Derrame Pleural
CID-10: J90 — Derrame pleural não classificado em outra parte
Introdução
Derrame pleural é o acúmulo anormal de líquido no espaço pleural.
Representa uma manifestação de doença subjacente, e não um diagnóstico etiológico final.
A abordagem inicial deve responder a quatro perguntas:
Há comprometimento respiratório que exige estabilização imediata?
O derrame é provavelmente transudativo ou exsudativo?
Há indicação de toracocentese diagnóstica ou terapêutica?
Há critérios para drenagem pleural, internação ou encaminhamento urgente?
Derrames unilaterais, volumosos, loculados, febris ou sem causa definida exigem investigação direcionada e, em geral, análise do líquido pleural.
Principais causas

Derrames bilaterais e simétricos, no contexto típico de insuficiência cardíaca, podem ser manejados inicialmente com tratamento da causa de base.
Derrame unilateral, assimétrico, febril, doloroso, recorrente ou sem resposta ao tratamento inicial deve ser investigado como possível exsudato.
Quadro clínico e semiologia
Sintomas
Dispneia, proporcional ao volume e à velocidade de acúmulo do líquido.
Tosse seca.
Dor torácica ventilatório-dependente, sobretudo quando há pleurite associada.
Febre, calafrios ou toxemia: sugerem infecção pleural.
Perda ponderal, sudorese noturna ou astenia: aumentam a suspeita de neoplasia ou tuberculose.
Exame físico
Achados sugestivos de derrame pleural no exame físico
Inspeção
Redução da expansibilidade do hemitórax acometido
Taquipneia
Uso de musculatura acessória nos casos graves
Palpação
Frêmito tóraco-vocal reduzido ou abolido
Percussão
Macicez
Ausculta
Murmúrio vesicular reduzido ou abolido
Redução da transmissão vocal
Casos volumosos
Desvio contralateral do mediastino
Instabilidade respiratória
O exame físico pode ser pouco sensível em derrames pequenos; a ultrassonografia torácica aumenta a acurácia diagnóstica e deve ser usada para guiar procedimentos sempre que disponível.
Avaliação inicial
Avaliar gravidade
Verificar:
Saturação periférica de oxigênio.
Frequência respiratória.
Pressão arterial e frequência cardíaca.
Trabalho respiratório.
Estado mental.
Febre e sinais de sepse.
Conduta imediata
Oxigenoterapia se hipoxemia.
Monitorização e acesso venoso em pacientes instáveis.
Analgesia quando houver dor pleurítica importante.
Solicitar avaliação hospitalar urgente se:
insuficiência respiratória;
instabilidade hemodinâmica;
suspeita de empiema;
derrame volumoso com desvio mediastinal;
necessidade de drenagem pleural;
suspeita de hemotórax.
Exames de imagem
Radiografia de tórax
Exame inicial na maior parte dos casos.
Achados:
apagamento do seio costofrênico;
sinal do menisco;
opacidade homogênea basal;
desvio mediastinal contralateral em grandes derrames.
A radiografia em decúbito lateral pode demonstrar mobilidade do líquido quando a ultrassonografia não está disponível.
Ultrassonografia torácica
Método mais útil à beira leito para:
confirmar derrame pequeno;
estimar volume;
identificar septações;
diferenciar líquido de espessamento pleural;
definir local seguro para punção;
guiar toracocentese e drenagem.
A realização de procedimentos pleurais sem ultrassonografia deve ser evitada quando o recurso estiver disponível.
Tomografia computadorizada de tórax
Considerar quando:
derrame unilateral sem causa esclarecida;
suspeita de neoplasia;
suspeita de empiema ou derrame loculado;
persistência de sintomas ou alteração radiológica após drenagem;
necessidade de avaliar parênquima pulmonar, pleura e mediastino.
Quando indicar toracocentese diagnóstica
Indicações
Derrame pleural novo sem etiologia definida.
Derrame unilateral.
Derrame moderado ou volumoso.
Suspeita de infecção pleural.
Suspeita de tuberculose pleural.
Suspeita de neoplasia.
Derrame recorrente.
Derrame loculado.
Derrame associado a insuficiência cardíaca com características atípicas:
unilateral;
febre;
dor pleurítica;
ausência de cardiomegalia;
ausência de resposta ao tratamento da insuficiência cardíaca.
Situações em que pode ser dispensada inicialmente
Derrame bilateral pequeno, simétrico e típico de insuficiência cardíaca, com resposta clínica ao tratamento da causa.
Deve-se realizar toracocentese se não houver melhora, se o derrame aumentar ou se surgirem sinais de processo infeccioso ou neoplásico.
Análise do líquido pleural
Coleta inicial
Solicitar, na avaliação de rotina:
proteínas totais e DHL no líquido pleural;
proteínas totais e DHL séricos coletados no mesmo período;
pH;
glicose;
contagem global e diferencial de células;
Gram e cultura;
citologia oncótica.
Solicitar conforme suspeita:
ADA e investigação microbiológica para tuberculose;
triglicerídeos, se suspeita de quilotórax;
hematócrito, se suspeita de hemotórax;
amilase, se suspeita de pancreatite, ruptura esofágica ou neoplasia.
Aspecto macroscópico
AspectoPrincipal hipóteseClaro, amarelo-citrinoTransudato ou exsudato não complicadoTurvo ou purulentoEmpiema; indica drenagemHemáticoNeoplasia, embolia pulmonar, trauma ou hemotóraxLeitosoQuilotórax ou pseudoquilotóraxFétidoInfecção anaeróbia
Critérios de Light
O líquido pleural é classificado como exsudato quando houver pelo menos um dos critérios abaixo:
CritérioResultado compatível com exsudatoRelação proteína pleural / proteína sérica> 0,5Relação DHL pleural / DHL sérico> 0,6DHL pleural> 2/3 do limite superior da normalidade do DHL sérico
Ausência dos três critérios sugere transudato.
Em pacientes com insuficiência cardíaca tratados com diuréticos, um transudato pode ser classificado como exsudato pelos critérios de Light; interpretar sempre em conjunto com o contexto clínico.
Interpretação prática do líquido pleural
Pus franco → Empiema; indicar drenagem pleural.
Gram ou cultura positivos → Infecção pleural; indicar drenagem pleural.
pH ≤ 7,20 em derrame parapneumônico → Alto risco de derrame parapneumônico complicado; indicar drenagem se houver janela segura ao ultrassom.
pH > 7,20 e < 7,40 + DHL > 900 UI/L → Considerar drenagem, especialmente com glicose baixa, febre persistente, septações ou grande volume.
pH ≥ 7,40 → Baixo risco de infecção pleural complicada; geralmente não há indicação de drenagem imediata.
Glicose < 60 mg/dL → Sugere processo inflamatório/infeccioso intenso, neoplasia, tuberculose ou doença reumatológica.
Predomínio de neutrófilos → Processo agudo: parapneumônico, embolia pulmonar, pancreatite.
Predomínio de linfócitos → Tuberculose, neoplasia, doenças inflamatórias crônicas.
Citologia positiva → Derrame pleural maligno.
Triglicerídeos elevados → Quilotórax.
Hematócrito pleural ≥ 50% do hematócrito periférico → Hemotórax.
Em suspeita de infecção pleural, o pH deve ser analisado imediatamente em amostra colhida de forma anaeróbia, sem contaminação por anestésico local ou heparina.
Toracocentese
Indicações
Diagnóstico etiológico de derrame pleural.
Alívio de dispneia em derrame moderado ou volumoso.
Coleta de líquido para análise microbiológica, bioquímica e citológica.
Contraindicações relativas
Coagulopatia significativa.
Plaquetopenia importante.
Infecção cutânea no local de punção.
Derrame muito pequeno ou sem janela segura ao ultrassom.
Paciente não colaborativo sem condições de posicionamento seguro.
Materiais essenciais
Ultrassonografia com transdutor apropriado.
Material de antissepsia e campos estéreis.
Lidocaína para anestesia local.
Seringas e agulhas.
Cateter sobre agulha ou kit de toracocentese.
Frascos estéreis para coleta.
Sistema de drenagem ou torneira de três vias, quando procedimento terapêutico.
Curativo estéril.
Passo a passo
Confirmar indicação, obter consentimento e revisar exames de imagem.
Posicionar o paciente sentado, inclinado discretamente para frente, com braços apoiados; se não for possível, considerar decúbito lateral com o lado acometido para cima.
Realizar ultrassonografia e marcar o maior bolsão de líquido, evitando diafragma, fígado, baço e estruturas vasculares.
Escolher ponto de punção no espaço intercostal, preferencialmente na linha axilar posterior, dentro do triângulo de segurança quando aplicável.
Realizar antissepsia ampla, colocar campos estéreis e infiltrar anestésico local até a pleura parietal.
Introduzir a agulha ou cateter sobre a borda superior da costela, para evitar o feixe neurovascular localizado no bordo inferior.
Aspirar líquido pleural; enviar amostras para os exames solicitados.
Para drenagem terapêutica, retirar lentamente o líquido, interrompendo se ocorrer dor torácica, tosse intensa, dispneia, tontura ou instabilidade.
Evitar retirada de grande volume em única sessão; como medida prática, limitar a cerca de 1,5 L, salvo monitorização especializada.
Retirar o dispositivo, realizar curativo oclusivo e reavaliar o paciente clínica e ultrassonograficamente.
Complicações
Pneumotórax.
Sangramento.
Dor.
Reação vasovagal.
Punção de fígado, baço ou diafragma.
Infecção.
Edema pulmonar de reexpansão, especialmente após retirada rápida de grande volume.
A ultrassonografia reduz o risco de complicações e é recomendada antes e durante a realização de procedimentos pleurais.
Drenagem torácica
Indicações principais
Empiema ou líquido purulento.
Gram ou cultura positivos no líquido pleural.
Derrame parapneumônico complicado:
pH ≤ 7,20;
glicose baixa;
septações importantes;
loculações;
grande volume com comprometimento respiratório.
Hemotórax.
Quilotórax com repercussão clínica.
Derrame pleural maligno recorrente e sintomático, conforme avaliação especializada.
Derrame volumoso que não pode ser adequadamente manejado com toracocentese isolada.
Preparação
Realizar em ambiente com monitorização e possibilidade de suporte para complicações.
Preferir drenagem guiada por ultrassonografia.
Solicitar avaliação de pneumologia ou cirurgia torácica nos derrames loculados, empiema organizado, falha de drenagem ou suspeita de necessidade cirúrgica.
Para infecção pleural, drenos de pequeno calibre são recomendados como abordagem inicial quando tecnicamente adequados.
Passo a passo
Confirmar indicação e lado a ser drenado por ultrassonografia ou radiografia.
Posicionar o paciente em decúbito dorsal elevado ou sentado, com o membro superior ipsilateral elevado.
Escolher o ponto no triângulo de segurança:
borda lateral do músculo peitoral maior;
borda anterior do músculo latíssimo do dorso;
linha horizontal ao nível do mamilo;
ápice abaixo da axila.
Realizar antissepsia, campos estéreis e anestesia local ampla.
Fazer incisão cutânea pequena no espaço intercostal escolhido.
Dissecar rombamente até a pleura parietal.
Introduzir o dreno sobre a borda superior da costela.
Direcionar:
posteriormente e inferiormente para líquido;
anteriormente e superiormente para ar.
Conectar imediatamente a sistema de drenagem com selo d’água.
Fixar o dreno com sutura, realizar curativo oclusivo e identificar data/hora.
Solicitar radiografia de tórax após o procedimento, quando disponível e clinicamente indicada.
Monitorar débito, aspecto do líquido, oscilação do sistema, dor, saturação e sinais de complicação.
Cuidados após a drenagem
Manter o sistema abaixo do nível do tórax.
Não pinçar rotineiramente o dreno.
Registrar volume e aspecto do débito.
Reavaliar diariamente necessidade de permanência.
Solicitar avaliação especializada se:
persistência de febre ou sepse;
drenagem inadequada;
derrame loculado;
ausência de expansão pulmonar;
suspeita de fístula broncopleural;
necessidade de fibrinolítico intrapleural ou abordagem cirúrgica.
Complicações
Sangramento.
Infecção.
Mau posicionamento do dreno.
Lesão de órgãos intra-abdominais.
Enfisema subcutâneo.
Pneumotórax persistente.
Edema pulmonar de reexpansão.
Dor intensa.
Manejo geral
Estabilizar o paciente com insuficiência respiratória ou instabilidade hemodinâmica.
Confirmar derrame por imagem e utilizar ultrassonografia para planejamento de procedimentos.
Tratar a causa de base após classificação inicial.
Não atrasar drenagem em empiema, pus franco, cultura positiva ou derrame parapneumônico complicado.
Considerar internação quando houver:
hipoxemia;
sepse;
derrame moderado a volumoso com dispneia;
suspeita de empiema;
necessidade de toracocentese terapêutica ou drenagem;
suspeita de neoplasia com repercussão clínica;
comorbidades graves ou dificuldade de seguimento ambulatorial.
Critérios de encaminhamento
Encaminhamento urgente / hospitalar
Insuficiência respiratória, hipoxemia ou instabilidade hemodinâmica.
Derrame volumoso com importante dispneia.
Suspeita de empiema ou derrame parapneumônico complicado.
Necessidade de drenagem torácica.
Hemotórax.
Derrame loculado.
Suspeita de neoplasia com comprometimento clínico.
Falha de resposta após toracocentese ou tratamento inicial.
Encaminhamento para pneumologia
Derrame exsudativo sem etiologia definida.
Derrame pleural recorrente.
Suspeita de tuberculose pleural.
Citologia negativa com suspeita persistente de malignidade.
Derrame maligno.
Necessidade de pleuroscopia, biópsia pleural, pleurodese ou cateter pleural de longa permanência.
Resumo
Derrame bilateral típico de insuficiência cardíaca, sem sinais de alarme → Tratar doença de base e reavaliar; puncionar se atípico ou sem resposta.
Derrame unilateral novo → Ultrassonografia e toracocentese diagnóstica, se houver janela segura.
Febre + derrame parapneumônico → Toracocentese; avaliar pH, glicose, Gram e cultura.
Pus, Gram/cultura positivos ou pH ≤ 7,20 → Drenagem torácica e manejo hospitalar.
Derrame volumoso com dispneia → Toracocentese terapêutica ou drenagem, conforme etiologia e estabilidade.
Derrame recorrente ou suspeita de malignidade → Citologia, tomografia e encaminhamento à pneumologia.
Líquido hemático com hematócrito pleural ≥ 50% do periférico → Hemotórax; manejo hospitalar urgente.
Referências
[1] ASCIak, R. et al. British Thoracic Society Clinical Statement on pleural procedures. Thorax, London, v. 78, supl. 3, p. s43-s68, 2023. Disponível em: Thorax. Acesso em: 9 jul. 2026.
[2] CHRISTOPHER, D. J. et al. Pleural effusion guidelines from ICS and NCCP: Section 1 — basic principles, laboratory tests and pleural procedures. Lung India, Mumbai, 2024. Disponível em: PubMed Central. Acesso em: 9 jul. 2026.
[3] ROBERTS, M. E. et al. British Thoracic Society Guideline for pleural disease. Thorax, London, v. 78, supl. 3, p. s1-s42, 2023. DOI: 10.1136/thorax-2023-220304. Disponível em: Thorax. Acesso em: 9 jul. 2026.
[4] SALES, R.; ONISHI, R. Thoracentesis and pleural biopsy. Jornal Brasileiro de Pneumologia, Brasília, 2006. Disponível em: Jornal Brasileiro de Pneumologia. Acesso em: 9 jul. 2026.
[5] SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA. Derrame pleural parapneumônico e empiema. Jornal Brasileiro de Pneumologia, Brasília, 2006. Disponível em: Jornal Brasileiro de Pneumologia. Acesso em: 9 jul. 2026.
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