Vasculites: Abordagem Diagnóstica
CID-10: M30–M31 (Vasculites sistêmicas)
Introdução
As vasculites constituem um grupo heterogêneo de doenças caracterizadas por inflamação da parede vascular, podendo acometer vasos de qualquer calibre e praticamente qualquer órgão. A apresentação clínica é extremamente variável, desde manifestações cutâneas isoladas até quadros multissistêmicos rapidamente progressivos com risco de morte.
Na prática clínica, o maior desafio geralmente não é reconhecer uma vasculite específica, mas suspeitar do diagnóstico diante de um conjunto de sinais e sintomas aparentemente desconexos.
Este conteúdo se restringe a abordagem diagnóstica inicial, portanto não contempla tratamento, que será discutido individualmente sobre cada doença específica.
Quando suspeitar de vasculite?
A suspeita deve surgir quando houver associação entre:
sintomas constitucionais inexplicados;
evidência de inflamação sistêmica;
acometimento de múltiplos órgãos;
manifestações compatíveis com isquemia ou inflamação vascular.
Situações que devem levantar suspeita
Sintomas gerais
febre prolongada;
emagrecimento;
fadiga importante;
sudorese noturna;
artralgia;
mialgia.
Associados a:
VHS/PCR persistentemente elevados;
anemia inflamatória.
Pele
púrpura palpável;
livedo reticular;
úlceras;
necrose digital;
nódulos;
infartos cutâneos.
Rim
hematúria glomerular;
cilindros hemáticos;
proteinúria;
creatinina em elevação rápida.
Pulmão
hemoptise;
infiltrado pulmonar inexplicado;
hemorragia alveolar;
nódulos cavitados.
Neurológico
mononeurite múltipla;
neuropatia periférica dolorosa;
AVC em paciente jovem sem explicação.
Otorrino
sinusite crônica;
otite recorrente;
perfuração septal;
epistaxe persistente.
Oftalmológico
esclerite;
uveíte;
neuropatia óptica;
perda visual aguda.
Vascular
claudicação;
diferença de pulsos;
sopros arteriais;
hipertensão renovascular;
aneurismas.
Passo 1 – Confirmar se realmente existe inflamação sistêmica
Nem toda púrpura ou alteração vascular representa vasculite. O primeiro passo consiste em verificar se existe processo inflamatório ativo.
Exames iniciais
Hemograma;
PCR;
VHS;
Creatinina;
Urina tipo I;
Proteinúria;
AST/ALT;
Bilirrubinas;
LDH;
Albumina.
Achados sugestivos:
anemia inflamatória;
leucocitose;
trombocitose;
PCR elevada;
VHS elevado;
hematúria dismórfica;
cilindros hemáticos.
Passo 2 – Confirmar que o quadro é compatível com vasculite
Antes de iniciar investigação extensa, excluir diagnósticos muito mais frequentes.
Principais diagnósticos diferenciais
Infecções (endocardite, sepse, tuberculose, HIV, hepatites);
Embólicos (colesterol, fibrilação atrial);
Neoplasias (linfoma, leucemia);
Autoimunes (LES, SAF, doença de Behçet);
Coagulopatias (CIVD, púrpuras trombóticas);
Vasculopatias (calcifilaxia, vasculopatia livedoide);
Drogas (cocaína adulterada, hidralazina, propiltiouracil, minociclina).
Passo 3 – Definir o padrão de acometimento
Esta é provavelmente a etapa mais importante. A combinação dos órgãos acometidos direciona a investigação.

Passo 4 – Classificar pelo calibre predominante dos vasos
A classificação de Chapel Hill continua sendo o principal guia diagnóstico.
Pequenos vasos
Vasculites ANCA;
Vasculite por IgA;
Crioglobulinemia;
Anti-MBG.
Predomínio:
glomérulo;
pulmão;
pele;
nervos.
Médios vasos
Poliarterite nodosa;
Doença de Kawasaki (adulto é rara).
Predomínio:
aneurismas;
isquemia visceral;
neuropatia;
hipertensão renovascular.
Grandes vasos
Arterite de Takayasu;
Arterite de células gigantes.
Predomínio:
aorta;
ramos principais;
pulsos;
sopros;
claudicação.
Passo 5 – Solicitar exames imunológicos dirigidos
A solicitação deve ser baseada na hipótese clínica. Solicitar todos os autoanticorpos indiscriminadamente aumenta falsos positivos.

Passo 6 – Avaliar acometimento de órgãos-alvo
Mesmo antes do diagnóstico definitivo, deve-se pesquisar lesão orgânica potencialmente irreversível.
Rim
creatinina;
urina I;
relação proteína/creatinina;
sedimento urinário.
Pulmão
radiografia;
TC de tórax;
broncoscopia (quando indicada).
Coração
ECG;
troponina;
ecocardiograma.
Sistema nervoso
eletroneuromiografia;
RNM;
líquor quando indicado.
Grandes vasos
angiotomografia;
angio-RM;
PET-CT em casos selecionados.
Passo 7 – Confirmar por imagem ou biópsia
Sempre que possível deve-se obter confirmação histológica.
Métodos de imagem
Grandes vasos
Ultrassom Doppler
AngioTC
AngioRM
PET-CT
Médios vasos
Angiografia
AngioTC
Pesquisa de:
microaneurismas
estenoses
oclusões
Pequenos vasos
Imagem possui papel limitado. A confirmação costuma depender da biópsia.
Quando solicitar ANCA?
O exame deve ser solicitado quando houver forte suspeita clínica. Indicações clássicas:
glomerulonefrite rapidamente progressiva;
hemorragia alveolar;
sinusite destrutiva;
nódulos pulmonares;
esclerite;
mononeurite múltipla;
púrpura associada a acometimento renal.
Não deve ser solicitado como exame de rastreio em pacientes com sintomas inespecíficos.
Quando realizar biópsia?
Sempre que:
houver tecido facilmente acessível;
o procedimento não atrasar tratamento emergencial;
o resultado modificar a conduta.
Em síndromes pulmão-rim graves, frequentemente o tratamento é iniciado antes da confirmação histológica.
Situações especiais e erros comuns
Situações que exigem investigação imediata:
hemorragia alveolar;
insuficiência renal rapidamente progressiva;
perda visual;
isquemia intestinal;
mononeurite múltipla rapidamente progressiva;
aneurisma visceral roto;
isquemia aguda de membros.
Erros frequentes na investigação
Solicitar ANCA ou outros autoanticorpos sem suspeita clínica definida, aumentando a chance de falsos positivos;
Não excluir causas secundárias, especialmente infecções, neoplasias e vasculites induzidas por fármacos;
Valorizar exames laboratoriais isoladamente, sem correlação com o quadro clínico;
Não realizar urina tipo I, deixando de identificar glomerulonefrite inicial;
Não pesquisar acometimento de outros órgãos, subestimando a natureza sistêmica da doença;
Deixar de realizar biópsia quando indicada, reduzindo a chance de confirmação diagnóstica;
Atrasar a investigação de manifestações graves, como hemorragia alveolar, glomerulonefrite rapidamente progressiva e perda visual aguda.
Referências
[1] AMERICAN COLLEGE OF RHEUMATOLOGY; EUROPEAN ALLIANCE OF ASSOCIATIONS FOR RHEUMATOLOGY (ACR/EULAR). 2022 American College of Rheumatology/European Alliance of Associations for Rheumatology Classification Criteria for Vasculitis. Arthritis & Rheumatology, Hoboken, v. 74, 2022. Disponível em: https://acrjournals.onlinelibrary.wiley.com. Acesso em: 20 jul. 2026.
[2] JENNETTE, J. C. et al. 2012 Revised International Chapel Hill Consensus Conference Nomenclature of Vasculitides. Arthritis & Rheumatism, Hoboken, v. 65, n. 1, p. 1–11, 2013. DOI: https://doi.org/10.1002/art.37715.
[3] SOCIEDADE BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA. Recomendações para diagnóstico e manejo das vasculites sistêmicas. São Paulo: SBR. Disponível em: https://www.reumatologia.org.br. Acesso em: 20 jul. 2026.
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