Esclerose Múltipla: Abordagem Ambulatorial

CID-10: G35 — Esclerose múltipla

Introdução

  • A esclerose múltipla (EM) é uma doença inflamatória, imunomediada, crônica e desmielinizante do sistema nervoso central, caracterizada por inflamação, desmielinização e neurodegeneração. Acomete principalmente adultos jovens, com maior incidência entre 20 e 40 anos e predominância no sexo feminino.

  • A forma clínica mais frequente é a esclerose múltipla remitente-recorrente (EMRR). O diagnóstico precoce e o início oportuno da terapia modificadora da doença são fundamentais para reduzir a atividade inflamatória, prevenir surtos e retardar a progressão da incapacidade.

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Epidemiologia

  • Prevalência estimada no Brasil:

    • Entre 8 e 27 casos por 100.000 habitantes, variando conforme a região geográfica.

  • Maior incidência:

    • 20–40 anos.

    • Sexo feminino (≈2–3:1).

  • Fatores de risco:

    • História familiar.

    • Alelo HLA-DRB1*15:01.

    • Infecção prévia pelo vírus Epstein-Barr.

    • Baixos níveis de vitamina D.

    • Tabagismo.

    • Obesidade na adolescência.

    • Latitude elevada.

  • A doença é mais frequente em indivíduos de ascendência europeia, embora possa ocorrer em qualquer grupo étnico.

Fisiopatologia

A doença resulta da interação entre predisposição genética e fatores ambientais.

Principais mecanismos envolvidos:

  • Ativação de linfócitos T autorreativos.

  • Ativação de linfócitos B com produção de autoanticorpos.

  • Ruptura da barreira hematoencefálica.

  • Migração de células inflamatórias para o SNC.

  • Formação de placas desmielinizantes.

  • Lesão axonal irreversível.

  • Neurodegeneração progressiva.

As lesões distribuem-se preferencialmente em:

  • Região periventricular.

  • Corpo caloso.

  • Tronco encefálico.

  • Cerebelo.

  • Medula espinal.

  • Nervos ópticos.

Formas clínicas

Esclerose múltipla remitente-recorrente (EMRR)

  • Representa cerca de 85% dos casos diagnosticados.

  • Caracteriza-se por:

    • surtos neurológicos;

    • recuperação parcial ou completa;

    • ausência de progressão clínica entre os surtos.

Esclerose múltipla secundariamente progressiva (EMSP)

  • Evolui após anos de EMRR.

  • Caracteriza-se por:

    • progressão lenta da incapacidade;

    • surtos podem ou não continuar ocorrendo.

Esclerose múltipla primariamente progressiva (EMPP)

  • Cerca de 10–15% dos casos.

  • Caracteriza-se por:

    • piora contínua desde o início;

    • ausência de surtos típicos.

Síndrome clinicamente isolada (SCI)

  • Primeiro episódio desmielinizante.

  • Nem todos os pacientes evoluem para EM.

Síndrome radiologicamente isolada

  • Lesões típicas em ressonância magnética sem sintomas clínicos.

Manifestações clínicas

Os sintomas de esclerose múltipla tipicamente surgem no início da idade adulta, embora possam começar aos 2 anos de idade ou até na oitava década de vida.

  • As manifestações iniciais mais típicas incluem:

    • Perda de visão monocular (neurite óptica) ou diplopia

    • Alterações sensitivas, fraqueza, desequilíbrio, vertigem e disfunção vesical.

    • Também são comuns fadiga, sensibilidade ao calor, nebulosidade mental (mental clouding)

    • Sensações de choque elétrico desencadeadas pela flexão do pescoço (sinal de Lhermitte).

Definição de surto

  • Considera-se surto:

    • aparecimento de novo déficit neurológico;

    • ou piora objetiva de déficit prévio;

  • com:

    • duração ≥24 horas;

    • ausência de febre;

    • ausência de infecção;

    • intervalo mínimo de 30 dias em relação ao episódio anterior.

  • Não constituem surtos:

    • fenômeno de Uhthoff;

    • pseudoexacerbações associadas a infecção urinária, viroses ou febre.

Diagnóstico

Os critérios atualmente utilizados são os Critérios de McDonald (revisão mais recente), que demonstram disseminação das lesões no espaço e no tempo.

O diagnóstico se baseia na combinação de:

  • quadro clínico;

  • exame neurológico;

  • ressonância magnética;

  • análise do líquor;

  • exclusão de diagnósticos alternativos.

Ressonância magnética

  • É o exame complementar mais importante.

  • Protocolos recomendados:

    • Encéfalo.

    • Medula cervical.

    • Medula torácica (quando indicado).

  • Sequências:

    • T2.

    • FLAIR.

    • T1 com gadolínio.

  • Locais típicos das lesões:

    • Periventricular.

    • Justacortical.

    • Cortical.

    • Infratentorial.

    • Medular.

  • Critérios de disseminação no espaço:

    • Pelo menos duas localizações típicas.

  • Critérios de disseminação no tempo:

    • Lesões com e sem realce simultaneamente;

    • nova lesão em exame subsequente;

    • bandas oligoclonais no líquor quando aplicável aos critérios atuais.

Líquor

  • Achados característicos:

    • Bandas oligoclonais positivas.

    • Índice de IgG elevado.

  • Não são específicos, porém aumentam significativamente a probabilidade diagnóstica.

Potenciais evocados

  • Podem auxiliar em situações selecionadas.

  • Mais utilizados:

    • Potenciais evocados visuais.

  • Demonstram:

    • desmielinização subclínica;

    • prolongamento da latência da onda P100.

Exames laboratoriais

Realizados principalmente para exclusão de diagnósticos diferenciais.

Podem incluir:

  • Hemograma;

  • Função renal;

  • Função hepática;

  • TSH;

  • Vitamina B12;

  • Sorologias (HIV, sífilis, HTLV);

  • FAN;

  • Anticorpos antifosfolípides;

  • Anti-AQP4;

  • Anti-MOG.

Diagnósticos diferenciais

Principais condições a serem excluídas:

  • Doença associada ao anticorpo anti-AQP4 (neuromielite óptica);

  • Doença associada ao anticorpo anti-MOG;

  • Vasculites do SNC;

  • Neuro lúpus;

  • Neurosarcoidose;

  • Deficiência de vitamina B12;

  • Mielopatias compressivas;

  • Infecção por HTLV-1;

  • HIV;

  • Sífilis;

  • Doença de Lyme (quando epidemiologicamente pertinente);

  • CADASIL;

  • Leucoencefalopatias hereditárias;

  • AVC de pequenas artérias;

  • Tumores desmielinizantes.

Escalas de incapacidade

A principal escala utilizada é a Expanded Disability Status Scale (EDSS).

Aplicações:

  • monitorização ambulatorial;

  • resposta terapêutica;

  • definição prognóstica;

  • acompanhamento longitudinal.

Valores:

  • 0: exame neurológico normal.

  • 10: óbito relacionado à doença.

Tratamentos

O tratamento da esclerose múltipla compreende três pilares:

  • Tratamento dos surtos agudos.

  • Terapia modificadora da doença (TMD).

  • Tratamento sintomático e reabilitação.

A escolha da TMD deve seguir o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde, considerando forma clínica, atividade da doença, perfil de segurança, comorbidades, planejamento gestacional e resposta ao tratamento.

Tratamento do surto agudo

O tratamento está indicado para surtos incapacitantes ou que comprometam significativamente a função neurológica. Surtos leves, com recuperação rápida e mínimo impacto funcional, podem ser acompanhados sem corticoterapia.

Corticoterapia

  • Metilprednisolona (Solu-Medrol®) pó para solução injetável 500 mg ou 1g

    • Adultos:

      • 1 g IV uma vez ao dia por 3 a 5 dias.

      • Infusão em 30 a 60 minutos.

    • Não há benefício comprovado do desmame com corticosteroide oral após pulsoterapia.

    • Não é necessário ajuste para insuficiência renal.

    • Monitorar:

      • hiperglicemia;

      • hipertensão;

      • alterações do humor;

      • risco de infecções.

Plasmaférese

  • Indicada quando houver:

    • surto grave;

    • ausência de resposta à corticoterapia;

    • contraindicação ao uso de corticosteroides.

  • Esquema habitual:

    • 5 a 7 sessões em dias alternados.

Terapia modificadora da doença (TMD)

  • Objetivos

    • Reduzir frequência dos surtos.

    • Diminuir novas lesões na ressonância magnética.

    • Retardar progressão da incapacidade.

    • Preservar função neurológica.

  • A troca de medicamento deve ser considerada diante de:

    • novos surtos;

    • progressão clínica;

    • atividade radiológica;

    • intolerância;

    • eventos adversos.

  • Primeira linha (PCDT)

    • Os medicamentos descritos abaixo devem ser prescritos e iniciados apenas por médicos especialistas no manejo da EM.

    • Betainterferona-1a (Rebif®) solução injetável SC 22 mcg ou 44 mcg; (Avonex®) 30 mcg IM

      • Rebif®

        • Iniciar com titulação progressiva.

        • Dose de manutenção:

          • 44 mcg SC três vezes por semana.

      • Avonex®

        • 30 mcg IM uma vez por semana.

      • Cuidados:

        • Monitorar:

          • hemograma;

          • TGO/TGP;

          • TSH.

        • Reações gripais são frequentes nas primeiras semanas.

    • Betainterferona-1b (Betaferon®) frasco-ampola 250 mcg

      • 250 mcg SC em dias alternados.

      • Titulação gradual reduz eventos adversos.

    • Acetato de glatirâmer (Copaxone®) seringa preenchida 20 mg ou 40 mg

      • Apresentação 20 mg:

        • 20 mg SC diariamente.

      • Apresentação 40 mg:

        • 40 mg SC três vezes por semana.

      • Principais efeitos adversos:

        • reação local;

        • lipoatrofia;

        • reação vasomotora transitória.

    • Teriflunomida (Aubagio®) comprimidos 14 mg [2]

      • 14 mg VO uma vez ao dia.

      • Cuidados:

        • Contraindicada na gestação.

        • Monitorar:

          • função hepática;

          • hemograma.

        • Em caso de planejamento gestacional:

          • realizar eliminação acelerada com colestiramina.

    • Dimetilfumarato (Tecfidera®) cápsulas 120 mg e 240 mg

      • Semana 1:

        • 120 mg VO duas vezes ao dia.

      • A partir da segunda semana:

        • 240 mg VO duas vezes ao dia.

      • Monitorização:

        • hemograma periódico;

        • linfopenia;

        • função hepática.

      • Efeitos adversos:

        • flushing;

        • sintomas gastrointestinais.

Terapias de maior eficácia

Indicadas para pacientes com doença altamente ativa ou falha terapêutica.

  • Natalizumabe (Tysabri®) solução para infusão 300 mg

    • 300 mg IV a cada 4 semanas.

    • Infusão em aproximadamente 1 hora.

    • Monitorização:

      • sorologia para vírus JC;

      • ressonância periódica.

    • Principal risco:

      • leucoencefalopatia multifocal progressiva (LMP).

  • Fingolimode (Gilenya®) cápsulas 0,5 mg

    • 0,5 mg VO uma vez ao dia.

    • Primeira dose:

      • monitorização cardíaca por pelo menos 6 horas.

    • Monitorar:

      • ECG;

      • hemograma;

      • enzimas hepáticas;

      • fundo de olho.

    • Contraindicações principais:

      • bloqueios AV importantes;

      • bradicardia significativa;

      • uso concomitante de determinados antiarrítmicos.

  • Ocrelizumabe (Ocrevus®) solução para infusão 300 mg

    • Dose inicial:

      • 300 mg IV.

      • Repetir 300 mg após 14 dias.

    • Manutenção:

      • 600 mg IV a cada 6 meses.

    • Pré-medicação:

      • corticosteroide;

      • anti-histamínico;

      • antipirético.

    • Monitorização:

      • hepatite B;

      • imunoglobulinas;

      • infecções.

    • É a principal terapia aprovada para a forma primariamente progressiva.

  • Alemtuzumabe (Lemtrada®) solução para infusão 12 mg

    • Primeiro ciclo:

      • 12 mg IV por 5 dias consecutivos.

    • Segundo ciclo:

      • 12 mg IV por 3 dias consecutivos após 12 meses.

    • Monitorização obrigatória por 48 meses após a última infusão:

      • hemograma;

      • creatinina;

      • EAS;

      • TSH.

Tratamento sintomático

Espasticidade

  • Baclofeno (Lioresal®) comprimidos 10 mg

    • Iniciar:

      • 5 mg VO três vezes ao dia.

    • Aumentar progressivamente conforme tolerância.

    • Dose habitual:

      • 30–80 mg/dia.

  • Tizanidina (Sirdalud®) comprimidos 2 mg ou 4 mg

    • Iniciar:

      • 2 mg VO à noite.

    • Titulação gradual.

    • Dose máxima:

      • 36 mg/dia.

Dor neuropática

  • Podem ser utilizados:

    • Gabapentina.

    • Pregabalina.

    • Duloxetina.

    • Amitriptilina.

  • Conforme perfil clínico do paciente e contraindicações.

Fadiga

  • Medidas não farmacológicas constituem primeira linha.

  • Pode-se considerar:

    • atividade física supervisionada;

    • higiene do sono;

    • fisioterapia.

  • Em casos selecionados, sob acompanhamento especializado: Amantadina.

Bexiga neurogênica

  • Dependendo do padrão urodinâmico:

    • treinamento vesical;

    • cateterismo intermitente limpo;

    • antimuscarínicos;

    • agonistas β3.

Constipação

  • Hidratação.

  • Fibras.

  • Atividade física.

  • Laxativos quando necessário.

Depressão e ansiedade

  • Devem ser tratadas conforme diretrizes específicas.

  • Associar:

    • psicoterapia;

    • antidepressivos quando indicados.

Reabilitação

  • Recomenda-se abordagem multiprofissional.

  • Pode incluir:

    • fisioterapia;

    • terapia ocupacional;

    • fonoaudiologia;

    • psicologia;

    • neuropsicologia;

    • educação física;

    • enfermagem especializada.

Acompanhamento ambulatorial

Avaliação periódica:

  • frequência de surtos;

  • progressão da incapacidade (EDSS);

  • adesão terapêutica;

  • eventos adversos.

Ressonância magnética:

  • cerca de 6 a 12 meses após início ou troca da TMD;

  • posteriormente conforme atividade clínica.

Monitorização laboratorial:

  • varia conforme o medicamento utilizado.

Avaliar rotineiramente:

  • fadiga;

  • cognição;

  • humor;

  • marcha;

  • risco de quedas;

  • dor;

  • função urinária;

  • função intestinal.

Vacinação

  • Idealmente atualizar o calendário vacinal antes do início da imunossupressão.

  • Vacinas inativadas:

    • podem ser administradas durante o tratamento.

  • Vacinas de vírus vivos:

    • devem ser evitadas durante terapias imunossupressoras.

Gestação

  • A atividade inflamatória tende a reduzir durante a gestação.

  • O risco de surtos aumenta nos primeiros meses do puerpério.

  • Planejamento reprodutivo deve ser discutido antes da introdução da terapia modificadora.

  • Algumas medicações apresentam contraindicação absoluta durante a gestação, especialmente:

    • teriflunomida;

    • fingolimode;

    • cladribina.

  • A suspensão ou manutenção da TMD deve seguir avaliação individualizada pelo neurologista.

Critérios de encaminhamento

Encaminhamento para neurologia

  • Todo paciente com suspeita de esclerose múltipla deve ser encaminhado para neurologista.

  • Também encaminhar diante de:

    • primeiro evento desmielinizante;

    • neurite óptica;

    • mielite;

    • surtos recorrentes;

    • alterações típicas na ressonância;

    • necessidade de início ou troca da TMD.

Encaminhamento urgente

  • Déficit neurológico rapidamente progressivo.

  • Rebaixamento do nível de consciência.

  • Suspeita de mielite extensa.

  • Comprometimento respiratório.

  • Surto grave incapacitante.

Prognóstico

O prognóstico varia amplamente.

Fatores associados a melhor evolução:

  • sexo feminino;

  • idade jovem ao diagnóstico;

  • neurite óptica como manifestação inicial;

  • baixa carga lesional;

  • recuperação completa após surtos;

  • início precoce da terapia modificadora.

Fatores associados a pior prognóstico:

  • forma progressiva inicial;

  • alta frequência de surtos;

  • acometimento medular importante;

  • elevada carga lesional na ressonância;

  • progressão precoce da incapacidade.

O tratamento precoce está associado à redução da atividade inflamatória e ao retardo da progressão da incapacidade em longo prazo.

Referências

[1] ACADEMIA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA (ABN). Departamento Científico de Neuroimunologia. Consensos e recomendações para diagnóstico e tratamento da esclerose múltipla. Disponível em: https://abneuro.org.br. Acesso em: 10 jul. 2026.

[2] ACADEMIA BRASILEIRA DE NEUROLOGIA (ABN). Diretrizes e documentos científicos sobre doenças desmielinizantes do sistema nervoso central. Disponível em: https://abneuro.org.br. Acesso em: 10 jul. 2026.

[3] BRASIL. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação e Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE). Brasília: Ministério da Saúde. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 10 jul. 2026.

[4] BRASIL. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC). Relatórios de recomendação referentes às terapias modificadoras da esclerose múltipla. Disponível em: https://www.gov.br/conitec. Acesso em: 10 jul. 2026.

[5] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esclerose Múltipla. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 10 jul. 2026.

[6] SOCIEDADE BRASILEIRA DE NEUROLOGIA (SBN). Recomendações para manejo ambulatorial da esclerose múltipla. Disponível em: https://sbn.org.br. Acesso em: 10 jul. 2026.

Autoria e Curadoria

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