Fibrose Cística no Adulto

CID-10: E84 – Fibrose cística

Introdução

  • A fibrose cística (FC) é uma doença genética autossômica recessiva causada por variantes patogênicas no gene CFTR (Cystic Fibrosis Transmembrane Conductance Regulator), localizado no cromossomo 7. A disfunção da proteína CFTR compromete o transporte de cloro e bicarbonato através do epitélio, levando à produção de secreções espessas em múltiplos órgãos, principalmente pulmões, pâncreas, fígado, intestino, trato reprodutor e glândulas sudoríparas.

  • Nas últimas décadas, houve importante aumento da sobrevida dos pacientes devido ao diagnóstico neonatal, centros especializados, antibioticoterapia otimizada e, principalmente, ao desenvolvimento dos moduladores de CFTR. Atualmente, a maioria dos indivíduos com fibrose cística atinge a idade adulta, sendo frequente o diagnóstico de casos leves apenas nessa fase da vida.

  • A apresentação no adulto costuma ser mais heterogênea do que na infância, podendo ocorrer com doença pulmonar crônica, bronquiectasias, pancreatite recorrente, infertilidade masculina, sinusite crônica ou apenas manifestações isoladas relacionadas à disfunção do CFTR.

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Epidemiologia

  • Doença genética autossômica recessiva.

  • Maior prevalência em indivíduos de ascendência europeia.

  • Incidência no Brasil estimada entre 1:7.000 e 1:10.000 nascidos vivos, com importante variação regional.

  • Mais de 2.000 variantes do gene CFTR já foram descritas.

  • A variante F508del permanece a mais frequente no Brasil.

  • Atualmente, mais da metade da população brasileira com fibrose cística é composta por adultos.

Fisiopatologia

A proteína CFTR atua como canal de cloro regulado por AMP cíclico.

Sua disfunção provoca:

  • Redução da secreção de cloro

  • Redução da secreção de bicarbonato

  • Aumento da absorção de sódio

  • Desidratação das secreções

  • Aumento da viscosidade do muco

Consequências clínicas:

  • Obstrução de vias aéreas

  • Colonização bacteriana crônica

  • Inflamação neutrofílica persistente

  • Bronquiectasias progressivas

  • Insuficiência pancreática exócrina

  • Diabetes relacionado à fibrose cística

  • Colestase e hepatopatia

  • Infertilidade masculina por ausência bilateral congênita dos ductos deferentes

Manifestações clínicas no adulto

Respiratórias

  • Tosse produtiva crônica

  • Expectoração purulenta

  • Dispneia progressiva

  • Bronquiectasias

  • Sinusite crônica

  • Polipose nasal

  • Hemoptise

  • Pneumotórax espontâneo

  • Exacerbações respiratórias recorrentes

Gastrointestinais

  • Insuficiência pancreática exócrina

  • Esteatorreia

  • Diarreia crônica

  • Desnutrição

  • Distensão abdominal

  • Síndrome da obstrução intestinal distal

  • Pancreatite recorrente (formas com função pancreática preservada)

Hepatobiliares

  • Esteatose hepática

  • Colestase

  • Cirrose biliar focal

  • Hipertensão portal

Endócrinas

  • Diabetes relacionado à fibrose cística (CFRD)

  • Osteopenia

  • Osteoporose

  • Hipogonadismo secundário em casos avançados

Sistema reprodutor

  • Homens

    • Infertilidade em aproximadamente 97–98%

    • Ausência bilateral congênita dos ductos deferentes

    • Espermatogênese geralmente preservada

  • Mulheres

    • Redução da fertilidade

    • Muco cervical espesso

    • Gravidez possível quando há bom controle clínico

A "doença do beijo salgado" é um nome popular para a fibrose cística (ou mucoviscidose). Ela se chama assim porque uma alteração genética faz o corpo produzir um suor com muito mais sal que o normal, o que deixa a pele visivelmente salgada ao ser beijada.

Quando suspeitar no adulto

Deve-se considerar investigação para fibrose cística diante de:

  • Bronquiectasias sem etiologia definida;

  • Colonização por Pseudomonas aeruginosa;

  • Pancreatite recorrente idiopática;

  • Sinusite crônica grave;

  • Polipose nasal recorrente;

  • Infertilidade masculina por ausência bilateral dos ductos deferentes;

  • História familiar positiva;

  • Teste do pezinho alterado na infância sem investigação adequada.

Diagnóstico

O diagnóstico baseia-se na combinação de manifestações clínicas compatíveis e demonstração de disfunção da proteína CFTR.

Critérios diagnósticos

  • Presença de:

    • Quadro clínico compatível

  • Associado a um dos seguintes:

    • Teste do suor ≥60 mmol/L

    • Duas variantes patogênicas do gene CFTR

    • Demonstração funcional de disfunção da proteína CFTR

Teste do suor

  • Exame de primeira linha.

  • Valores:

    • ≥60 mmol/L → diagnóstico compatível

    • 30–59 mmol/L → resultado intermediário

    • <30 mmol/L → pouco provável (não exclui variantes leves)

  • O exame deve ser realizado em laboratório experiente.

Teste genético

  • Indicado para:

    • Confirmação diagnóstica

    • Identificação da variante

    • Elegibilidade para moduladores de CFTR

    • Aconselhamento genético

Diferença de potencial nasal ou corrente intestinal

  • Indicados quando:

    • Teste do suor inconclusivo

    • Genética inconclusiva

    • Alta suspeição clínica

  • Disponíveis apenas em centros especializados.

Avaliação pulmonar

  • Espirometria

  • TCAR de tórax

  • Cultura seriada do escarro

  • Oximetria

  • Gasometria em doença avançada

Avaliação nutricional

  • IMC

  • Albumina

  • Vitaminas A, D, E e K

  • Elastase fecal

  • Perfil hepático

Rastreamento de complicações

  • TOTG anual para diabetes relacionado à FC

  • Densitometria óssea

  • Ultrassonografia hepática

  • Avaliação de fertilidade quando indicada

Classificação da gravidade pulmonar

  • Segundo o VEF1 previsto:

    • Leve: ≥70%

    • Moderada: 40–69%

    • Grave: <40%

Tratamento

O manejo deve ocorrer em centros especializados e envolver equipe multiprofissional.

  • Inclui:

    • Controle da infecção

    • Remoção de secreções

    • Correção nutricional

    • Tratamento das complicações

    • Modulação da proteína CFTR quando indicada

Moduladores da CFTR - Representam o principal avanço terapêutico da doença [1]

  • Tais medicamentos devem ser prescritos inicialmente apenas por médicos especialistas no manejo da FC.

  • Elexacaftor + Tezacaftor + Ivacaftor (Trikafta®)

    • Esquema habitual para adultos elegíveis:

      • Dois comprimidos pela manhã contendo:

        • Elexacaftor 100 mg

        • Tezacaftor 50 mg

        • Ivacaftor 75 mg (cada comprimido)

      • Um comprimido à noite:

        • Ivacaftor 150 mg

    • Orientações:

      • Administrar com refeição rica em gordura.

      • Ajustar conforme função hepática.

      • Evitar uso concomitante com fortes indutores do CYP3A.

      • Monitorar transaminases periodicamente.

      • Elegibilidade depende da variante genética e dos critérios estabelecidos pelo SUS.

  • Lumacaftor + Ivacaftor (Orkambi®)

    • Adultos:

      • Lumacaftor 400 mg + Ivacaftor 250 mg VO a cada 12 horas.

      • Administrar com alimentos ricos em gordura.

  • Tezacaftor + Ivacaftor (Symdeko®)

    • Indicado para variantes específicas.

    • Posologia conforme genótipo aprovado.

  • Ivacaftor (Kalydeco®)

    • 150 mg VO a cada 12 horas.

    • Administração junto às refeições com gordura.

Reposição de enzimas pancreáticas

  • Pancrelipase (Creon®) cápsulas gastrorresistentes

    • Dose baseada na lipase:

      • 500–2.500 unidades de lipase/kg/refeição.

      • Metade da dose nos lanches.

      • Dose máxima:

        • 10.000 unidades/kg/dia

        • ou 2.500 unidades/kg/refeição.

    • Administrar imediatamente antes ou durante as refeições.

Suplementação vitamínica

  • Indica-se suplementação das vitaminas lipossolúveis quando houver insuficiência pancreática.

    • Vitamina A

    • Vitamina D

    • Vitamina E

    • Vitamina K

  • As doses devem ser individualizadas conforme níveis séricos.

Antibióticos inalados

  • Tobramicina (TOBI®) solução para nebulização 300 mg/5 mL

    • Colonização crônica por Pseudomonas aeruginosa:

      • 300 mg por nebulização a cada 12 horas.

      • Ciclos de 28 dias de tratamento alternados com 28 dias sem uso.

    • Monitorar:

      • Função renal

      • Audição

      • Resistência bacteriana

  • Colistimetato de sódio (Colistina®) solução para nebulização [1]

    • Alternativa para colonização crônica.

    • Posologia individualizada conforme protocolo do centro especializado.

Mucolíticos

  • Dornase alfa (Pulmozyme®) solução inalável 2,5 mg/2,5 mL [1]

    • 2,5 mg por nebulização uma vez ao dia.

    • Pode ser utilizada duas vezes ao dia em casos selecionados.

  • Solução salina hipertônica 7% solução para nebulização [1]

    • 4 mL por nebulização 2 vezes ao dia.

    • Recomenda-se broncodilatador antes da inalação em pacientes com broncoespasmo.

Broncodilatadores

  • Podem ser utilizados quando:

    • Asma associada

    • Hiperresponsividade brônquica

    • Antes da solução salina hipertônica

  • Exemplos:

    • Salbutamol (Aerolin®)

    • Fenoterol (Berotec®)

Fisioterapia respiratória

  • Fundamental em todas as fases da doença.

  • Inclui:

    • Drenagem autógena

    • Pressão expiratória positiva (PEP)

    • Oscilação de alta frequência

    • Exercícios respiratórios

    • Exercício físico regular

Nutrição

Objetivos:

  • IMC ≥22 kg/m² nas mulheres

  • IMC ≥23 kg/m² nos homens

Recomenda-se:

  • Dieta hipercalórica

  • Alto teor proteico

  • Adequada ingestão lipídica

  • Correção de deficiências nutricionais

Tratamento das exacerbações pulmonares

Baseado em:

  • Cultura do escarro

  • Gravidade clínica

  • Colonização prévia

Podem ser necessários:

  • Antibióticos intravenosos

  • Internação hospitalar

  • Intensificação da fisioterapia respiratória

  • Oxigenoterapia quando indicada

Acompanhamento

  • Recomenda-se seguimento em centro especializado.

  • Monitorização periódica:

    • Espirometria

    • Cultura do escarro

    • Estado nutricional

    • Função hepática

    • Diabetes relacionado à FC

    • Saúde óssea

    • Adesão ao tratamento

Critérios de encaminhamento

Encaminhamento ao pneumologista ou centro de referência quando houver:

  • Suspeita diagnóstica

  • Bronquiectasias inexplicadas

  • Colonização por Pseudomonas aeruginosa

  • Teste do suor alterado

  • Necessidade de moduladores da CFTR

  • Exacerbações frequentes

  • Indicação de transplante pulmonar

  • Planejamento gestacional

Prognóstico

O prognóstico melhorou significativamente com o tratamento multidisciplinar e os moduladores de CFTR. Atualmente, muitos pacientes atingem idade adulta com boa qualidade de vida, embora permaneçam sob risco de doença pulmonar progressiva, insuficiência respiratória, diabetes relacionado à fibrose cística e complicações hepáticas.

Referências

[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Fibrose Cística. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude.

[2] BRASIL. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC). Elexacaftor/Tezacaftor/Ivacaftor para tratamento da fibrose cística. Brasília, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/conitec.

[3] SOCIEDADE BRASILEIRA DE PNEUMOLOGIA E TISIOLOGIA (SBPT). Diretrizes Brasileiras de Diagnóstico e Tratamento da Fibrose Cística. Jornal Brasileiro de Pneumologia, 2017. Disponível em: https://sbpt.org.br ou https://www.jornaldepneumologia.com.br/details-supp/112.

[4] SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP). Departamento Científico de Pneumologia. Manual de Fibrose Cística. 2023. Rio de Janeiro: SBP. Disponível em: https://www.sbp.com.br.

Autoria e Curadoria

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