Vulvodínia

CID-10: N94.8 – Outras afecções especificadas dos órgãos genitais femininos

Introdução

  • A vulvodínia é uma dor vulvar crônica, com duração ≥3 meses, sem causa identificável que justifique completamente os sintomas.

  • É considerada uma condição de dor crônica multifatorial, envolvendo mecanismos neuropáticos, inflamatórios, hormonais, musculoesqueléticos e psicossociais.

  • Pode comprometer significativamente a qualidade de vida, sexualidade, saúde mental e relacionamentos.

  • O diagnóstico é clínico e de exclusão, após investigação adequada de causas infecciosas, dermatológicas, neoplásicas e neurológicas.

  • Epidemiologia:

    • Acomete mulheres de todas as idades, sendo mais frequente entre 20 e 50 anos.

    • Estima-se que até 8–12% das mulheres apresentem sintomas compatíveis ao longo da vida.

    • O diagnóstico costuma ser tardio devido ao desconhecimento da doença e à exclusão incompleta de outras causas de dor vulvar.

    • Frequentemente está associada a outras síndromes dolorosas crônicas.

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Fisiopatologia

  • A etiologia é multifatorial e ainda não completamente esclarecida.

  • Os principais mecanismos incluem:

    • sensibilização periférica e central;

    • proliferação de fibras nervosas na mucosa vulvar;

    • disfunção do assoalho pélvico;

    • alterações hormonais locais;

    • predisposição genética;

    • inflamação persistente de baixo grau;

    • fatores psicológicos associados à cronificação da dor.

Classificação

Quanto à localização

  • Vulvodínia localizada

    • Restrita a uma região específica da vulva.

    • A forma mais comum é a vestibulodínia.

  • Vulvodínia generalizada

    • Dor difusa envolvendo grande parte da vulva.

Quanto ao desencadeante

  • Provocada

    • Dor desencadeada por:

      • relação sexual;

      • introdução de absorvente interno;

      • exame ginecológico;

      • toque local.

  • Espontânea

    • Dor contínua, sem estímulo identificável.

  • Mista

    • Associação de dor espontânea e provocada.

Quanto ao tempo de evolução

  • Primária

    • Presente desde a primeira tentativa de penetração vaginal.

  • Secundária

    • Surge após período prévio sem dor.

Fatores de risco

Podem estar associados:

  • candidíase vulvovaginal de repetição;

  • disfunção da musculatura do assoalho pélvico;

  • trauma obstétrico;

  • cirurgias vulvares;

  • hipertonia muscular;

  • ansiedade;

  • depressão;

  • síndrome do intestino irritável;

  • fibromialgia;

  • síndrome da bexiga dolorosa;

  • endometriose;

  • abuso sexual (não obrigatório e não presente na maioria dos casos).

Fluxograma diagnóstico

Fluxo de Avaliação para Diagnóstico de Vulvodínia: o fluxograma apresenta oito etapas sequenciais para avaliação e diagnóstico de vulvodínia. A primeira etapa estabelece como critério de entrada a presença de dor vulvar com duração igual ou superior a três meses, definido como critério temporal para iniciar a investigação. A segunda etapa consiste na realização de anamnese completa, com coleta de história clínica detalhada incluindo fatores desencadeantes, fatores associados e impacto na qualidade de vida. A terceira etapa corresponde ao exame ginecológico, com avaliação cuidadosa da vulva, vestíbulo e tecidos adjacentes. A quarta etapa é o teste do cotonete, que realiza o mapeamento da dor à palpação com cotonete pelo método de Q-tip. A quinta etapa orienta a exclusão ativa de diagnósticos diferenciais, incluindo candidíase, infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), dermatoses, neoplasias, doenças neurológicas e atrofia vulvovaginal. A sexta etapa confirma a ausência de causa identificável após investigação e exclusões adequadas. A sétima etapa estabelece o diagnóstico de vulvodínia, ressaltando que se trata de diagnóstico clínico, realizado por exclusão. A oitava e última etapa orienta a avaliação complementar do caso, abrangendo: localização da dor, fator desencadeante, gravidade da dor, comprometimento da musculatura do assoalho pélvico e impacto psicossocial.

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico e de exclusão.

Critérios diagnósticos

  • Dor vulvar persistente por ≥3 meses.

  • Ausência de causa identificável que explique completamente os sintomas.

  • Exclusão de doenças infecciosas, dermatológicas, neurológicas e neoplásicas.

Quadro clínico

Sintomas

  • A dor pode ser descrita como:

    • ardor;

    • queimação;

    • pontadas;

    • sensação de corte;

    • irritação;

    • hipersensibilidade;

    • dor em pressão ou contato.

  • Pode estar associada a:

    • dispareunia superficial;

    • dificuldade para uso de absorventes internos;

    • desconforto ao permanecer sentada;

    • dor durante exame ginecológico;

    • limitação das atividades diárias.

História clínica

  • Investigar:

    • início da dor;

    • duração;

    • localização;

    • intensidade;

    • fatores desencadeantes;

    • fatores de alívio;

    • impacto na atividade sexual;

    • tratamentos prévios;

    • doenças ginecológicas;

    • doenças dolorosas crônicas;

    • uso de medicamentos.

Exame físico

Exame físico

  • O exame pode ser completamente normal.

  • Quando presentes, podem ser observados:

    • hipersensibilidade localizada;

    • contração involuntária da musculatura do assoalho pélvico;

    • dor à palpação do vestíbulo vaginal.

  • Não costumam existir:

    • ulcerações;

    • fissuras;

    • lesões dermatológicas específicas;

    • secreção vaginal patológica.

Exame ginecológico

  • Avaliar:

    • vulva;

    • vestíbulo vaginal;

    • vagina;

    • colo uterino;

    • tônus da musculatura do assoalho pélvico.

Teste do cotonete (Cotton Swab Test)

  • É o principal exame clínico para localização da dor.

  • Consiste em:

    • palpação suave do vestíbulo utilizando cotonete estéril;

    • identificação dos pontos dolorosos;

    • graduação da intensidade da dor.

Exames complementares

  • Não existe exame específico para confirmar vulvodínia.

  • Solicitar apenas quando houver suspeita de doença associada.

  • Podem ser indicados:

    • bacterioscopia;

    • cultura vaginal;

    • pesquisa para Candida spp.;

    • biópsia vulvar (quando houver lesões suspeitas);

    • exames para ISTs, conforme indicação clínica.

Diagnósticos diferenciais

Doenças infecciosas

  • Candidíase vulvovaginal.

  • Herpes genital.

  • Vaginose bacteriana.

  • Tricomoníase.

Doenças dermatológicas

  • Líquen escleroso.

  • Líquen plano.

  • Dermatite de contato.

  • Psoríase genital.

Outras causas ginecológicas

  • Atrofia vulvovaginal.

  • Endometriose profunda.

  • Cistos vestibulares.

  • Neoplasias vulvares.

Causas neurológicas e musculoesqueléticas

  • Neuralgia do nervo pudendo.

  • Disfunção do assoalho pélvico.

  • Dor miofascial.

  • Radiculopatias lombossacras.

Tratamento

Medidas não farmacológicas

Cuidados vulvares

  • Evitar sabonetes perfumados, desodorantes íntimos, lenços umedecidos, duchas vaginais, absorventes perfumados e produtos irritantes.

  • Preferir limpeza suave com água ou produto sem fragrância, quando necessário.

  • Utilizar roupas íntimas de algodão e roupas menos apertadas.

  • Evitar permanecer com roupas úmidas após exercício físico ou banho.

  • Considerar lubrificante durante atividade sexual, preferencialmente sem fragrâncias ou substâncias irritantes.

  • Reduzir temporariamente atividades que provoquem pressão perineal intensa, como ciclismo, quando houver piora clara dos sintomas.

Fisioterapia do assoalho pélvico

  • Indicada quando houver hipertonia, dor miofascial, espasmo muscular, dispareunia ou incapacidade de relaxamento do assoalho pélvico.

  • Pode incluir técnicas manuais, biofeedback, treinamento de relaxamento, reeducação muscular e dilatadores vaginais conforme avaliação especializada.

Intervenções psicológicas e sexuais

  • Considerar psicoterapia, terapia cognitivo-comportamental e terapia sexual quando houver sofrimento emocional, medo de penetração, evitação sexual, conflitos relacionais ou impacto relevante na qualidade de vida.

  • O objetivo é reduzir a amplificação da dor, melhorar enfrentamento, função sexual e adesão ao tratamento multidisciplinar.

Tratamento farmacológico

  • A evidência para tratamento medicamentoso é limitada e a resposta é individual.

  • Não há esquema farmacológico universalmente superior.

  • O uso de medicamentos deve integrar uma abordagem multimodal, com reavaliação periódica de benefício, tolerabilidade e impacto funcional.

Anestésico tópico

  • Lidocaína gel ou pomada 2%

    • Aplicar pequena quantidade na área dolorosa conforme necessidade, especialmente antes de situações previsivelmente desencadeantes.

    • Orientar possível ardor transitório após aplicação.

    • Evitar excesso de produto e contato oral/genital do parceiro antes de completa absorção.

  • Lidocaína pomada 5%

    • Pode ser utilizada em aplicação local noturna ou antes da atividade sexual, conforme avaliação individual.

    • Reavaliar irritação local, dermatite de contato e resposta clínica.

Antidepressivos tricíclicos

  • Amitriptilina comp. 25 mg

    • Iniciar com 10 a 25 mg à noite.

    • Titular gradualmente conforme resposta e tolerabilidade.

    • Monitorar sonolência, boca seca, constipação, retenção urinária, hipotensão postural e efeitos anticolinérgicos.

    • Considerar contraindicações e interações medicamentosas antes da prescrição.

Anticonvulsivantes para dor neuropática

  • Gabapentina cáps. 300 mg

    • Considerar em pacientes selecionadas com fenótipo compatível com dor neuropática ou refratária a medidas iniciais.

    • Titular progressivamente conforme resposta e tolerabilidade.

    • Monitorar sonolência, tontura, edema periférico e prejuízo funcional.

    • As fontes consultadas descrevem o uso de antidepressivos tricíclicos e anticonvulsivantes como opções terapêuticas, porém não apresentam posologias padronizadas específicas para vulvodínia. Portanto, a titulação deve seguir avaliação individual, bula e protocolos institucionais vigentes.

Procedimentos e tratamento cirúrgico

  • Bloqueios anestésicos, infiltrações e outras intervenções para dor podem ser considerados em serviços especializados para casos selecionados e refratários.

  • A vestibulectomia pode ser considerada em vestibulodínia localizada provocada, refratária ao tratamento conservador e com dor bem delimitada no vestíbulo.

  • A indicação cirúrgica exige avaliação por ginecologista com experiência em dor vulvar e discussão individualizada de riscos, benefícios e expectativas.

Referências

[1] FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Manual de Orientação em Uroginecologia e Dor Pélvica Crônica. São Paulo: FEBRASGO, 2021. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br. Acesso em: 28 jun. 2026.

[2] FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Comissão Nacional Especializada em Dor Pélvica Crônica. Protocolos e recomendações. São Paulo: FEBRASGO. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br. Acesso em: 28 jun. 2026.

[3] ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA (AMB). Projeto Diretrizes – Dor Pélvica Crônica na Mulher. São Paulo: AMB/CFM. Disponível em: https://amb.org.br. Acesso em: 28 jun. 2026.


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