Doenças Exantemáticas Maculopapulares: Abordagem Diagnóstica

CID-10: B09 - Infecção viral não especificada caracterizada por lesões da pele e membranas mucosas

CID-10: R21 - Eritema e outras erupções cutâneas não especificadas

Introdução

  • As doenças exantemáticas são condições caracterizadas pelo surgimento de erupção cutânea (exantema) como manifestação proeminente do quadro clínico, geralmente no contexto de infecção viral ou bacteriana.

  • O exantema maculopapular é o padrão mais frequente na faixa etária pediátrica e engloba um conjunto heterogêneo de doenças com apresentações clínicas que se sobrepõem, tornando o diagnóstico diferencial um desafio relevante na prática clínica. [1][2][3]

  • As principais doenças exantemáticas de padrão maculopapular abordadas neste tema são: sarampo, rubéola, eritema infeccioso, exantema súbito (roséola infantum), escarlatina e doença de Kawasaki.

    • O reconhecimento precoce de cada entidade é fundamental tanto para a conduta individual quanto para o controle epidemiológico, uma vez que algumas dessas condições possuem complicações graves e potencial de disseminação comunitária significativo. [1][2][3]

Conteúdo direto ao ponto, revisado e atualizado por médicos especialistas.
Exclusivo para médicos e estudantes de medicina.
Acesse o conteúdo completo

Fluxograma

Diagnóstico Diferencial das Doenças Exantemáticas Maculopapulares: o fluxograma orienta o raciocínio clínico diante de uma criança com exantema maculopapular associado a febre, propondo um caminho decisório sequencial em três etapas. A primeira pergunta investiga se há febre maior que 5 dias refratária a antipiréticos; em caso afirmativo, deve-se considerar Doença de Kawasaki. Caso negativo, avalia-se a presença de faringite exsudativa sem tosse, coriza ou conjuntivite; se presente, considera-se Escarlatina. Caso também negativo, investiga-se qual o pródromo viral, com quatro desfechos possíveis: presença de coriza associada a conjuntivite seguindo a regra dos 3 C's direciona para Sarampo; linfadenopatia retroauricular direciona para Rubéola; pródromo leve ou ausente direciona para Eritema infeccioso; e febre alta seguida de queda abrupta com surgimento do exantema após a defervescência direciona para Exantema súbito. Abaixo da árvore decisória, o material detalha cada uma das seis hipóteses diagnósticas consideradas. Para Doença de Kawasaki, descrita como vasculite sistêmica de etiologia desconhecida, os achados incluem febre maior que 5 dias refratária a antipiréticos, conjuntivite não exsudativa que poupa o limbo, eritema e edema de palmas e plantas, descamação periungueal tardia, exantema polimórfico, linfadenopatia cervical maior ou igual a 1,5 cm e lábios fissurados ou língua em morango; a conduta exige ecocardiograma obrigatório para avaliação de aneurisma coronário, uso de imunoglobulina endovenosa 2g/kg associada a ácido acetilsalicílico em dose anti-inflamatória, devendo o tratamento ser iniciado nos primeiros 10 dias de febre. Para Escarlatina, causada pelo Streptococcus pyogenes (estreptococo beta-hemolítico do grupo A), os achados incluem faringite exsudativa com febre de início abrupto, língua em morango, exantema de aspecto "lixa" com início em axila e virilha, sinal de Pastia nas pregas cutâneas, descamação palmar e plantar tardia e ausência de tosse, coriza ou conjuntivite; a conduta inclui penicilina benzatina intramuscular ou amoxicilina via oral por 10 dias, com risco de febre reumática e glomerulonefrite, sendo destacada como a única doença de etiologia bacteriana entre as listadas. Para Sarampo, causado pelo Paramyxovírus e de notificação compulsória, os achados incluem pródromo de febre alta com tosse e coriza, conjuntivite seguindo a regra dos 3 C's, manchas de Koplik patognomônicas e transitórias na mucosa jugal, exantema de progressão descendente da região retroauricular para face, tronco e membros, e descamação furfurácea na fase de resolução; a conduta exige notificação imediata, isolamento respiratório e confirmação diagnóstica por sorologia IgM ou RT-PCR. Para Rubéola, causada pelo Togavírus e com potencial teratogênico, os achados incluem quadro leve ou assintomático em cerca de 50% dos casos sem exantema, linfadenopatia retroauricular proeminente que pode preceder o exantema, exantema maculopapular de progressão descendente com duração aproximada de 3 dias, manchas de Forchheimer no palato mole e ausência de tosse ou conjuntivite exsudativa; é destacado o risco de síndrome da rubéola congênita em gestantes no primeiro trimestre, com sequelas de cardiopatia, surdez e catarata, sendo doença de notificação compulsória. Para Eritema infeccioso, causado pelo Parvovírus B19 e também conhecido como quinta doença, os achados incluem pródromo leve ou ausente, eritema malar bilateral com aspecto de face esbofeteada, erupção rendilhada nos membros com poupamento de palmas e plantas, podendo recorrer com exposição a calor, sol ou estresse; são destacados os riscos de hidropsia fetal em gestantes, crise aplásica grave em pacientes com anemia falciforme e anemia crônica em imunossuprimidos. Para Exantema súbito, causado pelo Herpesvírus humano tipo 6 (HHV-6), também chamado de roséola e predominante em menores de 3 anos, os achados incluem febre maior que 40°C por 3 a 5 dias, queda abrupta da temperatura, surgimento do exantema apenas após a defervescência, progressão de pescoço e tronco para membros e face, e bom estado geral durante o período febril; a evolução é considerada benigna com tratamento sintomático, havendo atenção para o risco de convulsão febril durante o pico febril intenso. Fonte: GARCIA, K. B. S. A relevância do diagnóstico diferencial no manejo clínico de doenças exantemáticas virais prevalentes na infância: um estudo sobre varicela, mão pé boca, rubéola e eritema infeccioso. 24 fev. 2023.

Diferenciando as Doenças Exantemáticas Maculopapulares

Os principais elementos que auxiliam na diferenciação clínica entre as doenças são apresentados a seguir.

  • Sarampo: [6]

    • Pródromo febril intenso com tosse seca, coriza e conjuntivite

    • Manchas de Koplik (patognomônicas, mas transitórias)

    • Exantema descendente (retroauricular → generalizado)

    • Descamação furfurácea na resolução

  • Rubéola: [4]

    • Quadro geralmente leve ou assintomático

    • Exantema ausente em até 50% dos casos

    • Linfadenopatia retroauricular proeminente (pode preceder o exantema)

    • Manchas de Forchheimer no palato mole

    • Ausência de tosse e conjuntivite exsudativa

  • Eritema infeccioso: [4]

    • Pródromo leve ou ausente

    • Exantema em "face esbofeteada" (eritema malar bilateral)

    • Erupção rendilhada em membros, poupando palmas e plantas

    • Exantema pode retornar com calor, sol ou estresse

  • Exantema súbito: [5]

    • Febre alta (> 40°C) por 3 a 5 dias com queda abrupta

    • Exantema surge imediatamente após a defervescência

    • Progressão: pescoço/tronco → membros e face

    • Ocorre predominantemente em menores de 3 anos

  • Escarlatina: [2]

    • Faringite exsudativa e febre de início abrupto

    • Língua em morango

    • Exantema eritematoso finamente papuloso ("lixa"), começando em virilha e axila

    • Descamação ao final

    • Ausência de manifestações virais (rinorreia, conjuntivite, tosse)

  • Doença de Kawasaki: [1]

    • Febre alta persistente (> 5 dias), pouco responsiva a antipiréticos

    • Conjuntivite não exsudativa poupando o limbo

    • Alterações de extremidades (edema/eritema de palmas e plantas; descamação periungueal)

    • Exantema polimórfico

    • Sem diagnóstico alternativo que explique o quadro

    • Investigação de aneurismas coronários obrigatória

Sarampo

Imagem Sarampo

  • Agente etiológico:

    • Vírus do sarampo (família Paramyxoviridae) [6]

  • Período de incubação:

    • Cerca de 14 dias até o início do exantema [6]

  • Período de transmissibilidade:

    • De 4 dias antes a até 4 dias após o aparecimento das lesões cutâneas [6]

  • Quadro clínico [6]

    • O curso clínico divide-se em três fases:

    • Período prodrômico (aproximadamente 3 dias):

      • Febre alta (≥ 38,5°C)

      • Tosse seca

      • Coriza

      • Conjuntivite com fotofobia e lacrimejamento

        • Pode-se observar linha marginal transversal na conjuntiva palpebral inferior (linha de Stimson)

      • Manchas de Koplik ao final do pródromo: máculas com aspecto de grãos de areia com halo vermelho em fundo eritematoso difuso, que desaparecem 24 a 48h após o início do exantema

    • Período toxêmico:

      • A partir do 4º dia, surge o exantema: máculo-papular, de coloração vermelha, com início retroauricular e progressão descendente, atingindo todo o corpo em aproximadamente 3 dias

      • Piora da prostração concomitante ao exantema

      • Maior risco de superinfecção viral ou bacteriana, especialmente em lactentes menores de 1 ano, crianças desnutridas, imunodeprimidos e gestantes

    • Período de remissão:

      • Declínio da febre e dos sintomas

      • O exantema torna-se escurecido (castanho-acinzentado), podendo surgir descamação furfurácea (aspecto de farinha)

  • Diagnóstico laboratorial [6]

    • Detecção de IgM:

      • Realizada na fase aguda, desde os primeiros dias até 4 semanas após o início do exantema

      • Amostras coletadas entre o 1º e o 28º dia são consideradas oportunas; após o 28º dia, são tardias, mas devem ser enviadas

      • Resultado reagente ou inconclusivo de IgM exige notificação imediata e coleta obrigatória de segunda amostra entre 20 e 25 dias após a primeira coleta

    • IgG:

      • Pode surgir na fase aguda e permanece detectável ao longo da vida

    • Técnicas disponíveis:

      • ELISA (IgM e IgG): método utilizado pela rede laboratorial de saúde pública no Brasil

      • Inibição de Hemaglutinação (IH): anticorpos totais

      • Imunofluorescência (IF): IgM e IgG

      • Neutralização em placas: anticorpos específicos

      • RT-PCR: identificação viral em qualquer material orgânico; amostras devem ser coletadas até o 5º dia do exantema, preferencialmente nos 3 primeiros dias

    • Todos os testes apresentam sensibilidade e especificidade entre 85 e 98%

    • A genotipagem viral é necessária para diferenciar caso autóctone de importado ou relacionado ao vírus vacinal; o vírus pode ser identificado em urina, secreções nasofaríngeas, sangue, líquor ou tecidos por PCR

Rubéola

Imagem Rubéola
  • Agente etiológico:

    • Vírus do gênero Rubivirus, família Togaviridae; o ser humano é o único hospedeiro [4]

  • Transmissão:

    • Direta, por secreções nasofaríngeas; disseminação hematogênica e transplacentária (transmissão vertical) [4]

  • Período de incubação:

    • 14 a 18 dias (variação: 12 a 23 dias) [4]

  • Período de transmissibilidade:

    • 5 a 7 dias antes e depois do início do exantema; maior transmissibilidade nos 2 dias anteriores e posteriores ao exantema; excreção viral detectável de 7 dias antes até 12 dias após o início do exantema [4]

  • Quadro clínico [4]

    • O curso clínico frequentemente é leve, subclínico ou assintomático. O exantema pode estar ausente em 20 a 50% dos casos.

      • Febre baixa

      • Linfadenopatia retroauricular (pode preceder o exantema em até 5 dias), occipital e cervical

      • Exantema maculopapular puntiforme e rosado, com progressão caudal para tórax e tronco

      • Conjuntivite leve não exsudativa

      • Manchas de Forchheimer (manchas no palato mole)

      • Artralgia

      • Tireoidite aguda (menos frequente)

  • Diagnóstico laboratorial [4]

    • Titulação de anticorpos IgM e IgG para rubéola, com avaliação de possível soroconversão

    • Critérios de positividade:

      • Elevação de IgM 4 vezes em 2 a 3 semanas

      • IgM positivo em 4 a 5 semanas

    • Diagnóstico de infecção recente também pode ser realizado pela baixa avidez de IgG

Eritema Infeccioso

Imagem Eritema Infeccioso

  • Agente etiológico:

    • Parvovírus B19 [4]

  • Período de incubação:

    • 4 a 21 dias [4]

  • Quadro clínico [4]

    • Muitas crianças são assintomáticas. Quando sintomáticas:

    • Pródromo:

      • Febre baixa, cefaleia e coriza por alguns dias

    • Exantema (fase característica):

      • Eritema malar bilateral com aspecto de "face esbofeteada" (bochechas vermelhas)

      • Erupção cutânea em membros, pernas e tronco; geralmente poupando palmas e plantas

      • Lesões vermelhas elevadas com padrão em filigrana (rendilhado), especialmente em áreas expostas ao sol

      • Pode haver prurido

      • Duração habitual: 5 a 10 dias

      • Nas semanas seguintes, o exantema pode reaparecer temporariamente com exposição solar, exercício, calor, febre ou estresse emocional

    • Em adolescentes e adultos:

      • Dor articular leve e edema, podendo ser persistentes ou recorrentes por semanas a meses

    • Em pacientes com anemia falciforme, outros distúrbios eritrocitários ou imunodeprimidos:

      • O parvovírus B19 pode acometer a medula óssea e causar anemia grave (crise aplástica)

  • Diagnóstico [4]

    • Clínico:

      • O aspecto característico do exantema (face esbofeteada + erupção rendilhada em membros) é suficiente para o diagnóstico na maioria dos casos

    • Exames de sangue:

      • Indicados apenas em:

        • Crianças com distúrbio sanguíneo conhecido ou imunodeprimidas

        • Gestantes expostas: dosagem de anticorpos para determinar infecção prévia, atual ou recente

Exantema Súbito (Roséola)

Imagem Exantema Súbito

  • Agente etiológico:

    • Herpes-vírus humano tipo 6 (HHV-6) [5]

  • Período de incubação:

    • Média de 10 dias [5]

  • Faixa etária mais acometida:

    • Crianças menores de 3 anos [5]

  • Quadro clínico [5]

    • Fase febril (3 a 5 dias):

      • Febre alta de início súbito, podendo ultrapassar 40°C

      • Sintomas associados:

        • Linfadenopatia cervical (98% dos casos)

        • Irritabilidade (92%)

        • Manchas de Nagayama (manchas avermelhadas na úvula e no palato): 87%

        • Perda do apetite (80%)

        • Abaulamento de fontanela (26%)

        • Diarreia (15%)

        • Tosse (11%)

        • Convulsão febril (4%)

    • Fase exantemática (surgimento imediatamente após a defervescência):

      • Exantema não pruriginoso e indolor

      • Início em pescoço e tronco, com progressão para membros e face

      • Lesões: múltiplas pequenas manchas avermelhadas de aproximadamente 0,5 cm, planas ou com discreto relevo

      • Duração: 1 a 2 dias (em alguns casos, apenas horas)

  • Diagnóstico [5]

    • Clínico:

      • Diagnóstico baseado na apresentação típica de febre alta por 3 a 5 dias seguida de exantema em criança menor de 3 anos; antes do exantema, o diagnóstico é difícil de estabelecer

    • Sorologia:

      • Raramente necessária; solicitada em casos atípicos, com investigação de anticorpos contra HHV-6 no sangue

Escarlatina

Imagem Escarlatina

  • Agente etiológico:

    • Streptococcus pyogenes (Streptococcus do Grupo A, GAS), coco gram-positivo facultativo que cresce em cadeias [2]

  • Quadro clínico [2]

    • A escarlatina é uma manifestação da infecção estreptocócica do Grupo A associada a exantema escarlatiniforme:

      • Início abrupto

      • Febre

      • Faringite exsudativa com amígdalas eritematosas aumentadas

      • Linfadenopatia cervical anterior sensível

      • Petéquias palatais

      • Úvula inflamada (uvulite)

      • Língua em morango

      • Exantema escarlatiniforme: erupção eritematosa finamente papulosa, com início em virilha e axila, espalhando-se para tronco e extremidades, seguida de descamação

      • Características virais (rinorreia, conjuntivite, tosse, rouquidão, lesões vesiculares, diarreia) geralmente ausentes

  • Diagnóstico [2]

    • O diagnóstico pode ser confirmado microbiologicamente. As opções disponíveis são:

    • Teste de detecção rápida de antígeno (RADT):

      • Especificidade ≥ 95%; sensibilidade de 70 a 90%

      • Resultado positivo confirma diagnóstico; resultado negativo em criança ou adolescente deve ser confirmado com cultura de orofaringe

      • Metanálise com 58.244 crianças demonstrou sensibilidade combinada de 85,6% e especificidade de 95,4%

    • Cultura de orofaringe:

      • Padrão de referência; sensibilidade de 90 a 95% quando realizada adequadamente

      • Realizada em ágar sangue ovino a 5%; resultado positivo em 18 a 24h (colônias cinzentas com halo de beta-hemólise)

      • Tempo de resposta de 24 a 48h limita seu uso como teste inicial

      • Indicada como confirmação de RADT negativo em crianças e adolescentes

    • Ensaios moleculares (NAAT/PCR):

      • Sensibilidade ≥ 95 a 97%; especificidade > 90 a 97%

      • PCR rápido disponível com resultado em ≤ 25 minutos

      • Resultado negativo em ensaio molecular dispensa cultura confirmatória

      • Uso ainda limitado por custo e complexidade

    • Coleta do espécime:

      • Deve ser realizada antes do início dos antimicrobianos (uma única dose pode negativar o resultado)

      • Recomenda-se uso de dois swabs simultâneos: um para RADT, outro reservado para cultura caso RADT seja negativo

      • Swab deve tocar amígdalas (ou fossas amigdalianas) e parede posterior da faringe, sem contato com língua ou mucosa bucal

Doença de Kawasaki

Imagem Kawasaki

  • Definição:

    • Vasculite sistêmica de artérias musculares de médio calibre, uma das formas mais comuns de vasculite sistêmica em crianças; ocorre raramente em adultos [1]

  • Curso:

    • Condição autolimitada, com febre e inflamação aguda durando em média 12 dias sem tratamento [1]

  • Complicação mais temida:

    • Aneurismas de artérias coronárias (AC), com risco de infarto do miocárdio, arritmias, insuficiência cardíaca e oclusão arterial periférica [1]

  • Quadro clínico [1]

    • As manifestações podem não se apresentar simultaneamente e não seguem ordem típica de aparecimento; exames repetidos são fundamentais.

    • Febre:

      • Alta e persistente, caracteristicamente acima de 38,5°C

      • Responde minimamente a antipiréticos

      • Duração típica: 7 a 12 dias (podendo ultrapassar 3 semanas sem tratamento)

    • Conjuntivite:

      • Bilateral não exsudativa, presente em mais de 90% dos casos

      • Injeção predominantemente bulbar, com eritema brilhante poupando o limbo

      • Uveíte anterior pode ocorrer em até 70% dos pacientes com achados oculares

    • Alterações de mucosa oral (cerca de 90% dos casos):

      • Lábios vermelhos, secos e fissurados

      • Língua em morango

      • Eritema difuso da orofaringe

    • Exantema:

      • Polimórfico, presente em 70 a 90% dos casos

      • Inicia geralmente nos primeiros dias, com eritema perineal e descamação, seguido de lesões maculares, morbiliformes ou em alvo no tronco e extremidades

      • Outras manifestações cutâneas: erupção psoriasiforma; eritema/crosta no local de inoculação da BCG (útil em países com vacinação de rotina)

    • Alterações de extremidades:

      • Fase aguda (50 a 85% dos casos): edema endurecido do dorso das mãos e pés, eritema difuso de palmas e plantas; frequentemente são as últimas manifestações a surgir

      • Fase de convalescença: descamação periungueal em lençol (prevalência de 68 a 98%), iniciando na região periungueal de dedos das mãos e dos pés; linhas de Beau (sulcos transversais nas unhas)

    • Linfadenopatia cervical:

      • Presente em 25 a 70% dos casos; é o achado menos constante

      • Tipicamente unilateral, envolvendo linfonodos cervicais anteriores sobre o músculo esternocleidomastóideo

      • Geralmente apenas um linfonodo grande é palpável clinicamente (≥ 1,5 cm)

    • Manifestações cardíacas (não fazem parte dos critérios diagnósticos, mas sustentam o diagnóstico): [1]

      • Disfunção ventricular leve a moderada na primeira semana a 10 dias (pode manifestar-se como B3, taquicardia desproporcional à febre ou anemia)

      • Pequenos derrames pericárdicos (tamponamento é raro)

      • Aneurismas de artérias coronárias: complicação mais grave; classificados por Z-score ajustado para sexo e superfície corporal

    • Manifestações não específicas do pródromo (7 a 10 dias antes das manifestações mucocutâneas típicas): [1]

      • Diarreia, vômitos ou dor abdominal: 61%

      • Irritabilidade: 50%

      • Vômitos isolados: 44%

      • Tosse ou rinorreia: 35%

      • Redução da ingesta oral: 37%

      • Dor articular: 15%

  • Critérios diagnósticos [1]

    • O diagnóstico clássico requer febre com duração ≥ 5 dias associada a pelo menos 4 dos 5 critérios a seguir, sem explicação alternativa:

      • Conjuntivite bulbar bilateral não exsudativa

      • Alterações da mucosa oral (lábios injetados ou fissurados, faringe injetada ou língua em morango)

      • Alterações de extremidades (eritema de palmas ou plantas; edema de mãos ou pés na fase aguda; descamação periungueal na fase de convalescença)

      • Exantema polimórfico

      • Linfadenopatia cervical (ao menos 1 linfonodo > 1,5 cm de diâmetro)

    • Nota: se ≥ 4 critérios estiverem presentes, o diagnóstico pode ser firmado já no 4º dia de febre, desde que avaliado por médico experiente e com critérios inequívocos. [1]

  • Kawasaki incompleto [1]

    • Deve ser suspeitado nas seguintes situações:

      • Lactentes menores de 6 meses com febre inexplicada ≥ 7 dias, mesmo sem critérios clínicos de Kawasaki, se houver marcadores inflamatórios elevados

      • Pacientes de qualquer idade com febre inexplicada ≥ 5 dias e apenas 2 ou 3 critérios clínicos

  • Avaliação laboratorial nos casos ambíguos [1]

    • Achados laboratoriais sugestivos de Kawasaki:

      • PCR ≥ 3 mg/dL e/ou VHS ≥ 40 mm/h

      • Leucócitos ≥ 15.000/µL

      • Anemia normocítica e normocrômica para a idade

      • Plaquetas ≥ 450.000/µL após 7 dias de doença

      • Piúria não neutrofílica (≥ 10 leucócitos/campo de grande aumento) por uretrite estéril

      • ALT > 50 U/L

      • Albumina ≤ 3 g/dL

    • Nota: a doença de Kawasaki é improvável se PCR < 3 mg/dL e VHS < 40 mm/h.

  • Ecocardiografia [1]

    • Deve ser realizada em todos os pacientes assim que o diagnóstico for suspeitado. Achados ecocardiográficos sugestivos de Kawasaki:

    • Aneurisma em artérias coronárias

    • Pelo menos 3 dos seguintes:

      • Sinais de coronarite

      • Redução da contratilidade ventricular esquerda

      • Regurgitação valvar leve (principalmente mitral)

      • Derrame pericárdico

Referências

[1] SON, Mary Beth F. Doença de Kawasaki: Características clínicas e diagnóstico. UpToDate. Última atualização: 05 jan. 2026. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/kawasaki-disease-clinical-features-and-diagnosis.

[2] WALD, Ellen R. Amigdalofaringite estreptocócica do Grupo A em crianças e adolescentes: características clínicas e diagnóstico. UpToDate. Última atualização: 29 mai. 2025. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/group-a-streptococcal-tonsillopharyngitis-in-children-and-adolescents-clinical-features-and-diagnosis.

[3] VIEIRA, G. K.; SILVA, R. Y. R. da. Doenças exantemáticas. [s.l.]: Atheneu, 2022.

[4] GARCIA, K. B. S. A relevância do diagnóstico diferencial no manejo clínico de doenças exantemáticas virais prevalentes na infância: um estudo sobre varicela, mão pé boca, rubéola e eritema infeccioso. 24 fev. 2023. Disponível em: https://www.saude.ba.gov.br/suvisa/vigilancia-epidemiologica/doencas-imunopreveniveis/doenca-exantematicas-e-sindrome-de.

[5] CHERRY, J. D. Roseola infantum (exanthem subitum). In: CHERRY, J. D.; HARRISON, G.; KAPLAN, S. L. et al. (Eds.). Feigin and Cherry's Textbook of Pediatric Infectious Diseases. 8. ed. Philadelphia: Elsevier, 2018. p. 559.

[6] OLIVEIRA, M. J. C. et al. Frequência de sarampo, rubéola, dengue e eritema infeccioso entre casos suspeitos de sarampo e rubéola no estado de Pernambuco, no período de 2001 a 2004. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, v. 41, n. 4, p. 338–344, ago. 2008.

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.