Artrite Psoriásica

CID-10: L40.5 — Artropatia psoriásica

Introdução

  • A artrite psoriásica (APs) é uma doença inflamatória imunomediada associada à psoríase, caracterizada por manifestações musculoesqueléticas periféricas e/ou axiais, entesite, dactilite e alterações ungueais. Pode causar dano estrutural progressivo, perda funcional e impacto importante na qualidade de vida.

  • A apresentação clínica é heterogênea. A suspeita deve ser considerada em qualquer paciente com psoríase que apresente dor articular inflamatória, rigidez matinal, edema articular, dor em inserções tendíneas ou edema difuso de dedo. O diagnóstico precoce e o encaminhamento oportuno à reumatologia reduzem o risco de dano articular irreversível.

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Fluxograma de avaliação inicial

Quando suspeitar

  • Psoríase cutânea atual ou pregressa.

  • História familiar de psoríase ou APs.

  • Dor articular inflamatória:

    • Piora em repouso.

    • Rigidez matinal prolongada.

    • Melhora com mobilização.

    • Pode ocorrer dor noturna.

  • Artrite periférica, especialmente assimétrica.

  • Comprometimento de articulações interfalângicas distais.

  • Dactilite.

  • Entesite.

  • Dor lombar inflamatória ou sacroileíte.

  • Alterações ungueais:

    • Pitting.

    • Onicólise.

    • Hiperqueratose subungueal.

    • Distrofia ungueal.

Manifestações clínicas

Padrões clínicos de apresentação (os padrões podem coexistir e mudar ao longo da evolução clínica):

  • Oligoartrite assimétrica.

  • Poliartrite periférica.

  • Predomínio em articulações interfalângicas distais.

  • Artrite mutilante.

  • Comprometimento axial.

  • Entesite predominante.

  • Dactilite predominante.

Manifestações:

  • Artrite periférica

    • Oligoartrite assimétrica, poliartrite, artrite de pequenas e grandes articulações

  • Interfalângicas distais

    • Dor, edema e limitação em articulações interfalângicas distais

  • Dactilite

    • Edema difuso de todo o dedo, com aspecto de “dedo em salsicha”

  • Entesite

    • Dor em inserções tendíneas, principalmente calcâneo, fáscia plantar, epicôndilos e patela

  • Doença axial

    • Dor lombar inflamatória, rigidez, sacroileíte e limitação de mobilidade

  • Pele e unhas

    • Psoríase em placas, couro cabeludo, região interglútea, umbigo, unhas e áreas de atrito

  • Manifestações associadas

    • Uveíte, doença inflamatória intestinal, obesidade, síndrome metabólica e risco cardiovascular aumentado

Diagnóstico

Considerações:

  • O diagnóstico é clínico, baseado na combinação de manifestações musculoesqueléticas, psoríase atual ou pregressa, história familiar e exclusão de diagnósticos diferenciais.

  • Não há exame laboratorial isolado que confirme APs.

Critérios CASPAR: Os critérios CASPAR auxiliam na classificação da doença em pacientes com doença articular inflamatória estabelecida.

Avaliação inicial na APS

  • Caracterizar o padrão de dor:

    • Inflamatória versus mecânica.

    • Número e distribuição das articulações acometidas.

    • Rigidez matinal.

    • Dor axial.

    • Limitação funcional.

  • Examinar:

    • Articulações dolorosas e edemaciadas.

    • Dactilite.

    • Entesite.

    • Pele, couro cabeludo, região interglútea e umbigo.

    • Unhas.

    • Mobilidade axial.

  • Investigar:

    • Uveíte.

    • Sintomas gastrointestinais sugestivos de doença inflamatória intestinal.

    • Comorbidades cardiovasculares e metabólicas.

    • Obesidade.

    • Tabagismo.

    • Uso de medicamentos e risco infeccioso antes de eventual imunossupressão.

Exames complementares

Exames laboratoriais

Os exames não confirmam APs isoladamente, mas auxiliam na avaliação de atividade inflamatória, diagnósticos diferenciais e segurança terapêutica.

  • Hemograma.

  • Proteína C-reativa.

  • Velocidade de hemossedimentação.

  • Função renal.

  • Transaminases.

  • Fator reumatoide.

  • Anti-CCP quando houver suspeita de artrite reumatoide.

  • Ácido úrico quando houver suspeita de gota.

  • Sorologias para hepatites virais, HIV e rastreio de tuberculose antes de terapias imunossupressoras, conforme protocolo especializado.

Exames de imagem

  • Radiografia simples

    • Avaliação inicial de mãos, pés, articulações sintomáticas e sacroilíacas; pode identificar erosões, estreitamento articular, periostite e neoformação óssea.

  • Ultrassonografia com Doppler

    • Identificação de sinovite, tenossinovite, entesite e atividade inflamatória subclínica.

  • Ressonância magnética

    • Útil na suspeita de sacroileíte precoce, doença axial e avaliação de inflamação em partes moles.

  • Tomografia computadorizada

    • Pode auxiliar na avaliação estrutural, especialmente quando há dúvida diagnóstica axial.

Diagnósticos diferenciais

  • Artrite reumatoide: poliartrite simétrica, fator reumatoide e anti-CCP positivos, ausência de psoríase típica.

  • Osteoartrose: dor mecânica, piora com uso, ausência de rigidez matinal prolongada e de sinovite persistente.

  • Gota: crises agudas recorrentes, hiperuricemia, cristais de urato no líquido sinovial.

  • Espondiloartrite axial: predomínio axial, sacroileíte e possível ausência de psoríase.

  • Artrite reativa: relação temporal com infecção gastrointestinal ou geniturinária.

  • Artrite séptica: monoartrite aguda, febre, toxemia, elevação importante de marcadores inflamatórios.

  • Fibromialgia: dor difusa sem sinovite objetiva, fadiga e distúrbios do sono.

Manejo inicial

A APs deve ser acompanhada preferencialmente por reumatologista, em articulação com dermatologia quando houver doença cutânea relevante. A escolha terapêutica depende dos domínios acometidos, gravidade, atividade inflamatória, dano estrutural, comorbidades, tratamentos prévios e acesso ao tratamento.

  • Orientar cessação do tabagismo.

  • Incentivar redução ponderal quando houver sobrepeso ou obesidade.

  • Prescrever exercício físico e fisioterapia conforme limitação funcional.

  • Tratar fatores de risco cardiovascular.

  • Avaliar e atualizar vacinação antes de imunossupressão.

  • Rastrear tuberculose e hepatites antes de terapias modificadoras de doença ou imunobiológicos.

  • Evitar atraso no encaminhamento quando houver artrite ativa, dactilite, entesite importante ou suspeita de doença axial.

Tratamento sintomático na APS

Anti-inflamatórios não esteroidais podem ser utilizados por curto período em doença leve, como medida sintomática, desde que não haja contraindicação. Não devem substituir o início oportuno de terapia modificadora de doença quando houver artrite persistente ou atividade inflamatória relevante. Glicocorticoides orais não são recomendados rotineiramente no manejo da APs.

Anti-inflamatórios não esteroidais

  • Naproxeno comp. 250 mg ou 500 mg

    • Tomar 250 a 500 mg VO a cada 12 horas, após alimentação.

    • Utilizar pela menor duração possível.

    • Considerar gastroproteção em pacientes com risco gastrointestinal.

    • Evitar em doença renal crônica avançada, insuficiência cardíaca descompensada, doença ulcerosa ativa e alto risco cardiovascular.

  • Ibuprofeno comp. 400 mg ou 600 mg

    • Tomar 400 a 600 mg VO a cada 8 horas, se dor inflamatória.

    • Dose máxima: 2.400 mg/dia.

    • Utilizar pelo menor tempo possível.

  • Diclofenaco comp. 50 mg

    • Tomar 1 comp. VO a cada 8 ou 12 horas, após alimentação.

    • Dose máxima: 150 mg/dia.

    • Evitar em pacientes com alto risco cardiovascular, insuficiência renal, insuficiência cardíaca ou doença ulcerosa ativa.

Terapia modificadora de doença

A prescrição e o acompanhamento de medicamentos modificadores do curso da doença devem ser realizados pelo reumatologista. Em artrite periférica, recomenda-se início precoce de medicamento modificador sintético convencional; o metotrexato é preferido quando há psoríase cutânea clinicamente relevante.

  • Medicamentos modificadores sintéticos convencionais

    • Metotrexato.

    • Leflunomida.

    • Sulfassalazina.

    • Ciclosporina, em situações selecionadas.

  • Terapias alvo-específicas e imunobiológicas

    • A escolha deve considerar o domínio predominante da doença, presença de psoríase cutânea, uveíte, doença inflamatória intestinal, comorbidades e falha terapêutica prévia.

      • Inibidores do TNF.

      • Inibidores de IL-17.

      • Inibidores de IL-12/23.

      • Inibidores de IL-23.

      • Inibidores de JAK.

      • Inibidores de PDE-4.

      • Outras terapias previstas no fluxo do PCDT vigente.

  • O PCDT brasileiro atualizado contempla estratégias terapêuticas escalonadas no SUS e deve orientar a dispensação e o seguimento especializado.

Critérios de encaminhamento à reumatologia

  • Suspeita de APs com artrite periférica persistente.

  • Dactilite.

  • Entesite persistente ou incapacitante.

  • Dor lombar inflamatória ou suspeita de sacroileíte.

  • Artrite com limitação funcional relevante.

  • Erosões ou alterações estruturais em exames de imagem.

  • Falha de tratamento sintomático inicial.

  • Necessidade de medicamento modificador de doença.

  • Uveíte, doença inflamatória intestinal ou manifestações sistêmicas associadas.

  • Suspeita de artrite séptica:

    • Encaminhamento imediato para avaliação de urgência.

Quadro-resumo

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Psoriásica. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: PCDT da Artrite Psoriásica. Acesso em: 7 jul. 2026.

[2] CARNEIRO, Sueli et al. Recomendações sobre diagnóstico e tratamento da artrite psoriásica. Revista Brasileira de Reumatologia, São Paulo, v. 53, n. 2, p. 157-183, 2013. Disponível em: Recomendações brasileiras sobre artrite psoriásica. Acesso em: 7 jul. 2026.

[3] COATES, Laura C. et al. Group for Research and Assessment of Psoriasis and Psoriatic Arthritis: updated treatment recommendations for psoriatic arthritis 2021. Nature Reviews Rheumatology, London, v. 18, p. 465-479, 2022. DOI: 10.1038/s41584-022-00798-0. Disponível em: GRAPPA treatment recommendations. Acesso em: 7 jul. 2026.

[4] GOSSEC, Laure et al. EULAR recommendations for the management of psoriatic arthritis with pharmacological therapies: 2023 update. Annals of the Rheumatic Diseases, London, v. 83, n. 6, p. 706-719, 2024. DOI: 10.1136/ard-2024-225531. Disponível em: EULAR recommendations for psoriatic arthritis. Acesso em: 7 jul. 2026.

[5] SOCIEDADE BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA. Artrite psoriásica. São Paulo: SBR, 2019. Disponível em: Artrite Psoriásica — Sociedade Brasileira de Reumatologia. Acesso em: 7 jul. 2026.

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