Hiperprolactinemia

CID-10: E22.1 – Hiperprolactinemia

Introdução

  • A hiperprolactinemia é definida pela elevação persistente da prolactina sérica acima dos valores de referência do laboratório, após exclusão de causas fisiológicas e laboratoriais.

  • Trata-se da alteração hormonal hipotálamo-hipofisária mais frequente, podendo decorrer de condições fisiológicas, uso de medicamentos, doenças sistêmicas ou lesões da região hipotálamo-hipofisária, especialmente prolactinomas.

  • A prolactina é produzida pelos lactotrofos da adeno-hipófise e sua secreção é predominantemente inibida pela dopamina. Qualquer condição que reduza o tônus dopaminérgico ou aumente a produção hipofisária pode resultar em hiperprolactinemia.

  • A principal repercussão clínica decorre do hipogonadismo hipogonadotrófico secundário, causado pela inibição da secreção pulsátil de GnRH.

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Fluxograma de manejo inicial

Etiologia e classificação

Causas fisiológicas

  • Gestação.

  • Lactação.

  • Sono.

  • Exercício físico intenso.

  • Estresse físico ou emocional.

  • Estimulação mamilar.

Causas farmacológicas

Os medicamentos constituem uma das causas mais frequentes de hiperprolactinemia.

  • Antipsicóticos

    • Risperidona.

    • Paliperidona.

    • Haloperidol.

    • Clorpromazina.

    • Amissulprida.

  • Antidepressivos

    • Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS).

    • Antidepressivos tricíclicos.

  • Antieméticos

    • Metoclopramida.

    • Domperidona.

  • Anti-hipertensivos

    • Verapamil.

    • Metildopa.

  • Outros

    • Estrogênios.

    • Opioides.

    • Cimetidina.

Causas patológicas

  • Hipofisárias

    • Prolactinoma (causa mais frequente de hiperprolactinemia persistente).

    • Adenomas mistos.

    • Lesões compressivas da haste hipofisária.

  • Hipotalâmicas

    • Tumores.

    • Doenças infiltrativas.

    • Trauma.

    • Radioterapia.

  • Doenças sistêmicas

    • Hipotireoidismo primário.

    • Insuficiência renal crônica.

    • Cirrose hepática.

    • Síndrome dos ovários policísticos (SOP).

  • Macroprolactinemia

    • Presença predominante de macroprolactina circulante.

    • Geralmente cursa com pouca ou nenhuma manifestação clínica.

    • Deve ser investigada em pacientes assintomáticos com prolactina elevada.

Classificação

  • Conforme a concentração sérica de prolactina:

    • Leve: até 50 ng/mL.

    • Moderada: 50–100 ng/mL.

    • Importante: >100 ng/mL.

    • Valores >200–250 ng/mL sugerem fortemente prolactinoma, especialmente macroadenoma.

Manifestações clínicas

Os sintomas dependem da intensidade da hiperprolactinemia, duração do quadro e presença de efeito de massa tumoral.

Mulheres

  • Amenorreia;

  • Oligomenorreia;

  • Infertilidade;

  • Galactorreia;

  • Redução da libido;

  • Dispareunia;

  • Ressecamento vaginal;

  • Osteopenia ou osteoporose em casos prolongados.

Homens

  • Redução da libido;

  • Disfunção erétil;

  • Infertilidade;

  • Hipogonadismo;

  • Ginecomastia (menos frequente);

  • Galactorreia (rara);

  • Osteopenia.

Efeito de massa

Sugere macroadenoma hipofisário.

  • Cefaleia.

  • Alterações visuais.

  • Hemianopsia bitemporal.

  • Oftalmoplegia (raramente).

  • Hipopituitarismo.

Diagnóstico

Confirmação laboratorial

  • Dosagem sérica de prolactina.

  • Preferencialmente pela manhã.

  • Evitar:

    • Exercício físico.

    • Estresse importante.

    • Relação sexual nas 24 horas anteriores.

    • Estimulação mamária.

Interpretação

  • Uma única dosagem geralmente é suficiente quando há elevação significativa.

  • Pequenas elevações devem ser confirmadas em nova coleta.

Exclusão de causas secundárias

  • Solicitar:

    • β-hCG em mulheres em idade fértil.

    • TSH e T4 livre.

    • Creatinina.

    • Função hepática.

    • Revisão detalhada do uso de medicamentos.

Investigação de macroprolactina

  • Indicada quando:

    • Paciente assintomático.

    • Prolactina elevada sem causa aparente.

    • Discordância entre níveis hormonais e quadro clínico.

  • Método mais utilizado:

    • Precipitação com polietilenoglicol (PEG).

Ressonância magnética de sela túrcica

  • Indicada quando:

    • Hiperprolactinemia persistente sem causa identificada.

    • Prolactina >100 ng/mL.

    • Suspeita clínica de adenoma hipofisário.

    • Alterações visuais.

    • Hipopituitarismo.

Hook effect

  • Deve ser considerado quando:

    • Tumor hipofisário volumoso.

    • Prolactina normal ou discretamente elevada.

  • Nesses casos:

    • Solicitar nova dosagem com diluição da amostra.

Diagnóstico diferencial

  • Gestação.

  • Hipotireoidismo primário.

  • SOP.

  • Macroprolactinemia.

  • Insuficiência renal.

  • Insuficiência hepática.

  • Lesões da haste hipofisária.

  • Adenomas não secretores.

  • Uso de medicamentos.

Tratamento medicamentoso

O tratamento depende da etiologia, da intensidade dos sintomas e da presença de lesão estrutural.

Causas secundárias:

  • Hiperprolactinemia medicamentosa

    • Sempre que possível:

      • Suspender o medicamento.

      • Reduzir a dose.

      • Substituir por alternativa com menor efeito sobre prolactina.

    • A suspensão não deve ser realizada sem avaliação do especialista responsável.

  • Hipotireoidismo

    • Tratar com reposição de hormônio tireoidiano.

    • A normalização da prolactina costuma ocorrer após correção do hipotireoidismo.

Prolactinoma

  • Objetivos:

    • Normalizar prolactina.

    • Restaurar função gonadal.

    • Reduzir tamanho tumoral.

    • Preservar função visual.

  • Agonistas dopaminérgicos (são o tratamento de primeira linha) [1][2]

    • Cabergolina (Dostinex®) comp. 0,5 mg

      • Dose inicial:

        • 0,25 mg 2 vezes por semana, via oral.

      • Ajustes:

        • Incrementos de 0,5 mg/semana a cada 4 semanas conforme resposta clínica e laboratorial.

      • Dose habitual:

        • 0,5–1 mg/semana.

      • Dose máxima habitualmente utilizada:

        • Até 2 mg/semana para prolactinomas comuns.

        • Doses superiores podem ser utilizadas em casos resistentes, sob acompanhamento especializado.

      • Administrar preferencialmente junto às refeições para reduzir náuseas.

      • Vantagens:

        • Maior eficácia.

        • Melhor tolerabilidade.

        • Maior taxa de redução tumoral.

        • Menor frequência de administração.

    • Bromocriptina (Parlodel®) comp. 2,5 mg

      • Dose inicial:

        • 1,25 mg ao deitar por 3 a 7 dias.

      • Progressão:

        • 2,5 mg/dia.

      • Dose habitual:

        • 2,5–7,5 mg/dia divididos em 2 ou 3 tomadas.

      • Dose máxima:

        • Até 15 mg/dia conforme resposta clínica.

      • Administrar com alimentos.

      • Pode ser preferida:

        • Durante a gestação quando houver necessidade de manutenção do tratamento.

        • Quando cabergolina não estiver disponível.

Cirurgia e radioterapia

Tratamento cirúrgico

  • Indicações:

    • Resistência aos agonistas dopaminérgicos.

    • Intolerância grave ao tratamento medicamentoso.

    • Compressão quiasmática sem resposta clínica.

    • Apoplexia hipofisária.

    • Fístula liquórica.

  • Procedimento:

    • Cirurgia transesfenoidal.

Radioterapia

  • Indicações restritas:

    • Tumores agressivos.

    • Persistência tumoral após cirurgia.

    • Falha da terapia medicamentosa.

Acompanhamento

Monitorização laboratorial

  • Prolactina:

    • 1 a 3 meses após início do tratamento.

    • Posteriormente a cada 6–12 meses conforme estabilidade.

Monitorização por imagem

  • Microadenomas:

    • RM conforme evolução clínica.

  • Macroadenomas:

    • RM em aproximadamente 6 meses após início do tratamento.

    • Posteriormente individualizar.

Avaliação oftalmológica

  • Indicada em:

    • Macroadenomas.

    • Comprometimento do quiasma óptico.

    • Alterações visuais.

Gestação

  • Suspender agonistas dopaminérgicos após confirmação da gestação na maioria dos microprolactinomas.

  • Macroprolactinomas devem ser individualizados.

  • RM durante a gestação somente quando houver suspeita de crescimento tumoral sintomático.

  • Dosagem seriada de prolactina não é indicada durante a gestação.

Critérios de encaminhamento

Critérios de encaminhamento ao endocrinologista:

  • Hiperprolactinemia persistente sem causa definida.

  • Suspeita de prolactinoma.

  • Prolactina > 100 ng/mL.

  • Macroadenoma hipofisário.

  • Alterações visuais.

  • Hipopituitarismo.

  • Gestação em paciente com prolactinoma.

  • Resistência ou intolerância aos agonistas dopaminérgicos.

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Biblioteca Virtual em Saúde. Endocrinologia clínica e doenças da hipófise. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br. Acesso em: 30 jun. 2026.

[2] SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA (SBEM). Departamento de Neuroendocrinologia. Prolactinomas e hiperprolactinemia. Disponível em: https://www.endocrino.org.br. Acesso em: 30 jun. 2026.

[3] SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA (SBEM). Posicionamentos e diretrizes em Neuroendocrinologia. Disponível em: https://www.endocrino.org.br. Acesso em: 30 jun. 2026.

[4] UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL (UFRGS). Programa de Atualização em Endocrinologia. Hiperprolactinemia. Disponível em: https://www.ufrgs.br. Acesso em: 30 jun. 2026.

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