Miastenia Gravis

CID-10: G700 - Miastenia gravis

Introdução

  • A miastenia gravis (MG) é uma doença autoimune da junção neuromuscular caracterizada por fraqueza muscular flutuante e fatigabilidade, decorrentes da redução da transmissão do impulso nervoso para o músculo. Na maioria dos pacientes, há produção de autoanticorpos contra o receptor de acetilcolina (AChR) ou contra proteínas da membrana pós-sináptica, principalmente a MuSK (muscle-specific kinase).

  • O reconhecimento precoce é fundamental, pois a doença apresenta tratamento eficaz, mas pode evoluir para crise miastênica, situação potencialmente fatal por insuficiência respiratória.

  • Na Atenção Primária e nos serviços de urgência, o principal desafio é suspeitar do diagnóstico diante de sintomas inespecíficos de fraqueza, diferenciando-a de doenças neurológicas, musculares e sistêmicas.

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Fluxograma de manejo

Fluxograma de Investigação de Fraqueza Muscular / Miastenia Gravis: o algoritmo orienta a avaliação de um paciente com fraqueza muscular. A primeira pergunta é se a fraqueza é flutuante, se piora com esforço e se melhora com repouso; se a resposta for não, o fluxo indica investigar outras causas, encerrando esse ramo. Se a resposta for sim, avalia-se a presença de ptose, diplopia, disfagia, disartria e fadiga proximal, seguido pela solicitação de anticorpo antirreceptor de acetilcolina (Anti-AChR), anticorpo antiquinase muscular específica (Anti-MuSK, se necessário) e eletroneuromiografia (ENMG). Em seguida, pergunta-se se o diagnóstico de Miastenia Gravis (MG) foi confirmado; se não, indica-se reavaliar o diagnóstico, encerrando esse ramo. Se confirmado, o paciente deve ser encaminhado ao neurologista e submetido a tomografia de tórax para pesquisa de timoma. Por fim, avalia-se a presença de sinais respiratórios ou bulbares graves: se ausentes, o paciente segue em acompanhamento ambulatorial (seguimento); se presentes, indica-se conduta de emergência.

Epidemiologia

  • Incidência estimada: 5–30 casos por milhão de habitantes/ano;

  • Prevalência: aproximadamente 150–250 casos por milhão;

  • Pode ocorrer em qualquer idade;

  • Distribuição bimodal:

    • mulheres: predominância entre 20–40 anos;

    • homens: predominância após os 60 anos.

  • Cerca de 10–15% dos pacientes apresentam timoma;

  • Aproximadamente 80–85% apresentam anticorpos anti-AChR positivos;

  • Anti-MuSK ocorre em cerca de 5–8% dos casos.

Anamnese

A característica mais importante é a fraqueza que piora com esforço repetitivo e melhora após repouso.

Sintomas mais frequentes

  • Oculares

    • São a forma inicial em aproximadamente metade dos pacientes.

      • Ptose palpebral flutuante

      • Diplopia variável

      • Visão borrada após leitura prolongada

      • Assimetria dos sintomas ao longo do dia

    • Exemplo: paciente relata que ao acordar enxerga normalmente, porém ao final da tarde desenvolve visão dupla.

  • Bulbares

    • Disartria progressiva durante a conversa

    • Voz anasalada

    • Disfagia, principalmente para líquidos

    • Mastigação cansativa após alguns minutos

    • Engasgos frequentes

  • Musculatura cervical

    • Dificuldade para manter a cabeça ereta

    • Sensação de "cabeça pesada"

  • Membros

    • Predomínio proximal.

      • Dificuldade para pentear os cabelos

      • Levantar os braços

      • Levantar-se da cadeira

      • Subir escadas

      • Carregar objetos

  • Musculatura respiratória

    • Representa sinal de gravidade.

    • Questionar:

      • dispneia aos esforços leves;

      • dificuldade para contar frases longas;

      • ortopneia;

      • piora respiratória progressiva.

Características típicas da doença

  • Sintomas flutuam ao longo do dia.

  • Piora ao final do dia.

  • Agravamento após esforço físico.

  • Melhora parcial após repouso.

  • Sensibilidade preservada.

  • Reflexos geralmente normais.

  • Ausência de dor muscular importante.

História clínica

  • Investigar:

    • doenças autoimunes (tireoidite, lúpus, artrite reumatoide);

    • história familiar;

    • infecções recentes;

    • cirurgias;

    • uso de medicamentos capazes de piorar a transmissão neuromuscular.

  • Medicamentos frequentemente associados à piora:

    • aminoglicosídeos;

    • fluoroquinolonas;

    • macrolídeos (alguns casos);

    • sulfato de magnésio;

    • bloqueadores neuromusculares;

    • beta-bloqueadores;

    • alguns antiarrítmicos;

    • penicilamina.

Diagnóstico

O diagnóstico é baseado na combinação de suspeita clínica, exame neurológico e exames confirmatórios.

Exame físico

  • Avaliar fatigabilidade.

  • Testes simples:

    • olhar fixamente para cima durante 60 segundos;

    • abrir e fechar os olhos repetidamente;

    • contar até 50 continuamente;

    • elevar repetidamente os braços;

    • levantar-se da cadeira diversas vezes.

  • Durante o exame pode ocorrer:

    • piora da ptose;

    • surgimento de diplopia;

    • redução progressiva da força;

    • alteração da fala.

Exames laboratoriais

  • Anti-receptor de acetilcolina (AChR) (principal exame diagnóstico);

  • Anti-MuSK (quando anti-AChR negativo);

  • Anti-LRP4 (quando disponível) (casos soronegativos);

  • TSH e T4 livre (pesquisa de doença tireoidiana);

  • Hemograma (avaliação geral);

  • Função renal e hepática (planejamento terapêutico).

Tratamento inicial

O manejo inicial consiste em:

  • reconhecer precocemente a doença;

  • identificar sinais de gravidade;

  • evitar medicamentos que possam agravar a transmissão neuromuscular;

  • estabilizar o paciente até avaliação especializada.

Tratamento sintomático

  • O tratamento específico (piridostigmina, corticosteroides, imunossupressores, imunoglobulina intravenosa, plasmaférese e terapias biológicas) deve ser iniciado e acompanhado pelo neurologista.

  • Na atenção primária, não há tratamento analgésico específico, pois a miastenia gravis não é uma doença dolorosa. Quando houver dor musculoesquelética secundária ao esforço ou à sobrecarga, podem ser utilizados analgésicos comuns.

Medicamentos:

  • Dipirona comp. 500 mg

    • Tomar 01 a 02 comprimidos de 6/6 horas, se dor, máximo de 4 g/dia.

  • Paracetamol comp. 500 mg

    • Tomar 01 a 02 comprimidos de 6/6 horas, se dor, máximo de 3 g/dia.

Medidas gerais

  • Orientar repouso durante exacerbações.

  • Fracionar atividades físicas.

  • Fracionar refeições em pacientes disfágicos.

  • Tratar infecções precocemente.

  • Revisar medicamentos de uso contínuo.

  • Atualizar vacinação conforme recomendações vigentes.

  • Orientar retorno imediato diante de piora respiratória.

Suspeita de crise miastênica

Encaminhamento imediato para emergência quando houver:

  • dispneia;

  • taquipneia progressiva;

  • incapacidade de contar até 20 em uma única inspiração;

  • disfagia importante;

  • incapacidade de eliminar secreções;

  • queda da saturação;

  • fraqueza rapidamente progressiva.

Critérios de encaminhamento

Encaminhamento para Neurologia (prioritário)

  • Suspeita clínica de miastenia gravis;

  • Anticorpos positivos;

  • Eletroneuromiografia compatível;

  • Fraqueza progressiva;

  • Comprometimento ocular persistente;

  • Sintomas bulbares;

  • Necessidade de iniciar tratamento específico;

  • Casos soronegativos com forte suspeita clínica.

Encaminhamento para emergência

  • Encaminhar imediatamente quando houver:

    • insuficiência respiratória;

    • dispneia progressiva;

    • saturação reduzida;

    • incapacidade de deglutir saliva;

    • disfagia intensa;

    • broncoaspiração;

    • incapacidade de manter a cabeça ereta;

    • rápida progressão da fraqueza;

    • suspeita de crise miastênica.

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Miastenia Gravis. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 30 jul. 2026.

[2] STATPEARLS PUBLISHING. Myasthenia Gravis. Treasure Island: StatPearls Publishing, atualização contínua. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK559331/. Acesso em: 30 jul. 2026.

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