Placenta Prévia e Acretismo Placentário
CID-10: O44 – Placenta prévia
CID-10: O43.2 – Aderência mórbida da placenta
Introdução
A placenta prévia e o espectro do acretismo placentário (Placenta Accreta Spectrum – PAS) são importantes causas de hemorragia obstétrica, associadas a aumento da morbimortalidade materna e fetal.
O reconhecimento precoce durante o pré-natal permite o encaminhamento para centros especializados, reduzindo complicações relacionadas ao parto.
O risco de PAS aumenta significativamente quando a placenta prévia está associada a uma ou mais cesarianas anteriores.
Definições
Placenta prévia
É a implantação da placenta no segmento inferior do útero, alcançando ou recobrindo o orifício interno do colo uterino (OIC). Também deve ser valorizada a placenta de inserção baixa, quando a borda placentária está a menos de 20 mm do OIC, por exigir seguimento durante a gestação.
Espectro do Acretismo Placentário (PAS)
Corresponde à aderência anormal da placenta ao útero por ausência ou deficiência da decídua basal, permitindo invasão do miométrio em diferentes profundidades (acreta, increta e percreta). A principal associação clínica é placenta prévia sobre cicatriz de cesariana anterior.
Manifestações clínicas
Placenta prévia
A manifestação clássica é:
Sangramento vaginal vermelho vivo, indolor e de início súbito, geralmente após 20 semanas de gestação, mais frequentemente no terceiro trimestre;
O sangramento pode ser recorrente e variar de pequeno volume até hemorragia importante;
Em muitos casos, a gestante encontra-se em bom estado geral entre os episódios de sangramento.
Geralmente não apresenta:
Dor abdominal intensa;
Hipertonia uterina;
Contrações uterinas persistentes (exceto quando em trabalho de parto).
Espectro do Acretismo Placentário (PAS)
Na maioria dos casos, o PAS é assintomático durante a gestação e o diagnóstico é realizado por exames de imagem.
Quando há sintomas, geralmente estão relacionados à placenta prévia associada, podendo ocorrer:
Sangramento vaginal indolor.
Raramente, hematúria (quando há invasão da bexiga, principalmente na placenta percreta).
Excepcionalmente, dor pélvica em casos de invasão extensa.
Importante: A ausência de sintomas não exclui PAS. A suspeita deve ser baseada principalmente nos fatores de risco (especialmente placenta prévia + cesariana anterior) e nos achados ultrassonográficos.
Fatores de risco
Os principais fatores de risco para placenta prévia e PAS são:
Cesariana anterior (principal fator de risco para PAS).
Placenta prévia na gestação atual.
História de placenta prévia.
Cirurgias uterinas prévias (miomectomia, histeroscopia cirúrgica).
Curetagens uterinas repetidas.
Idade materna ≥ 35 anos.
Multiparidade.
Reprodução assistida.
Tabagismo.
Importante: Toda gestante com placenta prévia e cesariana anterior deve ser investigada para PAS.
Diagnóstico
O diagnóstico é baseado na história clínica, fatores de risco e exames de imagem.
Exames recomendados
Ultrassonografia obstétrica (rastreamento inicial);
Ultrassonografia transvaginal (método de escolha para avaliação da localização placentária, inclusive na suspeita de placenta prévia);
Doppler colorido, quando houver suspeita de PAS;
Ressonância magnética, quando a ultrassonografia for inconclusiva ou houver suspeita de invasão extensa (principalmente placenta posterior ou possível acometimento de órgãos adjacentes).
Importante: A ultrassonografia transvaginal é segura na suspeita de placenta prévia e apresenta maior acurácia do que a ultrassonografia transabdominal para definir a relação entre a placenta e o orifício interno do colo uterino.
Achados ultrassonográficos sugestivos de PAS
Os principais sinais ultrassonográficos incluem:
Perda da zona hipoecoica retroplacentária;
Lacunas placentárias irregulares ("lacunas em queijo suíço");
Afinamento importante do miométrio (< 1 mm);
Interface útero-bexiga irregular ou interrompida;
Hipervascularização na interface uterovesical ao Doppler;
Vasos em ponte ("bridging vessels") atravessando o miométrio em direção à bexiga;
Fluxo vascular subplacentário exuberante ao Doppler colorido.
A presença de múltiplos achados aumenta significativamente a probabilidade de PAS, principalmente em gestantes com placenta prévia e cesariana anterior.
Manejo ambulatorial
Após o diagnóstico de placenta prévia ou suspeita de PAS:
Solicitar ou repetir ultrassonografia com avaliação detalhada da implantação placentária quando indicado.
Orientar a gestante a procurar atendimento imediato em caso de qualquer sangramento vaginal.
Evitar toque vaginal digital até exclusão de placenta prévia.
Manter acompanhamento em pré-natal de alto risco.
Nas pacientes com suspeita de PAS, programar seguimento em serviço com experiência em medicina fetal e cirurgia obstétrica.
Critérios de encaminhamento
Encaminhar ao pré-natal de alto risco as gestantes com:
Placenta prévia confirmada após 28 semanas.
Placenta de inserção baixa persistente no terceiro trimestre.
Suspeita ultrassonográfica de PAS.
Placenta anterior sobre cicatriz de cesariana.
Associação entre placenta prévia e uma ou mais cesarianas anteriores.
Episódios recorrentes de sangramento durante a gestação.
Encaminhamento imediato para serviço de urgência diante de:
Sangramento vaginal moderado ou intenso.
Instabilidade hemodinâmica materna.
Sinais de trabalho de parto.
Redução dos movimentos fetais ou suspeita de sofrimento fetal.
Referências
[1] ASSOCIAÇÃO DE OBSTETRÍCIA E GINECOLOGIA DO ESTADO DE SÃO PAULO (SOGESP). Manual de Obstetrícia. 2. ed. São Paulo: SOGESP, 2022.
[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br. Acesso em: 30 jun. 2026.
[3] FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Protocolo FEBRASGO – Placenta Prévia. São Paulo: FEBRASGO, 2021. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br. Acesso em: 30 jun. 2026.
[4] FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Protocolo FEBRASGO – Espectro do Acretismo Placentário (Placenta Accreta Spectrum – PAS). São Paulo: FEBRASGO, 2021. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br. Acesso em: 30 jun. 2026.
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