Acromegalia

CID-10: E22.0 — Acromegalia e gigantismo hipofisário

Introdução

  • Doença endócrina crônica causada por hipersecreção de hormônio do crescimento (GH), geralmente por adenoma hipofisário somatotrófico.

  • O excesso de GH estimula a produção hepática e periférica de IGF-1, responsável por grande parte das manifestações somáticas, metabólicas e cardiovasculares.

  • A doença costuma ter evolução lenta, com atraso diagnóstico frequente.

  • O manejo deve ser multidisciplinar, envolvendo endocrinologia, neurocirurgia hipofisária, oftalmologia, cardiologia, pneumologia e atenção primária para seguimento de comorbidades.

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Suspeita clínica

  • Suspeitar em adultos com:

    • aumento progressivo de mãos e pés;

    • mudança facial grosseira;

    • prognatismo;

    • aumento de espaços interdentários;

    • macroglossia;

    • sudorese excessiva;

    • cefaleia;

    • artralgia;

    • síndrome do túnel do carpo;

    • apneia obstrutiva do sono;

    • hipertensão arterial;

    • diabetes mellitus tipo 2;

    • massa hipofisária incidental.

  • A Sociedade de Endocrinologia recomenda dosar IGF-1 em pacientes com manifestações típicas, especialmente alterações acras e faciais, e também em pacientes com massa hipofisária.

Diagnóstico

  • Exame inicial:

    • IGF-1 sérico ajustado para idade.

    • Não utilizar GH randômico isolado para diagnóstico.

  • Critérios bioquímicos:

    • Em paciente com manifestações típicas, IGF-1 > 1,3 vez o limite superior da normalidade para idade confirma o diagnóstico, segundo consenso de 2024.

    • Se IGF-1 elevado ou duvidoso:

      • repetir IGF-1 no mesmo método validado;

      • considerar teste oral de tolerância à glicose com 75 g;

      • ausência de supressão do GH para < 1 mcg/L após sobrecarga oral de glicose apoia o diagnóstico.

  • Após confirmação bioquímica:

    • Solicitar RM de sela túrcica com contraste.

    • TC pode ser usada se RM indisponível ou contraindicada.

    • Campo visual formal se tumor tocar ou comprimir quiasma óptico.

Avaliação inicial de comorbidades

  • Avaliar sistematicamente:

    • hipertensão arterial;

    • diabetes mellitus;

    • doença cardiovascular;

    • osteoartrite;

    • apneia obstrutiva do sono;

    • hipopituitarismo;

    • neoplasia colorretal;

    • doença tireoidiana nodular.

  • Recomenda-se colonoscopia no diagnóstico e ultrassonografia de tireoide se houver nodularidade palpável.

Objetivos do tratamento

  • Normalizar IGF-1 para idade.

  • Reduzir GH, quando utilizado como meta complementar.

  • Controlar crescimento tumoral.

  • Reduzir sintomas e complicações.

  • Melhorar qualidade de vida.

  • Reduzir morbimortalidade.

Tratamento cirúrgico

  • Cirurgia transesfenoidal é tratamento de primeira linha para a maioria dos pacientes.

  • Considerar nova cirurgia se houver doença residual intrasselar acessível.

  • Em doença parasselar extensa, debulking pode melhorar resposta posterior ao tratamento medicamentoso.

  • Após cirurgia:

    • dosar IGF-1 e GH randômico após ≥ 12 semanas;

    • realizar RM após ≥ 12 semanas para avaliar tumor residual.

Tratamento medicamentoso e radioterapia

Indicado principalmente em doença persistente após cirurgia, contraindicação cirúrgica, baixa chance de cura cirúrgica, invasão de seio cavernoso sem compressão quiasmática ou como ponte em casos selecionados de alto risco anestésico.

⚠️Os medicamentos descritos abaixo devem ser prescritos inicialmente pelo médico especialista.

Análogos da somatostatina

  • Octreotida LAR suspensão injetável 10 mg, 20 mg ou 30 mg

    • Aplicar IM profunda a cada 28 dias.

    • Dose usual inicial: 20 mg IM a cada 4 semanas.

    • Ajustar conforme IGF-1, GH, sintomas e tolerabilidade.

  • Lanreotida solução injetável 60 mg, 90 mg ou 120 mg

    • Aplicar SC profunda a cada 4 semanas.

    • Dose usual: 90 a 120 mg SC profunda a cada 28 dias.

    • Em insuficiência renal ou hepática moderada/grave, considerar início com 60 mg a cada 4 semanas, conforme bula.

Agonista dopaminérgico

  • Cabergolina comp. 0,5 mg

    • Considerar em doença leve, IGF-1 modestamente elevado ou associação com hiperprolactinemia.

    • Dose inicial prática: 0,5 mg 1 a 2 vezes por semana.

    • Titular conforme IGF-1 e tolerabilidade.

    • Em séries clínicas, doses variaram amplamente, com uso frequente entre 1–3,5 mg/semana.

Antagonista do receptor de GH

  • Pegvisomanto pó liofilizado 10 mg, 15 mg, 20 mg, 25 mg ou 30 mg

    • Dose de ataque: 40 mg SC sob supervisão profissional, conforme bula norte-americana.

    • Manutenção inicial: 10 mg SC 1 vez ao dia.

    • Ajustar conforme IGF-1.

    • Monitorar transaminases mensalmente nos primeiros 6 meses e, depois, semestralmente.

    • Considerar suspensão se transaminases > 3 vezes o limite superior da normalidade.

Radioterapia

  • Considerar se houver tumor residual após cirurgia e tratamento medicamentoso indisponível, ineficaz ou não tolerado.

  • Preferir radioterapia estereotáxica quando tecnicamente possível.

  • Monitorar anualmente:

    • GH/IGF-1;

    • função hipofisária;

    • efeitos tardios da radiação.

Acompanhamento

  • Usar preferencialmente o mesmo método laboratorial para IGF-1 e GH durante o acompanhamento.

  • Monitorar:

    • IGF-1;

    • sintomas;

    • tamanho tumoral por RM;

    • campo visual se macroadenoma próximo ao quiasma;

    • comorbidades cardiovasculares, metabólicas, respiratórias, osteoarticulares e neoplásicas.

  • Encaminhar ou manter seguimento em centro multidisciplinar de hipófise quando houver:

    • diagnóstico duvidoso;

    • discordância entre clínica, IGF-1, GH e imagem;

    • macroadenoma invasivo;

    • compressão quiasmática;

    • doença persistente após cirurgia;

    • necessidade de terapias combinadas;

    • gestação ou desejo gestacional;

    • suspeita de tumor agressivo.

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 23, de 22 de outubro de 2025: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Acromegalia. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: portal Gov.br/Conitec.

[2] FLESERIU, Maria et al. A Pituitary Society update to acromegaly management guidelines. Pituitary, 2021. Disponível em: PubMed.

[3] GIUSTINA, Andrea et al. Consensus on criteria for acromegaly diagnosis and remission. Pituitary, 2024. Disponível em: Springer Nature.

[4] KATZNELSON, Laurence et al. Acromegaly: an Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2014. Disponível em: Oxford Academic.

[5] MELMED, Shlomo et al. Consensus on acromegaly therapeutic outcomes: an update. Nature Reviews Endocrinology, 2025.

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