Neuropatia Periférica no Adulto

CID-10: G64 - Outros transtornos do sistema nervoso periférico

Introdução

  • A neuropatia periférica corresponde ao comprometimento dos nervos periféricos e representa uma das causas mais frequentes de sintomas neurológicos na prática clínica, manifestando-se por dor neuropática, parestesias, dormência, fraqueza, desequilíbrio e disfunção autonômica. Trata-se de uma síndrome clínica com amplo espectro etiológico, incluindo causas metabólicas, carenciais, tóxicas, infecciosas, inflamatórias, hereditárias e neoplásicas.

  • Embora existam inúmeras etiologias possíveis, a investigação não deve partir da busca por doenças específicas, mas sim da identificação do padrão clínico da neuropatia. A distribuição dos sintomas, o tipo de fibra nervosa acometida, a velocidade de evolução e os achados do exame neurológico permitem localizar a lesão e direcionar a investigação de forma mais eficiente, reduzindo exames desnecessários e aumentando a probabilidade de identificar a causa.

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Quando suspeitar

As principais manifestações clínicas são: 

  • Sintomas sensitivos

    • Dormência em "luvas e meias", iniciando nos pés e progredindo proximalmente;

    • Parestesias, como formigamento, sensação de alfinetadas ou "choques";

    • Dor neuropática, descrita como queimação, pontadas, choque elétrico ou sensação de frio doloroso;

    • Alodinia, quando estímulos normalmente indolores (como o toque da roupa ou dos lençóis) provocam dor;

    • Perda da sensibilidade vibratória ou proprioceptiva, manifestando-se por dificuldade para caminhar no escuro ou sensação de "pisar em algodão".

  • Sintomas motores

    • Fraqueza distal, com dificuldade para subir escadas, caminhar na ponta dos pés ou sobre os calcanhares;

    • Queda do pé (pé caído), levando a tropeços frequentes;

    • Dificuldade para manipular objetos, abotoar roupas ou escrever;

    • Atrofia muscular distal, principalmente nas mãos e pés;

    • Cãibras e fadiga muscular desproporcionais ao esforço.

  • Sintomas autonômicos

    • Hipotensão ortostática, com tontura ou síncope ao levantar-se;

    • Disfunção gastrointestinal, incluindo constipação, diarreia ou gastroparesia;

    • Disfunção urinária, como retenção urinária ou incontinência;

    • Disfunção sexual, incluindo disfunção erétil e redução da lubrificação vaginal;

    • Alterações sudomotoras, como anidrose, hiperidrose ou intolerância ao calor.

  • Alterações da marcha e do equilíbrio

    • Instabilidade durante a marcha;

    • Quedas frequentes sem causa ortopédica evidente;

    • Piora importante do equilíbrio em ambientes escuros;

    • Necessidade de apoio visual constante durante a caminhada;

    • Sinal de Romberg positivo, indicando comprometimento da propriocepção.

Anamnese

A história clínica é a etapa mais importante da investigação.

Caracterização dos sintomas

Investigar:

  • início súbito ou gradual;

  • evolução progressiva ou estável;

  • distribuição:

    • distal;

    • proximal;

    • unilateral;

    • bilateral;

    • simétrica;

    • assimétrica.

  • predominância sensitiva ou motora;

  • presença de dor neuropática.

Sintomas sensitivos

  • dormência;

  • formigamento;

  • sensação de queimação;

  • choque elétrico;

  • perda de sensibilidade;

  • dificuldade para perceber temperatura;

  • sensação de caminhar sobre algodão.

Sintomas motores

  • fraqueza distal;

  • dificuldade para subir escadas;

  • tropeços frequentes;

  • dificuldade para abrir recipientes;

  • queda do pé;

  • atrofia muscular.

Sintomas autonômicos

  • hipotensão ortostática;

  • constipação;

  • diarreia inexplicada;

  • retenção urinária;

  • disfunção erétil;

  • redução da sudorese;

  • intolerância ao calor.

Antecedentes importantes

Pesquisar:

  • diabetes mellitus;

  • pré-diabetes;

  • etilismo;

  • insuficiência renal;

  • hipotireoidismo;

  • HIV;

  • hepatites B e C;

  • hanseníase;

  • doenças reumatológicas;

  • neoplasias;

  • cirurgia bariátrica;

  • história familiar de neuropatia.

Uso de medicamentos

Perguntar sobre:

  • quimioterápicos (platinas, taxanos, vincristina);

  • linezolida;

  • metronidazol em uso prolongado;

  • nitrofurantoína;

  • amiodarona;

  • isoniazida;

  • antirretrovirais antigos.

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico, complementado pela investigação etiológica.

Exame neurológico

Avaliar:

  • força muscular;

  • trofismo;

  • reflexos profundos;

  • sensibilidade dolorosa;

  • sensibilidade térmica;

  • sensibilidade vibratória;

  • propriocepção;

  • marcha;

  • Romberg.

Exames laboratoriais iniciais

Todo paciente com polineuropatia distal sem causa evidente deve realizar:

  • Hemograma

  • Glicemia de jejum

  • HbA1c

  • Creatinina

  • Ureia

  • TSH

  • Vitamina B12

  • Ácido fólico (quando indicado)

  • Função hepática

  • Eletroforese de proteínas séricas

  • Sorologia para HIV

  • Sorologia para hepatite C

Conforme suspeita clínica

  • FAN

  • ENA

  • ANCA

  • PCR

  • VHS

  • CPK

  • Cobre sérico

  • Vitamina E

  • Sorologia para doença de Lyme (áreas endêmicas)

  • Pesquisa para doença celíaca

  • Pesquisa de metais pesados

Eletroneuromiografia (ENMG)

É o principal exame complementar.

Indicada quando:

  • diagnóstico incerto;

  • fraqueza importante;

  • neuropatia assimétrica;

  • neuropatia motora;

  • suspeita de neuropatia inflamatória;

  • evolução rápida.

Permite:

  • confirmar neuropatia;

  • definir padrão axonal ou desmielinizante;

  • localizar a lesão;

  • estimar gravidade.

Quando solicitar imagem?

Ressonância magnética não faz parte da investigação rotineira.

Indicar quando houver:

  • suspeita de radiculopatia;

  • plexopatia;

  • compressão neural;

  • tumores;

  • lesões medulares.

Tratamento

Tratamento Inicial: O tratamento inicial na Atenção Primária deve focar em controle dos sintomas, prevenção de complicações e tratamento da causa identificável quando possível.

  • Medidas gerais

    • Controle rigoroso do diabetes.

    • Suspensão do álcool.

    • Revisão de medicamentos potencialmente neurotóxicos.

    • Correção de deficiência de vitamina B12 e outras carências nutricionais.

    • Orientação sobre cuidados com os pés.

    • Prevenção de quedas.

    • Fisioterapia quando houver déficit funcional.

Tratamento da dor neuropática

  • Primeira linha

    • Duloxetina cáps. 30 mg

      • Iniciar com 30 mg VO 1x/dia por 1 semana; se necessário, aumentar para 60 mg VO 1x/dia.

    • Pregabalina cáps. 75 mg

      • Iniciar com 75 mg VO à noite; aumentar gradualmente para 75 mg 12/12 h conforme resposta clínica e função renal.

    • Gabapentina cáps. 300 mg

      • Iniciar com 300 mg à noite, aumentando progressivamente até resposta clínica (ajustar conforme função renal).

  • Segunda linha

    • Amitriptilina comp. 25 mg

      • Iniciar com 12,5–25 mg VO à noite, aumentando gradualmente conforme tolerância. Evitar em idosos frágeis, glaucoma de ângulo fechado, retenção urinária e cardiopatias com risco de arritmia.

  • Terceira linha

    • Reservada para casos refratários e, preferencialmente, após avaliação especializada:

      • associação racional entre fármacos de primeira linha;

      • tramadol em situações selecionadas e por curto período;

      • outras terapias conforme neurologia ou clínica da dor.

O que não fazer empiricamente

  • Evitar:

    • corticoides sem diagnóstico definido;

    • vitaminas indiscriminadamente quando não houver deficiência documentada;

    • opioides fortes como tratamento de rotina da dor neuropática crônica.

Critérios de Encaminhamento

Encaminhamento prioritário (Neurologia)

  • Fraqueza progressiva;

  • Evolução rápida (dias a semanas);

  • Perda importante da marcha;

  • Neuropatia assimétrica;

  • Mononeuropatia múltipla;

  • Suspeita de vasculite;

  • Suspeita de neuropatia inflamatória;

  • Suspeita de doença do neurônio motor;

  • Comprometimento respiratório;

  • Disfunção autonômica grave;

  • ENMG com padrão desmielinizante.

Encaminhamento ambulatorial

  • Diagnóstico indefinido após investigação inicial;

  • Dor neuropática refratária;

  • Suspeita de neuropatia hereditária;

  • Neuropatia associada à gamopatia monoclonal;

  • Recorrência sem etiologia esclarecida;

  • Necessidade de investigação genética.

Situações de urgência

Encaminhar imediatamente para serviço hospitalar:

  • síndrome de Guillain-Barré suspeita;

  • progressão rápida da fraqueza;

  • insuficiência respiratória;

  • disfagia;

  • tetraparesia;

  • retenção urinária aguda associada à fraqueza;

  • disautonomia grave.

Fluxograma prático

Referências

[1] ACADEMIA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA (ABN). Definição e diagnóstico de neuropatia de fibras finas: consenso do Departamento Científico de Neuropatias Periféricas da Academia Brasileira de Neurologia. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, São Paulo, v. 76, n. 3, p. 200-208, 2018. DOI: https://doi.org/10.1590/0004-282X20180015.

[2] ACADEMIA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA (ABN). Departamento Científico de Neuropatias Periféricas. São Paulo: ABN. Disponível em: https://abneuro.org.br. Acesso em: 21 jul. 2026.

[3] BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 21 jul. 2026.

[4] BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hanseniase/publicacoes/protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-da-hanseniase-2022. Acesso em: 21 jul. 2026.

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