem neonatal atinge desenvolvimento físico e níveis de coeficiente intelectual dentro da faixa da normalidade, tornando a triagem neonatal uma das mais significativas realizações médicas do século XX.
Etiologia e classificação
Classificação do HC segundo o nível da lesão [1][2]
Primário: deficiência dos hormônios tireoidianos por incapacidade parcial ou total de síntese hormonal pela glândula tireoide; forma mais frequente, responsável por 90% dos casos
Central (secundário/terciário): causado por diminuição da produção e/ou bioatividade do TSH como resultado de disfunção hipofisária (secundário) ou hipotalâmica (terciário); ambos são extremamente raros; frequentemente associado a outras deficiências hormonais, como no hipopituitarismo.
Causas do HC primário [2]
Disgenesia tireoidiana: responsável por aproximadamente 85% dos casos de HC primário; inclui atireose, hipoplasia e/ou ectopia da glândula; geralmente esporádica, sendo familiar em cerca de 2% dos casos; nos casos familiares, associada a mutações nos fatores de transcrição PAX-8, TTF-1 e TTF-2
Disormonogênese: responsável por cerca de 15% dos casos; corresponde a defeitos na síntese dos hormônios tireoidianos, considerados erros inatos do metabolismo; geralmente de herança autossômica recessiva; usualmente causada por defeito da organificação por mutações no gene da peroxidase.
HC transitório [2]
Ocorre em 5% a 10% dos casos de HC primário
Causas incluem:
Uso materno de medicamentos antitireoidianos
Exposição materna ou neonatal a agentes iodados (antissépticos, antitussígenos, contrastes)
Passagem transplacentária de anticorpos maternos bloqueadores do receptor de TSH
Deficiência de ingestão de iodo
Mutações em heterozigose nas enzimas DUOX1 (gene DUOXA1) ou DUOX2/THOX (gene DUOX2)
Grandes hemangiomas hepáticos, por aumento da atividade da desiodase tipo 3.
Quadro clínico
A observação clínica tem valor limitado para o diagnóstico do HC, pois o quadro se estabelece lentamente, em semanas ou meses, com manifestações predominantemente inespecíficas; apenas 5% das crianças são diagnosticadas clinicamente no período neonatal [1][2]
A maioria dos recém-nascidos com HC apresenta-se normal ao nascer; o feto hipotireoideo está protegido, até certo ponto, pela transferência placentária do T4 materno e pelo aumento dos níveis cerebrais de tiroxina desiodase, que converte T4 em T3 [2]
⚠️ Manifestações que devem levantar suspeita diagnóstica [2]
Icterícia prolongada
Hipotermia transitória
Fontanela posterior aumentada
Dificuldade de sucção ou dificuldade respiratória às mamadas
🚨 Sinais e sintomas clássicos (presentes em sua maioria entre 6 e 12 semanas de vida) [2]
Letargia
Obstipação intestinal
Hérnia umbilical
Fácies cretinoide (torna-se progressivamente mais evidente após os primeiros meses de vida)
Retardo de crescimento (torna-se progressivamente mais evidente após os primeiros meses de vida)
Triagem neonatal
Considerações:
O Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN) realiza a detecção do HC pela dosagem do TSH sérico em papel-filtro por imunofluorimetria [1][2]
Todos os estados brasileiros e o Distrito Federal realizam a triagem neonatal para HC; o nível de corte de TSH preconizado pelo PNTN é de 10 mUI/L [2]
Momento da coleta no recém-nascido a termo e aparentemente saudável [1][2]
Deve ser realizada entre 48 horas e o 5º dia de vida (idealmente entre o 3º e o 5º dia)
Coleta antes de 48 horas pode levar a excesso de falsos positivos, dado o pico fisiológico do TSH neonatal

Situações especiais: triagem em recém-nascidos prematuros ou de alto risco [1][2]
Indicada para: prematuros (idade gestacional < 37 semanas), recém-nascidos de baixo peso, gemelares, em uso de dopamina ou amiodarona, expostos a iodo, com anomalia cardíaca congênita e naqueles criticamente enfermos
Prematuros e recém-nascidos de muito baixo peso podem apresentar elevação tardia do TSH, com risco de perda de casos quando apenas uma amostra é colhida entre o 3º e o 5º dia
Estratégias recomendadas (uma das duas):
Repetir o exame com 1 mês de vida ou na alta hospitalar, o que ocorrer primeiro
Realizar triagem tripla com coleta no 5º, 10º e 30º dias de vida
Quando houver indicação de transfusão de sangue total, coletar os testes de triagem antes da transfusão
Dopamina e glicocorticoides podem causar resultado falso negativo; contaminação por iodo pode causar resultado falso positivo [2]
Confirmação Diagnóstica
Considerações:
Os testes de triagem neonatal não são diagnósticos; resultados alterados devem ser confirmados por dosagem sérica de TSH e T4 total (T4T) ou T4 livre (T4L) em amostra de sangue venoso [1][2]
A realização dos exames nessa sequência permite a detecção de mais de 99% dos casos [1]
Os testes laboratoriais confirmatórios devem ocorrer entre a primeira e a segunda semana de vida [2]

Interpretação dos resultados confirmatórios [1][2]
TSH > 10 mUI/L com T4L ou T4T baixos: confirmam o diagnóstico de HC primário; iniciar tratamento. Observação: o valor de referência laboratorial neonatal para TSH é < 9 mUI/L, enquanto o limiar diagnóstico-terapêutico confirmatório é > 10 mUI/L; valores entre 9 e 10 mUI/L devem ser interpretados no contexto clínico e laboratorial completo [1]
TSH confirmatório entre 6 e 10 µU/mL com T4T/T4L normais: seguimento cuidadoso com novas dosagens após uma semana; se o TSH persistir discretamente elevado ao completar um mês de vida, mesmo com T4 normal, alguns pesquisadores sugerem tratamento com reavaliação após os 3 anos
Crianças prematuras ou com síndrome do doente eutireoidiano podem apresentar T4T/T4L baixos com TSH normal; tratamento não recomendado, salvo na presença de evidências de doença hipotalâmica ou hipofisária
Aproximadamente 5% dos casos de HC apresentam elevação tardia do TSH e não são identificados na triagem neonatal; na presença de sintomas sugestivos, dosar TSH e T4T ou T4L independentemente do resultado prévio da triagem [2]
Exame complementar auxiliar [1][2]
Radiografia simples do joelho: avalia a presença ou ausência das epífises femoral distal e tibial proximal; pode indicar hipotireoidismo intrauterino e serve como indicador de gravidade e prognóstico da doença
Situação especial: deficiência de TBG [2]
Crianças com deficiência da proteína carreadora do T4 (TBG), herança ligada ao X, que acomete recém-nascidos do sexo masculino, não necessitam de tratamento, pois o T4L é normal
Em meninos com peso e aspecto normais e T4 total baixo, solicitar T4 total, T4 livre, TSH e TBG
Diagnóstico Diferencial e Etiológico
Considerações sobre o diagnóstico etiológico:
Indicada a realização de ultrassonografia (US) cervical, preferencialmente com Doppler colorido, cintilografia tireoidiana (tecnécio 99 ou iodo 123) e dosagem de tireoglobulina [1][2]
Cerca de 90% dos casos são do tipo primário [1]
Sugere-se iniciar a investigação com US cervical, complementada com cintilografia nos casos em que a US não for suficiente para determinar o diagnóstico [1]
A US convencional é método não invasivo e de baixo custo; identifica ausência de tecido tireoidiano em posição habitual, porém tem limitação para determinar ectopia; a US com Doppler colorido apresenta maior sensibilidade para diagnosticar tecido ectópico, sem consenso ainda para seu uso como método inicial [2]
A associação de tireoglobulina e US pode distinguir entre atireose e ectopia glandular: ausência de tecido em localização normal com T4 e tireoglobulina mensuráveis indica a presença de tecido funcional ectópico [2]
A impossibilidade de realizar exames para determinação etiológica não deve atrasar o início do tratamento; nesses casos, a investigação etiológica deve ser postergada para após os 3 anos de vida [1][2]

Anomalias Congênitas Associadas
Aproximadamente 10% dos pacientes com HC apresentam anomalias congênitas associadas, contrastando com a frequência de 3% observada na população geral [2]
Anomalias mais comuns, em ordem de frequência [2]
Cardíacas: estenose pulmonar e defeitos do septo atrial ou ventricular (as mais frequentes)
Malformações do aparelho digestivo
Trissomias cromossômicas
Malformação do trato urogenital e do SNC
Defeitos múltiplos
Crianças com HC e palato fendido podem apresentar mutações no gene FOXE-1 [2]
Crianças com HC e sintomas neurológicos persistentes, incluindo ataxia, são suspeitas de mutações no gene NKX2 [2]
Problemas auditivos ocorrem em até 20% das crianças com HC; todas as crianças afetadas devem ser submetidas ao Teste da Orelhinha [2]
Exame físico cuidadoso é recomendado; na presença de qualquer alteração, a criança deve ser encaminhada para avaliação especializada [2]
Tratamento
Considerações:
O tratamento do HC é feito com levotiroxina (LT4); a escolha se justifica pelo fato de a maior parte do hormônio tireoidiano nas células do SNC derivar da conversão local de T4 em T3 [1][2]
O tratamento deve ser iniciado o mais precocemente possível, idealmente nos primeiros 14 dias de vida, após coleta de sangue para exames confirmatórios; após essa idade, nos casos de HC por atireose e disormonogênese grave, já pode ocorrer algum dano cerebral [1][2]
No Brasil, devem ser utilizados comprimidos de LT4; não há aprovação pela ANVISA de soluções líquidas do hormônio [2]
Medicação: [1][2]
Levotiroxina sódica (Puran T4®, Levoid®) comp. 12,5 mcg / 25 mcg / 37,5 mcg / 38 mcg / 50 mcg / 62,5 mcg / 75 mcg / 88 mcg / 100 mcg / 112 mcg / 125 mcg / 137 mcg / 150 mcg / 175 mcg / 200 mcg / 300 mcg
Dose inicial padrão: 10–15 mcg/kg/dia, via oral, 1 vez ao dia [1][2]
Dose média para RN a termo: 50 mcg/dia [1][2]
Dose média para RN pré-termo: 25–37,5 mcg/dia [1][2]
Doses maiores (12–17 mcg/kg/dia) são indicadas nos casos de hipotireoidismo mais grave (menores níveis de T4L) [1]
A dose deve ser ajustada periodicamente de acordo com os controles laboratoriais [1]
Administração em RN e lactentes [1][2]
O comprimido deve ser triturado, misturado com pequena quantidade de água ou leite materno e administrado com colher
Não diluir na mamadeira
Administrar preferencialmente pela manhã, antes das refeições, em jejum; manter 30 minutos sem alimentação após a administração
Se o jejum não for possível, administrar no intervalo entre as mamadas e ajustar doses com base nas concentrações séricas
Em caso de vômitos imediatos, repetir a mesma dose
Interações e cuidados [1][2]
Evitar administração concomitante com: soja (incluindo leite de soja), ferro (suplementos vitamínicos) e cálcio, pois interferem na absorção da LT4
Manter o aleitamento materno; mães em uso de drogas antitireoidianas podem continuar a amamentar, mesmo que o lactente tenha HC
Na presença de deficiência do ACTH, a reposição de LT4 só deve ser iniciada 3–5 dias após o início da corticoterapia, a fim de evitar precipitação de crise adrenal [2]
Monitoramento
O controle do tratamento deve ser baseado em avaliação clínica (sinais de hipotireoidismo ou hipertireoidismo, crescimento, ganho de peso e desenvolvimento neuropsicomotor) e laboratorial [1][2]
A coleta dos exames deve ser realizada sempre antes da administração da levotiroxina; caso já tenha sido administrada, aguardar no mínimo 4 horas para coletar o sangue [1][2]
Frequência do monitoramento laboratorial (TSH e T4L ou T4T) [1][2]
Em 2 e 4 semanas após o início da terapia
Entre 0 e 6 meses de idade: a cada 1 a 2 meses
Entre 6 meses e 3 anos de idade: a cada 2 a 3 meses
Acima de 3 anos: a cada 6 a 12 meses
Dosagens adicionais indicadas nas seguintes situações [1][2]
4 semanas após cada mudança de dose
Quando a regularidade do tratamento for questionada
Quando os valores hormonais forem anormais
Metas de tratamento para os primeiros 3 anos de vida [1][2]
Assegurar crescimento e desenvolvimento adequados
T4 livre entre 1,4 e 2,3 ng/dL, ou T4 total entre 10 e 16 µg/dL
TSH entre 0,4 e 4 mUI/L
Para valores elevados de TSH, recomenda-se o aumento da dose de levotiroxina com reavaliação laboratorial após 4 semanas [1]
Em casos em que o TSH inicial é muito elevado (10% dos pacientes), pode ser necessário um tempo maior para atingir níveis normais; deve-se sempre questionar subdosagem ou tratamento irregular nessas situações [2]
O tratamento deve ser mantido por toda a vida, salvo nos casos suspeitos de hipotireoidismo transitório [1]
Suspensão do tratamento para confirmação diagnóstica [1][2]
Indicada nos casos sem etiologia definida, após os 3 anos de vida
Candidatos à suspensão: pacientes sem etiologia definida ao exame de imagem (especialmente com tireoide normal à US), com quadro clínico e laboratorial inicial duvidoso, ou que não necessitaram de aumento de dose durante o seguimento
Suspender LT4 por 30 dias e realizar avaliação clínica e laboratorial (T4L, TSH, tireoglobulina, cintilografia e US de tireoide)
Realizar 3 avaliações seriadas de TSH com intervalos mensais após a suspensão:
TSH < 5 mUI/L nas 3 medidas: diagnóstico de HC transitório
TSH > 9,9 mUI/L: confirma disormonogênese; restituir tratamento
TSH entre 5,0 e 9,9 mUI/L: reavaliar mensalmente; elevação confirma disormonogênese; manutenção abaixo de 5 mUI/L confirma HC transitório
Prognóstico
A triagem neonatal e o tratamento precoce melhoraram substancialmente o prognóstico das crianças com HC; a maioria atinge desenvolvimento físico e coeficiente intelectual dentro da faixa da normalidade [2]
Algumas crianças tratadas precocemente ainda apresentam risco de deficiências intelectuais seletivas, não globais, nos domínios de linguagem, senso motor e habilidades visuoespaciais; esses déficits podem contribuir para menor rendimento escolar e maior ocorrência de problemas comportamentais leves e inespecíficos [2]
Os melhores resultados ocorrem em crianças com apresentação menos grave, que receberam tratamento adequado, imediato e com boa adesão [2]
Pacientes que receberam doses mais altas de LT4 apresentam melhor desempenho em testes de inteligência, habilidade verbal e memória, porém com mais problemas comportamentais [2]
O crescimento e o desenvolvimento puberal são essencialmente normais nas crianças tratadas precocemente com dose adequada e com boa adesão ao tratamento [2]
A idade óssea geralmente normaliza aos 3 anos, podendo em alguns casos já estar compatível com a idade cronológica aos 12 meses; há correlação positiva entre idade óssea e dose de levotiroxina quando o tratamento é regular; a idade óssea constitui parâmetro de adequação do tratamento no seguimento [2]
Os principais fatores que influenciam a altura final do adulto com HC são o genético (altura dos pais) e a dose diária de levotiroxina; todos os pacientes devem ser acompanhados com curvas de crescimento [2]
Os fatores que influenciam os desfechos cognitivos incluem: gravidade do hipotireoidismo fetal, etiologia da doença, idade de início do tratamento, doses iniciais e subsequentes de LT4, e frequência e qualidade do seguimento [2]
Referências
[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 5, de 16 de abril de 2021. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Hipotireoidismo Congênito. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/20210426_portaria_conjunta_pcdt_hipotireoidismo_congenito.pdf. Acesso em: 6 jun. 2026.
[2] ALVES, Crésio de Aragão Dantas et al. Hipotireoidismo Congênito: Triagem Neonatal. Departamento Científico de Endocrinologia, Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico nº 5. São Paulo: SBP, nov. 2018. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/Endocrino_-_21369c-DC_Hipotireoidismo_Congenito.pdf. Acesso em: 6 jun. 2026.
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