Miastenia Gravis
CID-10: G700 - Miastenia gravis
Introdução
A miastenia gravis (MG) é uma doença autoimune da junção neuromuscular caracterizada por fraqueza muscular flutuante e fatigabilidade, decorrentes da redução da transmissão do impulso nervoso para o músculo. Na maioria dos pacientes, há produção de autoanticorpos contra o receptor de acetilcolina (AChR) ou contra proteínas da membrana pós-sináptica, principalmente a MuSK (muscle-specific kinase).
O reconhecimento precoce é fundamental, pois a doença apresenta tratamento eficaz, mas pode evoluir para crise miastênica, situação potencialmente fatal por insuficiência respiratória.
Na Atenção Primária e nos serviços de urgência, o principal desafio é suspeitar do diagnóstico diante de sintomas inespecíficos de fraqueza, diferenciando-a de doenças neurológicas, musculares e sistêmicas.
Fluxograma de manejo

Epidemiologia
Incidência estimada: 5–30 casos por milhão de habitantes/ano;
Prevalência: aproximadamente 150–250 casos por milhão;
Pode ocorrer em qualquer idade;
Distribuição bimodal:
mulheres: predominância entre 20–40 anos;
homens: predominância após os 60 anos.
Cerca de 10–15% dos pacientes apresentam timoma;
Aproximadamente 80–85% apresentam anticorpos anti-AChR positivos;
Anti-MuSK ocorre em cerca de 5–8% dos casos.
Anamnese
A característica mais importante é a fraqueza que piora com esforço repetitivo e melhora após repouso.
Sintomas mais frequentes
Oculares
São a forma inicial em aproximadamente metade dos pacientes.
Ptose palpebral flutuante
Diplopia variável
Visão borrada após leitura prolongada
Assimetria dos sintomas ao longo do dia
Exemplo: paciente relata que ao acordar enxerga normalmente, porém ao final da tarde desenvolve visão dupla.
Bulbares
Disartria progressiva durante a conversa
Voz anasalada
Disfagia, principalmente para líquidos
Mastigação cansativa após alguns minutos
Engasgos frequentes
Musculatura cervical
Dificuldade para manter a cabeça ereta
Sensação de "cabeça pesada"
Membros
Predomínio proximal.
Dificuldade para pentear os cabelos
Levantar os braços
Levantar-se da cadeira
Subir escadas
Carregar objetos
Musculatura respiratória
Representa sinal de gravidade.
Questionar:
dispneia aos esforços leves;
dificuldade para contar frases longas;
ortopneia;
piora respiratória progressiva.
Características típicas da doença
Sintomas flutuam ao longo do dia.
Piora ao final do dia.
Agravamento após esforço físico.
Melhora parcial após repouso.
Sensibilidade preservada.
Reflexos geralmente normais.
Ausência de dor muscular importante.
História clínica
Investigar:
doenças autoimunes (tireoidite, lúpus, artrite reumatoide);
história familiar;
infecções recentes;
cirurgias;
uso de medicamentos capazes de piorar a transmissão neuromuscular.
Medicamentos frequentemente associados à piora:
aminoglicosídeos;
fluoroquinolonas;
macrolídeos (alguns casos);
sulfato de magnésio;
bloqueadores neuromusculares;
beta-bloqueadores;
alguns antiarrítmicos;
penicilamina.
Diagnóstico
O diagnóstico é baseado na combinação de suspeita clínica, exame neurológico e exames confirmatórios.
Exame físico
Avaliar fatigabilidade.
Testes simples:
olhar fixamente para cima durante 60 segundos;
abrir e fechar os olhos repetidamente;
contar até 50 continuamente;
elevar repetidamente os braços;
levantar-se da cadeira diversas vezes.
Durante o exame pode ocorrer:
piora da ptose;
surgimento de diplopia;
redução progressiva da força;
alteração da fala.
Exames laboratoriais
Anti-receptor de acetilcolina (AChR) (principal exame diagnóstico);
Anti-MuSK (quando anti-AChR negativo);
Anti-LRP4 (quando disponível) (casos soronegativos);
TSH e T4 livre (pesquisa de doença tireoidiana);
Hemograma (avaliação geral);
Função renal e hepática (planejamento terapêutico).
Tratamento inicial
O manejo inicial consiste em:
reconhecer precocemente a doença;
identificar sinais de gravidade;
evitar medicamentos que possam agravar a transmissão neuromuscular;
estabilizar o paciente até avaliação especializada.
Tratamento sintomático
O tratamento específico (piridostigmina, corticosteroides, imunossupressores, imunoglobulina intravenosa, plasmaférese e terapias biológicas) deve ser iniciado e acompanhado pelo neurologista.
Na atenção primária, não há tratamento analgésico específico, pois a miastenia gravis não é uma doença dolorosa. Quando houver dor musculoesquelética secundária ao esforço ou à sobrecarga, podem ser utilizados analgésicos comuns.
Medicamentos:
Dipirona comp. 500 mg
Tomar 01 a 02 comprimidos de 6/6 horas, se dor, máximo de 4 g/dia.
Paracetamol comp. 500 mg
Tomar 01 a 02 comprimidos de 6/6 horas, se dor, máximo de 3 g/dia.
Medidas gerais
Orientar repouso durante exacerbações.
Fracionar atividades físicas.
Fracionar refeições em pacientes disfágicos.
Tratar infecções precocemente.
Revisar medicamentos de uso contínuo.
Atualizar vacinação conforme recomendações vigentes.
Orientar retorno imediato diante de piora respiratória.
Suspeita de crise miastênica
Encaminhamento imediato para emergência quando houver:
dispneia;
taquipneia progressiva;
incapacidade de contar até 20 em uma única inspiração;
disfagia importante;
incapacidade de eliminar secreções;
queda da saturação;
fraqueza rapidamente progressiva.
Critérios de encaminhamento
Encaminhamento para Neurologia (prioritário)
Suspeita clínica de miastenia gravis;
Anticorpos positivos;
Eletroneuromiografia compatível;
Fraqueza progressiva;
Comprometimento ocular persistente;
Sintomas bulbares;
Necessidade de iniciar tratamento específico;
Casos soronegativos com forte suspeita clínica.
Encaminhamento para emergência
Encaminhar imediatamente quando houver:
insuficiência respiratória;
dispneia progressiva;
saturação reduzida;
incapacidade de deglutir saliva;
disfagia intensa;
broncoaspiração;
incapacidade de manter a cabeça ereta;
rápida progressão da fraqueza;
suspeita de crise miastênica.
Referências
[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Miastenia Gravis. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 30 jul. 2026.
[2] STATPEARLS PUBLISHING. Myasthenia Gravis. Treasure Island: StatPearls Publishing, atualização contínua. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK559331/. Acesso em: 30 jul. 2026.
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