Náuseas e Vômitos na Gravidez

CID-10: O21.0 – Hiperêmese gravídica leve

CID-10: O21.1 – Hiperêmese gravídica com distúrbios metabólicos

Introdução

  • As náuseas e vômitos da gravidez (NVG) constituem uma das intercorrências mais frequentes do período gestacional, afetando aproximadamente 85% das gestantes em algum grau. [4]

    • Em 25% dos casos, o quadro se restringe à náusea matinal isolada. Início típico entre a 5ª e a 9ª semana, com resolução progressiva entre a 16ª e a 20ª semana; persiste até o terceiro trimestre em 15% a 20% dos casos e até o parto em 5%. [4]

  • A evolução com necessidade de tratamento farmacológico situa-se em torno de 10% das gestações. [4]

  • A hiperêmese gravídica (HG) é a forma mais grave desse espectro, caracterizada por vômitos persistentes, perda de peso significativa (≥ 5% do peso pré-gestacional), desidratação e distúrbios metabólicos, sendo uma das principais causas de hospitalização no início da gravidez. [2][3][4]

    • Prevalência entre 0,3% e 3% das gestações, com estimativa mundial em torno de 1,1% de todos os quadros de NVG. [2][3][4]

  • Definição de consenso internacional (definição de Windsor, 2021):

    • Início dos sintomas antes de 16 semanas; náusea e vômitos, sendo pelo menos um dos dois de intensidade grave; incapacidade de comer ou beber normalmente; e restrição importante das atividades diárias. Sinais de desidratação contribuem para a definição, mas não são obrigatórios [5]

  • A mortalidade materna por NVG/HG é inferior a 1/10.000 nascimentos no Brasil e no mundo desenvolvido. [4]

  • Recorrência é comum em gestações futuras. Entre as mulheres que descreveram vômitos graves em uma gestação, cerca de dois terços relatam sintomas semelhantes na gestação seguinte; entre as que tiveram quadro leve, metade relata piora na gestação seguinte. [4]

  • Diferentemente das NVG de curso benigno, a HG compromete significativamente a capacidade de manter ingestão oral adequada, com repercussões sobre o estado nutricional materno e a evolução fetal. Reconhecimento precoce e manejo proativo são determinantes para a redução da morbidade associada. [2]

🔑 Pontos-chave:

  • Sintomas com início após a 9ª semana de gestação, ou acompanhados de febre, cefaleia ou sinais neurológicos, não são explicados por NVG/HG e exigem investigação de diagnóstico diferencial. [2][3][4]

  • PUQE (24h) > 6 define quadro moderado a grave e indica avaliação para internação. [4]

  • Reposição de tiamina é obrigatória antes de qualquer infusão de glicose em paciente com vômitos prolongados, para prevenção de encefalopatia de Wernicke. [2][3]

  • Suplementação com sais de ferro deve ser evitada na vigência de NVG/HG, pois agrava os sintomas. [1][3][4]

  • Hiporreflexia e dor à palpação de panturrilhas e coxas precedem em cerca de uma semana o acometimento encefálico potencialmente irreversível; nesse ponto, reposição agressiva de tiamina e internação de urgência não podem ser adiadas. Interrupção da gestação não é conduta indicada por esse achado isolado. [2][3][5]

  • Uso de polivitamínico no período periconcepcional associa-se a menor necessidade de atenção médica por NVG. [3][4]

  • Corticosteroide é reservado a casos refratários aos antieméticos; evitar antes de 10 semanas de gestação pelo risco de malformações fetais. [1][2][3]

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🎯 Fluxograma de Manejo

Manejo de Náuseas e Vômitos na Gravidez e Hiperêmese Gravídica: o fluxograma orienta a triagem de gestantes com náuseas e vômitos a partir do escore PUQE (24h) (Pregnancy Unique Quantification of Emesis, quantificação padronizada da intensidade dos sintomas no período de 24 horas). Se o PUQE (24h) for igual ou inferior a 6, a paciente segue para tratamento ambulatorial, cujas opções terapêuticas incluem orientações dietéticas, piridoxina, dimenidrato ou meclizina, ondansetrona e acupuntura/acupressão. Se o PUQE (24h) for maior que 6, avalia-se se outros diagnósticos foram descartados; caso não tenham sido, indica-se o tratamento da causa base; caso tenham sido descartados, confirma-se o diagnóstico de hiperêmese gravídica e a paciente é internada. A internação hospitalar inclui hidratação venosa, exames laboratoriais, correção de distúrbios hidroeletrolíticos e antieméticos por via venosa (ondansetrona, metoclopramida ou dimenidrato). Avalia-se então a melhora clínica: se não houver melhora, associam-se prometazina, clorpromazina ou corticoides; se houver melhora, mantêm-se as medidas instituídas. Tanto o ramo do tratamento ambulatorial quanto o da manutenção das medidas convergem para uma etapa de reavaliação, que retorna ao ponto de decisão inicial (PUQE (24h) > 6?), reiniciando o ciclo de reclassificação da gravidade e ajuste da conduta conforme a resposta da paciente. Fonte: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Náuseas e vômitos na gravidez. Femina. 2026;54(3):220-6.

Etiologia e Fatores de Risco

A etiologia é multifatorial. Nenhuma das teorias propostas isoladamente explica todos os casos, sendo mais adequado compreendê-las como fatores que atuam de forma sinérgica. [2]

Teoria endócrina

  • A gonadotrofina coriônica humana (hCG) é o principal hormônio implicado: seu pico de produção coincide com o período de maior incidência das NVG (7ª a 10ª semana). [3][4]

  • Maior intensidade dos sintomas em gestação múltipla, doença trofoblástica gestacional e fetos do sexo feminino (situações com hCG mais elevado) reforça essa associação. [3][4]

  • A progesterona e o estrogênio reduzem o tônus da musculatura lisa e a atividade peristáltica do trato gastrointestinal, contribuindo para os estímulos eméticos. [3]

  • Tabagismo materno associa-se a níveis mais baixos de hCG e estradiol, e a menor frequência de HG. [4]

  • Entre 5% e 66% das mulheres com HG apresentam TSH suprimido ou T4 livre elevado (tireotoxicose bioquímica transitória), na maioria dos casos sem relevância clínica; antitireoidianos não são indicados nesse cenário. [5][6]

Teoria genética

  • Taxas elevadas de recorrência em gestações subsequentes reforçam a predisposição genética. [2][3][4]

  • Risco de desenvolver NVG é três vezes maior quando mãe ou irmã apresentaram o quadro. [2][3]

  • Variantes nos genes GDF15, IGFBP7 e PGR têm sido associadas à placentação, à regulação do apetite e à sinalização inflamatória. [2]

Infecção por Helicobacter pylori

  • Padrões mais elevados de infecção por H. pylori são descritos em mulheres com NVG. [4]

  • Investigação deve se restringir aos casos refratários ao manejo convencional, especialmente os que se estendem ao segundo trimestre. [3]

Teoria psicogênica

  • Historicamente postulada como distúrbio de somatização relacionado a conflitos intrapsíquicos e estresse gestacional. [3]

  • É questionável a evidência de que as NVG sejam causadas por distúrbio psicológico primário. [3][4]

  • Depressão e ansiedade frequentemente coexistem com a HG, sendo mais prováveis sequelas da doença do que causas contribuintes. [2]

Fatores de risco

  • História pessoal de HG em gestação anterior (risco de recorrência de aproximadamente 24%). [2]

  • História familiar de HG (mãe com HG aumenta o risco em até 3 vezes). [2][3]

  • Gestação com feto do sexo feminino ou portador de síndrome de Down. [4]

  • História de enjoo de movimento ou náuseas associadas a enxaqueca. [2][3]

  • Gestação múltipla e doença trofoblástica gestacional (massa placentária aumentada). [2][3][4]

  • Comorbidades: disfunção tireoidiana, diabetes mellitus tipo 1, hipercolesterolemia. [2]

  • Infecção por H. pylori. [2]

  • Uso de multivitamínico periconcepcional como fator de risco reduzido. [3][4]

  • Tabagismo materno como fator de risco reduzido (menor hCG/estradiol). [4]

Quadro Clínico e Estadiamento

O início dos sintomas ocorre tipicamente em torno da 6ª semana de gestação, com resolução entre a 16ª e a 20ª semana na maioria dos casos (ver dados de persistência na Introdução). Sintomas que surgem pela primeira vez após a 9ª semana devem levar à consideração ativa de outros diagnósticos. [2][3]

Gravidade clínica

  • Forma moderada: êmese por 2 a 4 semanas; perda ponderal discreta (5% do peso pré-gestacional); frequência cardíaca abaixo de 100 bpm. [4]

  • Forma grave: perda ponderal de 6% a 8%; frequência cardíaca acima de 100 bpm; cetonúria pontual; salivação excessiva; sinais de hipovolemia e hipotensão ortostática. [4]

Estadiamento evolutivo da HG

A HG apresenta evolução clínica progressiva, podendo ser estadiada em quatro fases: [3]

  • Fase de desidratação

    • Náusea e ptialismo intensos, vômitos fortes com quadro de desidratação

    • Achados ao exame: redução do turgor e elasticidade da pele, olhos encovados, mucosas secas e pegajosas, língua áspera, taquicardia, hipotensão e hipotermia

    • Distúrbios hidroeletrolíticos iniciais: sódio elevado, cloro e potássio discretamente reduzidos

    • Hematócrito discretamente elevado por hemoconcentração

  • Fase metabólica

    • Somam-se ao quadro anterior: perda de peso > 5%, alterações da função hepática com elevação de enzimas e bilirrubinas (icterícia discreta), cetoacidose e cetonúria 2+ a 3+

    • Hipoalbuminemia, hiponatremia, hipopotassemia e hipoglicemia

    • Pode ocorrer hipotermia e torpor

  • Fase neurológica

    • Comprometimento oftálmico com lesões retinianas

    • Alterações neurológicas iniciais: hiporreflexia e dor à palpação das panturrilhas e coxas

    • Este quadro antecede o acometimento encefálico potencialmente irreversível em aproximadamente uma semana ("interstício crítico de Briquet")

    • Reposição agressiva de tiamina IV e internação de urgência com suporte multidisciplinar intensivo não podem ser adiadas nesta fase

  • Fase da psicose de Wernicke-Korsakoff

    • Encefalopatia por deficiência de tiamina: tríade de confusão mental, oftalmoplegia/nistagmo e ataxia (Wernicke), podendo evoluir para amnésia anterógrada e confabulação (Korsakoff) se não tratada

    • Quadro potencialmente irreversível se a reposição de tiamina não for imediata

Escore PUQE

  • O Pregnancy Unique Quantification of Emesis (PUQE) é o instrumento mais utilizado para classificar a gravidade das NVG.

  • Consulte o escore completo no tópico abaixo.

Escore PUQE

Determinação da gravidade da NVG — Escore de PUQE (Pregnancy Unique Quantification of Emesis): a tabela organiza o escore PUQE em três perguntas pontuadas para estratificar a gravidade das náuseas e vômitos da gravidez. A pergunta 1 questiona por quanto tempo a paciente se sentiu nauseada nas últimas 24 horas, com pontuação de 1 a 5 conforme a duração: nunca (1 ponto), até 4 horas (2 pontos), até 8 horas (3 pontos), até 12 horas (4 pontos) e mais de 12 horas (5 pontos). A pergunta 2 questiona quantos episódios de vômitos a paciente apresentou nas últimas 24 horas, pontuados de 1 a 5: nenhum (1 ponto), um episódio (2 pontos), até 3 episódios (3 pontos), até 4 episódios (4 pontos) e mais de cinco (5 pontos). A pergunta 3 questiona quantos momentos a paciente observou intensa salivação e esforço de vômito nas últimas 24 horas, também pontuados de 1 a 5: nenhum (1 ponto), até 3 vezes (2 pontos), até 5 vezes (3 pontos), até 8 vezes (4 pontos) e todo o tempo (5 pontos). A classificação final soma os pontos das três perguntas: pontuação até 6 caracteriza forma leve, entre 7 e 11 caracteriza forma moderada, e a partir de 12 caracteriza forma grave. O rodapé esclarece que NVG significa náuseas e vômitos da gravidez e que PUQE é a sigla em inglês para Pregnancy Unique Quantification of Emesis, o escore de quantificação única de êmese na gravidez. Fonte: traduzido de Koren G, Piwko C, Ahn E, Boskovic R, Maltepe C, Einarson A, et al. Validation studies of the Pregnancy Unique-Quantification of Emesis (PUQE) scores. J Obstet Gynaecol. 2005;25(3):241-4.

Escore PUQE: O Pregnancy Unique Quantification of Emesis (PUQE) é o instrumento mais utilizado para classificar a gravidade das NVG. A versão de 24 horas é preferida para fins diagnósticos. [2][3][4]

  • Pergunta 1: por quanto tempo se sentiu nauseada nas últimas 24 horas?

    • Nunca (1)

    • até 4 horas (2)

    • até 8 horas (3)

    • até 12 horas (4)

    • mais de 12 horas (5)

  • Pergunta 2: quantos episódios de vômito apresentou nas últimas 24 horas?

    • Nenhum (1)

    • 1 episódio (2)

    • até 3 episódios (3)

    • até 4 episódios (4)

    • mais de 5 episódios (5)

  • Pergunta 3: quantos momentos de salivação intensa ou esforço de vômito nas últimas 24 horas?

    • Nenhum (1)

    • até 3 vezes (2)

    • até 5 vezes (3)

    • até 8 vezes (4)

    • o tempo todo (5)

  • Classificação:

    • ≤ 6 pontos: forma leve

    • 7 a 11 pontos: forma moderada

    • ≥ 12 pontos: forma grave

O HyperEmesis Level Prediction (HELP) score, instrumento validado de 12 perguntas, é uma alternativa ao PUQE que pode ser mais precisa na extremidade grave do espectro clínico [5]

Diagnóstico

O diagnóstico de Hiperêmese Gravídica (HG) é eminentemente clínico e de exclusão, baseado na presença de vômitos persistentes associados à ausência de outra doença de base que justifique o quadro. Não há critérios diagnósticos universalmente estabelecidos. [2]

Principais achados clínicos que sustentam o diagnóstico de Hiperêmese Gravídica (HG): [1][2][3]

  • Vômitos incoercíveis com início entre a 6ª e a 14ª semana de gestação

  • Perda de peso corporal ≥ 5% do peso pré-gestacional

  • Desidratação grave

  • Distúrbios hidroeletrolíticos: hiponatremia, hipocalemia, hipocloria e alcalose metabólica

  • Cetonúria

  • Distúrbio neurológico (nas formas graves)

A anamnese deve contemplar: [3][4]

  • Intensidade e frequência das náuseas e vômitos (aplicar Escore PUQE)

  • Perda de peso e redução do volume urinário

  • Antecedentes pessoais e familiares de NVG, principalmente em mães e irmãs

  • Sangramento vaginal e aumento uterino incompatível com a idade gestacional, com suspeição de doença trofoblástica

  • Uso de medicamentos e substâncias; histórico de doenças gastrointestinais prévias

O exame físico deve avaliar: [2][3][4]

  • Estado de hidratação: pressão arterial, frequência cardíaca, turgor cutâneo, mucosas, tempo de enchimento capilar

  • Peso atual para comparação evolutiva

  • Exame abdominal e pélvico quando indicado

  • Sinais de deficiências nutricionais: alterações neurológicas, oftalmológicas e de coagulação

Diagnóstico Diferencial

Hiperêmese Gravídica (HG) é diagnóstico de exclusão. Febre, dor abdominal, cefaleia, sinais neurológicos, diarreia ou hipertensão sugerem etiologia alternativa. Início dos sintomas após a 9ª semana deve aumentar o grau de suspeição para outras causas. [2][3][4]

Hipertireoidismo bioquímico ou tireotoxicose gestacional transitória podem ser vistos na própria HG, caracterizados por T4 livre elevado e TSH suprimido, geralmente limitados à primeira metade da gravidez; não é recomendado o uso de medicamentos antitireoidianos nesse cenário. Bócio palpável não é esperado na HG e deve levantar suspeita de doença tireoidiana primária. [4]

Causas obstétricas [1][3][4]

  • Neoplasia trofoblástica gestacional

  • Gestação múltipla

  • Esteatose hepática aguda da gravidez

  • Pré-eclâmpsia

Causas gastrointestinais [1][2][3][4]

  • Gastroenterite, gastroparesia, acalasia

  • Doença do trato biliar, colelitíase, colecistite

  • Hepatite

  • Obstrução intestinal

  • Úlcera péptica

  • Pancreatite

  • Hérnia de hiato

  • Apendicite

Causas geniturinárias [2][3][4]

  • Pielonefrite

  • Uremia

  • Torção ovariana

  • Calculose renal

  • Leiomioma uterino em degeneração

Causas metabólicas e endócrinas [2][3][4]

  • Cetoacidose diabética

  • Porfiria

  • Doença de Addison

  • Hipertireoidismo e crise tireotóxica

  • Hiperparatireoidismo

Causas neurológicas [2][3][4]

  • Pseudotumor cerebral

  • Lesões vestibulares

  • Enxaqueca

  • Tumores do sistema nervoso central

  • Hipofisite linfocítica

Causas diversas [2][3][4]

  • Intoxicação exógena: quimioterápicos, anti-inflamatórios, digoxina, anti-hipertensivos, betabloqueadores, diuréticos, anticonvulsivantes, aminofilina, álcool e drogas ilícitas

  • Distúrbios psiquiátricos e condições psicológicas

Exames Complementares

Os exames laboratoriais e de imagem são utilizados para subsidiar o diagnóstico diferencial, aferir o comprometimento sistêmico e monitorar a resposta terapêutica. A maioria das pacientes com NVG leve não necessita de exames laboratoriais. [3][4]

Avaliação inicial (quadros moderados a graves, ou dúvida diagnóstica) [3][4]

  • Hemograma

  • Sódio, potássio, cloro, cálcio e magnésio

  • Ureia e creatinina

  • Função hepática: AST, ALT, GamaGT, fosfatase alcalina, bilirrubinas

  • Amilase e lipase

  • TSH e T4 livre

  • Glicose

  • Sumário de urina e urocultura

  • Sorologias para não vacinadas: sífilis, HIV, toxoplasmose, rubéola e hepatites A, B e C

Achados laboratoriais esperados na HG [3]

  • Hematócrito elevado (hemoconcentração), que pode mascarar anemia megaloblástica subjacente por deficiência de B12/folato em quadros prolongados

  • Transaminases, amilase, lipase e bilirrubinas elevadas

  • Ureia e creatinina elevadas

  • Glicose e proteínas diminuídas

  • Tiamina baixa

  • TSH diminuído; T3 e T4 elevados

  • Cloro, potássio e sódio diminuídos; alcalose metabólica à gasometria

  • Densidade urinária elevada e cetonúria

Imagem [2][3][4]

  • Ultrassonografia obstétrica: indicada para afastar doença trofoblástica gestacional e gestação múltipla, especialmente na presença de sangramento genital ou volume uterino incompatível com a idade gestacional

  • Ultrassonografia abdominal: indicada quando há elevação significativa de enzimas hepáticas, para avaliação de colelitíase ou anormalidades vasculares

  • Ressonância magnética: preferida em situações não urgentes onde se suspeita de causa abdominal alternativa (ex.: apendicite), por poupar exposição à radiação

Avaliação complementar nos casos refratários [3]

  • Repetição das funções hepática e renal

  • Esofagogastroduodenoscopia, com pesquisa de H. pylori concomitante

  • Avaliação neurológica com punção liquórica e/ou neuroimagem (tomografia ou ressonância magnética), para afastar complicações encefálicas e avaliar risco de síndrome de Wernicke

Tratamento Não Farmacológico

Nas formas leves (PUQE ≤ 6), as medidas não farmacológicas constituem a primeira linha de abordagem e podem ser suficientes para controle dos sintomas. Devem ser orientadas a todas as gestantes com NVG, independentemente da gravidade. [3][4]

Prevenção [3][4]

  • Uso de polivitamínico no período periconcepcional associa-se a menor necessidade de atenção médica por NVG

  • Evitar suplementação à base de sais de ferro, que agrava os sintomas

  • Tratamento precoce das NVG pode reduzir a progressão para HG [4][7]

Apoio psicoemocional [3]

  • Fundamental em todos os casos; o medo e a ansiedade potencializam o quadro emético

  • O suporte deve ser familiar e profissional; psicoterapia pode ser indicada nos casos de maior complexidade

  • Deve-se evitar frases que minimizem as queixas da gestante

Orientações alimentares [1][3][4]

  • Fracionar a alimentação em pequenas porções a cada 1 a 3 horas; evitar jejum prolongado

  • Preferir alimentos secos, suaves e ricos em proteínas ou carboidratos (pão, torradas, arroz, batata, macarrão, biscoitos pela manhã antes de se levantar)

  • Refeições ricas em proteína têm maior efeito de alívio das NVG do que refeições ricas em carboidratos ou em gordura

  • Evitar alimentos gordurosos, apimentados, muito doces ou com odor forte

  • Reduzir a ingestão de líquidos durante as refeições; hidratação oral 30 a 60 minutos após

  • Preferir alimentos frios ou em temperatura ambiente, evitando o cheiro de comida quente

  • Descansar após as refeições; evitar movimentos bruscos; usar roupas soltas

  • Evitar estímulos sensoriais desencadeantes: odores, calor, umidade, ruído e estímulos luminosos

Terapias complementares [3][4]

  • Gengibre: doses de 250 mg por via oral 4 vezes ao dia (até 1 g/dia); evitar em pacientes em uso de anticoagulantes pela potencial inibição plaquetária [3]

  • Acupressão e acupuntura: ponto PC6 (pericárdio 6), a duas polegadas proximais à prega distal do punho, entre os tendões do músculo palmar longo e do flexor radial do carpo; a própria gestante pode pressionar o ponto [3][4]

  • Hidroginástica e atividades físicas de baixo impacto articular [3]

Tratamento Farmacológico Ambulatorial

Indicado quando as medidas não farmacológicas são insuficientes. A abordagem segue uma progressão escalonada, partindo dos agentes mais seguros. Nas formas leves (PUQE ≤ 6), o tratamento é ambulatorial por via oral. [2][3][4]

Primeira linha [1][2][3][4]

  • Piridoxina (Vitamina B6) comp. 40 mg

    • 10 a 25 mg VO a cada 8 horas

  • Piridoxina + Doxilamina comp. 10+10mg ou 20+20mg (manipulado)

    • Comp. 10+10 mg: 2 comprimidos à noite inicialmente; pode-se acrescentar 1 comprimido pela manhã e 1 à tarde conforme necessidade

    • Comp. 20+20mg: 1 comprimido à noite inicialmente; pode-se acrescentar 1 comprimido pela manhã conforme necessidade

  • Considerações

    • Piridoxina: doses acima de 500 mg/dia estão associadas a neuropatia periférica [2]

    • A combinação (Piridoxina + Doxilamina) é recomendada pelo ACOG como primeira linha no tratamento ambulatorial das NVG [2][4]

    • A combinação (Piridoxina + Doxilamina) não é disponível no Brasil em formulação industrializada; pode ser manipulada [2]

Segunda linha [2][10]

Podem ser adicionados à primeira linha quando os sintomas permanecem insuficientemente controlados. [2]

  • Dimenidrinato (Dramin®) comp. 50 mg

    • 25 a 50 mg VO a cada 4 a 6 horas, conforme necessidade

  • Meclozina (Meclizina) (Meclin®, Meclin® Move) comp. 25 mg e 50 mg

    • 25 a 100 mg/dia, VO, em doses divididas de 12/12h

  • Prometazina (Fenergan®) comp. 25 mg

    • 12,5 a 25 mg VO a cada 4 a 6 horas

  • Prometazina supositório retal 25 mg

    • Via retal: 1 supositório de 25 mg a cada 4 a 6 horas

  • Considerações

    • Efeito colateral principal da classe: sonolência

Terceira linha [2][4]

Podem ser adicionados às linhas anteriores para vômitos persistentes sem desidratação. [2]

  • Metoclopramida (Plasil®) comp. 10 mg

    • 5 a 10 mg VO a cada 6 a 8 horas

  • Ondansetrona (Vonau®, Zofran®) comp. 4 mg e 8 mg

    • 4 mg VO a cada 8 horas

  • Trimetobenzamida sol. inj. 100 mg/mL (ampola de 2 mL = 200 mg)

    • 200 mg IM a cada 6 a 8 horas

    • Não comercializada no Brasil; conferir disponibilidade antes de prescrever

  • Considerações

    • Metoclopramida: monitorar manifestações extrapiramidais (tremores de extremidade e desequilíbrio postural) [2]

    • ⚠️ Ondansetrona: evitar no primeiro trimestre sempre que possível; risco absoluto de malformação orofacial ou cardíaca considerado baixo [2][4]

    • Ondansetrona: risco de prolongamento do intervalo QT relevante para dose IV única acima de 16 mg (motivo da retirada da antiga dose única de 32 mg do mercado, alerta FDA 2012); atenção redobrada em combinação com anti-histamínicos [2]

Tratamento Hospitalar

A internação está indicada nas formas moderadas e graves (PUQE > 6), ou quando há vômitos persistentes apesar dos antieméticos orais, intolerância à ingesta oral, desidratação grave, distúrbios eletrolíticos ou necessidade de monitorização mais rigorosa. [2][3][4]

Cuidados gerais

  • Controle diário de peso e diurese [1][3][4]

  • Suspender alimentação nas primeiras 24 a 48 horas; após estabilização, reintroduzir progressivamente: dieta líquida → sólida/branda, pobre em lipídios e rica em carboidratos, em pequenas porções a cada 3 horas [1][3][4]

  • Evitar suplementação à base de sais de ferro [1][3][4]

  • Apoio psicológico à paciente e à família, com equipe multidisciplinar; psicoterapia quando necessário [1][4]

  • Avaliar risco de tromboembolismo venoso e oferecer tromboprofilaxia quando indicada, dado o risco aumentado por desidratação e imobilidade [5]

  • Rastrear ativamente sintomas de ansiedade, depressão e ideação suicida; encaminhar para saúde mental perinatal quando identificados [5]

Reposição hidroeletrolítica

  • Hidratação venosa [2][3][4]

    • Solução glicofisiológica: 2.000 a 4.000 mL em 24 horas; não exceder 6.000 mL/24h

    • Titular para manter débito urinário ≥ 100 mL/hora

    • Considerações

      • Soluções glicosadas devem ser usadas com cautela: podem precipitar a síndrome de Wernicke

  • Reposição de tiamina [2][3]

    • Tiamina 100 mg em 100 mL de SF 0,9%, IV, em 30 minutos, obrigatória antes de qualquer infusão de glicose

    • Nos casos de hidratação venosa prolongada: repor também vitaminas B6, C e K

  • Reposição eletrolítica [2][3]

    • Hiponatremia leve assintomática (Na: 130 a 135 mEq/L): SF 0,9%

    • Hipocalemia leve (K: 3,0 a 3,5 mEq/L): KCl xarope 6% ou comprimido 6 mEq, 10 a 20 mL ou 1 comprimido VO a cada 6 horas, após as refeições

    • Monitorar potássio, cálcio, magnésio e sódio, com reposição IV conforme necessidade

Antieméticos para casos moderados a graves e refratariedade [1][2][3][4][5][6][8][9][11][12][13][14][15]

  • Ondansetrona (Ansentron®) sol. inj. 2 mg/mL (ampola 2 e 4 mL)

    • 8 mg IV a cada 6 horas

    • Administração: bolus direto, sem diluição, em 2 a 5 minutos

  • Metoclopramida (Plasil®) sol. inj. 5 mg/mL (ampola 2 mL)

    • 1 ampola de 2 mL (10 mg), IV, a cada 6 horas

    • Administração: diluir em 20-50 mL de SF 0,9% ou SG 5%, infundir em 5-15 minutos; respeitar intervalo mínimo de 6 horas entre doses

  • Dimenidrinato + Piridoxina sol. inj. (Dramin B6®) 3 mg/mL + 5 mg/mL (ampola 10 mL)

    • 1 ampola de 10 mL, IV, a cada 6 horas

    • Administração: diluir em 100 mL de SF 0,9%, infundir em 60 minutos

  • Prometazina (Fenergan®) sol. inj. 25 mg/mL

    • 1 ampola (25 mg), IM, a cada 8 horas

    • Administração: via IM profunda é a preferencial; evitar via IV, pois extravasamento ou injeção intra-arterial inadvertida pode causar necrose e gangrena periférica

  • Clorpromazina (Amplictil®) comp. 25 mg e 100 mg; sol. oral (gotas) 40 mg/mL (1 gota = 1 mg)

    • RCOG/Lancet 2026: 10 a 25 mg VO a cada 4 a 6 horas

    • Administração: comprimido não deve ser partido ou mastigado; a apresentação em gotas permite ajuste mais fino da dose

  • Clorpromazina (Clorpromaz®, Longactil®) sol. inj. 5 mg/mL

    • RCOG/Lancet 2026: 10 a 25 mg IM ou IV a cada 4 a 6 horas

    • ACOG 2018: 25 a 50 mg IM ou IV a cada 4 a 6 horas

    • Administração IV (off-label): diluir em SF 0,9% (500 mL para cada 25 mg); em injeção direta, não exceder 1 mg/minuto; manter a paciente deitada por 30 minutos após a aplicação, pelo risco de hipotensão; bula nacional (Clorpromaz®) restrita à via IM, sem estudo para via IV

  • Proclorperazina comp. 5mg ou 10mg

    • 5 a 10 mg VO a cada 6 a 8 horas, ou 3 mg por via bucal a cada 6 a 8 horas

  • Proclorperazina sol. inj. 5 mg/mL (ampola 2 mL)

    • 12,5 mg IM ou IV a cada 8 horas

    • Administração: via IV em infusão lenta, até 5 mg/minuto; dose única máxima de 10 mg; dose diária máxima (IM ou IV) de 40 mg; pode ser administrada sem diluição ou diluída em solução isotônica

  • Proclorperazina supositório retal 25 mg

    • RCOG/Lancet 2026: 25 mg 1 vez ao dia

    • ACOG: 25 mg a cada 12 horas

  • Considerações

    • Ondansetrona: melhor resposta nos casos de HG com hipovolemia; substituir por outro antiemético após resolução do quadro agudo, se ainda necessário

    • Ondansetrona: evitar no primeiro trimestre sempre que possível; risco absoluto de malformação orofacial ou cardíaca considerado baixo

    • Ondansetrona: risco de prolongamento do intervalo QT relevante para dose IV única acima de 16 mg (motivo da retirada da antiga dose única de 32 mg do mercado, alerta FDA 2012); atenção redobrada em combinação com anti-histamínicos

    • Metoclopramida: antiemético de segunda escolha nos casos moderados a graves; monitorar manifestações extrapiramidais; risco aumentado em combinação com fenotiazínicos

    • Fenotiazínicos (prometazina, clorpromazina, proclorperazina): monitorar sedação, distonia e hipotensão

    • Clorpromazina: a solução oral (Amplictil® gotas) contém 9,69% de álcool etílico e sacarose; atenção em diabéticas

Corticosteroides [1][2][3][16][17]

Reservados para casos refratários aos antieméticos. Têm capacidade de cessar os vômitos em até 2 horas. Evitar uso antes de 10 semanas de gestação pelo risco de malformações fetais.

  • Metilprednisolona (succinato sódico) sol. inj. 500 mg

    • 16 mg IV a cada 8 horas por 3 dias; reduzir gradualmente ao longo de 2 semanas até a menor dose eficaz; duração máxima total de 6 semanas

    • Administração: infusão lenta; não administrar em bolus direto nas doses moderadas a altas, pelo risco de hipotensão e arritmia cardíaca

  • Metilprednisolona comp. 4 mg e 16 mg

    • 16 mg VO a cada 8 horas por 3 dias; reduzir gradualmente ao longo de 2 semanas até a menor dose eficaz; duração máxima total de 6 semanas

  • Hidrocortisona comp. 5 mg, 10 mg e 20 mg

    • 50 mg VO a cada 12 horas

  • Prednisona (Meticorten®) comp. 5 mg e 20 mg

    • 10 mg VO a cada 12 horas

  • Dexametasona sol. inj. 2 mg/mL (ampola 1 mL) e 4 mg/mL (ampola 2,5 mL)

    • Dose equivalente a metilprednisolona 16mg:

      • 3 mg de dexametasona IV a cada 8 horas por 3 dias; reduzir gradualmente ao longo de 2 semanas até a menor dose eficaz; duração máxima total de 6 semanas

  • Considerações

    • Todos os corticosteroides devem ser associados à reposição de vitaminas do complexo B, principalmente B1 e B6 [3]

💊 Como Prescrever?

Primeira linha (ambulatorial)

  • Piridoxina (Vitamina B6) comp. 40 mg

    • 10 a 25 mg VO a cada 8 horas

    • Administração: via oral, sem orientações específicas

  • Piridoxina + Doxilamina comp. 10 mg + 10 mg ou 20 mg + 20 mg (manipulado)

    • Comp. 10 mg + 10 mg: 2 comprimidos à noite inicialmente; pode-se acrescentar 1 comprimido pela manhã e 1 à tarde conforme necessidade

    • Comp. 20 mg + 20 mg: 1 comprimido à noite inicialmente; pode-se acrescentar 1 comprimido pela manhã conforme necessidade

    • Administração: via oral, sem orientações específicas

    • Não disponível no Brasil em formulação industrializada; pode ser manipulada

Segunda linha (ambulatorial)

  • Dimenidrinato (Dramin®) comp. 50 mg

    • 25 a 50 mg VO a cada 4 a 6 horas, conforme necessidade

    • Administração: via oral, sem orientações específicas

  • Meclozina (Meclizina) (Meclin®) comp. 25 mg e 50 mg

    • 25 a 100 mg/dia, VO, em doses divididas

    • Administração: via oral, sem orientações específicas

  • Prometazina (Fenergan®) comp. 25 mg

    • 12,5 a 25 mg VO a cada 4 a 6 horas

    • Administração: via oral, sem orientações específicas

  • Prometazina supositório retal 25 mg

    • 1 supositório de 25 mg a cada 4 a 6 horas

    • Administração: via retal, sem orientações específicas

Terceira linha (ambulatorial)

  • Metoclopramida (Plasil®) comp. 10 mg

    • 5 a 10 mg VO a cada 6 a 8 horas

    • Administração: ingerir 10 minutos antes das refeições; comprimido deve ser ingerido inteiro, sem mastigar

  • Ondansetrona (Vonau®, Zofran®) comp. 4 mg e 8 mg

    • 4 mg VO a cada 8 horas

    • Administração:

      • Zofran®, ingerir com água;

      • Vonau®, comprimido de desintegração oral, colocar na ponta da língua e deixar dissolver

  • Trimetobenzamida sol. inj. 100 mg/mL (ampola 2 mL = 200 mg)

    • 200 mg IM a cada 6 a 8 horas

    • Administração: exclusivamente via IM; não recomendada por via intravenosa

Hospitalar: hidratação e eletrólitos

  • Solução glicofisiológica: 2.000 a 4.000 mL em 24 horas; não exceder 6.000 mL/24h

  • Tiamina 100 mg em 100 mL de SF 0,9%, IV, em 30 minutos, antes de qualquer infusão de glicose

  • KCl xarope 6% ou comprimido 6 mEq: 10 a 20 mL ou 1 comprimido VO a cada 6 horas, após as refeições (hipocalemia leve)

Hospitalar: antieméticos

  • Ondansetrona (Ansentron®) sol. inj. 2 mg/mL (ampola 2 e 4 mL)

    • 8 mg IV a cada 6 horas

    • Administração: bolus direto, sem diluição, em 2 a 5 minutos

  • Metoclopramida (Plasil®) sol. inj. 5 mg/mL (ampola 2 mL)

    • 1 ampola de 2 mL (10 mg), IV, a cada 6-8 horas

    • Administração: diluir em 20-50 mL de SF 0,9% ou SG 5%, infundir em 15 minutos; respeitar intervalo mínimo de 6 horas entre doses

  • Dimenidrinato + Piridoxina sol. inj. (Dramin B6®) 3 mg/mL + 5 mg/mL (ampola 10 mL)

    • 1 ampola, IV, a cada 6 horas

    • Administração: diluir em 100 mL de SF 0,9%, infundir em 60 minutos

  • Prometazina (Fenergan®) sol. inj. 25 mg/mL (ampola 2 mL)

    • 1 ampola (25 mg), IM, a cada 8 horas

    • Administração: via IM profunda é a preferencial; evitar via IV, pois extravasamento ou injeção intra-arterial inadvertida pode causar necrose e gangrena periférica

  • Clorpromazina (Amplictil®) comp. 25 mg e 100 mg; sol. oral (gotas) 40 mg/mL (1 gota = 1 mg)

    • RCOG/Lancet 2026: 10 a 25 mg VO a cada 4 a 6 horas

    • Administração: comprimido não deve ser partido ou mastigado; a apresentação em gotas permite ajuste mais fino da dose

  • Clorpromazina (Clorpromaz®, Longactil®) sol. inj. 5 mg/mL (ampola 5 mL)

    • RCOG/Lancet 2026: 10 a 25 mg IM ou IV a cada 4 a 6 horas;

    • ACOG 2018: 25 a 50 mg IM ou IV a cada 4 a 6 horas

    • Administração:

      • IV (off-label): diluir em SF 0,9% (500 mL para cada 25 mg); não exceder 1 mg/minuto de infusão; manter a paciente deitada por 30 minutos após a aplicação

  • Proclorperazina comp. 5 mg e 10 mg

    • RCOG/Lancet 2026: 5 a 10 mg VO a cada 6 a 8 horas, ou 3 mg por via bucal a cada 6 a 8 horas

    • Administração: via oral, sem orientações específicas

  • Proclorperazina sol. inj. 5 mg/mL (ampola 2 mL)

    • IM: RCOG/Lancet 2026, 12,5 mg a cada 8 horas

    • IV: RCOG/Lancet 2026, 12,5 mg a cada 8 horas

    • Administração:

      • IM: sem orientações específicas

      • IV: infusão lenta, até 5 mg/minuto; dose única máxima de 10 mg; dose diária máxima (IM ou IV) de 40 mg; pode ser administrada sem diluição ou diluída em solução isotônica

  • Proclorperazina supositório retal 25 mg

    • RCOG/Lancet 2026: 25 mg 1 vez ao dia

    • ACOG/StatPearls: 25 mg a cada 12 horas

    • Administração: via retal, sem orientações específicas

Hospitalar: corticosteroides

  • Metilprednisolona (succinato sódico) sol. inj. 500 mg

    • 16 mg IV a cada 8 horas por 3 dias; reduzir gradualmente ao longo de 2 semanas até a menor dose eficaz; duração máxima total de 6 semanas

    • Administração: infusão lenta; não administrar em bolus direto nas doses moderadas a altas

  • Metilprednisolona comp. 4 mg e 16 mg

    • 16 mg VO a cada 8 horas por 3 dias; reduzir gradualmente ao longo de 2 semanas até a menor dose eficaz; duração máxima total de 6 semanas

    • Administração: via oral, sem orientações específicas

  • Hidrocortisona comp. 5 mg, 10 mg e 20 mg

    • 50 mg VO a cada 12 horas

    • Administração: via oral, sem orientações específicas

  • Prednisona (Meticorten®) comp. 5 mg e 20 mg

    • 10 mg VO a cada 12 horas

    • Administração: via oral, sem orientações específicas

  • Dexametasona sol. inj. 2 mg/mL (ampola 1 mL) e 4 mg/mL (ampola 2,5 mL)

    • Dose equivalente a metilprednisolona 16mg:

      • 3 mg de dexametasona IV a cada 8 horas por 3 dias; reduzir gradualmente ao longo de 2 semanas até a menor dose eficaz; duração máxima total de 6 semanas

Terapia adjuvante

  • Omeprazol (Losec®, Peprazol®) comp. 20 mg

    • 20 mg VO 1 vez ao dia

    • Administração: via oral, sem orientações específicas

  • Pantoprazol (Pantozol®, PantoCal®) sol. inj. 40 mg

    • 40 mg IV 1 vez ao dia

    • Administração: reconstituir com o diluente próprio (10 mL); pode ser administrado sem diluição adicional ou diluído em 100 mL de SF 0,9% ou SG 5%; em bolus, no mínimo 2 minutos, ou em infusão de 15 minutos

Suporte Nutricional

Indicado quando a ingestão oral permanece insuficiente apesar das demais intervenções. [2]

Nutrição enteral [2]

  • Método preferencial; a sonda nasogástrica é utilizada em primeiro lugar pela eficácia e menor risco de complicações

  • Nos casos de intolerância à sonda nasogástrica ou necessidade de suporte prolongado: considerar sonda nasojejunal ou gastrojejunostomia endoscópica percutânea (PEG-J)

Nutrição parenteral [2]

  • Reservada para casos em que a via enteral não é viável

  • Nutrição parenteral periférica: suporte de curto prazo, com capacidade de concentração limitada

  • Nutrição parenteral central (acesso PICC): suporte nutricional mais abrangente; risco aumentado de infecção e trombose, especialmente relevante na gestação; usar apenas como último recurso

  • Quando a via parenteral for utilizada por mais de 48 horas: repor vitaminas do complexo B e vitamina C

Metas nutricionais [2]

  • Necessidades calóricas calculadas por fórmulas preditivas, ajustadas para estresse e déficit nutricional

  • Proteínas: 1,1 a 1,52 g/kg/dia

  • Carboidratos: mínimo de 175 g/dia para prevenir cetose

  • Gorduras: 20% a 35% do aporte calórico total

  • Suplementação de DHA: 300 mg/dia

  • Hidratação: mínimo de 3 L de fluidos diários (incluindo líquidos dos alimentos)

  • Suplementação de micronutrientes: tiamina (B1), ferro, cálcio, magnésio, vitamina D e iodo

  • Monitorização laboratorial diária até estabilização; depois semanal em regime ambulatorial

Terapia Adjuvante

  • Omeprazol (Losec®, Peprazol®) comp. 20 mg

    • 20 mg VO 1 vez ao dia [1]

    • Indicado na presença de refluxo gastroesofágico associado

  • Pantoprazol (Pantozol®) sol. inj. 40 mg

    • 40 mg IV 1 vez ao dia [2]

    • Inibidor de bomba de prótons utilizado no contexto hospitalar para proteção gástrica

  • Ranitidina (uso banido)

    • Era anteriormente utilizada como adjuvante na dose de 150 mg VO a cada 12 horas ou 50 mg IV a cada 8 horas [1][3]

    • Em desuso após retirada global do mercado em 2020 devido à contaminação por N-nitrosodimetilamina (NDMA)

Complicações

Nos casos graves ou não tratados adequadamente, a HG pode evoluir com complicações maternas e fetais significativas. [1][2]

Complicações maternas [1][2]

  • Encefalopatia de Wernicke: deficiência de tiamina, com tríade de confusão mental, oftalmoplegia/nistagmo e ataxia, potencialmente irreversível [2][5]

  • Síndrome de Mallory-Weiss: laceração da mucosa esofagogástrica por vômitos repetidos

  • Síndrome de Boerhaave: ruptura esofágica (rara, porém grave)

  • Tromboembolismo venoso: razão de chances de 2,5 (IC95% 2,0 a 3,2) em relação à gestação sem HG, por desidratação e imobilidade [5]

  • Coagulopatia por deficiência de vitamina K

  • Insuficiência renal aguda por desidratação grave

  • Arritmias cardíacas por desequilíbrios eletrolíticos, incluindo prolongamento do intervalo QT por antieméticos (metoclopramida, ondansetrona) associado a distúrbio eletrolítico não corrigido [5]

  • Rabdomiólise

  • Disfunção hepática (elevação de transaminases em até metade dos casos)

  • Pneumotórax, hemorragias retinianas, lesão esplênica (raros)

  • Complicações psicológicas: ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático são mais frequentes que em gestações sem HG; ideação suicida ocasional em cerca de um quarto das pacientes e regular em torno de 7%; interrupção de gestação desejada ocorre em 5% a 15% dos casos, geralmente refletindo desespero pelo sintoma não controlado, não rejeição à gravidez [2][5]

Complicações fetais [2]

  • Restrição do crescimento fetal

  • Prematuridade

  • Baixo peso ao nascer

  • Pequeno para a idade gestacional

  • Descolamento prematuro de placenta e pré-eclâmpsia (especialmente no segundo trimestre)

Prognóstico

Prognóstico materno

  • Favorável quando o diagnóstico é precoce e o manejo é adequado; a maioria das mulheres se recupera sem sequelas permanentes com suporte nutricional, terapia farmacológica e monitorização rigorosa [2]

  • O principal risco de desfecho grave está associado ao atraso no diagnóstico e à não reposição de tiamina, que pode resultar em encefalopatia de Wernicke irreversível [2]

  • Risco de recorrência em gestação subsequente é 8,2 vezes maior após história de HG, e 10,8 vezes maior após HG grave (com necessidade de internação); risco de HG na terceira gestação chega a 30 vezes maior após duas gestações consecutivas afetadas [5]

  • Até 20% das mulheres permanecem com sintomas de transtorno de estresse pós-traumático após a gestação; ansiedade, depressão e sintomas emocionais também são mais frequentes após gestação com HG [5]

  • Possível aumento de incidência de câncer colorretal, de bexiga e de tireoide em mulheres com história de HG; evidência de maior risco cardiovascular após HG é inconsistente entre estudos [5]

Prognóstico fetal

  • As formas moderadas de NVG não estabelecem, de forma consistente, relação de causa e efeito com desfechos adversos fetais [2]

  • Nas formas graves de HG, a exposição prolongada da placenta e do feto aos desequilíbrios hidroeletrolíticos e metabólicos pode elevar as taxas de prematuridade, baixo peso ao nascer e crescimento fetal restrito [2][5]

  • Achados emergentes, ainda com confirmação pendente, apontam possível aumento do risco de TDAH, transtorno do espectro autista, alterações no desenvolvimento cognitivo e motor, distúrbios de sono e transtornos de ansiedade em filhos expostos à HG intrauterina; em filhos do sexo masculino, possível aumento do risco de câncer testicular até os 40 anos [2][5]

Terapias Emergentes

Para casos de HG refratária, algumas opções terapêuticas alternativas têm sido investigadas, com resultados iniciais promissores. As evidências ainda são limitadas e seu uso deve ser considerado individualmente. [2]

  • Gabapentina: redução na gravidade das náuseas e melhora da ingestão nutricional

  • Clonidina transdérmica: alívio dos sintomas em pacientes com intolerância à medicação oral

  • Diazepam IV: pode reduzir a taxa de reinternação quando associado à hidratação venosa

  • Droperidol associado à difenidramina: redução do tempo de internação; droperidol associado a risco de prolongamento do QT

  • Mirtazapina e olanzapina: consideradas em casos complexos e de difícil controle

Referências

[1] UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. Maternidade-Escola. Rotinas Assistenciais: Hiperêmese Gravídica. Rio de Janeiro: UFRJ, s/d. Disponível em: https://www.me.ufrj.br

[2] VADAKEKUT, Elsa S.; MAHDY, Heba. Hyperemesis Gravidarum. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. Última atualização: 6 jul. 2025. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK532917/. Acesso em: 2 abr. 2026.

[3] RODRIGUES, Karina Sampaio Cavalcanti; LIMA, Priscilla Santos de Oliveira Santa Rosa; MOURA, Victor Alencar de. Hiperêmese Gravídica. Protocolo PRT.DM.010. Santa Cruz: Hospital Universitário Ana Bezerra – UFRN/EBSERH; 2021. Disponível em: https://huab-ufrn.ebserh.gov.br

[4] FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Náuseas e vômitos na gravidez. Femina. 2026;54(3):220-6. Protocolo Febrasgo de Obstetrícia, nº 68/Comissão Nacional Especializada em Assistência Pré-Natal. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br

[5] NANA, Melanie; PAINTER, Rebecca; WILLIAMSON, Catherine; NELSON-PIERCY, Catherine. Hyperemesis gravidarum. Lancet. 2026;407(10523):78-89. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(25)01454-0

[6] AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS. Committee on Practice Bulletins-Obstetrics. ACOG Practice Bulletin No. 189: Nausea and Vomiting of Pregnancy. Obstetrics & Gynecology. 2018;131(1):e15-e30.

[7] KOTHARI, Shivangi; AFSHAR, Yalda; FRIEDMAN, Lawrence S.; AHN, Joseph. AGA Clinical Practice Update on Pregnancy-Related Gastrointestinal and Liver Disease: Expert Review. Gastroenterology. 2024;167(5):1033-1045. Disponível em: https://doi.org/10.1053/j.gastro.2024.06.014

[8] UNIÃO QUÍMICA FARMACÊUTICA NACIONAL S/A. Clorpromaz® (cloridrato de clorpromazina) solução injetável 5 mg/mL: bula do medicamento (profissional de saúde), aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 29 out. 2025.

[9] BLANVER FARMOQUÍMICA E FARMACÊUTICA S.A. Amplictil® (cloridrato de clorpromazina) comprimido revestido 25 mg e 100 mg; solução oral 40 mg/mL: bula do medicamento (profissional de saúde), aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 31 mar. 2025.

[10] APSEN FARMACÊUTICA S.A. Meclin®/Meclin® Move (dicloridrato de meclozina) comprimidos 25 mg e 50 mg: bula do medicamento (profissional de saúde), aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 9 dez. 2025.

[11] CAPLIN STERILES LIMITED. Prochlorperazine Edisylate Injection, USP: prescribing information. Revisão abr. 2026.

[12] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia Farmacêutico: Clorpromazina. São Paulo: HSL. Atualizado em 3 jun. 2026. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/clorpromazina

[13] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia Farmacêutico: Ondansetrona. São Paulo: HSL. Atualizado em 12 jan. 2021. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/ondansetrona

[14] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia Farmacêutico: Metoclopramida. São Paulo: HSL. Atualizado em 13 abr. 2023. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/metoclopramida

[15] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia Farmacêutico: Prometazina. São Paulo: HSL. Atualizado em 9 ago. 2022. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/prometazina

[16] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia Farmacêutico: Metilprednisolona, succinato sódico. São Paulo: HSL. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/metilprednisolona-succinato-sodico

[17] HOSPITAL SÍRIO-LIBANÊS. Guia Farmacêutico: Hidrocortisona. São Paulo: HSL. Disponível em: https://guiafarmaceutico.hsl.org.br/hidrocortisona

Autoria e Curadoria

As informações contidas nesta página são de autoria da Equipe Editorial Médica do GPMED, composta por médicos especialistas de diversas áreas. Todo o conteúdo é estruturado rigorosamente com base em fontes bibliográficas de alto impacto e nas diretrizes oficiais vigentes, seguindo os preceitos da Medicina Baseada em Evidências. Nosso compromisso é oferecer ao médico uma base de consulta técnica, confiável e chancelada por profissionais experientes, garantindo máxima segurança no suporte à decisão clínica.