Miocardite Aguda na Criança

CID-10: I40.9 - Miocardite aguda não especificada

Introdução

A miocardite é uma doença inflamatória do miocárdio, associada a um processo de degeneração e necrose do miócito, podendo ser focal ou difusa e ocasionar disfunção cardíaca e/ou arritmias [1]. É considerada a causa mais comum de insuficiência cardíaca (IC) em crianças previamente hígidas, apresentando espectro clínico que varia de quadros oligossintomáticos até choque cardiogênico e morte súbita [1][3].

  • Epidemiologia

    • Incidência anual estimada em 1 a 2 casos por 100.000 crianças [3], com dado finlandês de 1,95:100.000 pessoas/ano em crianças de 0 a 15 anos [1].

    • Responsável por 0,5 casos a cada 10.000 atendimentos em emergência pediátrica [1][3].

    • Distribuição etária bimodal, com picos no primeiro ano de vida e aos 16 anos de idade [1][3].

    • Em adolescentes, mais frequente no sexo masculino (81%), com incidência de até 18,1:100.000 pessoas/ano, atribuída à presença de testosterona [1].

    • Em estudos de autópsia, miocardite é encontrada em até 2% dos óbitos pediátricos em geral [1] e em 10 a 20% das mortes súbitas inesperadas de lactentes e crianças [3].

  • Etiologia (visão geral)

    • Causa infecciosa é a mais frequente na população pediátrica, principalmente viral: adenovírus, enterovírus (especialmente grupo Coxsackie B), citomegalovírus, vírus Epstein-Barr, parvovírus B19, herpesvírus humano tipo 6 e SARS-CoV-2 [1][3].

    • Globalmente, a causa infecciosa mais comum é o protozoário Trypanosoma cruzi; na América Latina, a miocardite chagásica pode acometer crianças e adolescentes em áreas endêmicas [1].

    • Causas autoimunes, tóxicas e por hipersensibilidade a medicamentos são mais raras [1][3].

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Etiologia

  • A etiologia é ampla, abrangendo três grandes grupos: causas infecciosas, causas autoimunes e reações de hipersensibilidade [1].

  • Causas infecciosas

    • Vírus (agentes mais representativos):

      • Adenovírus

      • Echovírus

      • Enterovírus, com destaque para o Coxsackie

      • Vírus do grupo herpes: citomegalovírus, vírus Epstein-Barr e herpesvírus humano tipo 6

      • Vírus da hepatite C

      • HIV

      • H1N1

      • Parvovírus B19

      • Arbovírus: dengue, Chikungunya e Zika

      • SARS-CoV-2

    • Bactérias:

      • Chlamydia, Corynebacterium diphtheriae, Klebsiella, Salmonella, Legionella, Mycobacterium tuberculosis, Mycoplasma, Staphylococcus, Streptococcus A, Streptococcus pneumoniae, Treponema pallidum e Haemophilus influenzae

    • Fungos:

      • Actinomyces, Aspergillus, Candida e Cryptococcus

    • Protozoários:

      • Toxoplasma gondii e Trypanosoma cruzi

  • Causas autoimunes

    • Doença celíaca

    • Síndrome de Churg-Strauss

    • Dermatomiosite

    • Miocardite de células gigantes

    • Síndrome hipereosinofílica

    • Doença de Kawasaki

    • Lúpus eritematoso sistêmico

    • Miocardite linfofolicular

    • Artrite reumatoide

    • Sarcoidose

    • Colite ulcerativa

    • Esclerodermia

  • Reações de hipersensibilidade

    • A medicamentos:

      • Penicilina, ampicilina, cefalosporina, tetraciclinas, sulfonamidas, benzodiazepínicos, clozapina, diuréticos tiazídicos e de alça, metildopa, toxina tetânica, vacina varicela e antidepressivos

    • A outras substâncias e agentes tóxicos:

      • Anfetaminas, antraciclinas, catecolaminas, cocaína, ciclofosfamida, fenitoína, trastuzumabe, amitriptilina, anfotericina B, cannabis, monóxido de carbono, choque elétrico, etanol, veneno de Hymenoptera, isoniazida, lidocaína, metildopa, veneno de cobra e de escorpião

  • Imunoterapia oncológica pediátrica

    • Inibidores de checkpoint imunológico são reconhecidos como causa de miocardite.

      • Podem cursar inicialmente com ecocardiograma normal.

Fisiopatologia

Modelo proposto com base em cobaias infectadas por coxsackievirus, com três fases na miocardite viral [1]:

  • Fase 1 (uma a duas semanas): pródromo viral [2]

    • Febre, mialgia e mal-estar precedendo os sintomas de disfunção cardíaca; sintomas respiratórios e gastrointestinais são comuns [2].

    • Ocorre lesão direta do miócito pela replicação viral [1][2].

  • Fase 2 (uma a seis semanas): fase inflamatória [1][2]

    • Ativação do sistema imune do hospedeiro, com lesão miocítica mediada por células T e citocinas, detectável na biópsia endomiocárdica [2].

    • Na maioria dos pacientes, a resposta imune diminui com a eliminação viral e há recuperação da função ventricular esquerda em 2 a 4 semanas, sem sequelas [2].

    • Uma minoria desenvolve arritmias potencialmente fatais, distúrbios de condução ou colapso circulatório nessa fase [2].

  • Fase 3 (meses a anos): remodelação ventricular ou progressão para cardiomiopatia dilatada (CMD) [1][2]

    • Associada a alterações da matriz extracelular do tecido miocárdico [1].

    • Mecanismo proposto: predisposição imunogenética a resposta autoimune prolongada por eliminação incompleta de genomas virais cardíacos ou de antígenos automiocárdicos [2].

Quadro Clínico

  • Apresentação geral

    • Espectro variável, de doença subclínica a choque cardiogênico, arritmias e morte súbita [1][3].

    • Diagnóstico não é feito na avaliação inicial em 59 a 83% dos casos, sendo frequentemente confundido com doença respiratória (bronquiolite, asma, pneumonia) ou infecção gastrointestinal [1][3].

  • Pródromo e sintomas inespecíficos

    • Pródromo de febre, mialgia e mal-estar dias antes da disfunção cardíaca, associado a quadro respiratório ou gastrointestinal prévio em até duas semanas [1][2][3].

    • Sintomas inespecíficos (anorexia, dor abdominal, vômitos, desconforto respiratório) podem ser o achado mais proeminente, levando a diagnóstico inicial incorreto [3].

  • Apresentação por faixa etária [1]

    • Neonatos e lactentes: sintomas inespecíficos de infecção (febre, hipoatividade, dificuldade de sucção) ou sinais graves (apneia, cianose, choque cardiogênico).

    • Crianças maiores e adolescentes: predomínio de queixas respiratórias ou gastrointestinais inespecíficas; minoria relata dor torácica. Sinais mais frequentes: falta de ar (69%), vômitos (48%), dificuldade alimentar (40%).

  • Exame físico [1][3]

    • Taquicardia em repouso (pode ser achado sutil isolado nas formas leves) [1].

    • Taquipneia, hepatomegalia, ritmo de galope (B3/B4), sopro de regurgitação mitral ou tricúspide funcional.

    • Em formas fulminantes: hipotensão, pulsos fracos, má perfusão, acidose, alteração do estado mental, podendo progredir a colapso cardiovascular [3].

    • Atrito e derrame pericárdico podem estar presentes na miopericardite [3].

  • Síndromes clínicas [1]

    • Dor torácica (tipo infarto): dor intensa, alterações eletrocardiográficas típicas, elevação de troponina e BNP, geralmente com comprometimento pericárdico associado e função cardíaca normal; necessário excluir alterações coronarianas anatômicas por ecocardiograma e angiotomografia de coronárias.

    • IC com fenótipo de cardiomiopatia dilatada: apresentação mais clássica, com sintomas de IC semanas após quadro viral; taquidispneia, taquicardia, hepatomegalia e sinais de baixo débito.

    • Miocardite aguda fulminante: IC com comprometimento hemodinâmico grave exigindo suporte circulatório mecânico ou inotrópico, associada a pelo menos dois dos seguintes: febre, início da IC em 1 a 2 dias, história de doença viral nas 2 semanas anteriores. Representa 10 a 38% dos casos; mortalidade descrita de 9% (França) a 48,4% (Japão).

    • Arritmias: taquicardia sinusal em repouso sem causa definida (achado sutil isolado nas formas leves); arritmias ventriculares em corações estruturalmente normais; bloqueio atrioventricular completo adquirido (considerar cardite de Lyme e doença de Chagas como diferenciais). Ocorrem em 45% dos pacientes hospitalizados, conferindo risco 8 vezes maior de necessidade de suporte mecânico, transplante ou morte [1][2].

    • Morte súbita: pode ser apresentação inicial da doença; responsável por aproximadamente 9% das mortes súbitas confirmadas em jovens atletas nos EUA.

Diagnóstico

  • Avaliação inicial [1][3]

    • Eletrocardiograma (ECG), biomarcadores cardíacos (troponina, BNP/NT-proBNP), radiografia de tórax e ecocardiograma.

  • Eletrocardiograma

    • Alterado em pelo menos 93% dos pacientes, embora ECG normal não exclua o diagnóstico [1].

    • Achados inespecíficos: taquicardia sinusal (mais comum), baixa voltagem do complexo QRS, bloqueio atrioventricular, alterações do segmento ST e onda T, prolongamento do intervalo QT, arritmias ventriculares [1][3].

  • Biomarcadores

    • Troponina elevada na maioria, mas não em todos os pacientes; troponina T oferece melhor sensibilidade para micronecrose do que a CK, por elevação mais alta e duradoura [1][3].

    • Sensibilidade de 71% e especificidade de 86% da troponina T para diagnóstico de miocardite aguda em crianças [1].

    • Grau de elevação não se correlaciona de forma consistente com a gravidade [3].

    • BNP/NT-proBNP frequentemente elevados; NT-proBNP > 5.000 pg/mL associado a pior prognóstico [1]; BNP > 10.000 pg/mL em 40% de uma coorte [3].

    • Marcadores inflamatórios (VHS, PCR) frequentemente elevados, porém inespecíficos [1][3].

  • Radiografia de tórax

    • Anormal em cerca de metade dos casos: cardiomegalia (às custas de VE), congestão pulmonar, derrame pleural [1][3].

  • Ecocardiograma

    • Disfunção sistólica global do VE, aumento dos diâmetros sistólico/diastólico, redução da fração de ejeção/encurtamento, caracterizando fenótipo de CMD [1][3].

    • Regurgitação valvar atrioventricular, anormalidades segmentares da motilidade, derrame pericárdico [1].

    • Disfunção do ventrículo direito associada a maior probabilidade de desfechos adversos (transplante ou morte) [1].

    • Na miocardite fulminante: espessamento do septo interventricular por edema intersticial, com dimensões do VE próximas do normal, achado associado a melhor prognóstico de recuperação da função ventricular [1].

    • Strain/Doppler tecidual (speckle-tracking) pode identificar disfunção subclínica com fração de ejeção preservada [1][3].

    • Sensibilidade limitada: exame pode ser normal em casos leves; também serve para excluir causas coronarianas (ex.: origem anômala de coronária) [1][3].

  • Medicina nuclear

    • Cintilografia com gálio-67: sensibilidade de 87% e especificidade de 81% comparada à biópsia endomiocárdica, porém pouco utilizada na prática [1].

  • Ressonância magnética cardíaca (RMC)

    • Método diagnóstico não invasivo de escolha [1][2][3].

    • Critérios de Lake Louise modificados: edema (ponderação T2) + hiperemia/necrose/fibrose (ponderação T1 e realce tardio com gadolínio); presença de dois ou mais critérios sugere fortemente miocardite [1][3].

    • Sensibilidade de 67% e especificidade de 91% com os critérios clássicos; associação de mapeamento T1 a T2/realce tardio eleva a acurácia para 96% [1]. Em coorte pediátrica isolada, sensibilidade/especificidade de 86%/100% [3].

    • Contribui também para prognóstico (especialmente na miocardite fulminante) e pode direcionar o local ideal da biópsia endomiocárdica [1].

  • Biópsia endomiocárdica (BEM)

    • Padrão ouro para diagnóstico definitivo, com critérios histopatológicos de Dallas (1986): miocardite ativa = infiltrado inflamatório + necrose de miócitos; miocardite limítrofe = infiltrado sem necrose [1][3].

    • Sensibilidade baixa (cerca de 20 a 55%), pela distribuição focal do processo inflamatório e pela variação conforme o momento da biópsia [1][3].

    • Imuno-histoquímica e PCR viral aumentam a sensibilidade diagnóstica [1][3].

    • Complicações em 1 a 16% dos casos pediátricos (até 30 a 40% em lactentes); mortalidade de 0 a 0,4% [1][3].

    • Indicação atual restrita a cenários específicos: apresentação fulminante, miocardite crônica ou recidivante, ou quando o resultado for capaz de mudar a conduta terapêutica [1][2][3].

    • Critérios de classe I da AHA/ACCF/ESC (2007): IC inexplicada com comprometimento hemodinâmico de início recente (< 2 semanas) ou IC inexplicada de início recente (2 semanas a 3 meses) associada a dilatação, arritmias ventriculares ou distúrbio de condução [1].

    • Quando RMC e BEM não são factíveis, o diagnóstico pode ser estabelecido clinicamente, combinando sinais/sintomas de disfunção cardíaca aguda, troponina elevada, disfunção ventricular ao ecocardiograma sem cardiopatia estrutural, pródromo recente e alterações eletrocardiográficas sugestivas [3].

Diagnóstico Diferencial

  • Cardiopatia estrutural (ex.: origem anômala de coronária esquerda a partir da artéria pulmonar) [3].

  • Cardiomiopatias não inflamatórias (hipertrófica, restritiva, arritmogênica) [3].

  • Cardiomiopatia dilatada idiopática: história de início agudo (< 2 semanas), pródromo viral recente e menor dilatação de VE favorecem miocardite aguda [3].

  • Sepse grave/choque séptico, de difícil diferenciação inicial da miocardite fulminante [1][3].

  • Doença de Kawasaki e síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (MIS-C) relacionada ao SARS-CoV-2, que podem cursar com elevação de troponina como marcador de acometimento miocárdico [1][3].

  • Arritmias primárias com disfunção ventricular secundária [3].

  • Doenças respiratórias comuns (bronquiolite, asma, pneumonia), quando a apresentação inicial é de desconforto respiratório [1][3].

Tratamento - Manejo Agudo

Manejo Agudo

  • Local de cuidado

    • Crianças com disfunção ventricular deprimida ou distúrbios do ritmo devem ser tratadas em unidade de terapia intensiva pediátrica, pelo risco de deterioração hemodinâmica rápida [1][2].

    • Casos leves (função ventricular normal, sem sinais clínicos de IC, sem alterações eletrocardiográficas clinicamente relevantes) podem ser monitorados em unidade de cuidados intermediários com telemetria [2].

  • Medidas gerais de suporte

    • Oxigenoterapia suplementar se necessário, reposição volêmica cuidadosamente titulada, tratamento da anemia, restrição hídrica e de sódio, com controle rigoroso do balanço hídrico [1][2].

    • Limitação de atividade física/repouso durante a fase aguda [1].

  • Suporte hemodinâmico conforme gravidade [1][2]

    • Função ventricular normal ou minimamente comprometida: medidas de suporte geral, geralmente sem terapia medicamentosa específica.

    • Disfunção ventricular leve a moderada, sem IC descompensada: diuréticos orais e redutores de pós-carga (IECA).

    • Disfunção ventricular gravemente comprometida/choque cardiogênico: diuréticos e inotrópicos intravenosos, ventilação com pressão positiva e, quando necessário, suporte circulatório mecânico (ECMO ou dispositivo de assistência ventricular).

Diurético

  • Furosemida (Lasix®) comp. 40 mg; sol. inj. 10 mg/mL [4]

    • Lactentes e crianças < 15 anos: VO 1 a 2 mg/kg/dose, dose máxima usual de 6 mg/kg/dia; IV/IM 1 mg/kg/dose.

    • Cautela: redução rápida da volemia pode agravar hipotensão e comprometer a perfusão tecidual em paciente com débito cardíaco já reduzido [1].

Inotrópico

  • Milrinona (Primacor®) sol. inj. 1 mg/mL, frasco-ampola 10 mL [5][6]

    • Dose de ataque (opcional): 50 a 75 mcg/kg IV em 30 a 60 minutos.

    • Dose de manutenção: 0,25 a 0,75 mcg/kg/min em infusão contínua, geralmente por 48 a 72h (uso possível por até 5 dias) [6][7].

    • Off-label em pediatria; usada no choque cardiogênico e na IC aguda descompensada não responsiva a outras terapias [6].

    • Requer ajuste em insuficiência renal.

  • Dobutamina (Dobutrex®, ou genérico cloridrato de dobutamina) sol. inj. 12,5 mg/mL [5]

    • Pediatria: 5 a 20 mcg/kg/min, em infusão contínua, titulada conforme resposta clínica.

    • Cautela em pacientes hipotensos ou em uso de betabloqueador (risco de vasoconstrição periférica) [6].

Vasoativas

  • Dopamina (Revivan®) sol. inj. 5 mg/mL, ampola 10 mL [7][21]

    • Dose baixa (1 a 5 mcg/kg/min): efeito predominantemente sobre perfusão renal.

    • Dose intermediária (5 a 15 mcg/kg/min): aumento de inotropismo, frequência cardíaca e débito cardíaco.

    • Dose alta (> 15 mcg/kg/min): efeito vasoconstritor predominante.

    • Contraindicada em feocromocitoma e taquiarritmia/fibrilação ventricular.

  • Adrenalina (Hyfren®, Drenalin®, ou genérico) sol. inj. 1 mg/mL (1:1.000)

    • Choque/suporte inotrópico: infusão contínua IV iniciando em 0,05 mcg/kg/min, titulada conforme resposta hemodinâmica [7].

    • Atenção à concentração utilizada: 1 mg/mL para uso IM; 0,1 mg/mL (1:10.000) para bolus IV, para evitar erro de diluição.

Manejo de arritmias [1][2]

  • Considerações:

    • Monitorização contínua de todos os pacientes com miocardite aguda.

    • Taquiarritmias supraventriculares/ventriculares com instabilidade hemodinâmica: cardioversão elétrica sem atraso.

    • Taquiarritmia supraventricular estável: manobra vagal, adenosina ou abordagem individualizada (mecanismo automático versus reentrante).

    • Ectopia ventricular de alto grau: lidocaína é o agente preferencial; amiodarona deve ser usada com extrema cautela pelo risco de hipotensão e bloqueio atrioventricular, sempre com clínico experiente.

    • Bloqueio atrioventricular total com comprometimento do débito cardíaco: marca-passo transvenoso temporário (frequentemente transitório).

  • Lidocaína (Xylestesin®, ou genérico cloridrato de lidocaína sem vasoconstritor) sol. inj. 20 mg/mL [9][10]

    • Ataque: 1 mg/kg IV.

    • Manutenção: 20 a 50 mcg/kg/min em infusão contínua.

  • Amiodarona (Ancoron®, Atlansil®, Miodon®) comp. 200 mg; sol. inj. 50 mg/mL; suspensão oral 200 mg/mL [18][19][20][26]

    • Uso restrito a arritmias ventriculares sustentadas selecionadas, sob supervisão de especialista, pelo risco de hipotensão e bloqueio atrioventricular.

    • Via intravenosa (fase aguda/UTI, taquiarritmias sustentadas): [26]

      • Dose de ataque: 5 mg/kg (máximo de 300 mg/dose), diluída em SG 5%, infundida em 20 a 60 minutos, sem exceder velocidade de 0,25 mg/kg/min.

      • Pode ser repetida conforme resposta clínica, até dose diária máxima de 15 mg/kg.

      • Manutenção: infusão contínua de 5 a 15 mcg/kg/min (ou 10 a 20 mg/kg/dia).

      • Monitorização contínua de ECG e pressão arterial durante a infusão, pelo risco de hipotensão.

    • Via oral (manutenção após estabilização ou controle ambulatorial de arritmia):

      • Dose de ataque VO: 10 a 20 mg/kg/dia, dividida em 2 tomadas, por 7 a 10 dias.

      • Dose de manutenção VO: 2,5 a 5 mg/kg/dia (podendo variar de 2 a 4 mg/kg/dia conforme resposta), 1 vez ao dia.

Terapia imunomoduladora

  • Imunoglobulina humana intravenosa (IGIV) (Tegeline®, Imunoglobulin®) sol. inj. 50 mg/mL, apresentações de 0,5 g/10 mL, 1 g/20 mL, 2,5 g/50 mL, 5 g/100 mL e 10 g/200 mL [22][23]

    • Dose de 2 g/kg, em infusão única IV, durante 8 a 24 horas, sob monitorização contínua [2].

    • Em pacientes obesos, calcular pelo peso corporal ideal [2].

    • Se houver risco de sobrecarga volêmica em paciente com disfunção cardíaca significativa, pode ser fracionada em 2 dias [2].

    • Uso comum na prática (cerca de 70% dos pacientes na era pré-COVID-19), apesar de evidências controladas limitadas e conflitantes quanto ao benefício de sobrevida [1][2].

    • Vacinas de vírus vivos (tríplice viral, varicela) devem ser adiadas por 11 meses após o uso de IGIV [2].

  • Imunossupressão (prednisona associada a azatioprina, ou corticoide associado ou não a ciclosporina) [1]

    • Miocardite de células gigantes confirmada por BEM: classe de recomendação I, nível de evidência B.

    • Cardiomiopatia inflamatória comprovada por BEM (imuno-histoquímica), com tratamento clínico otimizado e mais de 6 meses de sintomas de IC, na ausência de genoma viral: classe de recomendação IIb, nível de evidência B.

    • Indicada também na miocardite eosinofílica.

  • Prednisona (genérico, comp. 5/20 mg; ou prednisolona sol. oral 1 a 3 mg/mL)

    • Dose pediátrica: 1 a 2 mg/kg/dia VO, em dose única pela manhã ou dividida em 2 tomadas.

    • Dose máxima: 60 mg/dia.

    • Associada à azatioprina no esquema de imunossupressão da cardiomiopatia inflamatória/miocardite de células gigantes ou eosinofílica confirmadas por BEM [1].

    • Atenção a efeitos adversos do uso prolongado (supressão do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, hiperglicemia, distúrbio do crescimento, osteoporose, maior risco de infecção), com monitorização clínica periódica.

Outros medicamentos de uso oral

  • Captopril (Capoten®) comp. 12,5 mg ou 25 mg [10][13][24]

    • Recém-nascidos prematuros e a termo ≤ 7 dias de vida: dose de teste inicial de 0,01 mg/kg/dose VO, a cada 8 a 12h, titulando conforme tolerância [24].

    • Recém-nascidos a termo > 7 dias e lactentes < 3 meses: dose inicial de 0,05 a 0,1 mg/kg/dose VO, a cada 8 a 24h [24].

      • Monitorização obrigatória da pressão arterial após a primeira administração, pelo risco de hipotensão de primeira dose, mais pronunciado nessa faixa etária pela maior dependência do sistema renina-angiotensina-aldosterona para manutenção da pressão arterial [24].

      • Em paciente com débito cardíaco já comprometido pela miocardite, queda abrupta de PA pode agravar isquemia/hipoperfusão de órgãos-alvo [24].

      • Titular gradualmente até dose máxima de 0,5 mg/kg/dose a cada 6 a 24h [24].

    • Lactentes maiores: dose usual de 0,4 a 1,6 mg/kg/dia VO, dividida a cada 8h (dose máxima de 6 mg/kg/dia) [10].

    • Crianças e adolescentes: 0,3 a 0,5 mg/kg/dia VO, dividida em 2 a 3 tomadas (dose máxima de 6 mg/kg/dia) [10].

    • Em pacientes hipovolêmicos ou em uso concomitante de diurético, reduzir a dose inicial pela metade [24].

  • Enalapril (Renitec®) comp. 5, 10 e 20 mg [12][13]

    • 0,1 a 0,5 mg/kg/dia VO, em 1 a 2 tomadas.

    • Uso de ambos restrito à fase de estabilização clínica; não devem ser iniciados durante a IC descompensada aguda com baixo débito cardíaco [1].

    • Cautela em menores de 4 meses pelo risco de insuficiência renal secundária à hipotensão.

  • Carvedilol (Coreg®, Corediol®, Karvil®) comp. 3,125/6,25/12,5/25 mg [14][15]

    • Iniciar após a fase de estabilização hemodinâmica, nunca na IC aguda descompensada com baixo débito cardíaco [1].

    • Dose inicial: 0,1 mg/kg/dose, 2 vezes ao dia, com titulação progressiva a cada 2 a 4 semanas até dose máxima tolerada de 0,5 mg/kg/dose, 2 vezes ao dia.

    • Titulação limitada por hipotensão sintomática e/ou bradicardia (< 60 bpm).

    • Se associado à digoxina, reduzir a dose da digoxina pela metade e monitorar eletrólitos.

  • Digoxina (genérico, comp. 0,25 mg; elixir 0,05 mg/mL) [16][17]

    • Uso com extrema cautela na fase aguda da miocardite, pois pode precipitar arritmias e aumentar a produção de citocinas inflamatórias [1].

    • Dose de digitalização total (VO), conforme faixa etária: neonato pré-termo 20 mcg/kg; neonato a termo 30 mcg/kg; 1 mês a 2 anos 30 a 50 mcg/kg; 2 a 5 anos 30 a 40 mcg/kg; 6 a 10 anos 20 a 35 mcg/kg; > 10 anos ou > 30 kg 10 a 15 mcg/kg (não exceder dose de digitalização de adulto de 1 a 1,5 mg) [16].

    • Dose de manutenção inicial: 25% da dose de digitalização, dividida em 2 tomadas ao dia, ajustada conforme resposta clínica e nível sérico [16].

    • Dose IV corresponde a 75% da dose oral [16].

    • Ajuste em disfunção renal [25]:

      • Dose de ataque: reduzir em 50% na disfunção renal significativa.

      • Manutenção: ClCr 10 a 50 mL/min, administrar 25 a 75% da dose usual ou manter a dose normal espaçando o intervalo para 36h; ClCr < 10 mL/min, administrar 10 a 25% da dose usual ou manter a dose normal espaçando o intervalo para 48h.

      • Atenção especial na miocardite aguda com choque cardiogênico, pela hipoperfusão renal associada, que aumenta o risco de acúmulo e toxicidade digitálica.

      • Monitorar nível sérico de digoxina e eletrólitos (particularmente potássio) de forma seriada.

Anticoagulação [2]

  • Não é rotineiramente necessária em miocardite leve, exceto quando houver outras indicações (ex.: obesidade, uso de contraceptivo oral).

  • Considerar em disfunção ventricular grave (maior risco de formação de trombo); esquemas variam entre heparina não fracionada, heparina de baixo peso molecular, ácido acetilsalicílico, anticoagulante oral direto ou varfarina, sem abordagem padronizada.

  • Anticoagulação terapêutica indicada se trombo documentado em exame de imagem.

Terapia antiviral:

  • Não é componente rotineiro do tratamento; interferon-β subcutâneo mostrou melhora da função cardíaca em pacientes com CMD e persistência de genoma viral documentada por biópsia [1][2]; maior eficácia nos estágios mais precoces da doença [1].

Suporte circulatório mecânico [1][2]

  • Indicado em choque cardiogênico refratário, arritmia ventricular ou bloqueio atrioventricular hemodinamicamente significativo.

  • ECMO é utilizada com maior frequência que dispositivo de assistência ventricular (VAD) na miocardite pediátrica.

  • Em registro multicêntrico (ELSO), sobrevida até a alta hospitalar de 61% em pacientes com miocardite sob ECMO; a maioria dos sobreviventes recuperou função cardíaca e foi desmamada do suporte.

  • Em outra coorte, 20% dos internados por miocardite aguda necessitaram de ECMO ou VAD, dos quais 16% evoluíram para transplante cardíaco.

  • Pacientes com miocardite fulminante beneficiam-se particularmente do suporte de ECMO, pois a recuperação da função ventricular pode ocorrer em semanas.

Tratamento - Manejo Crônico

  • Pacientes que evoluem para IC crônica, são terapias bem estabelecidas: [1][2]

    • Diuréticos

    • IECA

    • Betabloqueadores

    • Antagonistas do receptor mineralocorticoide

  • Doença recorrente:

    • Recidivas devem ser manejadas de forma semelhante ao episódio inicial [2].

  • O manejo específico da Miocardite Crônica será discutido separadamente em outro artigo.

Seguimento

  • Atividade física: restrição de atividades físicas competitivas por pelo menos 6 meses após resolução completa da miocardite, condicionada à normalização da função ventricular e ausência de arritmias clinicamente relevantes; avaliação pré-participação (incluindo teste de esforço quando indicado) antes do retorno ao esporte [1][2].

  • Imunização: vacinas de vírus vivos atenuados (tríplice viral, varicela) devem ser adiadas por 11 meses em crianças que receberam IGIV, pelo risco de imunogenicidade reduzida [2].

Prognóstico

  • Desfecho favorável em cerca de 50% dos pacientes, geralmente com melhora entre 2 e 4 semanas do início do quadro [1].

  • Mortalidade na fase aguda: 7 a 15% segundo a literatura pediátrica clássica [1]; dados contemporâneos apontam para 5 a 10% [2]. Óbitos tardios são incomuns (< 5%), geralmente por disfunção ventricular persistente, IC ou complicações pós-transplante [2].

  • Sequelas e evolução crônica ocorrem em aproximadamente 30% dos casos, com 80% dos casos de cardiomiopatia dilatada crônica evoluindo para transplante cardíaco ou morte [1]. Desenvolvimento de CMD crônica em 15 a 20% dos sobreviventes [2].

  • Necessidade de transplante cardíaco em aproximadamente 5 a 15% dos casos [1][2]; miocardite responde por 30 a 35% dos casos de fenótipo de CMD em registros da Austrália e América do Norte, e por 22% da disfunção ventricular esquerda de início recente no Reino Unido [1].

  • Fatores associados a pior prognóstico [1][2]:

    • Apresentação fulminante.

    • Fração de ejeção < 30% ou z-score de fração de encurtamento < -2 (fração de encurtamento < 15%).

    • Dilatação do ventrículo esquerdo (principal fator de mortalidade em um estudo coreano) e regurgitação mitral moderada a grave.

    • Necessidade de suporte circulatório mecânico ou de inotrópicos intravenosos.

    • Taquiarritmias.

    • NT-proBNP > 5.000 pg/mL ou pico de BNP > 10.000 pg/mL.

  • Recuperação da função ventricular tende a ser gradual, ao longo de meses a anos; entre 45 e 55% dos pacientes recebem alta hospitalar ainda em uso de medicação para IC [1][2].

  • Sobrevida livre de transplante em miocardite viral aguda varia de 70 a 75% [1][2].

  • Neonatos e lactentes apresentam mortalidade significativa, podendo chegar a 45% dos casos [1].

  • Pacientes com miocardite fulminante que sobrevivem à fase aguda com choque cardiogênico têm maior chance de recuperação completa da função ventricular, comparados aos com apresentação não fulminante [1][2].

Referências

[1] TORBEY, Ana Flávia Malheiros et al. Miocardites Agudas na Infância e Adolescência na Era da COVID-19. ABC Heart Fail Cardiomyop. 2021;1(1):44-54. Disponível em: https://doi.org/10.36660/abchf.20210008.

[2] ALLAN, Catherine K; FULTON, David R. Treatment and prognosis of myocarditis in children. UpToDate. Revisão da literatura até: jun. 2026. Última atualização: 10 jul. 2025. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/treatment-and-prognosis-of-myocarditis-in-children.

[3] ALLAN, Catherine K; FULTON, David R. Clinical manifestations and diagnosis of myocarditis in children. UpToDate. Revisão da literatura até: jun. 2026. Última atualização: 12 jun. 2025. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/clinical-manifestations-and-diagnosis-of-myocarditis-in-children.

[4] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia farmacêutico: Furosemida. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/furosemida.

[5] HOSPITAL SÃO CAMILO. Guia farmacêutico: Dobutamina. 2022. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hospitalsaocamilosp.org.br/blog/2022/11/16/dobutamina/.

[6] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia farmacêutico: Milrinona. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/milrinona.

[7] PROSPECT TRIAL. Prone and Oscillation Pediatric Clinical Trial: protocolo de drogas vasoativas. ClinicalTrials.gov NCT03896763. Disponível em: https://cdn.clinicaltrials.gov/large-docs/63/NCT03896763/Prot_007.pdf.

[9] BLOG PROPOFANDO. Parada cardiorrespiratória na pediatria. 2024. Disponível em: https://blog.propofando.com.br/parada-cardiorespiratoria-na-pediatria/.

[10] CRISTÁLIA. Lidocaína Xylestesin 2% sem vasoconstritor, solução injetável. Disponível em: https://www.hospitalardistribuidora.com.br/lidocaina-xylestesin-2-sem-vasoconstritor-injetavel-com-10-frascos-ampola-de-20-ml-cristalia/p.

[11] MANUAL FARMACÊUTICO EINSTEIN. Captopril. Disponível em: https://aplicacoes.einstein.br/manualfarmaceutico/Paginas/RelacaoMedicamentos.aspx?tipo=&filtro=A&busca=%22%22&classeID=37&titleItem=CAPTOPRIL.

[12] REVISTA COLOMBIANA DE CARDIOLOGÍA. Falla cardíaca en pacientes pediátricos: fisiopatología y tratamiento, parte II. 2018. Disponível em: https://www.elsevier.es/es-revista-revista-colombiana-cardiologia-203-articulo-falla-cardiaca-pacientes-pediatricos-fisiopatologia-S012056331830069X.

[13] MDSAÚDE. IECA e ARA II: nomes comerciais e posologia. 2025. Disponível em: https://www.mdsaude.com/hipertensao/ieca-ara2/.

[14] CHINALI, M. et al. Heart rate reduction as a marker to optimize carvedilol treatment and enhance myocardial recovery in pediatric dilated cardiomyopathy. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9757159/.

[15] BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica: Carvedilol. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/conjur/demandas-judiciais/notas-tecnicas/notas-tecnicas-medicamentos/c/carvedilol.pdf.

[16] MSD MANUALS. Dosagem de digoxina oral em crianças. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/multimedia/table/dosagem-de-digoxina-oral-em-crianças.

[17] INFOSUS. Digoxina: apresentações padronizadas pelo Componente Básico da Assistência Farmacêutica. Disponível em: http://infosus.saude.sc.gov.br/index.php?title=Digoxina.

[18] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia farmacêutico: Amiodarona (oral). Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/amiodarona.

[19] MANUAL FARMACÊUTICO EINSTEIN. Amiodarona. Disponível em: https://aplicacoes.einstein.br/manualfarmaceutico/Paginas/RelacaoMedicamentos.aspx?tipo=&filtro=A&busca=%22%22&itemID=AMIODARONA.

[20] PORTAL AFYA. Amiodarona: o que você precisa saber sobre essa medicação? Disponível em: https://portal.afya.com.br/cardiologia/bulario-amiodarona.

[21] CARDIOPAPERS. Guia de medicamentos cardiovasculares: Dopamina. Disponível em: https://cardiopapers.com.br/bulario-dopamina/.

[22] NATJUS-DF. Nota Técnica: Imunoglobulina Humana. Disponível em: https://www.tjdft.jus.br/informacoes/notas-laudos-e-pareceres/natjus-df/nt667.pdf.

[23] BLAU / SINGULAR MEDICAMENTOS. Imunoglobulina Humana 50 mg/mL: apresentações comerciais. Disponível em: https://www.agilmedrs.com.br/Imunoglobulin-Imunoglobulina-Humana-5g-1-F-A-c-100-ml-IV-2-A-8C-Blausiegel.

[24] ASOCIACIÓN ESPAÑOLA DE PEDIATRÍA. Captopril. Pediamécum. Comité de Medicamentos de la AEP. Disponível em: https://www.aeped.es/comite-medicamentos/pediamecum/captopril.

[25] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia farmacêutico: Digoxina. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/digoxina.

[26] ASOCIACIÓN ESPAÑOLA DE PEDIATRÍA. Amiodarona. Pediamécum. Comité de Medicamentos de la AEP. Disponível em: https://www.aeped.es/comite-medicamentos/pediamecum/amiodarona.

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