Valvopatias: Abordagem Ambulatorial

Introdução

  • As valvopatias são alterações estruturais ou funcionais das valvas cardíacas que causam estenose, insuficiência ou lesão mista.

  • Na atenção ambulatorial, o objetivo principal é suspeitar da doença, solicitar o ecocardiograma, reconhecer sinais de gravidade e encaminhar adequadamente ao cardiologista.

  • As valvopatias mais relevantes na prática clínica são:

    • Estenose aórtica;

    • Insuficiência aórtica;

    • Estenose mitral;

    • Insuficiência mitral;

    • Insuficiência tricúspide.

Quando suspeitar

Suspeitar de valvopatia se:

  • Sopro cardíaco novo;

  • Dispneia aos esforços;

  • Redução da capacidade funcional;

  • Síncope ou pré-síncope;

  • Dor torácica aos esforços;

  • Palpitações ou fibrilação atrial;

  • Edema de membros inferiores;

  • Sinais de insuficiência cardíaca;

  • História de febre reumática;

  • Endocardite prévia;

  • Presença de prótese valvar.

Sopros diastólicos são sempre patológicos e devem ser investigados.

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Principais achados clínicos

Tabela de Valvopatias: Achados Clínicos e Ausculta: a tabela organiza cinco valvopatias cardíacas conforme seus achados clínicos principais e características de ausculta. Na estenose aórtica, os achados clínicos são dispneia aos esforços, angina aos esforços, síncope ou pré-síncope aos esforços e fadiga com intolerância ao exercício; a ausculta revela sopro sistólico ejetivo em foco aórtico (2º espaço intercostal direito), com irradiação para carótidas. Na insuficiência aórtica, os achados clínicos são dispneia aos esforços, palpitações, fadiga e dor torácica (rara); a ausculta revela sopro diastólico aspirativo em borda esternal esquerda, mais audível com o paciente inclinado para frente e após a expiração. Na estenose mitral, os achados clínicos são dispneia (inicialmente aos esforços, depois aos pequenos esforços e em repouso), fibrilação atrial, hemoptise e fadiga com intolerância ao exercício; a ausculta revela ruflar diastólico em foco mitral (ápex), com reforço pré-sistólico quando em ritmo sinusal, mais audível em decúbito lateral esquerdo. Na insuficiência mitral, os achados clínicos são dispneia aos esforços, fadiga, palpitações (sendo comum a fibrilação atrial) e intolerância ao exercício; a ausculta revela sopro holossistólico em foco mitral (ápex), irradiado para a axila esquerda. Na insuficiência tricúspide, os achados clínicos são edema de membros inferiores, ascite, fadiga com dispneia e turgência jugular; a ausculta revela sopro holossistólico em borda esternal inferior esquerda, que aumenta de intensidade com a inspiração (sinal de Carvallo).

Avaliação inicial

Anamnese

  • Avaliar:

    • Início e progressão da dispneia;

    • Limitação para caminhar ou subir escadas;

    • Dor torácica;

    • Síncope;

    • Palpitações;

    • Ortopneia;

    • Edema periférico;

    • História de febre reumática ou endocardite;

    • Procedimentos ou cirurgias valvares prévias.

Exame físico

  • Pesquisar:

    • Características e localização do sopro;

    • Regularidade do pulso;

    • Pressão arterial e pressão de pulso;

    • Estertores pulmonares;

    • Turgência jugular;

    • Edema periférico;

    • Hepatomegalia ou ascite;

    • Alteração dos pulsos carotídeos.

Exames complementares

Ecocardiograma transtorácico

  • É o principal exame para diagnóstico e avaliação da gravidade.

  • Solicitar quando houver:

    • Sopro diastólico;

    • Sopro sistólico intenso;

    • Sopro associado a sintomas;

    • Alteração de pulsos ou bulhas cardíacas;

    • Fibrilação atrial sem causa esclarecida;

    • Sinais de insuficiência cardíaca;

    • Valvopatia conhecida com aparecimento de novos sintomas.

Eletrocardiograma

  • Pode identificar:

    • Fibrilação atrial;

    • Sobrecarga atrial;

    • Hipertrofia ventricular;

    • Distúrbios de condução.

Radiografia de tórax

  • Pode ser útil na presença de:

    • Dispneia;

    • Suspeita de congestão pulmonar;

    • Cardiomegalia;

    • Dilatação da aorta.

Manejo inicial pelo clínico

Enquanto aguarda avaliação cardiológica, o manejo clínico inclui:

  • Controlar adequadamente a pressão arterial;

  • Tratar insuficiência cardíaca e congestão conforme apresentação clínica;

  • Avaliar e tratar fibrilação atrial;

  • Evitar desidratação e hipotensão em pacientes com estenose aórtica;

  • Revisar uso de anticoagulantes em pacientes com prótese valvar;

  • Orientar acompanhamento odontológico e higiene oral;

  • Orientar procura de atendimento caso ocorra piora da dispneia, síncope ou dor torácica.

O tratamento medicamentoso pode controlar sintomas e comorbidades, mas não corrige a lesão valvar estrutural.

Quando encaminhar ao cardiologista

Encaminhar pacientes com:

  • Valvopatia moderada ou grave no ecocardiograma;

  • Qualquer valvopatia sintomática;

  • Estenose aórtica, mesmo assintomática, quando moderada ou grave;

  • Insuficiência mitral ou aórtica com dilatação ou disfunção ventricular;

  • Estenose mitral significativa;

  • Hipertensão pulmonar;

  • Fibrilação atrial associada à valvopatia;

  • Valva aórtica bicúspide;

  • Prótese valvar;

  • Planejamento gestacional;

  • Dúvida quanto à gravidade ou necessidade de intervenção.

Sinais de alarme

Encaminhar imediatamente ao pronto atendimento diante de:

  • Dispneia intensa ou edema agudo de pulmão;

  • Síncope, especialmente aos esforços;

  • Dor torácica persistente;

  • Hipotensão ou sinais de baixo débito;

  • Arritmia com instabilidade;

  • Febre em paciente com prótese valvar;

  • Suspeita de endocardite infecciosa;

  • Novo déficit neurológico;

  • Suspeita de disfunção ou trombose de prótese.

Abordagem prática

Quadro resumo

Referências

[1] OTTO, Catherine M. et al. 2020 ACC/AHA guideline for the management of patients with valvular heart disease. Journal of the American College of Cardiology, v. 77, n. 4, p. e25-e197, 2021. DOI: 10.1016/j.jacc.2020.11.018. Disponível em: https://www.jacc.org/doi/10.1016/j.jacc.2020.11.018. Acesso em: 20 jul. 2026.

[2] PRAZ, Fabien et al. 2025 ESC/EACTS guidelines for the management of valvular heart disease. European Heart Journal, v. 46, n. 44, p. 4635-4736, 2025. DOI: 10.1093/eurheartj/ehaf194. Disponível em: https://academic.oup.com/eurheartj. Acesso em: 20 jul. 2026.

[3] TARASOUTCHI, Flávio et al. Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v. 115, n. 4, p. 720-775, 2020. DOI: 10.36660/abc.20201047. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/ZQhHYbGRF9RM5PTb8c8M8Xs/. Acesso em: 20 jul. 2026.

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