Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) ao HIV
CID-10: Z20.6 — Contato com e exposição ao HIV
CID-10: Z29.8 — Outras medidas profiláticas especificadas
Introdução
A profilaxia pré-exposição (PrEP) consiste no uso de antirretrovirais por pessoas sem infecção pelo HIV com o objetivo de reduzir o risco de aquisição viral antes de exposições potenciais.
É considerada uma das principais estratégias biomédicas de prevenção combinada ao HIV.
Quando utilizada adequadamente, apresenta elevada eficácia na prevenção da transmissão sexual do HIV.
No SUS brasileiro, a modalidade atualmente padronizada é a PrEP oral.
A estratégia deve ser integrada a:
testagem regular para HIV e ISTs;
aconselhamento sexual;
vacinação;
redução de danos;
uso de preservativos.
Populações com Indicação de PrEP
A PrEP deve ser ofertada a qualquer pessoa sem HIV que deseje utilizá-la e apresente risco aumentado de exposição ao vírus.
Situações associadas à maior vulnerabilidade:
relações sexuais desprotegidas recorrentes;
múltiplas parcerias sexuais;
parceria vivendo com HIV sem supressão viral conhecida;
episódios repetidos de PEP;
diagnóstico recente de IST;
trabalho sexual;
uso de drogas associado a práticas sexuais de risco;
compartilhamento de instrumentos para uso de drogas.
Populações prioritárias frequentemente contempladas:
homens que fazem sexo com homens (HSH);
pessoas trans;
trabalhadores(as) do sexo;
casais sorodiferentes;
pessoas em contexto de maior vulnerabilidade sexual.
Critérios para Início da PrEP
Confirmar ausência de infecção pelo HIV antes do início.
Avaliação inicial recomendada:
teste para HIV;
investigação de sintomas sugestivos de infecção aguda pelo HIV;
creatinina sérica e cálculo de função renal;
sorologias para hepatites virais;
rastreio para ISTs;
beta-HCG quando aplicável;
avaliação vacinal.
Sintomas sugestivos de síndrome retroviral aguda:
febre;
rash;
linfadenopatia;
faringite;
mialgia;
cefaleia;
diarreia.
Na suspeita de infecção aguda pelo HIV:
não iniciar PrEP até exclusão diagnóstica.
Esquemas de PrEP
PrEP oral diária
Modalidade preferencial no SUS.
Indicada para qualquer pessoa elegível.
Medicamento:
Tenofovir + Entricitabina (Truvada® e genéricos) comp. 300 mg/200 mg
Tomar 1 cp VO 1x/dia, continuamente.
Iniciar após confirmação de HIV negativo.
Em exposição anal receptiva, proteção máxima estimada após cerca de 7 dias de uso diário.
Em exposição vaginal e uso de drogas injetáveis, proteção máxima estimada após cerca de 21 dias.
PrEP sob demanda (esquema 2+1+1)
Modalidade não indicada para todas as populações.
Pode ser considerada para:
homens cisgênero HSH;
algumas pessoas designadas sexo masculino ao nascimento;
indivíduos com exposições sexuais esporádicas.
Não recomendada para:
exposição vaginal;
pessoas com hepatite B ativa;
indivíduos com dificuldade de adesão ao esquema.
Medicamento
Tenofovir + Entricitabina (Truvada® e genéricos) comp. 300 mg/200 mg
Tomar 2 cp VO entre 2–24h antes da relação sexual.
Após:
1 cp após 24h da dose inicial;
1 cp após 48h da dose inicial.
Se houver manutenção de atividade sexual:
manter 1 cp/dia até 48h após a última exposição sexual.
❌ Contraindicações e Situações de Atenção
Contraindicações relativas ou necessidade de avaliação especializada:
HIV positivo;
suspeita de infecção aguda pelo HIV;
insuficiência renal significativa;
hipersensibilidade aos componentes.
Deve-se ter cautela em:
coinfecção por hepatite B;
nefropatia prévia;
uso concomitante de nefrotóxicos.
Monitorização Durante a PrEP
Seguimento clínico
Reavaliação periódica obrigatória.
Recomenda-se acompanhamento regular para:
adesão;
efeitos adversos;
comportamento sexual;
rastreamento de ISTs;
manutenção da indicação da PrEP.
Exames de seguimento
Testagem para HIV:
a cada 3 meses.
Função renal:
geralmente a cada 6 meses;
monitorização mais frequente em grupos de risco renal.
Rastreio para ISTs:
periódico conforme vulnerabilidade e exposição.
Hepatites virais:
conforme situação vacinal e fatores de risco.
Eventos Adversos
Geralmente leves e transitórios.
Mais frequentes:
náuseas;
cefaleia;
desconforto gastrointestinal;
diarreia.
Eventos relevantes menos comuns:
nefrotoxicidade;
redução de densidade mineral óssea.
Situações Especiais
Coinfecção por hepatite B
Tenofovir e entricitabina possuem atividade contra HBV.
Suspensão abrupta pode associar-se à reativação da hepatite B.
Gestação e lactação
A PrEP pode ser considerada em pessoas com risco aumentado de aquisição do HIV durante gestação e lactação.
Adolescentes
Pode ser utilizada em adolescentes elegíveis conforme protocolos vigentes.
Condutas na Suspeita de Soroconversão
Suspender temporariamente a PrEP até investigação diagnóstica.
Realizar:
teste de HIV;
carga viral, quando disponível;
avaliação especializada.
O uso inadvertido de PrEP durante infecção aguda pelo HIV pode favorecer resistência viral.
Orientações Práticas ao Paciente
A eficácia depende diretamente da adesão.
A PrEP não protege contra outras ISTs.
Deve-se orientar:
uso de preservativos;
vacinação;
testagem periódica;
reconhecimento de sinais de infecção aguda pelo HIV.
Critérios para Encaminhamento
Considerar encaminhamento para infectologia ou serviço especializado em:
suspeita de soroconversão;
insuficiência renal;
eventos adversos importantes;
coinfecção complexa;
dificuldade diagnóstica;
falha de adesão persistente.
Referências
[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) Oral à Infecção pelo HIV. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/pcdts/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-para-profilaxia-pre-exposicao-prep-oral-a-infeccao-pelo-hiv.pdf/view. Acesso em: 16 maio 2026.
[2] CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Clinical Guidance for PrEP. 2026. Disponível em: https://www.cdc.gov/hivnexus/hcp/prep/index.html. Acesso em: 16 maio 2026.
[3] DUNCAN, B. B.; SCHMIDT, M. I.; GIUGLIANI, E. R. J.; et al. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.
[4] GUSSO, G.; LOPES, J. M. C.; DIAS, L. C. Tratado de Medicina de Família e Comunidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
[5] NATIONAL INSTITUTES OF HEALTH (NIH). Pre-Exposure Prophylaxis (PrEP). 2025. Disponível em: https://hivinfo.nih.gov/understanding-hiv/fact-sheets/pre-exposure-prophylaxis-prep. Acesso em: 16 maio 2026.
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