Transtorno de Estresse Pós-traumático (TEPT)
CID 10: F43.1 — Transtorno de estresse pós-traumático
Introdução
O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é um transtorno relacionado à exposição a evento traumático envolvendo morte, ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual. Pode ocorrer após exposição direta, testemunho, conhecimento de evento traumático envolvendo familiar próximo ou exposição repetida a detalhes aversivos do trauma (ex.: profissionais de emergência).
Caracteriza-se por:
sintomas intrusivos;
esquiva persistente;
alterações negativas de cognição e humor;
hiperexcitabilidade/neurovegetatividade.
O TEPT pode gerar:
prejuízo funcional importante;
incapacidade laboral;
maior risco de suicídio;
abuso de substâncias;
comorbidades psiquiátricas.
O manejo deve priorizar:
reconhecimento precoce;
avaliação de risco;
psicoterapia focada em trauma;
tratamento farmacológico quando indicado.
Epidemiologia
A prevalência varia conforme população estudada e tipo de trauma.
Fatores associados a maior risco:
sexo feminino;
trauma interpessoal;
violência sexual;
exposição repetida a trauma;
infância traumática;
comorbidades psiquiátricas;
ausência de suporte social.
Pode ocorrer em:
vítimas de violência;
acidentes graves;
profissionais de saúde;
militares;
sobreviventes de desastres;
crianças expostas a abuso/negligência.
Fatores de risco
História psiquiátrica:
depressão;
transtornos ansiosos;
uso de substâncias.
Vulnerabilidade psicossocial:
isolamento social;
baixa rede de apoio;
pobreza;
violência doméstica.
Características do trauma:
maior gravidade;
trauma prolongado;
trauma interpessoal;
dissociação peritraumática.
História de trauma prévio.
Critérios diagnósticos (DSM-5)
Critérios diagnósticos (DSM-5)
Exposição a evento traumático.
Presença de sintomas por > 1 mês.
Prejuízo funcional clinicamente significativo.
Sintomas não explicados por substâncias ou outra condição médica.
Sintomas intrusivos
Memórias involuntárias recorrentes.
Flashbacks.
Pesadelos relacionados ao trauma.
Sofrimento intenso diante de gatilhos.
Esquiva
Evitação de:
pensamentos;
sentimentos;
pessoas;
locais;
situações relacionadas ao trauma.
Alterações negativas de cognição e humor
Culpa persistente.
Vergonha.
Humor deprimido.
Anedonia.
Sensação de desligamento emocional.
Amnésia dissociativa parcial do trauma.
Alterações de excitação e reatividade
Hipervigilância.
Irritabilidade.
Sobressalto exacerbado.
Distúrbios do sono.
Dificuldade de concentração.
Comportamento autodestrutivo.
Subtipos e apresentações clínicas
TEPT com sintomas dissociativos
Pode cursar com:
despersonalização;
desrealização.
Associado a:
maior gravidade;
maior refratariedade terapêutica.
TEPT complexo (CID-11)
Associado tipicamente a:
trauma prolongado;
abuso crônico;
violência repetida.
Inclui:
sintomas clássicos de TEPT;
desregulação emocional persistente;
alterações interpessoais;
autoimagem negativa.
Quadro clínico
Quadro clínico geral:
Sintomas ansiosos persistentes.
Insônia.
Irritabilidade.
Isolamento social.
Queda funcional.
Somatizações.
Hipervigilância.
Uso abusivo de álcool ou drogas.
Ideação suicida.
Crianças e adolescentes:
Regressão comportamental.
Irritabilidade.
Revivescência traumática em brincadeiras.
Queda de rendimento escolar.
Distúrbios do sono.
Queixas somáticas.
Diagnóstico
Avaliação clínica
O diagnóstico é clínico.
Deve incluir:
história detalhada do trauma;
cronologia dos sintomas;
avaliação funcional;
rastreio de risco suicida;
investigação de comorbidades.
Instrumentos úteis
PCL-5 (PTSD Checklist for DSM-5).
CAPS-5 (Clinician-Administered PTSD Scale).
PC-PTSD-5 para rastreio em APS.
Diagnóstico diferencial:
Transtorno de adaptação.
Transtorno depressivo maior.
Transtorno de ansiedade generalizada.
Transtorno do pânico.
Transtornos dissociativos.
Transtorno por uso de substâncias.
Transtorno de personalidade borderline.
Reação aguda ao estresse.
Comorbidades frequentes:
Depressão maior.
Transtornos ansiosos.
Uso de álcool e drogas.
Dor crônica.
Insônia.
Transtornos dissociativos.
Risco aumentado de suicídio.
Avaliação de risco
Avaliar sistematicamente
ideação suicida;
planejamento suicida;
acesso a meios letais;
impulsividade;
automutilação;
violência interpessoal;
abuso de substâncias;
sintomas psicóticos;
dissociação grave.
Critérios de encaminhamento urgente
Risco suicida moderado/alto.
Psicose.
Incapacidade funcional grave.
Agitação importante.
Abuso grave de substâncias.
Dissociação grave.
Falha terapêutica persistente.
Medidas Iniciais na APS
Medidas gerais
Validar exposição traumática sem insistência excessiva na narrativa detalhada.
Evitar medicalização isolada sem psicoterapia.
Identificar fatores de risco psicossociais.
Tratar comorbidades.
Monitorar risco suicida.
Encaminhar para psicoterapia focada em trauma quando disponível.
Condutas iniciais
Psicoeducação.
Higiene do sono.
Redução de álcool e substâncias.
Organização de rotina.
Fortalecimento de rede de apoio.
Acompanhamento longitudinal.
Psicoterapia
A psicoterapia focada no trauma é considerada tratamento de primeira linha.
Modalidades com melhor evidência
Terapia Cognitivo-Comportamental focada em trauma (TCC-T).
Cognitive Processing Therapy (CPT).
Prolonged Exposure (PE).
Eye Movement Desensitization and Reprocessing (EMDR).
Observações práticas
Evitar exposição traumática sem estrutura técnica adequada.
Terapias exclusivamente de suporte possuem menor evidência.
Casos complexos podem exigir abordagem faseada.
Tratamento farmacológico
Considerações gerais
Indicado principalmente quando:
sintomas moderados/graves;
indisponibilidade de psicoterapia;
comorbidades associadas;
resposta insuficiente à psicoterapia isolada.
ISRSs são primeira linha farmacológica.
Benzodiazepínicos não são recomendados rotineiramente devido:
risco de dependência;
piora de evitação;
prejuízo terapêutico.
Antidepressivos de primeira linha
Sertralina (Zoloft®) comp. 25 mg, 50 mg ou 100 mg
Iniciar 25–50 mg/dia.
Titulação gradual conforme tolerância.
Dose usual: 50–200 mg/dia.
Administrar 1x/dia.
Pode reduzir sintomas intrusivos, ansiedade e esquiva.
Paroxetina (Pondera®) comp. 20 mg ou 30 mg
Iniciar 10–20 mg/dia.
Dose usual: 20–60 mg/dia.
Maior potencial de:
ganho ponderal;
disfunção sexual;
síndrome de descontinuação.
Venlafaxina (Efexor XR®) caps. lib. prolongada 37,5 mg, 75 mg ou 150 mg
Iniciar 37,5–75 mg/dia.
Dose usual: 75–300 mg/dia.
Monitorar:
pressão arterial;
sintomas de retirada.
Alternativas
Fluoxetina (Prozac®) comp. 20 mg
Iniciar 20 mg/dia.
Dose usual: 20–60 mg/dia.
Pode ser útil em:
depressão associada;
fadiga;
baixa adesão devido meia-vida longa.
Mirtazapina (Remeron®) comp. 15 mg, 30 mg ou 45 mg
Iniciar 15 mg à noite.
Dose usual: 15–45 mg/dia.
Pode auxiliar:
insônia;
perda ponderal;
ansiedade importante.
Manejo de sintomas específicos
Insônia e pesadelos
Prazosina comp. 1 mg ou 2 mg
Iniciar 1 mg à noite.
Titulação gradual conforme resposta.
Monitorar hipotensão ortostática.
Evidência mais consistente para pesadelos traumáticos.
Agitação grave ou sintomas psicóticos associados
Quetiapina comp. 25 mg, 100 mg, 200 mg ou 300 mg
Iniciar 25 mg à noite e aumentar conforme a necessidade.
Dose máxima: 750-800 mg/dia.
Não é tratamento de primeira linha para TEPT isolado.
Pode ser considerada em casos selecionados:
insônia refratária;
agitação;
sintomas psicóticos;
bipolaridade associada.
Monitorar:
sedação;
síndrome metabólica;
ganho ponderal.
Medicamentos não recomendados rotineiramente
Benzodiazepínicos.
Cannabis medicinal para TEPT.
Antipsicóticos como monoterapia inicial.
Polifarmácia precoce sem racional clínico.
Seguimento
Reavaliar:
resposta clínica;
adesão;
efeitos adversos;
funcionalidade;
risco suicida.
ISRS geralmente exigem:
4–8 semanas para resposta inicial;
tratamento prolongado após remissão.
A suspensão medicamentosa deve ser gradual.
Critérios de encaminhamento
Considerar encaminhamento para psiquiatria se:
Diagnóstico duvidoso.
Dissociação importante.
Risco suicida.
Comorbidade grave.
TEPT complexo grave.
Refratariedade terapêutica.
Necessidade de múltiplos psicofármacos.
Sintomas psicóticos.
Dependência química relevante.
Prognóstico
Variável conforme:
intensidade do trauma;
suporte social;
acesso terapêutico;
comorbidades.
Tratamento precoce melhora:
funcionalidade;
remissão sintomática;
qualidade de vida.
Referências
[1] AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2023. Disponível em: American Psychiatric Association. Acesso em: 24 maio 2026.
[2] AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. Clinical Practice Guideline for the Treatment of Posttraumatic Stress Disorder (PTSD) in Adults. Washington, DC: APA, 2017. Disponível em: APA PTSD Guideline. Acesso em: 24 maio 2026.
[3] U.S. DEPARTMENT OF VETERANS AFFAIRS; U.S. DEPARTMENT OF DEFENSE. VA/DoD Clinical Practice Guideline for the Management of Posttraumatic Stress Disorder and Acute Stress Disorder. Washington, DC, 2023. Disponível em: VA/DoD PTSD Guideline. Acesso em: 24 maio 2026.
[4] U.S. DEPARTMENT OF VETERANS AFFAIRS. National Center for PTSD. PTSD: National Center for PTSD. Washington, DC, 2025. Disponível em: National Center for PTSD. Acesso em: 24 maio 2026.
[5] WORLD HEALTH ORGANIZATION. International Classification of Diseases 11th Revision (ICD-11). Geneva: WHO, 2022. Disponível em: ICD-11 WHO. Acesso em: 24 maio 2026.
Autoria e Curadoria
As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.


